quinta-feira, 26 de maio de 2016

A claraboia e o holofote #30 (IV)





Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista





 Lenin




 Uma entrevista com Lenin:
o argumento de ponta a ponta


As regras eram as mesmas que adotamos na entrevista com Rosa Luxemburg (A claraboia e o holofote #29 XIV) Conforme a Primeira Diretriz Temporal, deveríamos evitar qualquer referência aos fatos posteriores àquela noite do começo de outubro (calendário juliano) de 1917. A agitação tomava as ruas de Petrogrado, fazia frio e o tempo era escasso, mas Vladimir Ilitch não se furtou a enunciar alguns de seus pontos de vista e elucidar algumas de suas teses.


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O sobrinho de Enesidemo: Como o sr. vê a situação atual na Rússia?

Lenin: Na Rússia, é indubitável o momento da viragem da revolução. Graças ao engano dos socialistas-revolucionários e mencheviques, permaneceu e permanece sob a república, durante a revolução, ao lado dos Sovietes, o governo dos capitalistas e latifundiários. Tal é a amarga e terrível realidade. Que tem pois de surpreendente que na Rússia, com as inauditas calamidades causadas ao povo pelo prolongamento da guerra imperialista e pelas suas consequências, tenha começado e cresça a revolução camponesa? O editorial do Delo Narodna, órgão oficial do partido socialista-revolucionário oficial, o mesmo que constantemente apoiou a coligação governante, dizia no último 29 de setembro:  “Até este momento quase nada se fez para suprimir as relações de servidão que ainda dominam no campo precisamente na Rússia central.” Será possível encontrar testemunho mais eloquente vindo do campo dos nossos adversários que confirme não só que a coligação faliu, não só que os socialista-revolucionários oficiais, que toleram Kerenski, se tornaram um partido antipopular, anticamponês, contra-revolucionário, mas também que toda a revolução russa chegou a uma viragem? A vitória da revolução está agora assegurada aos bolcheviques. Estou profundamente convencido de que se esperarmos pelo congresso dos Sovietes e deixarmos passar agora o momento, deitaremos a perder a revolução.

O sobrinho de Enesidemo: Gostaria que o sr. esclarecesse dois pontos a respeito dessa sua última frase. Primeiro, a ala reformista da social-democracia alemã qualifica de “blanquismo” o ímpeto insurrecional dos socialistas mais radicais ou mais afoitos, entre os quais eles incluem o seu nome. Segundo, atualmente os partidos da Rússia duvidam que os bolcheviques possam tomar do poder. 

Lenin: A respeito do primeiro ponto, só tenho a responder que esses oportunistas, à frente dos quais está o tristemente famoso Bernstein, esquecem-se de que o próprio Marx disse que a insurreição é uma arte. Para ter êxito, a insurreição deve apoiar-se não numa conjuração, não num partido, mas na classe avançada. A insurreição deve apoiar-se no ascenso revolucionário do povo, num momento de viragem, em que a atividade das fileiras avançadas do povo seja forte e os inimigos vacilem. Quem se nega a tratar a insurreição como arte trai o marxismo e trai a revolução.
Quanto ao segundo ponto, todas as correntes partidárias, desde os democratas-constitucionalista-kornilovistas até os semi-bolcheviques, todos, com exceção dos bolcheviques, concordam que os bolcheviques sozinhos ou nunca se decidirão a tomar todo o poder de Estado nas suas mãos, ou se se decidirem e o tomarem, não poderão conservá-lo mesmo pelo mais curto período de tempo. Os democratas-constitucionalistas e os burgueses se esforçam por nos intimidar com as tarefas pretensamente insolúveis do poder, mas não devemos nos intimidar pelos gritos dos burgueses intimidados. Devemos nos lembrar firmemente de que nunca nos colocamos tarefas sociais “insolúveis”, todavia as tarefas perfeitamente solúveis dos passos imediatos para o socialismo só serão resolvidas pela ditadura do proletariado e do campesinato pobre. Mais do que nunca, mais do que em qualquer outro lugar, a vitória, e uma vitória duradoura, está assegurada ao proletariado na Rússia se tomar o poder.

