sexta-feira, 23 de junho de 2017

A claraboia e o holofote #31 (IX)







Cenas da Revolução de 17


Cena IV


A primeira coligação




"A Revolução, apesar da resistência da pretensa democracia, levantava novas armas, consolidava os sovietes e armava os operários, se bem que ainda de maneira limitada. Os Sovietes, a princípio órgãos de controle, transformavam-se em órgãos administrativos. Não se resignavam a qualquer teoria de divisão dos poderes e intervinham na direção do exército, nos conflitos econômicos, nas questões de abastecimento e de transporte, e mesmo nos negócios judiciários. Sob a pressão dos operários, os sovietes decretavam a jornada de oito horas, eliminavam os administradores por demais reacionários, destituíam os mais insuportáveis dentre os comissários do Governo Provisório, procediam a detenções e inquéritos, interditavam jornais hostis. À frente dos sovietes, entretanto, e por toda a parte, achavam-se socialistas revolucionários e mencheviques que repeliam, com indignação, a palavra de ordem bolchevique: ‘Todo o poder aos Sovietes’.

As jornadas de abril, porém, evidenciaram, a impotência do Governo Provisório, que não encontrou nem sequer na capital um lugar seguro. Da crise provocada em abril, podiam-se conceber teoricamente três saídas:  - a volta integral do poder à burguesia. Isto não era realizável senão pelo caminho da guerra civil. Miliukov tentou mas fracassou; - a entrega de todo o poder aos Sovietes: era possível chegar lá sem recurso à guerra civil, bastando para isto levantar apenas o braço, bastava querer. Os conciliadores, porém, não queriam querer e as massas ainda confiavam nos conciliadores, se bem que com alguma reserva. As duas saídas principais – tanto na linha burguesa como na linha proletária – estavam fechadas. Restava a terceira possibilidade: a semi-saída confusa, híbrida, covarde, das acomodações. Aquilo que se chama coligação.

Em 26 de abril, quando o terreno já se achava suficientemente preparado, o Governo Provisório, através de manifesto especial, proclamou a necessidade de associar aos trabalhos do Estado “as forças criadoras ativas do país, que ainda não haviam participado deles”.

Ao aceitar a coligação, os conciliadores supunham poder abolir pacífica e gradualmente o sistema soviético. Parecia-lhes que a força dos Sovietes, concentrada em suas próprias pessoas, poderia ser transmitida imediatamente ao governo oficial. Na mente dos chefes conciliadores, o centro de gravidade deveria passar dos sovietes para os novos órgãos democráticos de administração autônoma.

As massas, que ainda não acompanhavam os bolcheviques, insistiam todas a favor da participação dos socialistas no governo. Se é bom que um Kerensky seja um ministro, seis Kerenskys valerão mais. As massas não sabiam que aquilo se chamava coligação com a burguesia e que esta última desejava dissimular-se por detrás dos socialistas para agir mais livremente contra o povo. Nas casernas a coligação era interpretada de maneira diferente do que era no Palácio Marinsky. As massas pretendiam, graças aos socialistas, expulsar a burguesia do governo. Foi assim que as duas pressões, que caminhavam em sentido contrário, chegaram, a um dado momento, a juntar-se em um só.

Tanto nesta questão quanto nas demais a guerra tinha uma influência decisiva. Os socialistas estavam dispostos a adotar, em relação à guerra, uma atitude de expectativa, bem como relativamente ao poder, isto é, ganhar tempo. A guerra, porém, não esperava. Os Aliados muito menos. O front não queria mais esperar. Justo no momento da crise governamental, apresentavam-se ao Comitê-Executivo do Soviete delegados vindos do front e formularam aos líderes à seguinte pergunta: Estamos em guerra ou não estamos? O que significa: assumir a responsabilidade da guerra ou não? Era impossível escapar pelo silêncio. A mesma pergunta era apresentada pela Entente e numa linguagem meio ameaçadora.

