quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

En medio de la plaza y sobre tosca piedra #8










Girona




"Cada manhã nos ensina sobre as atualidades do globo terrestre. 
E, no entanto, somos pobres em histórias notáveis. 
Como se dá isso? Isso se dá porque mais nenhum evento nos chega 
sem estar impregnado de explicações. Em outras palavras: 
quase nada mais do que acontece beneficia o relato; 
quase tudo beneficia a informação. 
Ou seja, já é metade da arte narrativa manter 
livre de explicações  uma história quando é transmitida".

Walter Benjamin, Imagens do Pensamento, "Pequenos trechos sobre a arte"





Onde aparecem um abade, um arcebispo e um livro



Aos pés dos Picos de Europa, na Cantábria, fica o vale de Covadonga, onde os nobres visigodos, à frente dos quais estava o duque Pelayo, venceram os muçulmanos em batalha no ano de 722. Para os leitores de língua portuguesa, o rincão com sua gruta e o duque belicoso são familiares por causa do romance de Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero. A uns sessenta quilômetros adiante pela estrada que contorna o maciço nevado, fica o mosteiro de San Toríbio de Liébana. Na segunda metade do século VIII, a comunidade era consagrada a São Martinho de Tours e seu abade era Beato de Liébana, um teólogo eminente e respeitado pela coroa de Astúrias, único reino cristão da Península que não havia caído sob o domínio islâmico.



Toledo, a antiga capital dos visigodos, estava nas mãos dos muçulmanos, mas o arcebispo da cidade ainda era o metropolita de toda a Espanha. Em 783, esse homem era Elipando. Na época, um certo Migécio defendia a curiosa doutrina segundo a qual, na Santíssima Trindade, o Pai era o rei Davi, o filho era Jesus e o Espírito Santo, Paulo Apóstolo. No concílio de Sevilha, convocado pelo arcebispo de Toledo, essas ideias foram condenadas e Elipando escreveu uma carta de reprimenda a Migécio, que foi conservada nas atas do concílio. No entanto, ao rejeitar a estranha concepção trinitária de Migécio, o próprio Elipando se afastou da ortodoxia e endossou o adocionismo, que ensinava que Jesus enquanto homem era apenas filho “adotivo” de Deus.



Ao tomar conhecimento das atas do concílio e da carta do arcebispo, Beato de Liébana escreveu a Elipando, chamando-lhe a atenção para a imprecisão e incorreção teológica de suas palavras. Em declarada oposição ao abade asturiano, Elipando tratou de ganhar aliados e recebeu o apoio de Félix, bispo de Urgell, nos Pirineus. Também enviou uma carta ao rei Carlos Magno, acusando o abade de Liébana de ser um lascivo que infectara com seu veneno vários líderes da Igreja. Eram acusações graves que expunham, talvez, a divisão entre a Espanha “ocupada” e a Espanha “livre”. Uns dizem que Elipando, ao depreciar a divindade de Jesus, desejava ficar em bons termos com os dominadores muçulmanos, especialmente o poderoso emir de Córdoba, Abd el-Rahman; outros julgam que Elipando só fazia retomar o arrianismo ao qual os  visigodos teriam abjurado, sem terem esquecido de fato. A verdade só Alá pode saber, mas Carlos Magno, há muito tempo desejoso de levar o poder do reino franco para além dos Pirineus, convocou um concílio em Frankfurt, que condenou o adocionismo e solicitou que Elipando voltasse à doutrina tradicional da Igreja.