O sobrinho de Enesidemo: O proletariado tem condições de atualmente conquistar o poder de Estado?

Lenin: Essa questão aponta para uma das tarefas mais sérias, mais difíceis, que se colocarão ao proletariado vitorioso. Não há dúvida que estas tarefas são muito difíceis, mas se nos esquivarmos ao cumprimento de tais tarefas, na prática será nula diferença entre nós e os servidores da burguesia. A dificuldade das tarefas da revolução proletária deve estimular os partidários do proletariado a um estudo mais atento e concreto dos meios para realizar essas tarefas.

O sobrinho de Enesidemo: O proletariado estaria qualificado para administrar o Estado?

Lenin: Não somos utopistas. Sabemos que um operário ou uma cozinheira não são capazes neste momento de começar a dirigir o Estado, mas rompemos com o preconceito de que administrar o Estado é coisa para os ricos ou funcionários provenientes de famílias ricas. Nós exigimos que a aprendizagem dos assuntos da administração do Estado seja realizado pelos operários e soldados conscientes.

O sobrinho de Enesidemo:  O que o sr. pensa a respeito dessa passagem do Manifesto Comunista, que se encontra no final da seção II:

“Vimos que a primeira fase da revolução proletária é a elevação do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia.
O proletariado usará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo o capital da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, o proletariado organizado como classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível o total das forças produtivas.
Isso naturalmente só poderá ser realizado, a princípio, por intervenções despóticas no direito de propriedade e nas relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção. (...)
Quando, no curso do desenvolvimento, desapareceram os antagonismos de classe e toda a produção for concentrada nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se organiza forçosamente como classe, se por meio de uma revolução se converte em classe dominante e como classe dominante destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói, juntamente com essas relações de produção, as condições de existência dos antagonismos entre as classes, destrói as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.
Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e seus antagonismos de classes, surge uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.”

O sr. acredita que a revolução em curso neste mês de outubro é a autêntica realização dessas palavras de Marx e Engels?

Lenin: Nessa passagem se encontram algumas das ideias mais notáveis do marxismo a respeito da questão do Estado. O Estado, como Engels disse em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, é um produto e a manifestação do caráter inconciliável da luta de classes. O Estado surge precisamente quando as contradições de classe não podem ser conciliadas. A existência do Estado não pode ser dissociada da luta de classes e da opressão de uma classe por outra. Portanto, a classe operária revolucionária vitoriosa exercerá sua dominação sobre a burguesia. A partir da Comuna de Paris, Marx e Engels passaram a chamar de “ditadura do proletariado” aquilo que no Manifesto aparece como “o Estado, isto é, o proletariado organizado como classe dominante”. Essa definição do Estado, absolutamente inconciliável com o reformismo, é uma verdadeira bofetada na cara dos preconceitos oportunistas habituais e das ilusões filistinas quanto ao desenvolvimento pacífico da democracia.
Note que a única correção que Marx julgou necessário fazer nessas palavras do Manifesto Comunista foi feita por ele na base da experiência revolucionária dos communards parisienses.

O sobrinho de Enesidemo: No entanto, é bastante conhecido que antes da Comuna, em outubro de 1870, num dos manifestos da Associação Internacional do Trabalho, Marx advertiu os operários parisienses que a tentativa de derrubar o governo seria uma besteira desesperada.

Lenin: Sim, mas é também verdade que, em março de 1871, quando a batalha decisiva se impôs aos operários, Marx a saudou com o maior entusiasmo e não só pelo heroísmo dos communards! No movimento revolucionário das massas, se bem que não tivessem atingido o seu fim, Marx via uma experiência histórica com uma importância imensa, um passo em frente da revolução proletária mundial. Analisar esta experiência, tirar dela lições de tática, rever na base dela a sua teoria, eis como Marx colocou a sua tarefa.

O sobrinho de Enesidemo: Uma análise concreta da situação concreta, como o sr. costuma dizer.

