quarta-feira, 20 de julho de 2016

Burgueses e filisteus: ainda o middlebrow








A Guerra dos Brows 

em 6 perguntas e respostas





There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses

T.S. Eliot, The Waste Land





 1. O que são os brows?

Os brows designam os três níveis de cultura nas sociedades modernas: a alta cultura, a cultura média e a baixa cultura (ou cultura de massa).  As expressões highbrow, middlebrow e lowbrow se tornaram correntes no mundo anglófono a partir da década de 1920 e foram bastante utilizadas até o começo da década de 1960.  Ao longo dessas décadas, os defensores da alta cultura, como Virgínia Woolf, Aldous Huxley, Sinclair Lewis, George Orwell, Theodor W. Adorno, Clement Greenberg e Dwight MacDonald fizeram violentos ataques à cultura de massa, por sua vulgaridade conformista, e à cultura média, por sua mediocridade pretensiosa e auto-satisfeita. Por sua vez, os defensores da alta cultura eram criticados nos meios de comunicação como intelectuais elitistas, avessos à democratização do conhecimento (que seria beneficiada pelos clubes do livro, pelas Seleções do Reader’s Digest, pelas obras de divulgação de Will Durant etc.) e aos prazeres do homem simples (ou seja, a música leve, o rádio, a televisão, o esporte, o churrasco, a cerveja etc.)

A partir dos anos de 1970, a distinção dos brows foi cada vez mais rejeitada em nome de critérios de correção política até que, nos anos de 1990, começou a ser recuperada – para além do seu aspecto polêmico e acusatório - quando os métodos da historiografia das mentalidades passaram a inspirar pesquisas sobre a cultura norte-americana. Um dos marcos dessa nova abordagem foi The Making of the Middlebrow Culture, de Joan Shelley Rubin, publicado em 1992.


2Como cada um dos níveis é definido?

Cada um deles pode ser definido tanto pelo grau de elaboração e complexidade do ponto de vista da produção quanto pelo grau de acessibilidade do ponto de vista do consumo.

No nível alto, estão os produtores culturais cujas obras, ao realizar a síntese de inúmeras e complexas mediações, exercem um efeito transformador sobre o campo cultural. O consumo dessas obras exige várias condições: vasto capital cultural acumulado através de um longo período de ócio estudioso (a especialização técnica é estranha ao nível alto da cultura), postura ascética, gosto pela solidão, acesso a recursos econômicos e culturais que estão além da maioria das pessoas, geralmente acompanhado da disposição a renunciar às modalidades hedonistas de comportamento. A estudiosa britânica Nicola Humble observou que é próprio da alta cultura a atitude de debruçar-se sobre o texto no momento da leitura. Trata-se da leitura lenta, crítica, anotada e acompanhada de aparato crítico, própria do estudioso. É assim que se lê O Capital, de Marx; A Origem das Espécies, de Darwin; Economia e Sociedade, de Weber; Ser e Tempo, de Heidegger. Também é assim que se faz a leitura erudita da grande tradição literária ocidental ou o estudo das formas e práticas artísticas.

No nível intermediário, estão os produtores culturais que primam pela generalização, pela versatilidade, pela engenhosidade ou pela apreensão intuitiva da natureza humana ou da vida social. A cultura média é avessa às mediações numerosas, complexas e entrelaçadas valorizadas pela alta cultura. Nicola Humble comenta que a atitude própria da leitura de nível médio é o relaxamento físico de quem lê na rede, na cama ou na poltrona, mergulhado no enredo e, muitas vezes, identificando-se com um dos personagens. A postura do leitor apaixonado de romances pode ser transposta para o leitor de obras de divulgação, que busca um enriquecimento cultural prazeroso e um ócio proveitoso. O enriquecimento cultural, para o indivíduo de cultura média, consiste na aquisição de noções gerais que possam valer como moeda sonante nas ocasiões em que é preciso afastar a suspeita de que se é ignorante, noções que são obtidas pela redução das obras a uma “ideia principal”, isto é, a fórmulas, tópicos, regras básicas, divisões binárias, receitas, esquemas fáceis de serem entendidos, retidos na memória e comunicados. Esse procedimento pode ser feito de maneira legítima: é o caso da transposição didática, ou de maneiras ilegítimas: é o caso da tolice e das idées recues ridicularizadas por Flaubert. De qualquer maneira, a cultura média, com seu gosto pelos esquemas, pela sua rapidez e pela sua comunicabilidade, se presta melhor às redes sociais do que a alta cultura, cuja lentidão e caráter hermético repelem as práticas de compartilhamento em rede.

No nível mais baixo, que é o da cultura de massa, estão os produtores que dispõem apenas de um pequeno repertório de padrões, satisfatórios justamente por não quebrarem as expectativas e favorecerem a previsibilidade e a compreensão instantânea. Os consumidores da cultura de nível baixo querem diversão imediata a baixo custo. 


