sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Aviso a los navegantes








Descante del mio Cid



Durante muitos anos a Espanha me vinha aos pedaços, trazida pelo ar. Soava feito Granados, Rodrigo, De Falla ou um cante jondo dos gitanos de Cádiz. Num farrapo de sono, sonhei com Carlos V triunfante em Muhlberg. No Teatro Municipal, vi um balé de Antonio Gades. No apartamento, li com tristeza a derrota do Quijote diante do Cavaleiro da Branca Lua. No pátio do colégio, recitei um verso de Lorca. À noite, no Jornal Nacional, noticiaram a morte de Franco. Eu era menino e ainda não conhecia as majas nem El Dos de Mayo, mas, no aleph da memória, os fragmentos brilham sem se confundirem.

Então, já maduros, pisamos Ludmila e eu em terras de Espanha. Indo dos olivais de Andaluzia às neves dos Pirineus, pensávamos inverter o curso da Reconquista, porém, em verdade, apenas seguíamos o sulco profundo aberto pelo arado de Antonio Machado, de cujas Soledades roubei a epígrafe desta viagem:

En medio de la plaza y sobre tosca piedra,
el agua brota y brota. En el cercano huerto
eleva, tras el muro ceñido por la hiedra,
alto ciprés la mancha de su ramaje yerto.
La tarde está cayendo frente a los caserones
de la ancha plaza, em sueños. Relucen las vidreiras
con ecos mortecinos de sol. En los balcones
hay formas que parecen confusas calaveras.
La calma es infinita en la desierta plaza,
donde pasea el alma su traza de alma en pena.
El agua brota y brota en la marmórea taza,
En todo el aire en sombra no más que el agua suena.


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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Burgueses e filisteus: conclusão




  


Nossos donos temporais ainda não devassaram
o claro estoque de manhãs
que cada um traz no sangue, no vento.
Carlos Drummond de Andrade, Contemplação no banco



Seis meses se passaram desde os sucessos iniciais que me trouxeram aqui. A crise econômica não foi debelada. Os governos estaduais não conseguem pagar os funcionários públicos. A insatisfação cresce e não encontra nos partidos figuras que mereçam confiança e respeito. Não há liderança, nem carisma, nem exemplo inspirador entre os profissionais da vida política. Sobretudo, não há projetos, além das variações já conhecidas do desenvolvimentismo e do neoliberalismo. A Operação Lava-Jato prossegue sua atividade inquisitorial e ganha os contornos de um quarto poder em vias de ser institucionalizado com a aprovação das 10 medidas contra a corrupção propostas pelo Ministério Público. Todavia, a caçada aos que prevaricaram começa a acumular danos colaterais: o enfraquecimento das garantias legais de defesa, a erosão da credibilidade parlamentar, a suspeita lançada sobre a atividade política, a exposição das fraquezas demasiado humanas dos magistrados do Supremo Tribunal Federal, a incerteza quanto ao futuro das grandes empreiteiras investigadas, que estão entre as empresas mais poderosas do Brasil. Quando vai terminar a Operação Lava-Jato? Qual é a sua meta final? Prender o ex-presidente Lula? Derrubar o presidente Temer? Varrer todos os corruptos? Recuperar os bilhões de dólares que foram desviados ao longo dos anos? Conquistar a Presidência da República para o PSDB em 2018? Alavancar a carreira política do próprio juiz Sérgio Moro, o nosso Harvey Dent?

Os gritos de “Fora Temer” entoados pela esquerda desde maio e ridicularizados pela direita como “mi mi mi” de maus perdedores começam a despertar adesões de direitistas impacientes com a ineficiência da equipe econômica que se anunciava miraculosa, com a demora na aprovação dos pacotes de austeridade e com as recorrentes suspeitas de corrupção que envolvem as ratazanas maiores da ninhada (ver nota 1). A possibilidade de a Câmara dos Deputados aprovar uma anistia aos financiamentos irregulares de campanha política parece ter ultrapassado os limites do decoro que mantinha a civilidade aparente. Para quem é de esquerda, não causa nenhuma surpresa que os deputados que votaram com tanta alegria pelo afastamento da presidenta Dilma invocando Deus, a Pátria, a Família e a Província de São Tacanho de Cuaçu – deputados que ainda ontem eram os heróis da direita paneleira -, não causa surpresa que esses mesmos deputados tentem agora se safar da cadeia e passem a ser vistos como “comunistas” por alguns grupelhos de direita que, devido ao léxico reduzido, não conhecem outra forma de xingamento.

No dia 16 de novembro, um desses grupelhos invadiu o plenário quase vazio da Câmara Federal. Davam vivas a Sérgio Moro, o nosso Harvey Dent, e pediam uma intervenção militar. Uma das manifestantes confundiu o círculo vermelho da bandeira do Japão com um símbolo comunista. Esse foi certamente o ápice da má politização que, à direita e à esquerda, produziu tantas tolices desde as passeatas de junho de 2013, tolices engrossadas pelo tom muitas vezes chulo e sempre raivoso adotado por vários jornalistas e intelectuais ansiosos de obter adesão e formar rebanhos de fieis, em conquistar corações e mentes, sobretudo os corações ressentidos e as mentes confusas (ver nota 2).