Lenin: No último prefácio que Marx e Engels assinaram juntos da edição alemã do Manifesto Comunista, datado de 1872, lê-se que “a Comuna forneceu a prova de que a classe operária não pode limitar-se a tomar conta da máquina de Estado que encontra montada e pô-la em funcionamento para atingir seus próprios objetivos”. Noventa e nove por cento dos leitores do Manifesto Comunista ignoram o sentido dessa correção. Marx ensinou, com base na experiência da Comuna de Paris, que o proletariado não pode simplesmente apossar-se da máquina do Estado, que o proletariado tem de destruir essa máquina e substitui-la por uma nova. Falo disso mais pormenorizadamente numa brochura de que a primeira parte já está terminada e que em breve se publicará com o título O Estado e a Revolução. A doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na revolução. Essa nova máquina do Estado foi criada pela Comuna de Paris, e os Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses russos são um “aparelho de Estado” do mesmo tipo. Eu apontei muitas vezes esta circunstância desde 4 de abril.

O sobrinho de Enesidemo: Mesmo assim, desde fevereiro, os sovietes não tiveram resultados satisfatórios diante dos problemas vividos pelas massas...

Lenin: Os sovietes nunca tiveram a plenitude do poder, e suas medidas nunca puderam ser mais que paliativos que aumentaram a confusão. O método da burguesia consiste em, não dando o poder aos Sovietes, sabotando todos os seus passos sérios, conservando o governo e o poder, atirar para cima dos sovietes toda a culpa pela ruína!

O sobrinho de Enesidemo: E quais seriam os méritos dos sovietes?

Lenin: Os sovietes são um novo aparelho de Estado que, em primeiro lugar, proporciona a força armada dos operários e dos camponeses, e esta força não está, como a força do velho exército permanente, separada do povo, mas ligada a ele do modo mais estreito. Em segundo lugar, este aparelho proporciona uma ligação estreita e indissolúvel com as massas. Em terceiro lugar, em virtude da elegibilidade e da amovibilidade de sua composição, sem formalidades burocráticas, é muito mais democrático que os anteriores. Em quarto lugar, proporciona uma forma de organização de vanguarda, isto é, da parte mais consciente, mais enérgica e mais avançada das classes oprimida, sendo desta maneira um aparelho mediante o qual a vanguarda da classe oprimida pode elevar, educar, instruir e guiar toda a gigantesca massa dessa classe, que estava fora da vida política, fora da história. Em quinto lugar, proporciona a possibilidade de reunir as vantagens do parlamentarismo com as vantagens da democracia imediata e direta, isto é, de unir na pessoa dos representantes do povo tanto a função legislativa como a execução das leis. Em comparação com o parlamentarismo burguês, isto é um passo em frente no desenvolvimento da democracia que tem importância histórica mundial.

O sobrinho de Enesidemo: Como o sr. vê a exigência de democracia, tão importante para marxistas revolucionários como Rosa Luxemburg ou Anton Pannekoek?

Lenin: A democracia tem uma importância enorme na luta da classe operária contra os capitalistas pela sua libertação. Mas a democracia não é de nenhum modo um limite intransponível, mas apenas uma das etapas no caminho do feudalismo para o capitalismo e do capitalismo para o comunismo.

O sobrinho de Enesidemo: O sr. quer dizer que a democracia não seria um estado final ou uma meta, mas um momento transitório e contraditório do processo?

Lenin: É exatamente isso. A república democrática é o melhor invólucro político possível para o capitalismo. O capital, depois de se ter apoderado deste invólucro, alicerça o seu poder tão solidamente, tão seguramente, que nenhuma substituição de pessoas, de instituições ou de partidos na república democrática burguesa abate esse poder. O resultado é uma democracia numa insignificante minoria, democracia para os ricos, tal é o democratismo das sociedades capitalistas. Se se observa de perto o mecanismo da democracia capitalista, veremos por todo lado restrições, exceções, exclusões e obstáculos para os pobres. No conjunto, essas restrições eliminam os pobres da participação ativa na democracia.  Mesmo assim, a república democrática é a melhor forma de Estado para o proletariado sob o capitalismo, mas não se pode esquecer que a escravatura assalariada é o destino do povo mesmo na república burguesa mais democrática.