A 1º de maio, o Comitê-Executivo, após haver passado por todas as fases de hesitação imagináveis, decidiu, por maioria de 41 votos contra 18, participar do governo de coligação. Votaram contra apenas os bolcheviques e um pequeno grupo de mencheviques internacionalistas.

Os socialistas conseguiram 6 pastas dentre 15. Eles desejavam permanecer em minoria. Mesmo depois de se haverem decidido a participar abertamente do Governo, continuavam a brincar de perde-ganha. O Príncipe Lvov permanecia como primeiro-ministro. Kerensky passou a ser ministro da Guerra e da Marinha.

“Um governo de coligação”, escrevia o embaixador britânico George Buchanan, “representa para nós a última e talvez única esperança de salvação da situação militar desse front”. Era assim que, por detrás das plataformas, dos discursos, das conciliações e dos votos dos líderes liberais e democratas da Revolução de Fevereiro, se mantinha o maestro imperialista, personificado pela Entente.

A 11 de maio, Kerensky partia para o front, iniciando uma campanha de agitação em favor da ofensiva. A 14 de maio, Kerensky lança uma ordem aos exércitos: “Ireis onde vossos chefes vos conduzirem’ e, para embelezar esta perspectiva bastante conhecida e pouco sedutora para os soldados, ele acrescentou: “Levareis a paz na ponta de vossas baionetas”.
(Trotsky, História da Revolução Russa, vol. 1, capítulo XVIII A Primeira Coligação)






quarta-feira, 31 de maio de 2017

A claraboia e o holofote #31 (VIII)








Cenas da Revolução de 17


Cena III


A crise de abril



"Pois este é o grande significado de todas as crises: 
elas tornam manifesto o que estava escondido; 
elas afastam tudo o que era relativo, superficial e trivial; 
elas varrem o entulho político 
e revelam as molas mestras reais da luta de classes".

Lenin, Lições da Crise, 1917



“ No começo de abril, a guerra era o problema principal da revolução. Tudo se passava como se o Soviet confiasse a defesa do país ao governo, sob a condição de o Soviet tudo  fazer para constrangê-lo a assinar a paz. A seu ver, era necessário ao mesmo tempo fazer a guerra, lutar pela paz, proclamar as duas faces dessa política e torná-la obrigatória”.
(Marc Ferro, A Revolução Russa de 1917, Perspectiva, São Paulo, 2007, p. 50, 54)


Tseretelli

“Aos dois problemas essenciais – o do poder e o da revolução – a direita e a esquerda já haviam dado uma resposta: a burguesia dizia: o reconhecimento de nossa hegemonia e de nossos slogans de guerra, problema número 1 da Revolução. A esquerda dizia: a ditadura do proletariado e a cessação da guerra para a adoção de medidas revolucionárias no país. A primeira ignorava os problemas da revolução; a segunda, suas possibilidades. Ambas levavam à guerra civil”
(apud Marc Ferro, A Revolução Russa de 1917, p. 50)



Sukhanov

“O Governo Provisório estava completamente impotente. Ele reinava, mas não governava. Nas palavras de Guchkov, ele não tinha ‘nenhum dos atributos que são características gerais de um Estado’. Para dar conta do curso objetivo dos eventos, a maquinaria de uma administração civil era lenta, inútil e desnecessária.

Mas este era apenas um dos aspectos da questão. O Governo Provisório não governava, mas reinava. Seu papel não se limitava a servir como centro organizador e intelectual para a campanha burguesa contra a revolução. O papel deste Governo desamparado e disfuncional também se expressava em algo mais. Ele era o anúncio oficial, uma organização destinada prioritariamente a convencer a Europa e, em segundo lugar, a declarar sua política contra-revolucionária.

Todo o poder real e autoridade estava nas mãos do Soviete. Os muitos milhões de homens do exército estava submetidos a ele; centenas e milhares de organizações democráticas lhe prestavam reconhecimento; as massas o obedeciam.