Durante esse enfrentamento teológico e político, Beato compôs um comentário sobre o Apocalipse de S. João a partir de excertos dos Padres da Igreja, especialmente Gregório, Agostinho, Ticônio e Isidoro de Sevilha. A obra recebeu grande acolhida entre os eclesiásticos, e não apenas na Espanha. Dos Comentários  restam trinta e quatro manuscritos datáveis do século IX e XII, dos quais vinte e seis são iluminados com tal riqueza que o nome do Beato passou a designar, por antomásia, esses códices. Nas ilustrações são notáveis os traços mouriscos seja nas portas em forma de ferradura, seja na policromia brilhante. As figuras são desenhadas de maneira linear, estereotipada e bastante simplificada, ordenadas sobre faixas de cores vivas, segundo uma disposição que, apesar das diferenças estilísticas entre os vários códices, parecem remontar a um arquétipo perdido, que talvez tenha sido feito em Liébana, sob a orientação do Beato ou de seus auxiliares imediatos.



Vários mosteiros produziram cópias do Beato, entre eles o de San Salvador de Távara, perto de Zamora. Do scriptorium da torre do mosteiro saíram alguns dos códices mais célebres, entre os quais o Beato copiado e ilustrado pelo monge Emetério e pela monja Ende em 975, que passou para a Catedral de Gerona um século mais tarde, no reinado do conde Ramón Berenguer II.




Beato de Gerona


Beato de Gerona





Onde aparecem um emir, um rei, um conde e um tapete



Entre 748 e 750, uma revolução derrubou os omíadas que detinham o califado em Damasco. O único sobrevivente da família foi Abd el-Rahman, que fugiu para a Espanha, enquanto Abu Abas, que tomou o poder, transferia a sede do califado para Bagdá. Em Al-Andalus, Abd el-Rahman regrou as desavenças entre os chefes berberes, instalou a capital do emirado em Córdoba e começou um jogo de alianças para fazer frente aos califas abássidas de Badgá e avançar em direção ao reino dos francos, governado por Carlos Magno. As ambições do emir de Córdoba se voltaram, assim, ao nordeste da Península, mas no seu caminho estava a importante  cidade de Saragoça, cujo governador Husayn se proclamara leal ao califa de Bagdá. Para sustentar a rebelião contra o emir de Córdoba, Sulayman, aliado de Husayn que governava Barcelona e Girona, viajou até Paderborn para convencer Carlos Magno a intervir em seu apoio em troca da promessa de lealdade e submissão dos governadores.



A expedição franca de 778 foi desastrosa. Carlos Magno não conseguiu entrar em Saragoça, pois Husayn tinha sido derrubado entrementes, e, na volta para a França, a retaguarda das tropas francas foram atacadas pelos bascos num desfiladeiro dos Pirineus, episódio que, mais tarde, viria a ser lembrado na Canção de Rolando. Carlos Magno não pisará mais na Península, mas não desistiu do empenho de estender o domínio dos francos pelo território que ia de Girona até a foz do rio Ebro.  No ano mesmo da malfadada incursão, o rei institui o condado de Toulouse, para lutar contra os bascos, e o reino de Aquitânia, cujo soberano seria Luís, filho de Carlos Magno.



Sob as ordens do conde de Toulouse, as tropas francas fizeram nova incursão além da cordilheira. A entrada em Gerona em 785 foi o início do processo tumultuado e cheio de reveses da reconquista franca, que se concluiu em 803, quando Barcelona foi submetida. Todavia, Carlos Magno, já coroado imperador do Ocidente, morreu sem ter realizado o sonho de alcançar o rio Ebro. Dentro da recortada e confusa divisão administrativa carolíngia, a faixa espremida entre os Pirineus e o Mediterrâneo até o rio Llobregat se tornaria a Marca Hispânica. Para governá-la, os francos escolheram nobres godos que haviam tomado parte na conquista, por isso, a região foi  chamada Gothaland, nome do qual se originou  "Catalunya".