O sobrinho de Enesidemo: Diferentemente do sr., Rosa Luxemburg vê a democracia não apenas como uma forma de Estado, mas também como uma meta e uma característica das lutas emancipatórias do proletariado.

Lenin: A democracia é uma forma de Estado, uma das suas variedades. E, consequentemente, ela representa, como qualquer Estado, a aplicação organizada e sistemática da violência sobre as pessoas. Isto por um lado. Mas, por outro lado, significa o reconhecimento formal da igualdade entre os cidadãos, do direito igual para todos de determinar a organização do Estado e de o dirigir. E isto, por sua vez, liga-se ao fato de que num certo grau de desenvolvimento da democracia, ela, em primeiro lugar, une a classe revolucionária que está contra o capitalismo e permite ao proletariado demolir a máquina do Estado, o exército, a polícia, o funcionalismo, e substituí-los por uma máquina de Estado mais democrática, mas ainda uma máquina de Estado, sob a forma das massas operárias armadas.

O sobrinho de Enesidemo: Não haveria maneira de dissociar a democracia do exercício da violência por parte de um Estado?

Lenin: Não se quisermos continuar marxistas revolucionários. A ideia de que a república democrática é a via de acesso mais próxima para a ditadura do proletariado perpassa como um fio vermelho toda a obra de Marx. A doutrina da luta de classes, aplicada à questão do Estado e da revolução socialista, conduz necessariamente ao reconhecimento do domínio político do proletariado, da sua ditadura, isto é, de um poder não-partilhado com ninguém e que se apoia diretamente na força armada das massas. O derrubamento da burguesia só pode ser realizado pela transformação do proletariado em classe capaz de reprimir a resistência inevitável e desesperada da burguesia e de organizar para um novo regime de economia todas as massas trabalhadoras e exploradas. Lembre-se que a passagem do Manifesto Comunista que discutimos identifica a conquista da democracia com a elevação do proletariado à classe dominante, que fará intervenções despóticas para destituir a burguesia de todo o seu capital.

O sobrinho de Enesidemo: A revolução operária e a consequente ditadura do proletariado não trazem em si o germe de um governo autoritário?

Lenin: Como poderia ser de outro modo! Engels escreveu que “uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que existe, um ato pelo qual uma parte da população impõe sua vontade à outra parte por meio de espingardas, baionetas e canhões – meios todos eles muito autoritários; e o partido que triunfou tem de afirmar o seu domínio por meio do medo que suas armas inspiram aos reacionários.
Só quando a resistência dos capitalistas estiver definitivamente quebrada, quando não houver mais classes, só então o Estado desaparecerá e se poderá falar em liberdade. Só então se tornará possível e será realizada uma democracia verdadeiramente plena. E só então a democracia começará a extinguir-se devido à simples circunstância de que, libertos da escravatura capitalista, os homens habituar-se-ão a observar as regras elementares de convivência sem o aparelho especial de coação chamado Estado.
De qualquer modo, o desenvolvimento da democracia até o fim, a procura de formas desse desenvolvimento, a sua comprovação na prática, etc., tudo isso é uma das tarefas integrantes da luta pela revolução social.

O sobrinho de Enesidemo: O que deve acontecer com o Estado logo após a vitória do proletariado?

Lenin: Além do aparelho predominantemente de opressão do exército permanente, da polícia e do funcionalismo, existe no Estado atual um aparelho ligado de modo particularmente estreito aos bancos e às associações de empresas. Trata-se de um aparelho que efetua grande quantidade de trabalho de cálculo e registro. Este aparelho não pode nem deve ser destruído. Sem os grandes bancos, o socialismo é irrealizável.  Registro e controle – eis o principal que é necessário para a organização e para o funcionamento regular da primeira fase da sociedade comunista. Toda sociedade será um único escritório e uma imensa fábrica, com igualdade de trabalho e igualdade de salário.
Um social-democrata alemão muito espirituoso disse que os correios eram um modelo de empresa socialista. Isso é justo. Os correios são agora uma empresa organizada segundo o tipo de monopólio capitalista de Estado. O imperialismo está transformando progressivamente todos os trusts em organizações de tipo semelhante. Quando derrubados os capitalistas, quebrada a resistência dos exploradores, demolida a máquina burocrática do Estado, então teremos diante de nós um mecanismo de elevado equipamento técnico. Toda a economia nacional será organizada como os correios, de forma que todos os funcionários recebam um vencimento que não exceda um salário de operário, sob o controle e a direção do proletariado armado: eis o nosso fim imediato.