3. Essa distinção tem significado social?

A divisão dos três níveis culturais é um aspecto da modernização nas sociedades de classes. À medida que as conquistas sociais do movimento operário se consolidavam, nas décadas de 1920-30, no reconhecimento legal de menores jornadas de trabalho e do descanso remunerado, ganhava força um ramo novo de atividades voltadas para o lazer e o entretenimento: tratava-se da indústria cultural que dava os seus primeiros passos. Todavia, por parte de muitos intelectuais, educadores e lideranças sindicais havia a expectativa de que o tempo livre propiciasse ocasião para o aprimoramento educacional dos menos instruídos. Essas duas demandas contraditórias – propiciar evasão e promover o aperfeiçoamento pessoal – eram satisfeitas de maneiras diferentes segundo as classes sociais e adquiriam as mais diversas formas: a mania das palavras-cruzadas, o almanaque do Biotônico Fontoura, as palestras radiofônicas, a criação de bibliotecas circulantes, o esforço editorial de Monteiro Lobato, as aulas noturnas nas sedes dos sindicatos, as enciclopédias vendidas de porta em porta etc. 

Num artigo de 1949, notável como peça de humor e como sociologia do habitusRussell Lynnes descreveu os três níveis como faixas de consumo que corresponderiam à partilha objetiva dos bens culturais nas diferentes classes sociais e às atitudes subjetivas dos consumidores em relação a esses bens. Assim, os níveis culturais seriam resultado tanto da posição de classe (definida por renda e por escolaridade) quanto da inserção em certos grupos de status (por exemplo, os que sabem apreciar vinhos sentados em suas cadeiras Barcelona, ou os que tomam cerveja barata diante da TV num sofá comprado em liquidação).

Que a equivalência entre níveis culturais e classes sociais não fosse perfeita, Lynnes já o sabia, quando lembrou que a cultura highbrow não estava vinculada à classe alta (e posso acrescentar que se trata de um fato facilmente comprovável pois os ricos homens de negócio gostam de aparecer como patronos da alta cultura pelas mesmas razões que os usurários medievais gostavam de aparecer como doadores da Igreja). Pode-se dizer mais: os pobres não são necessariamente lowbrows e a classe média não é necessariamente middlebrow, mesmo porque é geralmente nas classes médias que se encontram os grandes produtores da alta cultura. Talvez seja melhor dizer que o que Russell Lynnes percebeu não foi a correspondência entre os níveis sociais e a estrutura tripartida das classes no capitalismo do século XX, mas sim a homologia entre a partilha de bens culturais e a partilha de renda e de escolaridade. A verdade não era que a cultura highbrow fosse a cultura dos ricos, mas sim que a cultura highbrow, no seu desprezo pela cultura middlebrow e lowbrow, emulasse a intolerância, a exclusão e o autoritarismo com que a elite econômica tratava os moradores dos andares de baixo. O mesmo se passaria em relação à cultura middlebrow, por um lado fascinada pelos bens da alta cultura, por outro horrorizada diante da vulgaridade demasiado comercial da cultura de massas.

Portanto, a guerra dos brows seria uma forma da luta de classes, mas uma forma distorcida e deformada pelo fetichismo de uma nova mercadoria que era a “cultura”, a oferta de bens simbólicos materializados em produtos e serviços colocados à disposição pela indústria cultural, que tinha, por sua vez, a capacidade de estender sempre e cada vez mais o círculo do que é chamado de cultura, a ponto de abarcar todas as práticas humanas. O problema é que essa extensão ilimitada do âmbito da cultura não se fazia sem prejuízo dos bens tradicionalmente associados à alta cultura, elencados nos cânones e referendados pelos currículos escolares. É esta situação que Allan Bloom, em The Closing of the American Mind, e Alain Finkielkraut, em La Défaite de la Pensée, ambos de 1987, tinham em vista quando denunciavam que um concerto de rock tivesse mais importância do que um curso sobre Aristóteles ou que um par de botas pudesse valer tanto quanto as obras de Shakespeare. Quando tudo se torna cultura, quando a indústria cultural abarca todo o fazer humano, a esfera da alta cultura passaria a ser ameaçada pela nova barbárie representada pelo relativismo cultural (queixa de Bloom) ou pelo multiculturalismo (queixa de Finkielkraut). Mas talvez seja perigoso ir tão longe. Tanto em Bloom quanto em Finkelkraut, as lamúrias indignadas diante do gosto pobre dos jovens da época (eu era um deles!) ou diante dos solecismos cometidos pelos universitários (resultado óbvio e previsível de qualquer expansão real do número de vagas nas universidades) se juntam com um esforço por afirmar a supremacia do cânone cultural do Ocidente como o único legítimo, com a mesma certeza como outrora se afirmava a supremacia racial dos europeus e o fardo do homem branco. Essa veia antidemocrática e reacionária que salta em certos críticos culturais (ela é visível nas têmporas de Dwight MacDonald, por exemplo), é um mal que devemos ter o cuidado de evitar, ao mesmo tempo que reconhecemos que esses críticos tocaram em problemas legítimos.