Ao longos de décadas de luta contra o emirado - depois califado - de Córdoba, os pequenos condados catalães foram passando para as mãos de uma única família, a dos condes de Barcelona e Gerona que, à medida que iam consolidando a sua autoridade, não se viam mais como dependentes da proteção e da intervenção das forças do Norte agora que se esboroava o império carolíngio. Um dos descendentes dessa dinastia de condes foi Ramón Berenguer II, cujo sepulcro está na catedral de Girona. Talvez tenha sido a sua viúva, Mafalda de Apúlia, quem patrocinou a elaboração da monumental Tapeçaria da Criação para a mesma catedral. A enorme alfombra traz, no centro, a criação do mundo. Na moldura ao redor, representam-se os meses do ano e as atividades campesinas. Figuras da mitologia clássica e das Sagradas Escrituras se combinam numa iconografia com matrizes bizantinas e carolíngia. O conjunto evidentemente expõe uma cosmologia teocêntrica, porém seu propósito político imediato é incerto, pois havia muito em jogo: o papa convocara a primeira cruzada, Girona sediava um concílio para resolver questões da Igreja na Catalunha e era preciso sustentar a linha sucessória do conde Ramón Berenguer II, que fora assassinado pouco antes do nascimento do seu herdeiro. O futuro Ramón Berenguer III viria a se casar com uma das filhas de El Cid antes de tornar-se ele mesmo um dos maiores caudilhos da Hispânia medieval. Em Barcelona, uma estátua equestre do conde, iluminada dramaticamente, projeta à noite sua enorme sombra nos prédios da via Laietana.


A Tapeçaria da Criação




Onde aparecemos nós em busca do livro e do tapete



O mês de janeiro estava perto de terminar quando chegamos para visitar a Catedral e seu museu, onde estão expostos a Tapeçaria da Criação, recentemente restaurada, e o Beato de Girona - na verdade uma réplica perfeita com a chancela do editor M. Moleiro, com quem tivemos o prazer de conversar no escritório da sua editora em Barcelona. (O Beato original está, espero eu, muito bem guardado nos cofres da catedral). 

Andamos pela cidade velha, entramos em becos, subimos várias "pujadas". Talvez fosse bom encerrar com o entusiasmo trazido pelo Empordá, que acompanhou as botifarras do almoço, e derramar algum lirismo sobre os prédios coloridos à beira do rio Onyar,  a gentileza do rapaz que nos atendeu em català na bilheteria da basílica de São Felix ou o crepúsculo sobre os Pirineus Ocidentais que vimos desde as antigas muralhas de Girona, enquanto os sinos da catedral de Santa Maria nos apressavam para pegar o trem... mas é tarde - sempre é tarde - e a viagem tem de prosseguir.



 





A catedral de Santa Maria




Lateral da catedral de Santa Maria




Terraço da entrada da catedral de Santa Maria. Ao centro, a torre da basílica de São Félix.



Praça da Catedral  vista do terraço da entrada.



Claustro românico da catedral de Santa Maria



Claustro românico da catedral de Santa Maria. Detalhe de capitel.



Porta com torreões ao fim da Pujada del Rei Martí





Pujada de San Feliu, com a basílica de São Félix ao fundo



Carrer de les Ballesteries







Carrer dels Alemanys



Jardin dels Alamanys



Igreja de São Domingos vista da muralha




Os becos, passagens e ladeiras do Bairro Judeu




 
Os becos, passagens e ladeira do Bairro Judeu



A torre da catedral de Santa Maria. Ao fundo, os Pirineus.