Mas o Soviet estava identificado agora com sua maioria pequeno-burguesa e oportunista. Esta maioria não queria o poder e tinha medo dele, mas o detinha a despeito de si mesma. Por isso, era obrigada a dedicar todas as suas energias para conceder ao Governo a totalidade de seu poder e estendê-lo a seus pés. Esta era a linha do Soviet.

As massas do povo obedeciam ao Soviet sem questionar, mas isso não queria dizer que elas obedeciam de boa vontade, completamente convencidas de que era o certo. Nos vimos o humor das massas nas jornadas de abril e com ele diferia da linha do Soviet. Não havia dúvida de que nesse momento as massas estavam sobrepujando a maioria do Soviet. Não apenas o rumo espontâneo dos acontecimentos demandava a realização do programa mínimo da revolução, mas as próprias massas tinham assimilado e formulado esse programa, que o Governo burguês não podia nem queria realizar.

Havia uma exigência geral das massas por paz, por terra e por pão. O Governo não podia nem queria garanti-la e nesta luta de classes, o Soviet ficou do lado do Governo. O Soviet oferecia a sabotagem feita pelo Governo como se fosse a realização do programa. Quer dizer, o Soviet estava lutando contra o povo e a revolução em favor da política do Governo burguês.

As massas obedeciam o Soviet por razões históricas, por causa do papel monopolístico que o Soviet teve na revolução e por causa da ausência de algum outro núcleo democrático que pudesse substituí-lo. As massas ainda o obedeciam por simples inércia. Além disso, elas eram pouco esclarecidas, inconscientes e parcialmente pequeno-burguesas. Com tudo isso, entretanto, elas já estavam divergindo do Soviet e já o obedeciam com relutância.
(N. N. Sukhanov, The Russian Revolution  1917 A personal record, edited, abridged, and translated by Joel Carmichael, Princeton University Press, New Jersey, 1983, pp 326-7)



Trotsky
Enquanto os conciliadores persuadiam e procuravam apagar a fogueira, os cadetes provocavam e sopravam o fogo. Apesar de não ter Kornilov, na véspera, autorização para empregar armas, não abandonava seu plano e, precisamente naquela manhã, tomava todas as medidas para opor a cavalaria e a artilharia aos manifestantes. Contando firmemente com a intrepidez do general, os cadetes, através de manifesto especial, incitaram seus partidários a saírem à rua, esforçando-se claramente para levar o caso até um conflito decisivo. Não tendo conseguido seu desembarque nas margens dos Dardanelos, Miliukov continuava a desenvolver sua ofensiva tendo Kornilov como vanguarda e a Entente como reserva pesada. A nota de Miliukov, enviada à revelia do Soviete, e o editorial da Rech desempenhariam o papel do telegrama de Ems, enviado pelo chanceler liberal da Revolução de Fevereiro. “Todos os que estão ao lado da Rússia e da sua liberdade devem cerrar fileiras em torno do Governo Provisório e sustentá-lo” – assim falava o apelo do comitê-central dos cadetes, convidando todos os bravos cidadãos a saírem à rua, a fim de lutar contra os partidários de uma paz imediata.

