quarta-feira, 11 de abril de 2018

Dicionário aleatório #7








Futuro

Lidamos bem com o que desconhecemos de nosso passado. Quase preferimos esquecer o que sabemos dele. Cheios de alegria negligente e alívio, deixamos que partes cada vez maiores do que foi tombem no olvido. A memória é cansativa. Exige determinação férrea, documentos, arquivos e frequentação do passado. Tal teimosia só se mantém pelo mais profundo ressentimento e melancolia. Menos custoso é apegar-se à leve espuma que ficou dos dias pretéritos: uma tarde bonita, um passeio, um brinquedo, um dar-se as mãos. Uma ignorância suave e benévola. O opiáceo da alma.

Lidamos bem com o nosso desconhecimento de tudo o que nos cerca no presente. Quem poderia, afinal, dar conta do mundo? Por que deveríamos ser oniscientes? O presente não exige mais do que estarmos aqui e acolá, lançados ao mundo.  No presente, basta que cuidemos de nosso jardim e que nos seja permitido dar uma espiadela ocasional no jardim alheio. Inveja e desprezo são pecadilhos perdoáveis e querer um pouco de conforto e diversão não é pedir demais. 

O futuro, porém, é a nossa ignorância mais dolorosa. Estamos condenados ao desconhecimento das condições do amanhã e das consequências vindouras de nossas ações. O futuro é um caos de possibilidades, ao qual procuramos dar forma pelo esforço presente de transformar o mundo numa certa direção. Todavia, o engajamento – por mais que se queira iluminado pelo conhecimento das condições presentes ou pela memória rigorosa das condições passadas - nunca é independente das nossas expectativas, nutridas pelo medo ou pela esperança. Para esconjurar a obscuridade do futuro, carregada do fardo de nossos temores e aspirações, a imaginação invoca as rezas, os palpites, as conjeturas, as hipóteses, as profecias, as previsões do tempo, os pareceres dos experts, os modelos matemáticos, as teorias sobre o sentido da História: toda a gama de racionalizações do que não poder ser legitimamente conhecido. 

Todas essas ciências ignorantes são mais atraentes do que a ignorância douta. É que a ignorância com foro de saber é altiva, loquaz e se presta ao comércio de opiniões, que é uma das delícias da vida social, ao passo que a douta ignorância padece de laconismo e de incerteza. Para escapar à tolice e à impostura congeniais às ciências ignorantes, seria preciso aderir a uma profilaxia muito mais profunda e muito mais enérgica do que as providências simples para não dizer bobagem. Seria preciso ir mais longe e extirpar o medo e a esperança. Seria preciso levar a sério Sêneca e Spinoza. Mas quem quer levantar a cabeça do travesseiro? 










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