A guerra dos brows, como eu disse acima, é uma versão deformada da luta de classes. Às vezes, deformada no limite da inversão. É preciso entender que a defesa dos bens e práticas da alta cultura é, na verdade, tão solidária da verdadeira democratização cultural quanto a defesa intransigente das formas legítimas de transposição didática (próprias do middlebrow) ou o reconhecimento do status cultural das formas populares e étnicas de arte, em contraposição e em resistência às formas padronizadas da indústria cultural.


4Que  relação  existe entre o nível de instrução, a inserção social e a cultura middlebrow?

O sistema educacional reproduz as relações das classes sociais com os bens culturais, mesmo quando se trata de um sistema em aparência universal e igualitário na transmissão dos conteúdos escolares como é o da França. No começo dos anos 1970, Nicos Poulantzas argumentava que a formação escolar francesa – baseada em avaliações de mérito escolar no cumprimento das condições de um currículo afastado do mundo do trabalho – tinha pouco efeito sobre a burguesia e sobre os trabalhadores, mas era de molde a prover a formação de uma pequena-burguesia ansiosa por distinguir-se dos trabalhadores e identificar-se com a classe dominante. A disfuncionalidade da escola se mostrava plenamente funcional em reproduzir e reforçar a divisão de classes e a situação ancilar da pequena-burguesia em relação à grande burguesia. Isso aconteceria tanto no caso da formação bem-sucedida dos técnicos e engenheiros quanto no caso da formação ratée: Se uma secretária datilógrafa titular do 'bac' se sente frustrada em suas expectativas, não é evidente que se aproximará, por isso, da classe operária: é bem possível que sua ‘proximidade’ com a classe operária, articulada à sua qualificação escolar, reforce nela as práticas de distinção em relação à classe operária”  (Les classes sociales dans le capitalisme d’aujourd’hui, p. 286).


Para Bourdieu, à posição de classe pequeno-burguesa corresponde uma cultura mediana, cujo modelo não é a cultura escolar legítima, mas a cultura assistemática, lacunar e avulsa dos autodidatas. Essa cultura exibe a enorme distância existente entre o simples reconhecimento extasiado de alguns bens da alta cultura e o autêntico conhecimento desses bens (que exige a capacidade de compreendê-los e de apreciá-los). O pequeno-burguês revela seu caráter middlebrow justamente na sua "boa vontade cultural": por não ser  capaz de compreender e, desta forma, avaliar criticamente as obras da alta cultura, o pequeno-burguês se contenta em reconhecê-las e admirá-las docilmente, esvaziadas que estão de qualquer conteúdo preciso e reduzidas ao name dropping inócuo ou ao cluster de clichés.

O pequeno-burguês é reverência diante da cultura” (A distinção, p. 300), porém, essa reverência se manifesta de maneira equivocada uma vez que a cultura pequeno-burguesa toma os produtos de vulgarização e os símiles como exemplares da cultura legítima. “Diferentemente da vulgarização legítima – ou seja, escolar – que, ao proclamar abertamente seus objetivos pedagógicos, pode deixar aparecer tudo o que o esforço impõe para abaixar o nível da produção, a vulgarização habitual não pode, por definição, apresentar-se tal qual ela é.” (A distinção, p. 303). Enquanto a vulgarização feita através da transposição didática é uma simplificação legítima justamente por não deixar esquecer que há um universo mais complexo que deve ser alcançado por esforço e aproximações sucessivas, a vulgarização banal de que se serve o pequeno-burguês middlebrow para obter distinção social é apenas promessa de cultura com baixo esforço. Nessa ausência de esforço, a cultura legítima (ou alta cultura) só entra na forma de “referências” (fragmentos, citações ou alusões): “A cultura média deve uma parte de seu encanto, para os membros das classes médias que são seus destinatários privilegiados, às referências à cultura legítima que ela contém e mediante as quais tende e sente-se autorizada a confundir-se com ela”. (A distinção, p. 300). O pequeno-burguês é cúmplice do embuste na medida em que ele aceita alegremente o consumo dos símiles: ele toma o jornalista como pensador, lê o ideólogo como filósofo, vê originalidade e brilhantismo na imitação cediça, aceita como fato o boato, acredita em todas as conspirações. Em suma, é o freguês que habitualmente leva gato por lebre, marca da alodoxia da cultura middlebrow segundo Bourdieu.


5. O que é a cultura middlebrow no que tem de ilegítima, isto é, afastada das formas autênticas de transposição didática?

É o resultado de uma cultura escolar essencialmente disfuncional que, na sua ânsia de distinção, recusa os sinais de vulgaridade e busca os sinais de cultura legítima. Esses sinais de cultura legítima – geralmente associados a conhecimentos de filosofia, literatura, história e arte – são adquiridos de modo lacunar, à maneira dos autodidatas, cujo único móvel é a curiosidade (por oposição à problematização, que é o móvel da cultura legítima). O conhecimento se torna, assim, simples agregação de elementos avulsos obtidos nos acasos de livraria ou dos meios de comunicação, ou por mero colecionismo de fatos diversos, bem diferente do labor contínuo e sistemático da cultura legítima. As formas básicas dessa cultura - como o almanaque, a revista, o jornal, as redes de compartilhamento na internet - são aquelas em que a miscelânea de fatos  mais ou menos apócrifos e de opiniões mais ou menos autorizadas toma o lugar do esforço de compreensão abrangente.  Se a cultura middlebrow tem as qualidades da comunicabilidade e da rapidez, paga o preço de toda linguagem que não tomou as medidas profiláticas que caracterizam a alta cultura, que é o risco de cair na tolice e no falar-merda.