O sobrinho de Enesidemo: Essa disciplina férrea não se tornará uma nova forma de opressão?

Lenin: A disciplina fabril que o proletariado, depois de ter vencido os capitalistas e derrubado os exploradores, tornará extensiva a toda sociedade, não é de forma alguma nem o nosso ideal nem o nosso objetivo final, mas apenas um degrau necessário para limpar radicalmente a sociedade da baixeza e das ignomínias da exploração capitalista e para continuar o movimento para frente.

O sobrinho de Enesidemo:  Para encerrar, o sr. diria que a revolução socialista deve destruir a máquina do Estado e, ao mesmo tempo, manter a máquina do Capital?

Lenin: É mais exato dizer que o socialismo não pode ser imaginado sem a técnica do grande capital. 



***

Poucos dias depois da entrevista, a população de Petrogrado recebeu este comunicado escrito por Lenin:



Aos cidadãos da Rússia!

O Governo Provisório foi deposto. O poder de Estado passou para as mãos dos órgãos do Soviete de deputados operários e soldados de Petrogrado – o Comitê Militar Revolucionário -, que se encontra à frente do proletariado e da guarnição de Petrogrado.
A causa pela qual o povo lutou – a procura imediata de uma paz democrática, a supressão da propriedade privada latifundiária da terra, o controle operário sobre a produção, a criação de um Governo Soviético – esta causa está assegurada.
Viva  a revolução dos operários, soldados e camponeses!
25 de outubro de 1917, 10 da manhã
(7 de novembro, no calendário gregoriano)

Caminhei devagar junto ao Nieva, pensando no Cavaleiro de Bronze e em Crime e Castigo. Três jovens bolcheviques que passavam me olharam com desconfiada curiosidade. É bem possível que jamais tivessem visto antes o rosto de um cético. 


***



As respostas de Lenin foram tomadas das seguintes obras: O Estado e a Revolução | A crise amadureceu | Marxismo e insurreição | Os bolcheviques conservarão o poder? Sobre o infantilismo esquerdista e o espírito pequeno-burguês in V.I. Lenin, Obras Escolhidas, tomo 2, Edições Avante e Edições Progresso, Moscou, 1978


***

Thaís Florencio Aguiar, Demofilia e demofobia: dilemas da democratização, Azougue Editorial, Rio de Janeiro, 2015 | Tom Bottomore (editor), Dicionário do Pensamento Marxista, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997 | François Chatelet  (editor), Dicionário de Obras Políticas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1993 | Monty Johnstone, “Lenin e a Revolução” in História do Marxismo volume 5, Eric Hobsbawn (org.), Paz e Terra, 1985 | Tamás Krausz, Reconstructing Lenin: an intelectual biography, Monthly Review Press, New York, 2015 | Robert Kurz, O Colapso da Modernização, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1976 | George Labica (editor), Dictionnaire Critique du Marxisme, Presses Universitaires de France, Paris, 1982 | George Lichtheim, El Marxismo: un estudio histórico y crítico, Editorial Anagrama, Barcelona s/d | Domenico Losurdo, A luta de classes: uma história política e filosófica, Boitempo, São Paulo, 2016 | Michal Reiman, “Os bolcheviques desde a guerra mundial a outubro” in História do Marxismo volume 5, Eric Hobsbawn (org.), Paz e Terra, 1985 | Robert Service, Lenin: a biography, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 2000





Ein Marxist hat nicht das Recht, Pessimist zu sein. 