O centro histórico de Girona visto da Ponte de Pedra





Philip Banks, “Las ciutats i el seu paper” in Catalunya a l’época carolíngia: art i cultura abans del romànic (segles IX e X), Diputació de Barcelona, Museu Nacional d’Art de Catalunya, Barcelona, 1999 | Manuel Castiñeiras, El Tapiz de la Creación, Catedral de Girona, s/d | C. R. Dodwell, Artes Pictóricas en Occidente 800-1200, Ediciones Cátedra, Madrid, 1995 | Joaquín Gonzáles Echegaray, “Beato de Liébana y su mundo” in Beato de Fernando I y Sancha, M. Moleiro Editor, Barcelona, 2006 | Jean Favier, Carlos Magno, Estação Liberdade, São Paulo, 2004 | Jacques le Goff (org), Homens e Mulheres da Idade Média, Estação Liberdade, São Paulo, 2013 | Josep M. Salrach i Marès, “Carlemany i Catalunya en el marc de l’Europa carolíngia” in Catalunya a l’época carolíngia: art i cultura abans del romànic (segles IX e X), Diputació de Barcelona, Museu Nacional d’Art de Catalunya, Barcelona, 1999 | Manuel Sánchez Mariana, “La tradición de los Beatos y el ‘Beato de Fernando I y Sancha” in Beato de Fernando I y Sancha, M. Moleiro Editor, Barcelona, 2006 | Josep M. Nolla, Jordi Sagrera, “Girona, ciutat carolíngia” in Catalunya a l’época carolíngia: art i cultura abans del romànic (segles IX e X), Diputació de Barcelona, Museu Nacional d’Art de Catalunya, Barcelona, 1999 | Joaquin Yarza, Arte y Arquitectura en España 500-1250, Ediciones Cátedra, Madrid, 1987 | Michel Zimmermann, “La formació d’una sobirania catalana (785-988) in in Catalunya a l’época carolíngia: art i cultura abans del romànic (segles IX e X), Diputació de Barcelona, Museu Nacional d’Art de Catalunya, Barcelona, 1999












domingo, 1 de janeiro de 2017

En medio de la plaza y sobre tosca piedra #7








Montserrat





1.
Por volta de 1180, Chrétien de Troyes escreveu O Conto do Graal, dedicado ao conde Felipe de Flandres. Nesta novela de cavalaria, a derradeira do autor e a primeira a mencionar o Graal, o herói Percival é um jovem criado num lugar retirado, pois sua mãe queria mantê-lo longe da vida de cavaleiro. Ignorante e estouvado, ele não sabia sequer seu próprio nome. Um dia, pela primeira vez ele viu um grupo de cavaleiros com armaduras brilhantes. Cheio de admiração, ele os tomou por Deus, pois sua mãe lhe ensinara que Deus era o que havia de mais belo. Eles responderam que eram cavaleiros e que o rei Artur é que fazia de alguém cavaleiro. Ardendo do desejo de tornar-se também um cavaleiro, Percival abandonou a mãe e se dirigiu a Camelot. Lá encontrou o rei muito triste porque havia sido ofendido e roubado pelo Cavaleiro Vermelho. Para vingar essa ofensa, o jovem perseguiu e matou o insolente. Acreditando que vestir uma armadura bastava para torná-lo cavaleiro, Percival se apoderou das armas do vencido e não pensou em voltar a Camelot para ser recompensado pela sua proeza.

Nas suas andanças a esmo, Percival conheceu o velho cavaleiro Gornemant de Goorz, que, para sanar a ignorância do rapaz, tratou de ensinar-lhe boas maneiras e adestrá-lo no manejo das armas. Percival, porém, era impaciente e partiu para novas aventuras. Ele se apaixonou pela princesa Brancaflor, a quem prometeu desposar assim que tivesse notícias de sua mãe (como Percival iria logo descobrir, ela havia morrido de tristeza no dia em que ela a abandonou).

A caminho da casa da mãe, ele abrigou-se num castelo no meio da floresta, onde foi recebido por um velho soberano consumido pela doença, o rei Pescador. No salão do castelo, Percival viu um espetáculo estranho: os criados passavam em procissão com uma lança que pingava sangue e uma jovem carregava um graal com uma hóstia. Percival queria muito saber a quem se dirigia o serviço do graal, mas lembrou que Gornemant de Goorz lhe havia ensinado que não era cortês fazer perguntas e, assim, calou-se. O rei Pescador foi levado aos seus aposentos e Percival adormeceu. Quando Percival despertou e partiu no dia seguinte, o castelo estava completamente vazio. Pouco tempo depois, ele encontrou uma dama misteriosa que lhe reprovou o não ter perguntado a quem servia o graal, pois se ele o fizesse, teria curado o rei Pescador e eliminado a maldição que há muitos anos tornara estéril as suas terras. Cheio de arrependimento, Percival tentou voltar ao castelo, mas não conseguiu encontrá-lo outra vez. 

