quarta-feira, 22 de março de 2017

A claraboia e o holofote #31 (III)







Razões para lembrar de 1917


Quando nasci, o espectro do comunismo parecia mais espectral. Para espantar o fantasma não bastava a água benta das carolas de Santana. Invocavam-se o estado de exceção e o porrete dos homens das casernas, seguidos pela usual tropa de amanuenses e torturadores com alicate. O Marechal Costa e Silva acabava de assumir a Presidência do Brasil.

No mundo em que nasci, completavam-se os trinta anos da vitória dos falangistas sobre os republicanos espanhóis. Franco e Salazar ainda estavam vivos. Angola e Moçambique eram colônias portuguesas. As tropas americanas faziam incursões do tipo search and destroy no Vietnam. Che Guevara estava enfronhado nas matas da Bolívia. A secessão na Nigéria dava origem à efêmera e trágica república de Biafra. Nos Estados Unidos, havia protestos pela paz nas universidades. No verão, hippies de todo o país punham flores nos cabelos para se reunirem em Haight-Ashbury. A Igreja Católica, ainda hegemônica na América Latina, abria-se para a renovação pastoral e doutrinal com o concílio Vaticano II. Na União Soviética, o Presidium Supremo se preparava para a grande comemoração dos cinquenta anos da Revolução.

Vinte depois, eu estava na universidade. O Brasil tropeçava nos seus esforços de redemocratização. Uma assembleia constituinte havia sido eleita, mas a economia vivia às custas de planos que prometiam, sem sucesso, debelar a inflação e instaurar condições para o crescimento. Ronald Reagan e Margaret Tatcher, há muitos anos no poder, eram os porta-vozes do mundo livre e do Estado mínimo. A aliança entre conservadorismo e neoliberalismo que se tornaria o credo (quia absurdum est) de uma geração estava a nascer naquele ano em que a Revolução Russa era uma anciã de setenta anos tão inócua quanto a múmia de Lenin.  Era uma estranha época aquela em que a palavra “libertário”, antes reservada à esquerda radical, passou a ser usada por yuppies (um tipo ascendente da época), que liam a Arte da Guerra em edições de bolso, admiravam Reagan, declaravam que não havia mais esquerda e direita, que não havia mal em ficar rico às custas dos loosers e que Marx estava morto

Certamente aquele Marx que falava da história e do proletariado como sujeito  revolucionário estava realmente morto. Para minha geração, Raymond Aron, que tinha morrido há quatro anos, já não era o antipático desmancha-prazeres gaullista que implicava com Sartre, talvez invejoso da fama e da eloquência do antigo colega normalien. Muitas das objeções que Aron levantara na década de 50, antes mesmo da intervenção soviética na Hungria e das revelações do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, muitos dos argumentos contra as ilusões alimentadas pela esquerda da Rive Gauche a respeito da História, do Progresso, da Revolução e do Proletariado começaram a fazer parte do senso comum naquele momento em que a crise da sociedade do trabalho deixava de ser uma especulação de cientistas sociais e ganhava contornos nítidos até mesmo nos países em desenvolvimento. Nesse ambiente de capitalismo tardio e de promessas de modernização incompletas, a versão militante-comunista do marximo parecia apenas uma fé religiosa messiânica que repugnava o niilismo bem-pensante. Em 1987 era fácil zombar das esperanças emancipatórias da contracultura dos anos 60: daquelas moças e rapazes que carregaram cartazes pelo fim dos bombardeios no Vietnam, que dançaram ao som de Jefferson Airplane em San Francisco, que pegaram em armas contra o regime militar brasileiro, que saíram de Vincennes e Nanterre para fazer barricadas no Quartier Latin.  