A cultura middlebrow, precisamente por seu caráter alodoxo, não consegue ser reflexão sobre si mesma, mas apenas reflexo consagrador dos valores consagrados pelo momento.


6. Quais as relações entre essa cultura  middlebrow e o filistinismo?

Dwight MacDonald apontava que a cultura middlebrow era a grande ameaça à alta cultura, na medida em que pretendia se fazer passar por ela. Todavia, enquanto a alta cultura era marcada pela pesquisa estética e pela autonomia, a cultura middlebrow era uma cultura marcada pela posse de certos produtos consagrados segundo um cânone definido por mediadores culturais: os críticos, os editores, os ideólogos, os jornalistas de prestígio, os “formadores-de-opinião”, os spin doctors e os pundits. Sem autonomia crítica, a cultura middlebrow estaria condenada à reprodução de cânones, das listas dos melhores e dos mais importantes e acabaria por mumificar-se no conservadorismo, na vulgarização e na rotinização das conquistas da alta cultura.  

Se, nesse aspecto, a cultura middlebrow é inegavelmente filistina, ela também o é no que se refere à sua moralidade. Trata-se de um aspecto em que eu devo me aventurar quase totalmente desabrigado pelos estudiosos, uma vez que – com exceção de Nietzsche – ninguém se dedicou seriamente a investigar o substrato moral do filistinismo. O pequeno-burguês middlebrow, não importa a sua posição política, é um poço de exigências morais. Como “bela alma” que é, acredita que suas exigências morais são universalmente válidas e, por si mesmas, possam eximí-lo de qualquer legitimação racional de suas ações. A ideia de que a moralidade está autorizada a prescindir da inteligência, da cultura, do bom-senso, dos meios de avaliação racional sempre constituiu o pior aspecto do jacobinismo, assim como de diversas modalidades de anarquismo e de socialismo, mas também de várias tendências da direita, tanto da velha quanto da nova. A inflamação do nervo moral por causa das justas demandas de um punhado de homens bons (sempre pequeno-burgueses), que representam o clamor da verdade em meio à corrupção generalizada é uma doença que já teria sido debelada se Nietzsche fosse realmente um autor lido e não apenas um autor reconhecido por um séquito admirativo de middlebrows, que nunca percebem que são o assunto e o alvo dos sarcasmos do pensador idolatrado.

Também por causa desse filistinismo, que não é algo residual, senão a coisa em sua essência mesma, o pequeno-burguês middlebrow vê em tudo assunto para tomadas de decisão do tipo “culpado” ou “inocente”. Essa vontade ativa de colocar-se como juiz e júri em julgamentos apressados, vontade tão próxima da moralidade dos linchadores, é o aspecto mais repulsivo do pequeno-burguês middlebrow, mas totalmente solidário da sua alodoxia cultural e do seu conhecimento feito de miscelâneas.

Que esse tipo social profundamente reativo e fundamentalmente infeliz tenha se convertido no fiel da balança da vida política brasileira, seja na sua forma lulo-petista, seja na sua forma neodireitista, é uma das infelicidades desse momento. Que tenhamos que escolher entre Mino Carta e Reinaldo Azevedo, ou entre Marilena Chauí e Olavo de Carvalho é algo que consterna. Todavia, não é hora para lamentações. É preciso seguir a investigação. Estamos a caracterizar os filisteus ressurrectos que emergiram da tumba recentemente. Já lhe notamos os traços pequeno-burgueses e sua participação nos piores aspectos da cultura middlebrow. Há, porém, um outro aspecto que temos que estudar: a natureza do seu conservadorismo que, salvo equívoco, não parece tributário das formas clássicas conhecidas (todas admiráveis e respeitáveis), mas sim de partos recentes e de alguns abortos de fundo de quintal.