Nesse ponto, o relato deixa as aventuras de Percival e passa às de Gauvain, sem relação direta com o mistério do Graal. Como Chrétien de Troyes morreu sem ter concluído a obra, o destino de Percival ficou em suspenso, o que suscitou várias continuações francesas do romance, bastante curiosas, mas insatisfatórias porque não davam uma resposta ao enigma do Graal e do rei Pescador.



2.
Na segunda década do século XIII, o alemão Wolfram von Eschenbach retomou o relato de Chrétien de Troyes no seu poema épico Parzival. Quer tivesse à disposição alguma fonte francesa que se perdeu, quer tomasse liberdade para inventar, o poeta referiu muitos pormenores ausentes nas versões anteriores, como o nome do rei Pescador – Anfortas – e do lugar onde se encontrava o castelo do Graal – o Monsalväsche. A epopeia de von Eschenbach serviu de ponto de partida para o Parsifal, de Richard Wagner. No libreto da ópera, o Monsalväsche se tornou o Montsalvat, montanha da Espanha onde vivia uma fraternidade de cavaleiros castos e puros a serviço de Anfortas, o rei Pescador, que presidia a cerimônia do Graal.

Havia muito tempo, um cavaleiro chamado Klingsor desejara fazer parte da fraternidade do Graal. Para se libertar da sensualidade, ele decidiu se castrar, mas nem isso conseguiu afastar seus pensamentos impuros. Expulso de Montsalvat, Klingsor quis vingar-se. Dominou a magia negra e construiu um castelo cercado por um jardim com jovens belíssimas, cuja missão era seduzir e corromper os cavaleiros do Graal. Com a ajuda de Kundry, mulher ambígua e misteriosa que conseguiu seduzir Anfortas, Klingsor se apoderou da lança sagrada com que o soldado romano Longino havia ferido Jesus, lança que fazia parte das relíquias guardadas em Montsalvat. Armado dela, Klingsor atingiu Anfortas, causando uma ferida que nunca se fechava e provocava dores atrozes.

Um dia, enquanto os cavaleiros leais procuravam amenizar o sofrimento do rei, o cavaleiro Gunermanz lhe avisou que tivera, num sonho, a revelação de que um tolo casto e cheio de compaixão iria curar para sempre aquela ferida. Nesse momento, Gunermanz ouviu os cavaleiros gritarem, pois, em pleno voo, um cisne – animal sagrado no castelo de Montsalvat – fora atingido por um flecha.  Apareceu, então, um jovem com um arco que disse ter matado o cisne. Censurado por Gunermanz, o jovem mostrou remorso pelo que fez, mas, quando foi indagado, ele não soube responder a nenhuma das perguntas que lhe foram dirigidas, nem mesmo se lembrava qual era o seu nome. Gunermanz o levou para ver a cerimônia em que Anfortas revelava o Graal aos cavaleiros. As dores do rei aumentavam quando se aproximava do Graal, pois ele se deixara seduzir e falhara em defender as relíquias sagradas, razão pela qual Anfortas relutava em realizar a cerimônia. Por um momento, o jovem sentiu em si as dores do rei, mas sem conseguir explicar-se, foi mandado embora por Gunermanz.