A maior parte das pessoas que leem minhas palavras nem havia nascido em 87, portanto, elas não sabem que o tom cinzento e desiludido da época era dado por obras e autores como o Pós-Moderno, de Lyotard, que declarava ultrapassados os grandes relatos (o Progresso, a Revolução, a Emancipação etc.); pela Cultura do Narcisismo ou o Mínimo Eu, de Christoph Lasch, que combatia a sociedade de consumo autoindulgente com uma leitura conservadora e neofreudiana do fetichismo da mercadoria; pela interminável ladainha de Cioran – o niilista poseur - sobre a nulidade do universo; pela defesa do cinismo filosófico nos escritos de Peter Sloterdijk; pela pregação apocalíptica de Paul Virilio e Jean Baudrillard sobre um mundo em que a velocidade, o simulacro e o virtual haviam substituído a duração, a substancialidade e a realidade e em que a política havia sido convertida em espetáculo para as maiorias silenciosas. O maior sinal da anemia em que então se encontrava o marxismo foi o sucesso que  a  editora Companhia das Letras, recém-fundada, granjeou com a publicação de obras como Tudo o que é sólido desmancha no ar, de Marshall Berman (uma dose de marxismo superficial desses que se lê em xérox da faculdade e três doses de Emerson e Thoureau) ou Rumo à Estação Finlândia, divertido livro de fofocas que, à falta de leitura mais séria, tem servido para educação “marxista” das novas gerações.

Naquele ano, não me lembro das notícias sobre as comemorações dos setenta anos da Revolução. A União Soviética de Gorbatchev estava imersa no período convulso da Perestroika e mal havia se recuperado do desastre com a usina nuclear de Chernobyl no ano anterior.  O mundo da cortina de ferro, o mundo de Erich Honecker, do General Jaruselski, de Nicolai Ceausescu e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas logo se desintegraria com uma rapidez inacreditável e quase cômica entre novembro de 1989 e agosto de 1991.

Agora estamos no centenário da Revolução.  A título de piada doméstica, meu filho pregou na parede do quarto um pôster de Lenin que um amigo comprou na Hungria. Para mim, a piada tem um travo amargo, porque eu consigo entender as esperanças que a revolução mobilizou e compreendo a decepção posterior, da qual Rosa Luxemburg foi a primeira porta-voz.  Por isso, meu propósito nos capítulos seguintes não é contar a (praticamente esquecida) história da Revolução Russa, mas escolher, guiado pelas minhas próprias angústias de homem de esquerda, alguns momentos do processo, tais como foram narrados por participantes como Trotsky, Sukhanov, Kerensky, Victor Serge ou por historiadores como Chamberlain, Richard  Pipes ou Orlando Figes. Certamente minha leitura terá algo de anacrônico, porque o que me leva a vasculhar esses arquivos empoeirados são  questões como: o que está vivo e o que está morto no legado de Marx depois do colapso das aspirações revolucionárias e das promessas de emancipação da classe operária?  Ou, o que a esquerda, hoje à deriva, pode aprender com a agitação de fevereiro a novembro de 1917


Voltemos, então, àquela insurreição do final de fevereiro que pegou de surpresa os Romanov e os bolcheviques.

Incipit tragoedia. 










terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (II)









Razões para lembrar de 1917





Em junho de 1967, a capa do álbum Sargent Pepper’s Lonely Heart Club Band trazia, no meio de gente moderna e ousada como James Joyce ou Marlon Brando, o rosto de Karl Marx. Em outubro, Ernesto “Che” Guevara foi morto nas matas da Bolívia e se tornou símbolo e mártir da luta revolucionária para militantes de todo o mundo. Em novembro, celebrou-se o cinquentenário da Revolução Russa. 


No discurso  aos camaradas e aos veteranos de 17, o premiê Leonid Brezhnev declarou que o partido leninista e o povo soviético sempre tinham sido leais aos princípios do internacionalismo proletário e que a terra dos sovietes continuava a ser um bastião de todas as forças que lutavam pela paz, pela liberdade e pelo progresso. As cinco décadas passadas desde 1917 tinham testemunhado, dizia Brezhnev, o esforço titânico de um povo que sacudiu para sempre o jugo da exploração, da pobreza e da ignorância e que, confiantemente, avançava para o futuro comunista. 


Não é preciso acreditar em Brezhnev, mas seria tolice duvidar do apelo emocional e político que certas expressões tinham em 1967: lutar pela paz, pela liberdade e pelo progresso; sacudir para sempre o jugo da exploração, da pobreza e da ignorância; avançar para o comunismo futuro.