A Nevsky, principal artéria da burguesia, transformou-se em imenso meeting dos cadetes. Considerável manifestação, à frente da qual se encontravam os membros do comitê-central dos cadestes, dirigiu-se para o Palácio Marinsky. Por toda parte viam-se cartazes recentemente saídos dos ateliers: “Absoluta confiança no Governo Provisório!”  “Viva Miliukov”. Os ministros estavam no sétimo céu: tinham reencontrado o seu “povo”, tanto mais visivelmente quanto os emissários do Soviete tentavam, sem resultado, dispersar os meetings revolucionários, empurrando as manifestações dos operários e dos soldados do centro para o subúrbio e procurando dissuadir as casernas e as usinas. Sob a bandeira da defesa do Governo, realizava-se a primeira mobilização, franca e amplamente declarada, das forças contra-revolucionárias. No centro da cidade surgiram caminhões repletos de oficiais, de junkers, de estudantes armados. Saíram também os cavaleiros de São Jorge. A juventude dourada organizou na Perspectiva Nevsky, um tribunal público para incriminar, ali mesmo na rua, os leninistas e os ‘espiões alemães’. Houve rixas e vítimas. A primeira colisão sangrenta, segundo contam, começou com a tentativa de alguns oficiais arrancarem das mãos de um operário uma bandeira que trazia inscrição contra o Governo Provisório. Agrediam-se com um furor sempre crescente. Começou um tiroteio que, depois do meio-dia, tornou-se contínuo.  Ninguém sabia exatamente quem atirava e com que fim o faziam. Caíam já, no entanto, algumas vítimas da fuzilaria desordenada em parte ocasionada pela perfídia e em parte pelo pânico. A temperatura tornava-se incandescente.
Não, este dia não se assemelhava em cousa alguma à manifestação pela união nacional. Dois mundos erguiam-se, um em face do outro. As colunas de patriotas, atraídas à rua pelo Partido Cadete para agirem contra os operários e soldados, compunham-se exclusivamente de elementos burgueses da população, oficiais, funcionários, intelectuais. Duas caudais humanas, uma a favor de Constantinopla, outra a favor da paz, desembocavam no centro provenientes de diferentes pontos da cidade; diferentes pela composição social, totalmente dessemelhantes pelo aspecto exterior, afirmando as próprias hostilidades seus cartazes, e que, ao se chocarem, recorriam aos murros, aos cacetes e até mesmo às armas de fogo.
(Trotsky, História da Revolução Russa, volume 1,  294-5)

“O corpo de oficiais, em sua maioria, estava com Kornilov, isto é, estava pronto, a pretexto de defender o Governo Provisório, a quebrar a espinha dorsal do Soviet. Os soldados eram partidários do Soviet, apesar de sustentarem um ponto de vista bem mais à esquerda do que o dele, Soviet. Como, porém, o Soviet era partidário do Governo Provisório, acontecia que Kornilov podia, para defender esse governo, mobilizar soldados pró-Soviet, sob o comando de oficiais reacionários. Graças ao regime de duplo poder, todos brincavam de esconde-esconde. Entretanto, assim que os líderes do Soviet determinaram que as tropas não saíssem dos quartéis, Kornilov ficou pulando num pé só e, com ele, todo o Governo Provisório.

E o Governo, todavia, não caiu. As massas que iniciaram o ataque não estavam em condições de levá-lo até o fim, Os líderes conciliadores podiam, em consequência, fazer voltar o regime de Fevereiro até seu ponto de partida. (...)

Não, os socialistas-revolucionários e os mencheviques não queriam o poder. (...)
(Trotsky, p. 298)


“Que existe na base dos acontecimentos dramáticos da Revolução? Deslocamentos de forças. Por quem foram provocados? Principalmente pelas oscilações das classes intermediárias, do campesinato, da pequena burguesia, do exército. A amplitude entre o imperialismo dos cadetes e o bolchevismo é formidável. Aquelas oscilações produziram-se simultaneamente em dois sentidos contrários. A representação política da pequena burguesia, seus expoentes, os líderes conciliadores, todos tendem de preferência para a direita, para o lado da burguesia. As massas oprimidas, ao contrário, terão um impulso cada vez mais acentuado e resoluto para a esquerda. Ao se pronunciar contra a mentalidade aventurosa manifestada pelos dirigentes da organização de Petrogrado, Lenin guarda uma reserva: se as classes intermediárias tendessem para o nosso lado, seriamente, profundamente, inflexivelmente – nós não hesitaríamos, nem um minuto, em intimidar o Governo a desocupar o Palácio Marinsky.