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Paulo Eduardo Arantes, Uma irresistível vocação para cultivar a própria personalidade, Trans/form/Ação, vol. 26 nº2, Marília, 2003 | Mathew Arnold, Heinrich Heine, Philadelphia, Frederick Leypoldt; New York, F.W. Christern, 1863; Culture and Anarchy, Smith, Elder and Co. London, 1869 | David Beech, John Roberts (editors), The Philistine Controversy, Verso, London, New York, 2002 | Gérard Bensussan, Georges Labica, Dictionnaire Critique du Marxisme, Quadrige/PUF, Paris, 1982 | Norberto Bobbio, Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política, Editora Unesp, São Paulo, 1995 | Pierre Bourdieu, A distinção. Crítica social do julgamento, Zouk, Porto Alegre, 2015 | Allan Bloom, The closing of the american mind, Simon & Schuster, New York, 1987 | Lucio Colletti, Marx, Dialética, Capital: Entrevista de Lucio Colletti com Perry Anderson, publicada originalmente em New Left Review I/86, Julho-Agosto 1974 in revista Sinal de Menos, nº 10, vol. 11, 2014 | Adeline Daumard, Hierarquia e Riqueza na Sociedade Burguesa, Perspectiva, São Paulo, 1985 | Umberto Eco, Apocalípticos e Integrados, Perspectiva, 1979 | Klaus Eder, "Culture and Crisis: making sense of the crisis of the work society" in Theory of CultureRichard Münch, Neil J. Smelser (editores), University of California Press, Berkeley, Los Angeles, Oxford, 1992 | Alain Finkielkraut, La Défaite de la Pensée, Gallimard, Paris, 1987 | James Gilbert, "Midcult, Middlebrow, Middle Class" in Reviews in American History, vol. 20, nº 4 (Dec. 1992) | Heinrich Heine, Italie, Première Partie, Voyage de Munich à Gènes in Oeuvres de Henri Heine,  Eugène Renduel, Paris, 1834 | Albert Hirschman, As Paixões e os Interesses. Argumentos políticos a favor do capitalismo antes do seu triunfo, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1979 | Nicola Humble, "Sitting forward and sitting back: highbrow v. middlebrow reading" in Modernist Cultures 6. 1, Edinburgh University Press, 2011 |  Russell Lynes, "Highbrow, Lowbrow, Middlebrow" (1949) in The Wilson Quarterly, vol. 1, nº 1 (Autumn, 1976) | Dwight Macdonald, "Masscult & Midcult" in Against the American Grain, Da Capo Press, New York, 1983 | James Martin (editor), The Poulantzas Reader, Verso, London, New York, 2008 | Abraham Moles, O Kitsch, Perspectiva, São Paulo, 1982 | Franco Moretti, O burguês: entre a literatura e a história, Três Estrelas, São Paulo, 2014 | Estelle Morgan, "Bourgeois and Philistine" in The Modern Language Review, vol. 57, nº 1 (Jan. 1962) | Vladimir Nabokov, Lectures on Russian Literature, Harvest Book, San Diego, New York, London, 2012  | Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998; Obras Incompletas, coleção Os Pensadores, Abril Cultura, São Paulo, 1978; Assim falou Zaratustra, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1987 | Dolf Oehler, Quadros Parisienses. Estética Antiburguesa 1838-1848, Companhia das Letras, São Paulo, 1997 | Nicos Poulantzas, Les classes sociales dans le capitalisme aujourd'hui, Éditions du Seuil, Paris, 1974 | Joan Shelley Rubin, The making of the middlebrow culture, University of North Caroline Press, Chapel Hill & London, 1992 | George Santayana, What is a Philistine?, The Harvard Monthly, May, 1892 | John Scott (org), A Dictionary of Sociology, Oxford University Press, Oxford, 2014 | Werner Sombart, Le bourgeois. Contribution à l’histoire morale et intellectuele de l’homme économique moderne, Petite bibliothèque Payot, Paris, 1966 | Tornstein Veblen, A Teoria da Classe Ociosa, coleção Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1980 | Max Weber, A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo, Companhia das Letras, São Paulo, 2004 | Raymond Williams, Culture and Society, 1780-1950, Anchor Books, New York, 1958; Cultura e Materialismo, Editora Unesp, São Paulo, 2011; Keywords. A vocabulary of culture and society revised edition, Oxford University Press, New York, 2015 | Eric Olin Wright, "Social Class" in G. Ritzer (editor), Encyclopedia of social theory, Sage, Thousand Oaks, 2004





O Sobrinho de Enesidemo

4ª ano

















quarta-feira, 29 de junho de 2016

Burgueses e filisteus: middlebrow








A Guerra dos Brows


"J'entends des familles comme la mienne, 
qui tiennent tout de la déclaration des Droits de l'Homme".

Rimbaud, Une saison en Enfer





I


Meus avós eram gente analfabeta do campo; meus pais tiveram uma escolarização elementar que lhes permitiu trabalhar como operários na indústria metalúrgica e têxtil. Como os mais afortunados da minha estirpe e linhagem, fui miraculado pela universidade e passei a integrar a fração superior da pequena-burguesia. Todavia, se o capital cultural acumulado pôde ser convertido em certa posição social, também me levou a uma atitude irônica, e muitas vezes hostil, face aos padrões culturais da classe a que pertenço. De várias maneiras sou um trânsfuga e um híbrido: sou o produto da herança rural ítalo-caipira-afro-baiana; da cultura de massas; da solidariedade do chão de fábrica, que era reproduzida pelos meninos e meninas no pátio da escola; do treino intelectual na graduação e na pós-graduação; do convívio e comunhão com a pequena-burguesia que trabalha no setor de serviços educacionais; do exercício crítico de scholar na esfera privada. Assim era inevitável que, ao longo de toda a minha vida, estivesse metido nalguma trincheira durante a Guerra dos Brows.