Não que os intelectuais e estudantes desconhecessem as brutalidades do socialismo real. Nenhum militante esquerdista podia, em 1967, alegar ignorância a respeito dos nefandos processos de Moscou e da mortandade causada pela coletivização forçada ocorridos trinta anos antes. O esmagamento do levante húngaro ainda não tinha completado dez anos e, em breve, os tanques soviéticos seriam vistos nas ruas de Praga. A decepção com o stalinismo e com a suposta “degeneração” burocrática da União Soviética levaria muitos estudantes e intelectuais a apoiarem a China ou a depositarem suas esperanças em Cuba. Contudo, da mesma maneira que já tinham acreditado em Tito ou em Enver Hoxha, eles ainda iriam acreditar em Ceausescu ou em Pol Pot, antes de perceberem que se enganaram mais uma vez a respeito do canto de galo que anunciaria a aurora da Humanidade. 


Compreender a história dessa decepção permanente no plano político é, a meu ver, parte integrante do esforço teórico da esquerda para renovar as armas da crítica e manter de pé a bandeira da emancipação do gênero humano. Se o fiasco do socialismo realmente existente é, para a direita liberal-conservadora, o argumento decisivo contra o projeto emancipador, é desse fiasco que a esquerda deveria partir e é pela Revolução Russa que devemos começar.


(continua)





foto: "Glasnost", obra de Dmitri Prigov, 1989






quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (I)








Razões para lembrar de 1917




Em 1997, quando a Revolução Russa completou oitenta anos, a União Soviética já tinha desmoronado. Os partidos de esquerda no Ocidente e nos países emergentes tinham abdicado da luta revolucionária e tentavam conciliar as políticas de bem-estar social com o incentivo ao livre fluxo de capital. No campo liberal-conservador, dizia-se que “esquerda” e “direita” eram noções ultrapassadas e que a história tinha chegado ao fim; no campo oposto, os radicais denunciavam o "pensamento único" e o "Consenso de Washington", os moderados exaltavam a “terceira via” do novo partido trabalhista britânico, enquanto os militantes jovens eram seduzidos pela agenda ecológica. O verde parecia ser o novo vermelho. 

Naquele ano, um grupo de historiadores franceses publicou o Livro Negro do Comunismo, um calhamaço que pretendia ser o levantamento definitivo dos crimes cometidos pelos regimes comunistas no século XX. O empreendimento era polêmico. Participantes do projeto vieram a público denunciar a obstinação dos organizadores em atingir, custe o que custasse, o número de cem milhões de vítimas, quando, em verdade, a cifra seria de sessenta milhões... Do lado da esquerda, houve tentativas para poupar a figura de Lenin e não demorou para aparecesse um Livro Negro do Capitalismo. A verdade é que o fim do século XX (que Eric Hobsbawn julgava breve e Giovanni Arrighi considerava longo) incentivava esse tipo de contabilidade.

Essa obsessão com os males do comunismo vinha acompanhada da resolução de não permitir que o totalitarismo se reerguesse. Não que houvesse algum perigo iminente a exigir o empenho máximo dos heróis da liberdade. Era justamente a derrocada sem remissão do socialismo real (a China constituía um caso à parte) que alimentava a coragem de um número crescente de indivíduos, cada vez mais dispostos a verbalizar a sua hostilidade e seu horror ao comunismo. Essa bravura retrospectiva diante do leão morto foi marca frequente dos ex-comunistas que se convertiam ao neoconservadorismo. Vinte anos depois, a situação ganharia contornos ridículos: qualquer rapazola que lê duas páginas de von Mises ou concorda com um twitter de Olavo de Carvalho se acha um hércules capaz de dar um piparote nas ventas de Stalin.

Os regimes socialistas, que chegaram a dominar a maior parte da Eurásia, com ramificações no Caribe e na África, regimes marcados pelos congressos do partido único, pela planificação ineficiente, pela burocracia kafkiana, pelos desfiles megalomaníacos, pelo culto ao trabalho, pelos privilégios da nomenklatura, pelos campos de "reeducação" dos dissidentes, pelos ciclos de tensão e distensão em relação aos Estados Unidos e aos membros da OTAN, esses regimes determinaram a geopolítica e o xadrez diplomático do século. A emergência dos fascismos, o processo de emancipação das antigas colônias africanas e asiáticas, a ascensão dos nacionalismos árabes e o crescimento do arsenal nuclear vieram apenas complicar a situação que já se esboçava desde a intervenção ocidental na Guerra Civil dos vermelhos contra os brancos na Rússia. A complexa oposição entre Lenin e Wilson prefigurava as ligações telefônicas entre Kennedy e Khrushchev.