O resultado foi uma polarização emocional e irracional, um certo gosto de vomitar diante dos outros, que foi tornando impossível a conversa serena e argumentada sobre os tópicos da vida pública. Nessas ocasiões, os clichês, os conceitos-de-guerra, as palavras de ordem e os xingamentos são disparados com presteza para humilhar, calar, punir e esmagar o infame que tem opinião diferente à direita ou à esquerda. Essa degradação do debate público parece ser consequência da redução da esfera pública de opinião. Ao se transferir para o âmbito da internet, parecia que o debate se tornaria universal e livre. No entanto, a internet foi sofrendo os enclosures praticados por empresas privadas como o Google e o Facebook e as áreas de conversação adquiriram o caráter de bolhas ou guetos de opinião e compartilhamento de gostos. Trata-se de um falso espaço público, uma vez que as vozes discordantes não precisam ser ouvidas já que podem ser eliminadas com apenas um clic. No Facebook, cada um tem o direito de ser Stalin e expurgar os dissidentes. Essa facilidade de bloquear um “coxinha fascista” ou um “peteba comunista” tem um efeito tão gratificante quanto deseducador porque, ao contrário do que pensam alguns, o desiderato da vida política não está em tornar-se o próximo tirano, assim como não está em alcançar um meio-termo morno com os adversários para não perder a popularidade. Em tempos menos escuros, o objetivo da vida política deveria ser o mais digno de todos: a formulação rigorosa, consequente e argumentada das posições que defendemos e que lutamos para realizar em confronto com as visões de oponentes de igual clareza e firmeza de propósitos.

A intensidade da vida política não deveria vir do frenesi jacobino que clama por mais guilhotina para os inimigos; também não deveria vir do sentimentalismo ressentido da pequena burguesia (a classe social especializada em mi-mi-mi à direita e à esquerda). A vida política exige inteligência porque exige soluções. Essas soluções não são neutras. Elas sempre causam descontentamentos. É preciso ter argumentos racionais diante dos ataques que vêm dos insatisfeitos. É preciso ter firmeza, aquela que vem da lucidez de quem vê o quadro mais amplo e não aquela que se reduz à segurança estreita de quem repete mantras. O dogmatismo à esquerda e à direita está tão afastado da inteligência política quanto a real politik fisiológica e baixa das ratazanas de fatiota.

A inteligência política compreende que a sabedoria, o conhecimento e a racionalidade não são monopólio da esquerda ou da direita, mas as decisões sobre as pautas públicas necessariamente serão posições partidárias e, por isso, nunca corresponderão à idealidade do conhecimento e da racionalidade, da mesma maneira que nunca corresponderão perfeitamente aos valores morais. Aceitar a imperfeição e a incerteza inerente às escolhas políticas e, ao mesmo tempo, reconhecer que elas devem estar circunscritas ao âmbito da racionalidade, do conhecimento e da sabedoria, é a quadratura do círculo que é preciso resolver no âmbito de cada ação política. Aqui não há fórmulas gerais nem receitas prontas.

 A inteligência política é, portanto, uma real politik da razão treinada na lida com a vida concreta e esclarecida pela meditação sobre os grandes autores. Nenhum esquerdista deveria se privar da prosa vigorosa e da inteligência de Edmund Burke, das fulminações clarividentes de Joseph de Maistre, da argúcia analítica de Tocqueville, das conquistas teóricas da Escola de Viena, do brilho racional insuperável de Raymond Aron, das escrupulosas construções teóricas de filósofos como Voegelin e Eric Weil. Nenhum direitista deveria tapar os ouvidos ao canto de sereia retórico e argumentativo de Rousseau, nem deveria negar o rigor das análises de Marx ou o empenho revolucionário insuperável de Lenin, tampouco deveria desprezar as grandes formulações de Gramsci, Adorno e Marcuse sobre a sociedade contemporânea, ou as incomparáveis provocações de Sartre, ou a capacidade de Foucault de perturbar consensos estabelecidos. E ninguém, à direita ou à esquerda, deveria fugir da leitura de Tucídides, Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Spinoza ou Max Weber.

A inteligência política brilha à esquerda e à direita em todos esses grandes pensadores e em todos aqueles que nem cheguei a citar e que deveriam ser o pão cotidiano do pensamento de qualquer um que acredita que a vida política é uma arena em que é preciso intervir pela ação, pela opinião, pelo voto, mas antes de tudo, pela inteligência, pelo cultivo da capacidade argumentativa, pelo exercício da paciência de ouvir as opiniões opostas. Será exigir demais que os militantes estudem? Que não se apressem a seguir um mestre? Que não sejam leitores de um único livro? Que se esforcem para não dizer tolices?  Que não pensem que alguém é inteligente só porque se diz de esquerda ou de direita?  É preciso que os militantes à esquerda e à direita aprendam a desmascarar os farsantes, a desmentir os fariseus e a desmoralizar os filisteus dentro da sua própria família política.  É desesperadoramente necessário, dada a gravidade da situação social e política do Brasil, que aqueles que estão empenhados na mudança não façam o papel de pós-otários que acreditam em pós-verdades.


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Nota 1: As incertezas internas foram agravadas, como sempre, pelas notícias do exterior que “sacudiram os mercados internacionais”. É de se admirar essa capacidade sismográfica dos mercados. Que sensibilidade tão suscetível! Basta um boato, uma intriga, alguma “pós-verdade”, e toda a confiança dos agentes econômicos racionais desaba em insegurança e pânico. Quando tudo está bem, exalta-se a capacidade autorregulatória dos mercados; quando começam a surgir os problemas, os mercados acusam a meteorologia (demasiadas chuvas ou demasiadas secas), a vida política (demasiado corrupta e ineficiente), a democracia (demasiadas concessões demagógicas e populistas) e o Estado (demasiadamente intrometido no fluxo normal dos negócios); quando a situação se torna catastrófica, os mercados caem de joelhos diante de qualquer governante forte que prometa ordem.  Os mercados são máquinas de externalizar os fracassos e os prejuízos. Se o avião voa bem, o mérito é da empresa que o construiu; se o avião cai, a falha está no piloto e na turbulência imprevista.

Nota 2:  Antes que alguém confunda mais uma vez a bandeira do Japão com a dos comunistas ou, o que dá no mesmo, veja aí mais uma intervenção maligna do Foro de São Paulo, faço questão de explicar que a expressão “conquistar corações e mentes” não tem nada a ver com o conceito de hegemonia de Gramsci. A expressão se refere a uma estratégia adotada pelo norte-americanos no Vietnam do Sul. A frase “corações e mentes” foi bastante usada pelo Presidente Johnson e a ideia subjacente retrocede até, pelo menos, John Adams, um dos Founding Fathers e figura reverenciada pelos conservadores norte-americanos e, tanto quanto eu saiba, acima de qualquer suspeita de comunismo.