Da cultura lowbrow a que fui exposto quando criança e em parte da adolescência, restou muito pouco. Os infantes marxistas da turma de 82 rapidamente aprendiam a reconhecer nela os produtos espúrios da indústria cultural, mas o fato é que nosso próprio marxismo estudantil também era nutrido por essa indústria: pelos volumes da coleção “Os Pensadores”; pelos livrinhos da série “Primeiros Passos”; pelos episódios de “A Era da Incerteza” de John Kenneth Galbraith. Enfim, por toda uma gama de produtos de divulgação (ou “propaganda” como dirão os oponentes à direita) que compunha a paisagem da esquerda middlebrow naquela época hoje remota.

Pelas razões que acabo de expor, confesso que pertenço àquela grande família de beneficiários dos fascículos da editora Abril, da enciclopédia Barsa e da Delta-Larousse, dos programas educativos da TV Cultura de São Paulo, da série “Cosmos” de Carl Sagan, da revista "Planeta", dos programas musicais transmitidos a partir do SESC Pompeia, das coleções de bolso da editora Brasiliense, do catálogo do Círculo do Livro, das obras paradidáticas da editora Ática, dos "Concertos para a Juventude",  das minisséries “Raízes” e “Holocausto” transmitidas pela Rede Globo,  das palestras na biblioteca Mário de Andrade, dos clássicos nas edições baratas da Ediouro, da História da Filosofia Ocidental de Bertrand Russell, do catolicismo de esquerda divulgado pela Editora Vozes. Eu poderia passar muito tempo relembrando tudo o que aprendi imerso nesse caldo middlebrow ao qual eu devo meu ingresso no ensino superior, mas hoje não estou para reverências. Minha intenção é mostrar quão limitante pode ser a cultura middlebrow e como ela constitui um dos fatores do filistinismo.




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Paulo Eduardo Arantes, Uma irresistível vocação para cultivar a própria personalidade, Trans/form/Ação, vol. 26 nº2, Marília, 2003 | Mathew Arnold, Heinrich Heine, Philadelphia, Frederick Leypoldt; New York, F.W. Christern, 1863; Culture and Anarchy, Smith, Elder and Co. London, 1869 | David Beech, John Roberts (editors), The Philistine Controversy, Verso, London, New York, 2002 | Gérard Bensussan, Georges Labica, Dictionnaire Critique du Marxisme, Quadrige/PUF, Paris, 1982 | Norberto Bobbio, Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política, Editora Unesp, São Paulo, 1995 | Pierre Bourdieu, A distinção. Crítica social do julgamento, Zouk, Porto Alegre, 2015 | Lucio Colletti, Marx, Dialética, Capital: Entrevista de Lucio Colletti com Perry Anderson, publicada originalmente em New Left Review I/86, Julho-Agosto 1974 in revista Sinal de Menos, nº 10, vol. 11, 2014 | Adeline Daumard, Hierarquia e Riqueza na Sociedade Burguesa, Perspectiva, São Paulo, 1985 | Umberto Eco, Apocalípticos e Integrados, Perspectiva, 1979 | Klaus Eder, "Culture and Crisis: making sense of the crisis of the work society" in Theory of CultureRichard Münch, Neil J. Smelser (editores), University of California Press, Berkeley, Los Angeles, Oxford, 1992 | James Gilbert, "Midcult, Middlebrow, Middle Class" in Reviews in American History, vol. 20, nº 4 (Dec. 1992) | Heinrich Heine, Italie, Première Partie, Voyage de Munich à Gènes in Oeuvres de Henri Heine,  Eugène Renduel, Paris, 1834 | Albert Hirschman, As Paixões e os Interesses. Argumentos políticos a favor do capitalismo antes do seu triunfo, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1979 | Nicola Humble, "Sitting forward and sitting back: highbrow v. middlebrow reading" in Modernist Cultures 6. 1, Edinburgh University Press, 2011 |  Russell Lynes, "Highbrow, Lowbrow, Middlebrow" (1949) in The Wilson Quarterly, vol. 1, nº 1 (Autumn, 1976) | Dwight Macdonald, "Masscult & Midcult" in Against the American Grain, Da Capo Press, New York, 1983 | James Martin (editor), The Poulantzas Reader, Verso, London, New York, 2008 | Abraham Moles, O Kitsch, Perspectiva, São Paulo, 1982 | Franco Moretti, O burguês: entre a literatura e a história, Três Estrelas, São Paulo, 2014 | Estelle Morgan, "Bourgeois and Philistine" in The Modern Language Review, vol. 57, nº 1 (Jan. 1962) | Vladimir Nabokov, Lectures on Russian Literature, Harvest Book, San Diego, New York, London, 2012  | Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998; Obras Incompletas, coleção Os Pensadores, Abril Cultura, São Paulo, 1978; Assim falou Zaratustra, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1987 | Dolf Oehler, Quadros Parisienses. Estética Antiburguesa 1838-1848, Companhia das Letras, São Paulo, 1997 | Nicos Poulantzas, Les classes sociales dans le capitalisme aujourd'hui, Éditions du Seuil, Paris, 1974 | Joan Shelley Rubin, The making of the middlebrow culture, University of North Caroline Press, Chapel Hill & London, 1992 | George Santayana, What is a Philistine?, The Harvard Monthly, May, 1892 | John Scott (org), A Dictionary of Sociology, Oxford University Press, Oxford, 2014 | Werner Sombart, Le bourgeois. Contribution à l’histoire morale et intellectuele de l’homme économique moderne, Petite bibliothèque Payot, Paris, 1966 | Tornstein Veblen, A Teoria da Classe Ociosa, coleção Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1980 | Max Weber, A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo, Companhia das Letras, São Paulo, 2004 | Raymond Williams, Culture and Society, 1780-1950, Anchor Books, New York, 1958; Cultura e Materialismo, Editora Unesp, São Paulo, 2011; Keywords. A vocabulary of culture and society revised edition, Oxford University Press, New York, 2015 | Eric Olin Wright, "Social Class" in G. Ritzer (editor), Encyclopedia of social theory, Sage, Thousand Oaks, 2004