O jovem se dirigiu, então, para o reino de Klingsor. No jardim, Kundry chamou o jovem pelo nome que ele havia esquecido: Parsifal. Ele lhe perguntou como ela sabia o nome dele. Kundry contou que conheceu a mãe de Parsifal, como ela quis protegê-lo do destino de tornar-se cavaleiro e como ela morrera cheia de tristeza com a partida do filho. Parsifal sentiu remorso por ter causado sofrimento à mãe. Ardilosamente, Kundry lhe disse que, com um beijo, podia fazê-lo entender o amor que a mãe lhe tinha. Contudo, ao beijar Kundry, Parsifal sentiu as dores de Anfortas e, cheio de compaixão por ele, repeliu Kundry. Ela o amaldiçoou e chamou por Klingsor, que lhe atirou a lança sagrada, mas ela parou no ar sem feri-lo. Parsifal a apanhou e, quando se persignou com ela,  o castelo e o jardim de Klingsor desapareceram, restando apenas Kundry.

Por causa da maldição de Kundry, Parsifal só conseguiu regressar a Montsalvat muitos anos depois. Gunermanz então lhe relatou que, durante todos esses anos, Anfortas não mais realizara a cerimônia e, sem o sustento místico que o Graal provia, o velho Titurel, pai de Anfortas, havia morrido. Parsifal se sentiu mais uma vez avassalado pelo remorso, mas Gunermanz lhe disse que lhe cabia um importante dever. Ungido com água da fonte sagrada e com os pés banhados por Kundry, que agora estava livre do poder maléfico de Klingsor, Parsifal foi  levado à presença de Anfortas, que implorava  que lhe dessem fim ao sofrimento. Quando o cavaleiro encostou no rei a lança sagrada e o absolveu da antiga falta, a ferida se curou. Parsival ordenou, então, que o Graal fosse mais uma vez revelado. O coro de cavaleiros entoou: “Milagre da suprema salvação / Nosso Redentor foi redimido”. O Graal brilhou com toda intensidade. Uma pomba desceu do domo e Kundry desabou sem vida. Gunermanz e Anfortas, cheios de reverência, ajoelharam-se diante de Parsifal.



3.
A propósito da ópera de Wagner, Dieter Borchmeyer comenta:

“O fim é o começo, a restitutio in integrum, restaurar todas as coisas e, ao mesmo tempo, marcar um novo começo.  Esta é a mensagem que se podia ouvir no final do Crepúsculo dos Deuses. O retorno cíclico ao estado original de perfeição: esta é a ideia clássica de apokatástasis pánton, um termo emprestado dos Atos dos Apóstolos, 3, 21, que pode ser traduzido como “a restituição de todas as coisas” e viria a ser importante para a inteira tradição cristã.  Ele é frequentemente associado à ideia heraclitiana de ekpyrosis, a dissolução do mundo no elemento primevo do fogo do qual surgiu (neste contexto, o fogo deve ser entendido no sentido de spérma, a semente da qual o mundo nasce). Esta ideia, também, é fundamental para o conceito wagneriano do Anel dos Nibelungos, cujo final marca a ‘restituição de todas as coisas’ na forma de um retorno às puras sonoridades da série harmônica natural desanuviada de qualquer cromatismo. 

Também no final de Parsifal encontramos uma restitutio in integrum, simbolizada pela reunião de dois objetos que haviam sido separados, a lança, que foi devolvida a Montsalvat, e o Graal, que mais uma vez brilha forte em toda a sua pureza. Ambos os objetos estão associados com Cristo: a lança feriu-lhe o flanco quando ele estava suspenso na cruz, e o Graal é o vaso no qual seu sangue escorreu. Na cena final, Parsifal levanta seus olhos para a lança sagrada e diz a Anfortas:  “Desta lança com a qual é possível fechar a sua ferida/ Eu vejo o sangue sagrado fluindo no seu anseio por sua fonte irmã, que flui e mana dentro do Graal”.
Aqui também o final significa o retorno cíclico ao começo numa forma intensificada. (...) A comunidade do Graal é restaurada. O mundo alternativo de Klingsor é esconjurado, e a natureza volta à sua inocência paradisíaca. O Cristianismo é destituído de sua historicidade em Parsifal e é devolvido à estrutura reiterativa dos mitos. De acordo com Kurt Hübner, ‘ele é colocado num mundo mitológico e num tempo mitológico, em nenhum lugar e em época nenhuma’.(...)