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foto: obra de Joseph Kosuth, Self-described and self-defined, Museu Berardo, Lisboa







segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Burgueses e filisteus: a Nova Direita (parte 3)






Resposta a duas questões

Pretendo responder às duas questões que formulei no último capítulo:
(a) a violenta polarização vivida desde 2014 pode ser comparada às guerras culturais norte-americanas?
(b) a Nova Direita é portadora de algum consenso semelhante ao velho fusionismo norte-americano?

1.

Para explicar as guerras culturais nos Estados Unidos, James Davison Hunter partiu da premissa de que o pertencimento a grupos religiosos fazia parte da identidade norte-americana até que a modernização cindiu esses grupos entre os que aceitavam o progresso e os que lhe resistiam. Com isso, a distância entre judeus, católicos, protestantes e ateus no campo liberal (no sentido norte-americano de esquerda progressista) se tornou bem menor do que a distância entre a liberais e conservadores no interior do judaísmo, do catolicismo e do protestantismo. 

Enquanto os conservadores apelam ao chão firme da religião e da moral contra o que lhes parece a leviandade com que os liberais aceitam as forças corruptoras do mundo, os liberais apontam as constantes mudanças históricas contra a ilusão de perenidade sustentada pelos conservadores. Para os conservadores, os liberais são cínicos e imorais; para os liberais, os conservadores são hipócritas e anacrônicos. 

Como em toda polêmica, existe aí um campo prévio de entendimento tácito. Conservadores e liberais discutem a mesma questão: a de determinar, dentre as múltiplas temporalidades em que estamos todos inseridos, qual é a fundamental para nossa existência. Temos que escolher entre reverência ou desdém pelo passado, entre memória ou esquecimento, entre agir agora ou esperar, entre restaurar o velho ou projetar o novo. Temos que escolher entre o tempo cumulativo da experiência e o tempo cíclico do cotidiano, entre o tempo curto das modas e o tempo longo dos costumes, entre o tempo veloz da política e o tempo lento das sociedades, entre o tempo efêmero das novidades e o tempo longuíssimo da cultura e da história, entre o tempo na escala das gerações humanas e o tempo na escala da evolução, da geologia ou da astronomia, entre viver para o instante ou viver para a eternidade. A maneira como essas temporalidades são avaliadas e ganham forma narrativa em nossa comunicação com os outros constituem o cerne de nossa vida moral e cultural. Nossas escolhas políticas são versões grosseiras, abreviadas e simplistas de certas filosofias da história e de certas metafísicas do tempo às quais damos adesão quase sempre inconsciente.  


2.

Nas guerras culturais norte-americanas, os contendores lutam para definir a identidade e o futuro da nação. Um debate de tal envergadura e intensidade pressupõe convicções a respeito dos fundamentos da vida nacional que não têm equivalentes na história do Brasil.

Os intérpretes clássicos do Brasil divergiram quanto aos fatores formadores da sociedade brasileira. Para a tradição marxista, representada por Caio Prado Jr., a colonização do Brasil assumiu, desde o início, o caráter de uma grande empresa comercial voltada para a exploração dos recursos naturais em proveito do mercado europeu. Para a tradição liberal weberiana, representada por Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, a herança portuguesa teria deixado um legado de displicência em relação às regras e de trato patrimonialista da coisa pública. Para Gilberto Freyre, treinado na antropologia cultural norte-americana, a relação entre senhores e escravos nos engenhos de açúcar do Nordeste definiu as formas de sociabilidade no Brasil, tanto no afeto e na dependência, quanto na violência e no arbítrio.

Os nossos intérpretes tampouco chegaram a um acordo sobre a posição do Brasil no mundo moderno. Para Caio Prado Jr., a colônia já estava inserida na modernidade mercantilista antes mesmo de a Europa se libertar dos entraves feudais. Para Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro, a sociedade brasileira, marcada pelas relações informais e pela obtenção de vantagens sem esforço, permaneceu pré-moderna. Para Gilberto Freyre, a experiência singular de mestiçagem na América lusitana não poderia ser reduzida às dinâmicas modernizadoras do mundo europeu e anglo-americano: o Brasil estaria fadado a seguir um caminho próprio e original.

Em que pesem as enormes diferenças entre nossos intérpretes, nenhum deles identificou no passado do Brasil uma matriz de ordem social legítima, mas apenas práticas de exploração, aversão ao esforço físico e intelectual, apadrinhamento, violência, arbitrio, promiscuidade e confusão entre a esfera pública e a vida privada. O resultado é a miríade lamentável de malandros, puxa-sacos, apaniguados, tolos, desleixados, oportunistas ingênuos ou sagazes, coitados, medalhões, cínicos, hipócritas, truculentos, inescrupulosos triunfantes, fazendeiros do ar, funcionários acovardados, casuístas e fracassados que povoam as obras dos grandes escritores brasileiros. Sobre essa massa amorfa, de expectativas cambiantes e destino incerto batem-se as ondas sucessivas de racionalização, burocratização e normatização impessoal, deixando como resíduo um certo discurso de feições modernas, que não causa cisões profundas - como ocorreram nos Estados Unidos - porque esse discurso nunca chega a tomar corpo nas práticas cotidianas, nem ameaça valores que, aliás, nunca vieram a ser realmente compartilhados em escala nacional.


3.