“A contradição flagrante entre a audácia da ofensiva das massas e as tergiversações da representação política das mesmas não é absolutamente acidental. Em épocas revolucionárias, as massas oprimidas são arrastadas à ação direta mais fácil e rapidamente do que aprendem a dar aos seus desejos e às suas reivindicações uma expressão adequada por meio de uma representação genuína. Quanto mais abstrato é o sistema representativo, tanto mais ele se atrasa em relação ao ritmo dos acontecimentos determinados pela ação das massas. A representação soviética, a menos abstrata de todas, tem, em situações revolucionárias, vantagens incalculáveis: basta recordar que as dumas democráticas, eleitas à base do regulamento interno de 17 de abril e que não eram molestadas por quem quer que fosse, mostraram-se absolutamente impotentes para fazer concorrência aos sovietes. Mas, apesar de todas as vantagens oriundas de sua ligação orgânica com as usinas e os regimentos, isto é, com as massas ativas, os sovietes não deixam de ser uma representação e, por conseguinte, não estão isentos das convenções e das deformações do parlamentarismo. A contradição inerente a toda representação, mesmo à soviética, consiste em que por um lado, ela é necessária à ação das massas e, pelo outro, se transforma facilmente, para esta mesma ação, em obstáculo conservador. A saída prática para tal contradição é, sempre que se apresentar a sua necessidade, renovar a representação. Mas essa manobra, que não é assim tão simples, resulta sobretudo em tempo de revolução, de uma dedução da ação direta e, por conseguinte, não a pode nunca preceder, mas, pelo contrário, vem sempre retardada. O certo é que, ao dia seguinte da semi-insurreição de abril – ou mais exatamente de um quarto de insurreição de abril, porquanto a semi-insurreição só se dará em julho – via-se na sessão do soviete os mesmos deputados de sempre, os quais, encontrando-se em ambiente habitual, votavam a favor das propostas dos dirigentes habituais”.
(Trotsky, p. 299)

“Depois que os conciliadores liquidaram a explosão da guerra civil imaginando que tudo volveria às antigas posições, a crise governamental apenas iniciou-se. Os liberais não queriam continuar governando sem que os socialistas participassem diretamente do poder. Os socialistas, forçados pela lógica do duplo poder a aceitar tal condição, exigiram uma liquidação demonstrativa do programa de Dardanelos, o que acarretou a inexorável liquidação de Miliukov. A 2 de maio, Miliukov viu-se na obrigação de abandonar seu lugar no governo.
(Trotsky, p. 300)



Lenin


"Pois este é o grande significado de todas as crises: elas tornam manifesto o que estava escondido; elas afastam tudo o que era relativo, superficial e trivial; elas varrem o entulho político e revelam as molas mestras reais da luta de classes.

As demonstrações começaram com os soldados sob o slogan contraditório, equivocado e inefetivo “Fora Miliukov” (como se uma troca de pessoas ou grupos pudesse mudar a substância da política!)

Isto significa que a massa ampla, instável e vacilante, que estava próxima do campesinato e que pela sua definição científica de classe é pequeno-burguesa, oscilava dos capitalistas em direção aos trabalhadores revolucionários. Foi este movimento oscilante das massas, forte o suficiente para ser um fator decisivo, que causou a crise.

É neste ponto que as outras seções começaram a agitar-se: não o centro, mas os elementos dos extremos, não a pequena burguesia intermediária, mas a burguesia e o proletariado começaram a sair às ruas e organizar-se. (...)

Esta não é a primeira vez que a pequena burguesia e os semiproletários oscilaram e não será a última!”