вся власть Советам!














quarta-feira, 27 de abril de 2016

A claraboia e o holofote #30 (III)






Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista





 Lenin


O Estado e a Revolução



"Também aqui a doutrina de Marx, como sempre,
 é um balanço da experiência iluminado 
por uma profunda visão filosófica do mundo 
e um rico conhecimento da história".
(O Estado e a Revolução, capítulo II)
  

2. Uma Antologia


Prefácio

A questão do Estado adquire atualmente uma importância particular tanto no aspecto teórico como no aspecto político-prático. A guerra imperialista acelerou e acentuou extraordinariamente o processo de transformação do capitalismo monopolista em capitalismo monopolista de Estado. A monstruosa opressão das massas trabalhadoras pelo Estado, que se funde cada vez mais estreitamente com as uniões onipotentes de capitalistas, torna-se cada vez mais monstruosa. Os países avançados transformam-se – falamos da sua ‘retaguarda’ – em presídios militares para os operários.
Os horrores e as calamidades inauditas da guerra que se prolonga tornam a situação das massas insuportável, aumentam a sua indignação. A revolução proletária internacional amadurece visivelmente. A questão da sua atitude em relação ao Estado adquire uma importância prática.’
(p. 223)


Capítulo I 

A sociedade de classe e o Estado

O Estado é o produto e a manifestação do caráter inconciliável das contradições de classe. O Estado surge precisamente onde, quando e na medida em que as contradições de classe objetivamente não podem ser conciliadas. E inversamente: a existência do Estado prova que as contradições de classes são inconciliáveis.
(...)
Segundo os professores e publicistas pequeno-burgueses e filisteus – frequentemente com referências benevolentes a Marx! – o Estado precisamente concilia as classes. Segundo Marx, o Estado é um órgão de dominação de classe, um órgão de opressão de uma classe sobre outra, é a criação da ‘ordem’ que legaliza e consolida esta opressão moderando o conflito de classes. Segundo a opinião dos políticos pequeno-burgueses, a ordem é precisamente a conciliação das classes e não a opressão de uma classe por outra.
(p. 226)

Por outro lado, a deturpação kautskiana do marxismo é muito mais sutil. ‘Teoricamente’ não se nega nem que o Estado seja um órgão de dominação de classe nem que as contradições de classe sejam inconciliáveis. Mas perde-se de vista ou esbate-se o seguinte: se o Estado é o produto do caráter inconciliável das contradições de classe, se ele é um poder que está acima da sociedade e que ‘cada vez mais se aliena da sociedade’, então é evidente que a emancipação da classe oprimida é impossível não só sem uma revolução violenta mas também sem a destruição do aparelho do poder de Estado que foi criado pela classe dominante e no qual está encarnada esta ‘alienação’. Esta conclusão, teoricamente clara por si mesma, foi tirada por Marx, como veremos mais adiante, com a mais completa precisão, na base histórica concreta das tarefas da revolução. E e precisamente esta conclusão que Kaustky ‘esqueceu’ e adulterou.
 (p. 227)

[A organização armada espontânea da população] é impossível porque a sociedade da civilização está dividida em classes hostis e, além disso, inconciliavelmente hostis, cujo armamento ‘espontâneo’ conduziria a uma luta armada entre elas. Forma-se o Estado, cria-se uma força especial, destacamentos especiais de homens armados, e cada revolução, ao destruir o aparelho de Estado, mostra-nos uma luta de classes descoberta, mostra-nos claramente como a classe dominante se esforça por reconstruir os destacamentos especiais de homens armados que a servem, como a classe oprimida se esforça por criar uma nova organização deste gênero, capaz de servir não aos exploradores, mas os explorados.
(p. 228)