Essa modernidade superficial e de bom-tom é o pão servido diariamente pelos editoriais da grande imprensa. É um discurso todo feito de incompossíveis: é preciso austeridade e rigor fiscal, mas é importante não onerar as classes médias consumidoras nem as elites geradoras de riqueza; é urgente conceder benefícios aos  excluídos, mas é preciso acabar primeiro com a baderna dos que exigem direitos; é importante despertar a consciência política, mas é preciso criticar o ativismo desenfreado; a hora é de urgência e o momento é grave, mas é bom ser prudente e evitar precipitação; é necessário dar razão às demandas da esquerda e da direita, tomando o cuidado de nunca atendê-las. Esse discurso insosso é um véu  diáfano que mal encobre as verdadeiras relações da grande imprensa com o governo e com a sociedade. A empresa da família Frias, que edita a Folha de São Paulo com o sonho de fazer dela a versão brasílica do New York Times (a conhecida máquina de ganhar prêmios Pulitzer), também editava até 2001 o Notícias Populares, em que os mesmos jornalistas sérios da Folha se divertiam em desafiar a credulidade dos taxistas e das costureiras, inventando histórias estapafúrdias e divulgando fotos e fatos escabrosos da crônica policial das periferias. Enfim, all the news that’s fit to print. Enquanto isso, a família Civita, dona do grupo Abril, que publica a revista Veja, implora por verbas do governo federal para sustentar os articulistas que promovem campanhas contra o intervencionismo estatal. 

(Como se sabe, o imbroglio vem de longe. Quando Hayek visitou o Brasil em 1981, a sua palestra na Universidade de Brasília foi publicada pela Editora da UnB numa coleção subvencionada por verba federal no tempo em que o Brasil tinha uma das economias mais estatizadas do mundo. Mas, que importa? O dinheiro é uma grande rameira e o papel impresso aceita tudo, até neoliberalismo com subvenção do Estado). 

Esse jogo de morde-e-sopra, insuportável para os leitores mais críticos à direita ou à esquerda, tem uma contrapartida nas alianças inimagináveis às quais a classe política gostosamente se atira em nome da governabilidade, como foi, em meados da década de 1990, a aliança do PSDB (ainda posando de social-democrata) com o PFL (verdadeira retaguarda da vanguarda, ou vanguarda da retaguarda, dependendo de que lado se olha o jumento), ou as alianças mirabolantes construídas por Lula e Dilma, que terminaram por entregar a presidência a Michel Temer  e à tropa do trapo e da fatiota causídica que ora administra o país (a legião de filisteus redivivos que serviu de ponto de partida desta série).

4.

Não existe, portanto, uma clivagem equivalente às guerras culturais nos Estados Unidos. A polarização recente foi um fenômeno superficial atiçado pelo gritante insucesso da política econômica de Dilma Rousseff, que desnudou, para quem ainda não tinha percebido, os limites e contradições da experiência social-democrata: “Reindustrialização com oposição dos industriais, assalariamento precário com acesso à universidade, ampliação do crédito educacional com crescimento do ensino superior privado, walmartização do trabalho com internacionalismo dos sindicatos, agroecologia com agronegócios, autonomização dos mais pobres com passividade assistencialista, emancipação cultural com empreendedorismo, esperança de inclusão com rebaixamento de expectativas” (André Singer e Isabel Loureiro, As contradições do Lulismo, Boitempo, p. 13)

É fato inegável que o PT, cujos dirigentes estão, de um jeito ou de outro, lançados ao opróbrio, foi derrotado, mas a tese de uma vitória da direita nas eleições municipais de 2016 deve ser avaliada cum grano salis. A eleição de João Dória Jr. em São Paulo e de Marcelo Crivella no Rio de Janeiro não são sinais inequívocos de guinada direitista.

João Dória Jr. é um empresário bem-sucedido, envolvido com a esfera governamental desde 1983, quando foi secretário municipal de Turismo de Mário Covas e, logo depois, diretor da Embratur na presidência de José Sarney. Nunca deu sinal de qualquer preocupação ideológica. Alegou ser um homem distante da política (embora carregasse como vice o neto de Mário Covas) e se declarou opositor ferrenho do PT (como se espera do PSDB paulista). De resto, sua vitória parece mais um episódio da alternância entre centro-direita e centro-esquerda na prefeitura de São Paulo do que um fenômeno novo a exigir recursos divinatórios da ciência política. 

Quanto a Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, dificilmente se pode colocá-lo na conta de representante da Nova Direita. Ele foi candidato pelo Partido Republicano Brasileiro – atualmente identificado como partido da Igreja Universal - , mas que teve como um dos seus fundadores José Alencar, então vice-presidente de Lula; além disso, o próprio Crivella teve apoio de Lula para a disputa do governo do Estado do Rio de Janeiro em 2006, antes de ser ministro da Pesca do governo Dilma Rousseff durante dois anos.  Que tipo de direita é essa? E por que seria nova? Havia um nome, hoje esquecido, para essas transações políticas ao sabor das oportunidades. Os mais velhos se referiam a isso como "fisiologismo", que é exatamente o oposto de uma política que leva a sério opções ideológicas.

Houve, é verdade, a eleição de figuras oriundas do Movimento Brasil Livre, agremiação jovem bastante ativa durante as passeatas e mobilizações contra a corrupção e a favor do impeachment de Dilma Rousseff. No entanto, o MBL saiu chamuscado quando alguns de seus militantes menos inteligentes se deixaram fotografar em gostoso conluio com Eduardo Cunha, o corruptíssimo presidente da Câmara dos Deputados que logo seria lançado ao geena. A eleição de um prefeito e de vários vereadores associados ao Movimento permitirá verificar o quanto o discurso enérgico da militância de rua pode ser desmentido pelos prazeres fáceis dos conchavos de gabinete e das ofertas irrecusáveis. Tomara que os rapazes do MBL tenham mais sorte do que José Dirceu, que outrora foi jovem, fazia discursos inflamados e era tão insciente quanto Kim Kataguiri.

Portanto, a hipótese de que uma Nova Direita tenha surgido no campo político ainda carece de provas e evidências. A vida política instituída parece o ninho de ratos de sempre e nada indica que a sociedade brasileira tenha sido modificada por alguma revelação epifânica. A pasmaceira e a geleia geral multissecular não podem ser resolvidas pelas marchas da Família com Deus pela Liberdade, nem pelas jornadas de junho de 2013 nem pelos patos amarelos da Fiesp.  

5.