Como Hans Küng indicou, o ‘tema principal’ de Parsifal é ‘ a nossa participação no processo de redenção, com clara ênfase no nosso envolvimento ativo no processo, sem que o anterior ato redentor divino em Cristo seja por isso negado ou superado’.”
(Drama and the World of Richard Wagner, Princeton University Press, New Jersey, 2003 pp. 238-240; 241)



4.
Parsifal estreou no festival de Bayreuth de julho de 1882. Nietzsche, cuja amizade com Wagner terminara em 1878, recusou-se a assistir à première, mas estudou o libreto, que só fez aumentar o seu desprezo contra o antigo amigo, ídolo e mentor. Poucos meses mais tarde, no dia 13 de fevereiro de 1883, Wagner faleceu em Veneza (a respeito da relação de Wagner com Veneza, que se leia o meu Il moto non è diverso dalla stasi #5). Embora abalado física e emocionalmente com a notícia, Nietzsche sentiu um grande alívio, como relata na carta a Peter Gast, de 19 de fevereiro:

“Durante alguns dias estive muito enfermo, causando alguma preocupação aos donos da casa. A situação agora está melhor e até acredito que a morte de Wagner tenha sido o maior alívio que podia experimentar. Durante seis anos foi duro ser adversário daquele a quem mais se venerou e minha natureza não é suficientemente tosca para isso. Afinal, foi contra o Wagner envelhecido que tive que defender-me; no que diz respeito ao Wagner em sentido próprio, quero ser em boa parte seu herdeiro (...)”.
(Correspondência in Obras Completas, volume V, Aguilar, Buenos Aires, 1963, p. 582)

A partir daí, Nietzsche se sentiu livre para atacar o legado do Wagner envelhecido. Primeiro de maneira alusiva, como nesta passagem de Assim falou Zaratustra, que retoma de maneira paródica o verso final de Parsifal:

“Causam-me pena esses sacerdotes. Sem dúvida repugnam-me ao meu gosto, mas isso, para mim, é o de menos, desde que estou entre os homens.
Eu, porém sofro e sofri por eles: são, a meu ver, prisioneiros e marcados com ferrete. Aqueles que a quem chamam de Redentor, impôs-lhe grilhões...
Grilhões de falsos valores e de palavras ilusórias! Ah, se alguém os redimisse do seu Redentor!”
(Assim falou Zaratustra, Segunda Parte, “Dos Sacerdotes”, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1987)

O ataque se tornou frontal e obsessivo nos escritos de Turim, pouco antes do colapso mental: O caso Wagner e Nietzsche contra Wagner, no qual se lê:

“O ‘Parsifal’ é um assunto de opereta por excelência... Seria por acaso o ‘Parsifal’ de Wagner seu riso secreto de superioridade sobre si mesmo, o triunfo de sua última e suprema liberdade de artista, seu mais além como artista: Wagner sabe rir de si mesmo?... Como disse, seria algo a se desejar. Porque, o que seria um ‘Parsifal’ pensado seriamente? Há necessidade de ver nele (segundo uma expressão usada contra mim) ‘o parto de um ódio louco contra o conhecimento, contra o espírito e a sensualidade’? Um anátema e uma conversão aos ideais cristãos, mórbidos e obscurantistas?  E, por último, até um renegar de si mesmo, um deturpar-se a si mesmo, realizado por um artista que até agora, com todo o poder de sua vontade havia mirado em sentido oposto, no sentido de uma extrema espiritualização e sensualização da arte? E não somente de sua arte, mas também de sua vida? Não se esqueça com que entusiasmo Wagner seguiu as pegadas do filósofo Feuerbach. A frase de Feuerbach sobre a ‘sensualidade sadia’ ressou nos ouvidos de Wagner, como em muitos ouvidos alemães (chamavam-se os jovens alemães), como uma palavra de redenção. Teria mudado de parecer nesse ponto? Por qual razão parece que teve vontade de mudar de ensinamento sobre esse ponto no último momento? O ódio contra a vida se apoderou dele como de Flaubert?... Porque ‘Parsifal’ é um obra de rancor, de avidez, de vingança, de secreto envenenamento das fontes da vida, é uma “má obra”. A predicação da castidade é uma incitação contra a natureza: eu desprezo todo aquele que não considere ‘Parsifal’ como um atentado contra a moral”.
(Nietzsche contra Wagner in Obras Completas, volume XI, Aguilar, Buenos Aires, 1963, p. 212-3)