quarta-feira, 22 de junho de 2016

Burgueses e filisteus: o pequeno-burguês







Esse pombo triste: 

o pequeno-burguês



"Será preciso retumbar como tambores e pregadores de sermões quaresmais? 
Ou acreditarão somente nos que gaguejam?
Possuem alguma coisa da qual se orgulham. 
Como chamam, mesmo, àquilo que os torna orgulhosos? 
Chamam-lhe instrução e é o que os distingue dos pastores de cabras".


Nietzsche, Assim Falou Zaratustra,  Prólogo, 5






O filisteu é conservador e cauteloso; abomina a extravagância tanto quanto a vulgaridade; imagina soluções fáceis e rápidas para todos os problemas do mundo e lamenta sinceramente que uma conspiração de hipócritas, corruptos ou incompetentes esteja a impedir a aplicação da sua panaceia; tem opiniões pessoais a propósito de tudo e faz questão de expressá-las; reverencia os valores universais e também o torrão natal; acompanha com paixão as notícias (inclusive o fait divers), mas tem saudade dos “bons e velhos tempos”; experimenta volúpias de grandeza moral quando, diante de uma plateia, mostra-se indignado face ao “descalabro” da "situação atual”, ou enlevado com a beleza - sempre "comovente" - de uma autêntica obra de arte. Na sua profunda incapacidade de calar-se e refletir, o filisteu demonstra que, não menos que a natureza, tem horror ao vazio, razão pela qual o niilismo e o ceticismo lhe são absolutamente estranhos.

Para o bem da espécie humana e salvaguarda geral das nações, o filisteu-tipo que acabamos de desenhar não pode ser encontrado em estado puro nas condições ambientais normais, mas os traços de filistinismo, embora disseminados por todos os segmentos da sociedade, concentram-se nas frações inferiores da burguesia: os pequenos e médios empreendedores, os proprietários de imóveis de aluguel, os quadros subalternos que servem de capatazes aos gerentes do capital, os médicos, advogados e engenheiros que não conseguiram alcançar um status à altura de seus diplomas universitários, os profissionais da educação, os técnicos de maneira geral, os empregados melhor remunerados do setor de serviços.

Espremido entre a grande burguesia reluzente e a massa desbotada dos desclassificados, o pequeno-burguês pensa que sua posição, a cavaleiro da luta de classes, permitir-lhe-ia resolver o impasse e decidir o bem-comum.  E o que poderia ser melhor para todos senão o que é bom para a pequena-burguesia? Paz, prosperidade, harmonia familiar, amor, trabalho, oportunidades, esforço individual, empreendedorismo, recompensa financeira, gratificação emocional, segurança, tranquilidade e, se Deus quiser, um pouco de arte e diversão. Nessa tópica de horóscopo matinal, a summa summarum dos ideais de uma classe.

Por estar tão próxima da massa dos trabalhadores de baixa qualificação, que lhe presta serviços variados sob a rubrica de “moças da limpeza” ou “rapazes do conserto”, a pequena-burguesia anseia por distinção: a instrução diplomada exibida na pronúncia escandida exageradamente didática; a boa educação nos ademanes fora de hora; o requinte da xícara acompanhada do pires; a diversão das séries do Netflix; o cobiçado estágio “no exterior”; o conforto do sofá novo, do carro do ano e da conta conjunta superprime; as duas horas de fila para ver os impressionistas, tão impressionantes; os nenúfares de Monet na capa da agenda ou nos marca-páginas do livro mais vendido de não-ficção da revista Veja.  Esse esforço de distinguir-se da massa pobre de serventes e auxiliares com ensino fundamental incompleto consome os recursos e as energias da pequena-burguesia, sempre tão assombrada por pesadelos de declínio, crise e altos impostos. O pequeno-burguês padece no seu lar. O mundo, que lhe sorri e acena com promessas de oportunidades, é terrivelmente opaco e incompreensível.