Que não seja ainda possível identificar alguma novidade política vinda do campo da direita não implica que não haja um movimento ativo de ideias e aspirações que se alinham com o conservadorismo e com o liberalismo econômico. A partir das minhas leituras e de muitas conversas com direitistas, acredito que o que tem sido chamado “Nova Direita” parece vir em três modelos à escolha do freguês:

Há uma versão bonitinha e limpinha do conservadorismo, que fala mal da intervenção do Estado na economia, mas aceita de bom grado a pauta social esquerdista: o direito ao aborto, o feminismo, a sustentabilidade ecológica, a luta contra o trabalho escravo, contra a homofobia, contra o racismo e admite até um certo assistencialismo para as famílias mais pobres, desde que seja feito como na época de Fernando Henrique Cardoso... Para a direita limpinha, a liberdade é um bem fundamental, mas é possível sacrificar parte dela, desde que se preserve as boas maneiras, o respeito à família e o acesso ao consumo de bens importados. Esse é o “conservadorismo” politicamente correto dos eleitores do PSDB. 

A segunda versão é cafona e brega. Anseia por uma vasta restauração social com ênfase na disciplina, na ordem, na dureza ascética, no esforço e na luta contra a permissividade contracultural que amolece os jovens até a medula e destrói o núcleo moral dos indivíduos. É isso que tem que ser recuperado acima de tudo, nem que seja preciso votar em Jair Bolsonaro, o miles gloriosus, e trazer de volta a bancada do alicate. Os direitistas cafonas parecem saídos de um conto de Dalton Trevisan: usam roupas surradas, têm caspa na sobrancelha e sentem que podem governar o mundo desde Curitiba. Por isso repetem para si mesmo os dizeres do príncipe da Dinamarca: I could be bounded in a nutshell and count myself a king of infinite space.

A terceira versão é tão chic e grã-fina que tem até "vida interior", exibida com o ar blasé e o ceticismo trágico de quem espera morrer durante a queda da casa de Usher. Na vida real, porém, a direita chic é bem prosaica: acredita no mérito, nos bons vinhos e nas frases de Nelson Rodrigues, salmodiadas pour épater les bourgeois nos jantares inteligentes em que esquerdistas ricos (amplamente favoráveis às ciclovias) e conservadores limpinhos (que exigem iniciativa privada na implantação de ciclovias)  riem dos coitados que torram o dinheiro do bolsa-família pagando as mensalidades do curso de filosofia do Olavo de Carvalho. Forte indício de que a luta de classes não cessa só porque alguns a consideram uma perigosa ideia comunista que perturba a harmonia que sempre existiu em nosso país.

6.

Além do respeito ao mérito individual e da aversão ao estatismo, não parece haver um consenso teórico entre os publicistas da Nova Direita. Nem mesmo parece haver alguma chance de acordo entre eles, agora que a causa que lhes servia de fundamento comum se esgotou ou está perto disso: o governo do PT foi derrubado, os folclóricos coxinhas estão comemorando os resultados eleitorais favoráveis e a ameaça de uma vitória da esquerda nas eleições presidenciais de 2018 pode ser prevenida pela adoção miraculosa do sistema parlamentarista, amparado pela mais transparente legalidade. Mas isso nos leva de volta à tropa do trapo, à fatiota dos causídicos, aos misangelistas in nomine domine e ao inconfundível odor de filistinismo.
(continua)


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Reinaldo Azevedo, Contra o Consenso, Editora Barracuda, São Paulo, 2005 | Olavo de Carvalho, O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, Record, Rio de Janeiro, 2013 | Rodrigo Constantino, Esquerda Caviar, Record, Rio de Janeiro, 2014 | Bruno Garschagen, Pare de Acreditar no Governo, Record, Rio de Janeiro, 2015 | James Davison Hunter, Culture Wars: the struggle to define America, Basic Books, 1991 | Luiz Felipe Pondé, Contra um mundo melhor, Leya, São Paulo, 2013 | André Singer e Isabel Loureiro (orgs.), As contradições do lulismo, Boitempo, São Paulo, 2016



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Burgueses e filisteus: a Nova Direita (parte 2)








Caminhando sobre espelhos partidos


 “O assombro com o fato de que os episódios 
que vivemos no século XX ‘ainda’ sejam possíveis, 
não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, 
a não ser o conhecimento de que a concepção de história 
da qual emana semelhante assombro é insustentável”
Walter Benjamin, Sobre o conceito de História, Tese 8




1.
Terminologias políticas são confusas e vagas. A longevidade e a latitude de certas denominações ocultam incoerências e descontinuidades. Essas denominações anêmicas, lábeis e equívocas, incapazes de resistir a um exame crítico, são escoradas por tribunos de retórica inflamada; são repetidas pela multidão, que as tomam como chaves de entendimento do mundo; são incorporadas à doxa de uma época na forma de idées reçues, clichês e chavões. Essas noções mal definidas que se cristalizam na sua própria vagueza, eu as denomino conceitos-de-guerra.

Na minha longa e ainda inconclusa série A Claraboia e o Holofote tenho me dedicado às vicissitudes do comunismo como teoria e como conceito-de-guerra desde o Manifesto de Marx e Engels. Justamente por isso não me surpreendeu que, na polarização recente, o velho conceito-de-guerra tenha sido mais uma vez posto em circulação por aqueles que acreditam  numa conspiração da esquerda para abolir a propriedade privada, cancelar as liberdades individuais e instituir um Estado totalitário no Brasil. Que o velho conceito-de-guerra tenha recebido alguma cor local na forma de bolivarianismo, chavismo ou venezuelização (outros tantos conceitos-de-guerra) não muda o essencial do que está em jogo do ponto de vista da Nova Direita: a identificação da esquerda brasileira, em especial o Partido dos Trabalhadores, com um projeto comunista (ou bolivarista) que deve ser interrompido, punido e exterminado em nome de um outro projeto, o da Nova Direita.