(Lenin, Lições da Crise)







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domingo, 28 de maio de 2017

A claraboia e o holofote #31 (VII)









Cenas da Revolução de 17


Cena II


A dualidade de poderes

(O Soviete de Petrogrado e o Governo Provisório)


Formado no mesmo dia – 28 de fevereiro [1917] – o Soviete de Petrogrado se reuniu sob a liderança dos mencheviques, apoiados pelo Grupo Central de Trabalhadores (...) O Soviete constituía-se de ‘deputados’ escolhidos aleatoriamente nas fábricas e nos quartéis, segundo procedimentos eleitorais que refletiam o consenso, mais do que uma relação matemática de votos. Pequenas lojas enviavam tantos representantes quanto as grandes fábricas, e as unidades das guarnições agiam de forma similar. A prática já tinha alguma tradição na Rússia, mas o sistema era tão confuso que nos quinze primeiros dias já haviam sido indicados três mil membros dos Soviete, sendo dois mil soldados – e isso numa cidade em que os trabalhadores industriais superavam os militares numa proporção de dois ou três para um. Esses dados demonstram como a Revolução de Fevereiro, na sua fase inicial, não passou de um motim de soldados.

As sessões plenárias do Soviete pareciam uma gigantesca assembleia de aldeia. Não havia agenda nem coleta de votos. Todos tinham o direito de usar a palavra e chegava-se às conclusões por aclamação. Fosse por causa dos discursos intermináveis de que era palco, ou devido à convicção dos intelectuais que, consciente ou inconscientemente, ‘conheciam melhor o que era bom para as massas’, o Soviete transferiu o processo de tomada de decisões para seu comitê executivo – Ispolkóm. De acordo com a norma estabelecida em 1905, os integrantes desse organismo não foram eleitos em assembleias, mas nomeados pelos partidos socialistas – três cadeiras para cada agremiação-, sobrepondo-se ao Soviete e agindo em seu nome.

Pouco notado na época, o fato acarretou três graves consequências. Fez crescer artificialmente a representatividade do Partido Bolchevique, que tinha poucos adeptos entre os trabalhadores e nenhum entre os soldados. Congelou o peso dos socialistas moderados, muito populares naquela época, mas que logo perderiam influência sobre a população. E burocratizou as decisões, que passaram a ser tomadas por meio de conchavos entre os intelectuais e os socialistas.

Refletindo o domínio inicial dos mencheviques, o Soviete adotou a doutrina da revolução “burguesa”, etapa que a Rússia estaria atravessando, e durante a qual seria preciso organizar as massas, preparando-as para a próxima fase socialista, permanecendo fora do governo. Sob tais argumentos, o Soviete recusou-se a enviar delegados ao Comitê da Duma, considerando que só lhe cabia garantir que a “burguesia” não traísse a revolução. Em consequência, a Rússia viu-se diante de um sistema peculiar de governo, ou ‘poder dual’ – dvovievlástie – que perdurou até outubro. Na teoria, o Comitê Provisório da Duma – logo batizado Governo Provisório – assumiu total responsabilidade pelos destinos da nação, enquanto o Ispolkóm funcionava como uma espécie de suprema corte da consciência revolucionária. Na realidade, e desde o início, o Ispolkóm assumiu funções legislativas e executivas. Esse esquema não era realista por dois motivos: em primeiro lugar porque dava responsabilidade a uma instituição e poder à outra, e, em segundo lugar, porque os partidos envolvidos tinham objetivos radicalmente diferentes. A Duma pretendia conter a Revolução e seus membros teriam ficado satisfeitos em represar o fluxo dos acontecimentos, na noite de 27 de fevereiro; o Ispolkóm queria aprofundar o processo – para eles, o 27 de fevereiro fora um mero prelúdio da ‘verdadeira’ revolução socialista.