As altas esferas do capital, porém, o fascinam. Não o capital impessoal, não o capital-processo, não o Sujeito Automático de Marx, já que no seu fetichismo às avessas o pequeno-burguês enxerga as relações abstratas e reificadas apenas na forma de "histórias humanas" em que o capital se faz carne. Daí o interesse pelos perfis dos megainvestidores elencados periodicamente pela Forbes, os emblemáticos “homens mais ricos do mundo”, que os pequenos-burgueses perplexos ora admiram como heróis de sucesso, ora infamam como bandidos ("a propriedade é um roubo” dizia o pequeno-burguês Proudhon).  Dilacerada por essa ambivalência face ao grande capital, a pequena burguesia não alcança a coerência política: ela pode aderir irrefletidamente a programas neoliberais que, cumpridos à risca, destruiriam o pequeno patrimônio de que dispõe; ou pode aceitar, com a mesma falta de reflexão, um radicalismo de esquerda que pende para o irracionalismo e descamba numa revolta que dificilmente vai além do impropério ou do "desabafo" irritado de alguma bela alma infeliz.

Incerta em suas prerrogativas de classe, dividida entre o ressentimento e a autocomplacência, a pequena-burguesia é um repositório de paixões tristes. Sem recursos para realizar suas fantasias de reforma universal, resta-lhe encenar de maneira cabotina um engajamento ansioso por soluções finais e explosivas, como já havia mostrado Drummond de Andrade num poema célebre, verdadeiro mea culpa do pequeno-burguês impotente que se revolta contra o mundo no recôndito do apartamento recém-adquirido:

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

(“Elegia 1938” in Sentimento do Mundo)

Não se poderia dizer mais nem melhor. Drummond conhecia todos os fios retorcidos que compunham o eu de uma certa burguesia brasílica. Todavia, o apequenamento da burguesia, embora justifique o feitio delicado do monstro filistino, não explica suas pretensões de sapiência nem suas audácias judicativas, demonstração que deixo para o próximo momento.


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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Burgueses e filisteus: uma introdução








De volta ao velho camaleão: 

o burguês




Éramos jovenzinhos, quase todos mais ou menos punks, a maioria filhos de metalúrgicos. O ano era 1979. Nos bate-bocas no pátio da escola, a pecha de “burguês” constituía a pedra fácil que sempre saltava à mão. Era o insulto rotineiro e previsível que cuspíamos com desdém na face de qualquer guri de cabelo um pouco mais amanhado, que exibisse um par de tênis novo e caro. Ser um “burguês” não indicava pertencimento a uma classe social – a qual, de resto, só conhecíamos na figura dos “ricos” das telenovelas -; ser “burguês” denotava um comportamento que combinava afetação e um certo querer ser mais do que os outros, em desafio à nossa solidariedade compacta de gente trabalhadora de origem migrante ou imigrante. O “burguês” era o traidor, aquele que não queria ser um de nós porque desprezava nossa rudeza.

No momento tenso de degelo da ditadura militar (o atentado fracassado no Pavilhão Riocentro ocorreu em 1981), os jovens que tinham contato com o marxismo – inclusive este Sobrinho de Enesidemo que ora escreve - tachavam de “burguês” quem podia adquirir as novidades "bacanas" que "pintavam" nas lojas sem se importar com o que estava acontecendo no país. Mais uma vez, a palavra “burguês” não indicava o membro de uma classe social, mas o entusiasta de uma certa prática: o hedonista alheio à vida política mas com dinheiro suficiente para gastar em consumo, a despeito da inflação "galopante" que assolava o país, e – escândalo dos escândalos! - na condição de lucrar com aplicações overnight. Para nós, soixante-huitards retardatários, “burguesa” era sobretudo a ideologia dominante que o “sistema” secretava como dos pântanos de outrora emanavam miasmas fatais. Para nos livrarmos do contágio da coisa abominável, para não incidirmos no pecado capital da “alienação”, repetíamos uns aos outros as jaculatórias anticapitalistas, antiburguesas e antiimperialistas, o tesouro comum paulatinamente acumulado desde a temporada de caça de 1793-1794, passando pelas jornadas insurrecionais de 1848 e 1871, pelas gloriosas revoluções comunistas e pela Grande Recusa na década de 1960.

Para 0s infantes marxistas da turma de 82 que abandonavam o catolicismo em favor da religião de Bach e Schoenberg, Duccio e Klee, Dante e Rimbaud, havia mais uma fonte de hostilidade à burguesia: o desprezo pelo burguês como inimigo das Letras e das Artes, o adversário de todas as vanguardas, o tipo tacanho, conservador e preconceituoso, sempre convencido da verdade universal de suas opiniões a respeito de estética, política ou moral. Enfim, o filisteu, antigo insulto germânico que aprendíamos com Heine, Nietzsche e Karl Kraus.

É a respeito desse tipo que eu quero falar nas próximas semanas, agora que a coisa antiga e aparentemente extemporânea retorna ao proscênio, sem rebuços, nas mesóclises do presidente interino, no desenxabido da corte (ou coorte) brasiliense, na fatiota dos causídicos e eminentes juristas, na allure dos misangélicos in nomini domini. Um desfile da tropa do trapo digno de um óleo de Ensor ou de Grosz.

Marchemos, então, companheiros de Davi, contra os quarteis de Golias. E que o leitor nos perdoe por não nos distanciarmos devidamente do fartum que emana do ajuntamento de bestas.

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