Tão vaga como o “comunismo” e o “bolivarismo” – noções escoradas por tribunos de habilidade desigual,  mas fortemente empenhados em berrar até ensurdecer os ouvintes -, a denominação “Nova Direita” merece ser tratada com igual cuidado. A esquerda tem mais a ganhar com um esforço sincero de compreensão do que com as autocríticas perfunctórias de sempre. Nós, esquerdistas de coração e de pensamento, erramos na avaliação das forças sociais e políticas que se levantaram em oposição ao lulopetismo. Acreditávamos que dessa vez éramos impelidos pela própria História; acreditávamos que a classe trabalhadora (o que quer que isso signifique hoje no Brasil) estava conosco; acreditávamos que o exercício prolongado do poder pela esquerda, sustentado por um crescimento econômico sem percalços, iria atender todas as demandas dos segmentos que sempre foram deixados à margem do banquete.

Erros análogos foram cometidos pela esquerda em situação incomparavelmente mais grave, com custos catastróficos. Nas décadas de 1920 e 1930, as esquerdas italianas e alemãs não estavam capacitadas para diagnosticar e entender o fenômeno do fascismo e do nacional-socialismo. A perseguição sofrida pelos socialistas e comunistas nesses dois países, a tomada do poder pelos falangistas na Espanha e o pacto germano-soviético foram traumas históricos que repercutiram nos meios esquedistas do Ocidente e da periferia.  “Fascismo” e “fascista” passaram a ser os insultos clássicos da esquerda contra todos os seus adversários intransigentes. O fascismo passou a ser o espectro que ronda a esquerda, tanto como o comunismo é o espectro que ronda a direita. 

Eis a razão pela qual a esquerda brasileira se deixou assombrar por alguns mortos-vivos do regime militar que saíram em passeata ao lado do deputado ferrabrás Jair Bolsonaro (filiado a uma agremiação curiosamente chamada Partido Progressista, prova cabal de que as terminologias políticas são frouxas). Diante dessa promíscua reunião da bancada do alicate, a esquerda viu o que está habituada a ver - uma ameaça fascista -, deixando escapar o fundamental, que era a nova configuração da Direita. É essa configuração que, nós  esquerdistas de coração e de pensamento, devemos nos esforçar por compreender. 


2.
Não pretendo me ocupar da formação dos movimentos que foram às ruas nos últimos anos, nem dos modos de organização e financiamento dos think tanks da Direita brasileira. O que me interessa são suas matrizes culturais e ideológicas, declaradamente inspiradas na complexa cultura conservadora norte-americana. 

O tradicional anti-americanismo da esquerda e a força das correntes europeias na formação intelectual brasileira tiveram como resultado uma perigosa ignorância a respeito de vários aspectos da vida política, social e cultural dos Estados Unidos. O custo dessa ignorância é uma avaliação limitada e errônea da Direita que se mostrou ao mundo desde a eleição de Ronald Reagan em 1980.

É claro que a esquerda brasileira nunca foi nem poderia ser indiferente aos rumos do império norte-americano, mas naqueles anos finais da ditadura militar no Brasil, estávamos muito ocupados em construir alternativas democráticas para eliminar o que chamávamos de “entulho autoritário”. De maneira ingênua, tendíamos a subestimar a figura do Presidente Reagan, que escarnecíamos como um ator medíocre dominado pela esposa, que tinha feito carreira brigando com os hippies e universitários da Califórnia no final dos anos 60. Nas análises de que dispúnhamos na época, apenas dois aspectos eram privilegiados: a política externa de Reagan em relação à América Latina, ao Oriente Médio e à União Soviética e a sua política econômica. Lembro-me da manhã de dezembro de 1982 em que ouvi falar pela primeira vez na supply side economics. Nesse aspecto, víamos em Reagan apenas um homólogo de Margareth Tatcher, que se tornara primeira-ministra do Reino Unido em 1979. Ambos atacavam o welfare state em crise aguda na década de 1970, quando o legado de Keynes passou a ser criticado publicamente pelos monetaristas de Chicago, à frente dos quais estava o famoso Milton Friedman, e pelos liberarians liderados pelo Friedrich Hayek, que esteve no Brasil algumas vezes, mas só era conhecido por aqueles que, como eu, liam a revista Visão, do empresário Henry Maksoud. (Sim, leitor, eu já me iniciava nos tortuosos caminhos do marxismo e até por isso dedicava parte de meu tempo ao estudo dos críticos de Marx.  Ainda me recordo da última visita do velho Hayek ao Brasil em 1981 e me diverto com os neófitos que acham que a escola austríaca é o dernier cri da economia).

Nos Estados Unidos do começo dos anos 1980, o que estava em jogo era muito mais do que uma investida neoliberal contra a seguridade social. A agenda dos conservadores era bem mais ampla e viria a ter consequências com as quais, nós esquerdistas, temos que lidar hoje no Brasil. 

Acredito que uma visão sinótica do conservadorismo que ganhou força a partir da Era Reagan deve levar em conta três processos: a guerra cultural entre progressistas e conservadores estudada por James Davison Hunter em Culture Wars: the struggle to define America (1991), a formação da coalizão conservadora examinada por George H. Nash em The Conservative Intellectual Movement in America since 1945 (1976) e o surgimento de uma cultura mediana promovida por mediadores que pretendiam elevar o nível cultural do público, tema analisado por Joan Shelley Rubin em The Making of the Middlebrow Culture (1992).


3.

Em Culture Wars, James Davison Hunter relata como o pertencimento a uma denominação religiosa definia a identidade dos norte-americanos até que, no começo do século XX, a industrialização, a imigração, o crescimento urbano, o surgimento de uma sociedade de massas, as lutas pelos direitos dos trabalhadores e das mulheres e os avanços dos meios de comunicação, enfim, os processo ligados à modernização afetaram profundamente o Protestantismo, o Catolicismo e o Judaísmo, que passaram por uma cisão interna e por um realinhamento. Em cada uma das denominações passou a existir dois grupos: de um lado, os que observavam com receio as mudanças e desejavam colocar um freio moral no processo; de outro lado, os que endossavam as novas demandas sociais e viam como necessária a integração dos novos segmentos numa democracia ampliada e robustecida.  Essa divisão entre conservadores e progressistas acabou se tornando um fator que definia a identidade dos norte-americanos e orientava suas posições políticas. 