Desse ponto de vista, o sucesso de obras de revisão histórica como o Livro Negro do Comunismo  e o Passado de uma Ilusão, de François Furet,  justificava-se pela importância inegável do objeto, mas evidenciava também uma certa pressa em declarar perempta não apenas a história do comunismo, mas a de toda a esquerda. Como se sabe, a previsão não se realizou.


Neste momento em que a Revolução Russa faz cem anos, o confronto entre visões de mundo (ou ideologias) se tornou mais agudo e não autoriza os discursos triunfalistas de duas décadas atrás. Em vários países, líderes conservadores declararam guerra tanto à globalização neoliberal quanto ao multiculturalismo da esquerda. Essas lideranças são persistentes e muito combativas. Sua mensagem é tosca e seus argumentos não resistem à análise lógica ou à verificação objetiva, mas esses líderes se mostram capazes de expressar o desconforto e a insegurança vividas pelos segmentos da sociedade que ficaram às margens dos benefícios da globalização ou daqueles que sentem seus valores identitários (outrora hegemônicos e “normais”) ameaçados pela complacência da esquerda com os comportamentos transgressivos e com as demandas de reconhecimento das minorias militantes. Ao mostrar sob uma mesma luz  o sofrimento dos trabalhadores precarizados e a insegurança existencial da pequena burguesia e ao propor uma saída, esses líderes conservadores ditos "populistas" repetem uma proeza política que, outrora, era praticada pelas esquerdas militantes.

A Revolução Russa nos lembra desse momento em que a massa de trabalhadores, camponeses e pequeno-burgueses se via representada pelos partidos de esquerda. Lembra-nos também do poder transformador de um grupo relativamente pequeno de líderes persistente e combativos, capazes de falar em nome das demandas de uma vasta maioria de insatisfeitos e sofredores. Por isso mesmo, estudar com atenção o movimento revolucionário que se estendeu de fevereiro a outubro de 1917 é, no mínimo, um dever de bom-senso seja para as lideranças empenhadas à direita e à esquerda, seja para aqueles que pretendam resistir ao empenho e às mentiras dessas lideranças.


(continua)




foto: "A Ceia", obra de Andrei Filippov, 1989









terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Aviso aos navegantes: 1917 - 2017









 “The lone and level sands stretch far away”
Percy Shelley, Ozymandias


O Sobrinho de Enesidemo que, desde 2013, vem acompanhando as vicissitudes da leitura do Manifesto Comunista, vai dedicar-se à Revolução Russa: o trauma original que não cessa de ser exorcizado como perigo, brandido como ameaça e desprezado como fiasco e traição. É nessa carne inflamada e dolorida que vamos tocar agora. São as chagas de um tempo que ainda é o nosso, por mais forte que seja o atual esforço de restaurar o Ancien RégimeEt pour cause, murmura o demônio dialético, pois os anões, que outrora ficavam de pé nos ombros dos gigantes, gostosamente assentam as nádegas sobre os derribados colossos de Lenin e, dessas mesmas ruínas, extraem sua prerrogativa de proclamar diktats e catecismos tão elementares quanto os piores “ABC do Comunismo” e não mais verificáveis que as influências sutis dos planetas. Parece que Clio, sempre esquiva, gosta de desviá-los da lição de Ozymandias, da qual o Sobrinho de Enesidemo jamais se esquece.

Discretos leitores, bem-vindos ao Centenário da Revolução Russa.
















quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Rue du Marché aux Herbes, 16 janvier 2017






















O les siècles et les siècles sur cette ville, 
Grande de son passé
Sans cesse ardent - et traversé, 
Comme à cette heure, de fantômes !
O les siècles et les siècles sur elle, 
Avec leur vie immense et criminelle
Battant - depuis quels temps ? -
Chaque demeure et chaque pierre
De désirs fous ou de colères carnassières !

Émile Verhaeren, L’âme de la ville, 1895





*****


O Sobrinho de Enesidemo 
está de volta.










quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Madrid, Gran Via, 21 de enero de 2015



















No es tracta de textos on ja hi ha hagut

una intenció poètica; m'interessen textos

neutres, functionals, que jo puc convertir

en poètics pel fet d'haver-los triats.