5.
Em 1935, Heinrich Himmler, Walther Darré e Herman Wirth, todos eles admiradores de Wagner e de Nietzsche, fundaram a "Sociedade para Investigação e Ensino da Herança Ancestral Alemã", conhecida como Ahnenerbe. Para provar a antiguidade e a superioridade da raça ariana, a instituição promovia escavações arqueológicas, estudo de peças de grande valor histórico como a Tapeçaria de Bayeux, pesquisas antropométricas e experimentos médicos com prisioneiros dos campos de concentração. Himmler tinha grande interesse por ocultismo e estava especialmente disposto a encontrar certos objetos lendários aos quais a tradição atribuía grande poder, como o Graal.

Na tradição alemã que vai de Wolfram von Eschenbach a Richard Wagner, o Graal se encontrava num lugar chamado Monsalväsche ou Montsalvat.  Aqueles que acreditavam na existência real desse objeto poético que é o Graal, pensavam que se tratar de Mont Segur, refúgio dos cátaros no século XIII, ou de Montserrat, onde monges beneditinos se estabeleceram desde o final do século IX, depois que uma imagem da Virgem Maria foi descoberta por crianças que apascentavam cabras naqueles rochedos escarpados. Foi neste famoso santuário catalão que o capitão basco Iñigo Lopez, leitor voraz de novelas de cavalaria e da vida dos santos, passou uma noite em preces antes de abandonar os prazeres mundanos e tornar-se um asceta na gruta de Manresa, ao pé da montanha. Era o ano de 1521. Nas duas décadas que se seguiram, esse Parsifal hispânico viria a ser conhecido como Inácio de Loyola e fundaria a Companhia de Jesus. 

Diz-se que Himmler procurou imitar a estrutura hierárquica jesuítica ao organizar as SS. Fosse por isso ou por algum razão ainda mais obscura, Heinrich Himmler fez uma rápida visita ao Mosteiro de Montserrat na tarde de 23 de outubro de 1940. No mesmo dia, Hitler teve seu primeiro e único encontro com o ditador Francisco Franco na estação de Hendaye. Com o país arruinado pela recente guerra civil e sem obter de Hitler a promessa de um futuro domínio espanhol sobre o Norte da África, o Generalíssimo recusou aliar-se aos alemães. Da Espanha, Hitler e Himmler saíram de mãos vazias. Um, sem o desejado apoio militar, o outro, sem o elusivo Graal. 



6.
Quase quinhentos anos depois de Inácio de Loyola e setenta e cinco anos depois de Himmler, Ludmila e eu também fomos a Montserrat. Contudo, não vínhamos como penitentes, pois de nada nos arrependíamos, tampouco estávamos em demanda do Graal, contra a qual nos vacinara um filme do Monty Python que assisti vezes sem conta. Simplesmente entramos na basílica, rendemos visita à Moreneta, a estatueta negra da Virgem, e ficamos muito tempo na bela pinacoteca do mosteiro, antes de subirmos às trilhas no topo do maciço. Foi lá que vimos o pôr do sol daquele 29 de janeiro de 2015. De lá não se ouvia o ruído da história. Só o farfalhar do vento nos arbustos. Não precisávamos de redentores nem de redenção.