Cada um dos grupos passou a ter as suas diretrizes, suas instituições, seus representantes políticos. Cada um dos grupos construiu o seu sistema moral com base em seus interesses, valores e pressuposições. Cada um dos grupos passou a ter seu modo de percepção da realidade e seus critérios de julgamento moral.  Tomando como exemplo o problema do direito ao aborto, Davison Hunter comenta: “Em consequência desse estranhamento recíproco, fazer concessões se tornou virtualmente impossível no que diz respeito a vários temas políticos (…) A realidade da vida política e das políticas públicas numa democracia consiste, por bem ou por mal, num compromisso nascido da discussão pública e do debate. Todavia essa discussão pareceria inpraticável quando a linguagem moral empregada pelos lados opostos é tão completamente antitética. Pode-se facilmente imaginar um protestante evangélico, um católico da renovação carismática, um judeu hassídico ou um mórmon  fazendo a seguinte pergunta retórica: 'Como pode um assassinato ser um direito garantido pela Primeira Emenda?'  Poder-se-ia também imaginar um protestante liberal, um católico liberal, um judeu reformista ou um secularista  perguntar justamente o oposto: 'Como poderia ser chamado de assassinato o exercício dos direitos básicos da Primeira Emenda?'  A decisão política parece sociologicamente impossível quando a linguagem moral para se conversar sobre os problemas comuns é tão oposta" (Culture Wars, p. 128 a 130).

Num debate em que os oponentes não compartilham as mesmas premissas, os argumentos se revelam insuficientes e se torna necessário desqualificar o adversário: “Neutralizar a oposição através de uma estratégia de ridículo público, derrisão e insulto se tornou tão importante quanto tornar aceitáveis as alegações morais que cada um dos lado defende. Sem dúvida, a persuasão negativa se tornou ainda mais importante uma vez que, na discussão pública, o diálogo foi amplamente substituído pelo xingamento, denúncia e pela completa intolerância" (idem, p. 136).

A guerra cultural entre conservadores e progressistas em torno de cada item da agenda política moderna (reforma educacional, políticas de ação afirmativa, políticas ambientais, uso de drogas, porte de armas de fogo e reconhecimento de novos direitos em questões de gênero, orientação sexual e etnia) fornece o quadro mais amplo dentro do qual se articulou o pensamento da Direita norte-americana.

Em The Conservative Intellectual Movement in America since 1945, George H. Nash reconhecia três correntes maiores no movimento intelectual conservador: o conservadorismo propriamente dito, os neoliberais ou libertarians e os anticomunistas. 

O primeiro grupo eram os conservadores propriamente ditos. Eles se viam como herdeiros de Edmund Burke e dos Founding Fathers, desconfiavam da racionalidade humana e da ciência, desprezavam as massas e a vida democrática corrompida pela demagogia. Os conservadores criticavam a decadência cultural e rejeitavam o consumismo da sociedade capitalista, que conduziria a um hedonismo neopagão. Entre os intelectuais conservadores estavam Richard Weaver e Russell Kirk, autores de dois clássicos do pensamento conservador norte-americano: Ideas have Consequences (1948) e The Conservative Mind (1953).  

Russell Kirk expôs as linhas gerais do pensamento conservador na forma do seguinte decálogo (cf. "Dez Princípios Conservadores"):

1. Existe uma ordem moral duradoura já que a natureza humana é constante e as verdades morais são permanentes.
2. O respeito aos costumes e às convenções é que permite a convivência pacífica das pessoas.
3. Os direitos (inclusive o direito à propriedade) são sancionados pelo uso e pela antiguidade. É inaceitável pretender avaliar essa herança do passado com base no julgamento pessoal e no uso da razão privada.
4. É preciso prudência. As decisões políticas devem levar em conta os efeitos de longo prazo e não apenas a popularidade imediata.
5. É preciso entender a importância da variedade de instituições, de classes sociais e de modos de vida. Essa variedade não deve ser destruída pelos programas igualitários. Os homens só são iguais perante Deus e perante a lei.
6. O ser humano não é perfectível e não pode criar nada perfeito. O pensamento social utópico é falso e perigoso.
7. Liberdade e propriedade estão intimamente ligadas.
8. É preciso apoiar a vida comunitária, mas rejeitar o centralismo e o coletivismo feito em nome de uma Democracia abstrata.
9. É preciso haver meios para restringir os poderes e as paixões humanas para evitar a anarquia e a tirania.
10. É preciso conciliar a mudança e a estabilidade na sociedade.

A segunda corrente era a dos libertarians ou neoliberais, que se agregavam em torno de Friedrich Hayek. Eles confiavam no progresso, na ciência e no mercado como princípio autoregulador que garantiria que os indivíduos, agindo racionalmente em função de seus interesses privados, acabariam por produzir o máximo bem-estar comum sem a intervenção do Estado. 