Joan Brossa








O Sobrinho de Enesidemo

volta em fevereiro.






















sábado, 7 de janeiro de 2017

En medio de la plaza y sobre tosca piedra #9










Portbou



 
1.       O poeta sevilhano

No final de 1938, a Catalunha e a cidade de Madrid ainda se mantinham leais à República e resistiam a Franco. Todavia, com a vitória das tropas do general Juan Yagüe Blanco na batalha do Ebro, Barcelona passou a ser diretamente ameaçada. Entre 22 e 23 de janeiro de 1939, milhares de republicanos seguiram rumo à França, detendo-se em Portbou, última cidade espanhola antes da fronteira, à espera da autorização do governo francês. Ao amanhecer de 26 de janeiro, o exército franquista entrou em Barcelona. Na noite de 27 para 28, a França abriu suas fronteiras para receber os refugiados, entre os quais Antonio Machado, que se estabeleceu em Collioure, não muito longe de Portbou. Foi lá que ele morreu algumas semanas depois, no 22 de fevereiro. No mês seguinte, as tropas de Franco conquistaram Madrid.

De mar a mar entre los dos la guerra
más honda que la mar. En mi parterre,
miro a la mar que el horizonte cierra.
Tú, asomada, Guiomar, a un finisterre,

miras hacia otro mar, la mar de España
que Camoens cantara, tenebrosa.
Acaso a ti mi ausencia te acompanha.
A mi me duele tu recuerdo, diosa.

La guerra dio al amor el tajo fuerte.
Y es la total angustia de la muerte,
Con la sombra infecunda de tu llama

y la soñada miel de amor tardio,
y la flor imposible de la rama
que ha sentido del hacha el corte frio.

Estos dias azules y este sol de la infancia.

(Antonio Machado, "Recordando a Guiomar" in Antología Poética, Editorial Edaf, Madrid, 1990)




2.       O crítico berlinense

O incêndio do Reichstag, em fevereiro de 1933, dissipou qualquer dúvida sobre as intenções do novo chanceler alemão e de seu partido. Walter Benjamin, então com quarenta anos de idade, sem uma fonte estável de sustento e reconhecido apenas por uns poucos intelectuais de escol (que se encontravam em posição igualmente precária), decidiu mudar-se para a capital francesa e dedicar-se a uma obra monumental sobre a Paris  do século XIX. 

A situação política na França era bastante tensa. A extrema-direita havia rosnado e arreganhado os caninos na batalha campal na Place de la Concorde em 6 de fevereiro de 1934. A vitória do Front Populaire, coalizão de esquerda encabeçada pelo socialista judeu Léon Blum, atiçou ainda mais a sanha da Action Française e de um enxame de grupelhos fascistas. O governo de esquerda, apesar das suas conquistas trabalhistas, não foi capaz de debelar a crise econômica e terminou em 1938. 

Nessa altura, as pretensões imperiais da Alemanha já eram motivo de preocupação para os líderes europeus. No acordo de Munique de setembro de 38, Neville Chamberlain e Édouard Daladier tentaram evitar a guerra inevitável, atirando tchecos e eslovacos às mandíbulas do monstro germânico, com a mesma desfaçatez - disfarçada de Realpolitik - com que se decidiam as partilhas da África e do Oriente Médio. O golpe final, que desfez as esperanças de pôr um termo ao avanço do Reich, veio com o pacto de não agressão entre Hitler e Stálin, assinado em 23 de agosto de 1939.

Sob o impacto da notícia, Benjamin redigiu, no começo de 1940, suas Teses sobre o Conceito de História, nas quais ele exigia um materialismo histórico colocado sob a égide da teologia em lugar do historicismo burguês que contaminava os militantes da esquerda:

"Neste momento, em que os políticos nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem por terra e agravam sua derrota com a traição à sua própria causa, temos que arrancar a política das malhas do mundo profano, em que ela havia sido enredada por aqueles traidores. Nosso ponto de partida é a ideia de que a obtusa fé desses políticos no progresso, sua confiança no 'apoio das massas' e,  finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável são três aspectos da mesma realidade. Estas reflexões tentam mostrar como é alto o preço que nossos hábitos mentais têm de pagar quando nos associamos a uma concepção de história que recusa toda cumplicidade com aquela à qual continuam aderindo esses políticos".
(Walter Benjamin, “Sobre o Conceito de História”, Tese 10 in Obras Escolhidas volume I, Brasiliense, São Paulo, 1994)

Com o avanço da Wehrmacht sobre Paris em junho de 1940, Benjamin fugiu para o sul da França. Os lances finais são relatados pelo seu amigo Gershom Scholem:

"A despeito da impressionante paciência que ele demonstrou nos anos que se seguiram a 1933, combinado com um alto grau de tenacidade, Walter Benjamin não foi forte o suficiente para os eventos de 1940. Até setembro, ele mencionou em várias ocasiões a Hannah Arendt sua intenção de cometer suicídio. A única informação autêntica sobre os eventos ligados à sua morte se encontra num relatório minucioso escrito em 11 de outubro de 1940 pela Sra. Gurland, que atravessou a fronteira com ele, dirigido a Arkadi Gurland, membro do Instituto de Horkheimer. Eu recebi de Adorno uma cópia dessa carta em 1941. Da carta da sra. Gurland de 11 de outubro de 1940:
... Nesse meio tempo, você deve ter ouvido a respeito da nossa terrível experiência com Benjamin. Ele, José e eu deixamos Marselha juntos de modo a compartilharmos a viagem. Em Marselha, fiquei bastante amiga dele e ele me achou uma companheira de viagem conveniente. Na estrada através dos Pirineus, nós encontramos a Birmann, sua irmã a senhora Lipmann  e a mulher do Diário. Para todos nós, aquelas 12 horas foram uma provação absolutamente terrível. A estrada  era desconhecida para nós; em alguns trechos tínhamos que ficar de quatro para escalar. Ao entardecer chegamos a Portbou e fomos para a delegacia de polícia para requerer o carimbo de entrada. Por uma hora, quatro mulheres e nós três nos sentamos diante dos oficiais chorando, implorando e nos desesperando enquanto mostrávamos nossos documentos perfeitamente em ordem. Estávamos todos sem nacionalidade e nos disseram que, alguns dias antes, havia sido decretado que era proibido para pessoas sem nacionalidade viajar pela Espanha. Eles nos permitiram passar a noite num hotel, por assim dizer sob vigia, e fomos apresentados a três policiais que deveriam nos escoltar para a fronteira francesa pela manhã. O único documento que eu tinha era o norte-americano; José e Benjamin teriam que ser enviados para um campo. Por isso, todos nós entramos nos quartos no mais profundo desespero. Às 7 da manhã a senhora Lipmann me chamou porque Benjamin tinha perguntado por mim. Ele me disse que tinha tomado grande quantidade de morfina às 10 h da noite anterior e eu deveria dizer que se tratava de uma doença; ele me deu uma carta endereçada para mim e para Adorno. Então ele perdeu a consciência. Eu chamei um médico, que diagnosticou uma apoplexia cerebral; quando eu pedi com urgência que Benjamin fosse levado a um hospital, isto é, para Figueras, o médico se recusou a assumir qualquer responsabilidade, uma vez que Benjamin estava quase moribundo. Passei então o dia com a polícia, o prefeito e o juiz, que examinaram todos os documentos e acharam a carta aos Dominicanos na Espanha. Eu tive que trazer o padre e rezamos juntos ajoelhados por uma hora. Eu passei um medo terrível por José e por mim até que a certidão de óbito fosse feita na manhã seguinte.
Como foi previamente combinado, os policiais chamaram as quatro mulheres na manhã da morte de Benjamin. José e eu fomos deixados no hotel porque eu tinha vindo com Benjamin. E lá estava eu sem um visto de entrada e sem ter feito um controle de alfândega. Este último aconteceu no hotel mais tarde. Você conhece a Birmann e pode imaginar nossa situação quando eu digo que, quando ela e as outras chegaram à fronteira lá no alto, elas se recusaram a prosseguir e disseram que concordavam em serem levadas para o campo de detenção de Figueras. Enquanto isso eu fui para a delegacia de polícia com um atestado do médico, e o delegado ficou muito impressionado com a doença de Benjamin. Assim as quatro mulheres obtiveram o carimbo. (Na verdade um bocado de dinheiro também mudou de mãos). Eu obtive meu carimbo no dia seguinte. Eu deixei todos os meus documentos e dinheiro com o juiz e lhe pedi que chamasse alguém do consulado americano em Barcelona, para quem a Birmann tinha telefonado. (O pessoal de lá se negou a fazer qualquer coisa por nós, apesar das muitas explicações). Eu comprei um túmulo por cinco anos, etc.  Na verdade, não consigo descrever a situação toda para você com mais exatidão do que isso. De qualquer modo, eu tive que destruir a carta destinada a Adorno e a mim, depois que a li. Em cinco linhas dizia que ele, Benjamin, não conseguiria ir adiante, que não via uma saída, e que ele (Adorno) deveria receber um relato feito por mim, assim como seu filho."
Eu fiquei sabendo da morte de Benjamin em 8 de novembro por uma breve carta de Hannah Arendt, datada de 21 de outubro de 1940, quando ela ainda estava no sul da França. Quando ela chegou a Portbou meses depois, ele procurou em vão pela sepultura de Benjamin. "Não era para ser encontrada; seu nome não está escrito em lugar nenhum". (...) Hannah Arendt descreveu o lugar: "O cemitério fica diante de uma pequena baía donde se avista diretamente o Mediterrâneo; está escavado na pedra em terraços; os caixões são empurrados também para dentro desses paredões de pedra.  É de longe um dos lugares mais fantásticos e mais belos que eu já vi em minha vida".
(Gershom Scholem, Walter Benjamin: The Story of a Friendship, Schocken Books, New York, 1988, pp. 224-6)