A inexistência de autoridade pública conduziu os líderes da Duma à conclusão inexorável de que teriam que formar um governo, malgrado sua relutância em desafiar o soberano. A questão era como legitimar esse governo. Alguns sugeriram que se entrasse em contato com o czar, solicitando consentimento para formar um gabinete. A maioria, porém, preferiu voltar-se para o Soviete – isto é, o Ispolkóm. Do ponto de vista prático, dada a sua influência sobre os soldados e os trabalhadores, isso seria compreensível, mas do ponto de vista da legitimidade pretendida, tinha pouco sentido; o Comitê Soviético tinha caráter privado, e era constituído por indivíduos indicados pelos partidos socialistas, enquanto a Duma havia sido eleita.

Na noite de 1º para 2 de março, os representantes da Duma, guiados por Miliukov, encontraram-se com os socialistas para elaborar uma linha política mediante a qual o Soviete daria seu apoio ao novo governo. Os membros do Ispolkóm não tinham nenhuma intenção de lhes dar carta branca. O resultado foi um documento redigido por políticos exaustos, após uma noite de debates, contendo uma plataforma de oito pontos que serviriam de base à atividade governamental, até a convocação da Assembleia Constituinte. Os itens principais exigiam a anistia aos prisioneiros políticos, entre os quais terroristas; preparativos imediatos para uma Assembleia Constituinte, a ser eleita por voto universal; dissolução de todos os órgãos de polícia; eleições para recompor os conselhos distritais de autogestão; e permanência em Petrogrado das unidades militares que participaram da Revolução.

As cláusulas mais nefastas eram as que estipulavam a imediata dissolução da polícia e eleições para os conselhos distritais e municipais. Tais medidas significavam a dissolução da burocracia provincial e a anarquia. De pronto, elas aboliam toda a estrutura administrativa e de segurança que mantivera intacto o Estado russo. Apenas levemente menos prejudiciais eram os itens concernentes à guarnição de Petrogrado, que privavam o governo de autoridade efetiva sobre 160 mil camponeses armados descontentes, deixados sob a influência dos seus inimigos.

De qualquer forma, foi esse acordo que deu origem ao Governo Provisório, cujo gabinete era presidido pelo príncipe Lvov, ativista cívico inócuo e indolente, escolhido apenas por ter encabeçados a União dos Ziémstva, o que lhe conferia certa aura de representatividade social. Lvov entendia que democracia significava decisões políticas tomadas por cidadãos diretamente afetados por elas, e que o governo devia funcionar como um cartório. Convencido da imensa sabedoria do povo russo, ele se recusou a sugerir o que quer que fosse às delegações provinciais que foram a Petrogrado em busca de instruções. O secretário de gabinete, Vladimir Nabokov (pai do romancista), escreveu: ‘Não recordo uma ocasião sequer em que Lvov usou um tom de autoridade ou expressou decisão (...) ele personificava a passividade'.

Proeminentes membros do novo governo, e rivais mordazes, Miliukov e Kerenki foram designados, respectivamente, ministro das Relações Exteriores e ministro da Justiça.

Aos 58 anos, Miliukov possuía uma energia ia ilimitada. Historiador profissional, conciliava o trabalho erudito com a edição do jornal diário e a liderança do Partido Constitucional-Democrático [conhecido como Kadet , partido que representava o liberalismo russo]. O que lhe faltava era intuição política: alcançada uma determinada posição por dedução puramente lógica, ele se agarraria a ela, mesmo ao ficar evidente sua ineficácia. Mas, sendo o personagem político mais conhecido em todo o país, ele tinha razão de sentir-se como primeiro-ministro da Rússia democrática.

Kerénski era o seu oposto. Nos tribunais, defendendo prisioneiros políticos, e na Duma, adquirira fama de orador radical. Conferencista brilhante, embora destituído de filosofia, com apenas 36 anos, ele ardia de ambição política. Ciente de sua semelhança física com o imperador francês, fazia poses napoleônicas. Vaidoso e impulsivo, enquanto Miliukov era frio e calculista, ele ascendeu e apagou-se meteoricamente.

(Richard Pipes, História Concisa da Revolução Russa, Bestbolso, Rio de Janeiro, 2015, pp.97-100)