Inicialmente os neoliberais não se reconheciam como conservadores. O próprio Hayek afirmou que, embora fosse possível aliar-se aos conservadores frente ao inimigo comum socialista, era preciso reconhecer os limites do conservadorismo: “Gostaria de enunciar agora o que me parece a objeção decisiva a qualquer conservadorismo que mereça assim ser chamado. É que pela sua própria natureza ele não pode oferecer uma alternativa quanto à direção em que estamos nos movendo” (“Why I am not a conservative”, p. 398). Para Hayek, essa insuficiência do pensamento conservador podia ser vista em vários aspectos, do qual destaco dois:

Primeiro: ”O conservadorismo é tão incapaz de produzir uma concepção geral de como a ordem social é mantida que os seus modernos seguidores, na tentativa de construir uma fundamentação teórica, invariavelmente apelam para autores que viam a si mesmos como liberais. Macaulay, Tocqueville, Lord Acton, and Lecky certamente consideravam-se liberais, e com razão; e mesmo Edmund Burke permaneceu um velho Whig até o fim e teria estremecido diante do pensamento de ser visto como um Tory” (idem, p. 401)

Segundo: “Enquanto um conservador tende a defender uma hierarquia particular e desejar que a autoridade proteja o status daqueles que ele valoriza, o liberal sente que nenhum respeito pelos valores estabelecidos pode justificar o apelo ao privilégio, ao monopólio ou a qualquer outro poder coercitivo do Estado que proteja essas pessoas contra as forças da mudança econômica. Embora o liberal esteja totalmente consciente do papel importante que as elites culturais e intelectuais exerceram na evolução da civilização, ele também acredita que essas elites têm que provar por si mesmas que são capazes de manter sua posição sob as mesmas regras que se aplicam a todos os demais” (idem, p.402-403).

Conservadores e neoliberais, portanto, tinham pouco em comum. Eram basicamente grupos acadêmicos com reduzido número de adeptos e pouca ou nenhuma influência na vida política nacional. Como mostrou George H. Nash, o que forneceu o cimento para unir conservadores e neoliberais foi a corrente anticomunista, que não tinha um ideário intelectual sólido, mas era muito ativa politicamente e despertava grande atenção na imprensa.

Em meados da década de 1950, o filósofo e ativista político Frank Meyer propôs uma forma ecumênica de conservadorismo, que integrava aspectos das três correntes: a 
hostilidade conservadora à cultura moderna, a fé no poder auto-regulador do mercado e o discurso anti-comunista. Esse consenso conservador mais amplo, conhecido como fusionismo, passou a ser veiculado pela National Review, fundada em 1955 por William Buckley Jr., talvez o maior formador de opinião da direita norte-americana na segunda metade do século XX. Foi essa coalizão conservadora que apoiou Ronald Reagan em sua trajetória para a Casa Branca.

À sombra do grande trabalho historiográfico de Nash, gostaria de sublinhar que a força dessa coalizão dependia menos da solidez teórica de seus defensores do que da capacidade de dirigir-se a uma audiência mais numerosa, daí a importância de um público middlebrow que funcionasse como receptor e caixa de ressonância das ideias da nova direita.

Em The Making of the Middlebrow Culture, Joan Shelley Rubin mostra como a cultura middlebrow nos Estados Unidos surgiu de uma atitude de otimismo e confiança na capacidade de autodesenvolvimento do caráter. Escritores e educadores queriam estimular o aperfeiçoamento dos indivíduos de boa-vontade e elevar o nível de cultura geral do público. Associações como o Clube do Livro do Mês, publicações como as Seleções da Reader’s Digest, coleções como a Great Books of the Western World, programas radiofônicos como o Information Please!, em que especialistas respondiam questões de cultura geral enviadas pelo público, representaram um notável esforço de divulgação cultural consistente e responsável. (Apesar de entender a simpatia de Rubin pelos patronos da cultura middlebrow, não posso deixar de observar que se tratava de incutir um respeito acrítico pelos padrões culturais convencionais e uma aceitação de critérios de bom-gosto bem distantes do experimentalismo da alta cultura, como acusou Dwight MacDonald).

Esse grande esforço de elevação cultural  teria sucumbido na década de 1950, por várias razões: a especialização técnico-científica tomou o lugar do estudo das Humanidades; novas formas rápidas de comunicação estimulavam o desapreço pela leitura e pela instrução; o mercado cultural queria produtos que tivessem apelo direto e imediato. Em 1949, quando a promoção de uma cultura middlebrow dava sinais de esgotamento, o escritor Clifton Fadiman, apresentador do programa Information Please!, escreveu o artigo “The Decline of Attention”, que apontava a transformação do público leitor num público consumidor, que queria ser cortejado pelos escritores e jornalistas, ao invés de ser instruído por homens culturalmente superiores, razão pela qual era preciso que os profissionais da palavra se colocassem, na postura e na linguagem, no mesmo nível do público. Parecia que o ideal de autoaperfeiçoamento chegara ao fim em meados dos anos 50. 

O livro de Joan Shelley Rubin se detém nesse momento, mas não é difícil imaginar que o público middlebrow – sempre desconfiado das vanguardas e dos novos valores, mas não necessariamente conservador – tenha sofrido um choque com a agitação dos anos 1960, quando os valores tradicionais da classe média foram questionados, espezinhados e ridicularizados pela contra-cultura em nome de experiências vanguardistas no plano artístico, político e existencial. É bem possível que uma parte do público middlebrow tenha ficado profundamente perturbada pela contestação dos radicais e tenha dado adesão aos diagnósticos pessimistas dos conservadores, sempre hostis às vanguardas e à modernização cultural, vindo a engrossar as fileiras dos neoconservadores. Aqui talvez tenha se confirmado novamente a famosa boutade  de Irving Kristol segundo a qual os neoconservadores eram liberais que foram agredidos pela realidade.

Do ponto de vista intelectual, a força dos conservadores norte-americanos repousa, portanto, na existência de uma fratura social e cultural que os opõe aos progressistas; na articulação eficiente do consenso entre conservadores, neoliberais e anticomunistas (aos quais se juntaram depois os neoconservadores e a direita belicista) e na participação de um público middlebrow que expressa a dóxa conservadora e lhe dá ressonância social, promovendo-a ao nível de verdades autoevidentes, que se contrapõem às verdades autoevidentes defendidas pelos middlebrows progressistas, num debate em que nenhum lado consegue persuadir o lado oposto. 

À luz da experiência norte-americana resumida acima, cabe perguntar se (1) a violenta polarização que se viu nos segmentos médios da população brasileira pode ser comparada às guerras culturais norte-americanas e (2) se a Nova Direita brasileira é portadora de algum consenso elaborado em bases teóricas análogo àquele elaborado pelos fusionistas da década de 1950. 


(continua)




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