Outro amigo de Benjamin registrou o que significava a morte dele naquele momento da história do mundo: 


Sobre o suicídio do refugiado W.B.

Soube que você levantou a mão contra si mesmo
Antecipando assim o algoz.
Oito anos banido, vendo a ascensão do inimigo
Por fim acuado numa fronteira intransponível
Você transpôs a que pareceu transponível.

Reinos desmoronam. Chefes de bandos
Andam como estadistas. Já não enxergamos
Os povos sob os armamentos.

O futuro está em trevas, e as forças boas
São fracas. Tudo isso você viu
Ao destruir o corpo sofrido.

(Bertolt Brecht, Poemas 1913-1956, seleção e tradução de Paulo César Souza, Brasiliense, São Paulo, 1990)





3. Algumas palavras famosas de Benjamin  e o nosso kadish

“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.
(Walter Benjamin, “Sobre o Conceito de História”, Tese 9 in Obras Escolhidas volume I, Brasiliense, São Paulo, 1994)

É em Portbou que quisemos terminar a nossa viagem. Ludmila e eu estamos na encosta que Hannah Arendt disse ser um dos lugares mais fantástico e mais belos que havia visto. Nos anos 90, foi construído aqui, junto da entrada do cemitério, um monumento em homenagem a Walter Benjamin, de autoria do escultor israelense Dani Karavan. Daqui é possível ver a baía, o mar, a fronteira com a França e a pequena e sonolenta cidade de mil e trezentos habitantes que vive dos veranistas da Costa Brava e da romaria dos “benjaminianos”, o que justifica a existência de um restaurante chamado Passatges na praça diante da baía, onde também vimos um barquinho chamado Angelus Novus.

Ontem, 26 de janeiro de 2015, foi o triste aniversário da queda de Barcelona em 1939. Hoje, 27 de janeiro é o aniversário de 70 anos da libertação do campo de extermínio de Auschwitz. Não há muito o que celebrar, apenas cacos de história a recolher. A Europa vive à sombra do terrorismo e do avanço dos populistas de extrema-direita. Milhares de refugiados se aglomeram na ilha de Lampedusa e na fronteira turca, outras centenas morrem na travessia todos os dias. E eles são apenas a ponta visível e noticiosa da miséria do mundo. 

Os autômatos do mercado, que proclamam aos quatro ventos o valor do progresso e da liberdade suprema de oscilarem entre as duas únicas emoções que conhecem - o pavor diante da expectativa de prejuízo e a euforia das oportunidades de lucro -, esses autômatos é quem tomam as decisões cruciais aqui como em alhures, com a mesma mão pesada e a mesma desfaçatez - disfarçada de racionalidade econômica - com que as potências de outrora faziam partilhas do globo em nome de Deus, do fardo do homem branco ou do Lebensraum.  

É daqui, junto do Memorial a Walter Benjamin, que contemplamos a montanha de ruínas que se eleva até o céu, enquanto sopra o vento do progresso. É aqui que recitamos nosso kadish.  Para mim, a Espanha sempre me veio aos pedaços. Para Benjamin, era próprio o mundo que estava partido desde a criação.



















































"É uma tarefa mais árdua honrar a memória dos seres anônimos que das pessoas célebres. 
A construção histórica se consagra à memória dos que não têm nome".