Atualmente, o imperialismo e a dominação dos bancos ‘desenvolveram’ até uma arte extraordinária ambos estes métodos de defender e pôr em prática a onipotência da riqueza em quaisquer repúblicas democráticas. Se, por exemplo, logo nos primeiros meses da república democrática na Rússia, poder-se-ia dizer durante a lua-de-mel do casamento dos ‘socialistas’ – dos socialistas-revolucionários e dos mencheviques – com a burguesia no governo de coligação, o sr. Paltchinski sabotou todos as medidas para domar os capitalistas e o seu banditismo, a sua pilhagem do tesouro por meio dos fornecimentos de guerra, se depois de ter saído do ministério o sr. Paltchinski (substituído, naturalmente, por um outro Paltchinski, absolutamente igual) foi ‘premiado’ pelos capitalistas com um lugarzinho com um vencimento de 120.000 rublos por ano, então o que é isto? Corrupção direta ou indireta? Uma aliança do governo com os consórcios capitalistas, ou ‘apenas’ relações amistosas? (...)
A onipotência da ‘riqueza’ também está mais segura numa república democrática porque não depende de determinados defeitos do mecanismo político, do mau invólucro político para o capitalismo. A república democrática é o melhor invólucro político possível para o capitalismo, e por isso o capital, depois de ter se apoderado deste invólucro, que é o melhor, alicerça o seu poder tão solidamente, tão seguramente, que nenhuma substituição, nem de pessoas, nem de instituições, nem de partidos nas repúblicas democráticas burguesas abala este poder.
(pp. 230-1)


[As duas citações fundamentais de Engels]
O proletariado toma o poder de Estado e começa por transformar os meios de produção em propriedade do Estado. Mas, com isto, suprime-se a si próprio como proletariado, com isso suprime todas as diferenças de classes e antagonismo de classes, e com isto também o Estado como Estado. A sociedade anterior, que se movia em antagonismos de classe, precisava do Estado, isto é de uma organização da respectiva classe exploradora para manutenção das suas condições exteriores de produção, nomeadamente, portanto para a repressão violenta da classe explorada nas condições de opressão dadas pelo modo de produção vigente (escravidão, servidão feudal, trabalho assalariado). O Estado era o representante oficial de toda a sociedade, a súmula desta num corpo visível, mas era-o apenas na medida em que era o Estado daquela classe que representava ela própria, para o seu tempo, toda a sociedade: na Antiguidade o Estados dos cidadãos proprietários de escravos, na Idade Média da nobreza feudal, no nosso tempo da burguesia. Ao tornar-se, por fim, efetivamente, representante de toda a sociedade, a si próprio se torna supérfluo. Assim que deixa de haver uma classe social a manter na opressão, assim que são eliminados, a par do domínio de classe e da luta, fundada na anarquia da produção anteriormente existente, pela existência individual, também as colisões e excessos deles resultantes, já nada mais há a reprimir que torne necessária uma força especial para a repressão, um Estado. O primeiro ato em que o Estado surge realmente como representante de toda a sociedade – a tomada de posse dos meios de produção em nome da sociedade – é, ao mesmo tempo, o seu último ato autônomo como Estado. A intervenção de um poder de Estado em relações sociais torna-se supérfluo num domínio após o outro, adormecendo, então, por si próprio. Em lugar do governo sobre pessoas surge a administração de coisas e a direção dos processos de produção. O Estado não é ‘abolido’, extingue-se. Portanto, por aqui se há-de aferir a frase sobre o ‘Estado livre do povo’, tanto no que toca à sua justificação temporária de agitação como no que toca à sua definitiva insuficiência científica; por aqui, igualmente, se há-de aferir a reivindicação dos chamados anarquistas, segundo a qual o Estado devia ser abolido de hoje para amanhã. (Anti-Dühring)

Que a violência, porém, ainda desempenha outro papel na história (além do de ser agente do mal), um papel revolucionário, que ela, nas palavras de Marx, é a parteira de toda a velha sociedade que anda grávida com uma nova, que ela é o instrumento com o qual o movimento social se realiza e quebra formas políticas petrificadas, mortas – sobre isso não há uma palavra do senhor Dühring. Só com suspiros e gemidos admite a possibilidade de talvez vir a ser necessária a violência para o derrubamento da economia de exploração – infelizmente!, pois todo o uso da violência desmoraliza quem a usa. E isto em face do elevado ascenso moral e espiritual que era a consequência de toda a revolução triunfante! E isto na Alemanha, onde um choque violento, a que o povo pode vir a ser obrigado, teria pelo menos a vantagem de exterminar o servilismo que penetrou na consciência nacional a partir da humilhação da Guerra dos Trinta Anos. E este modo de pensar de pregador, débil, sem seiva nem vigor, reivindica impor-se ao partido mais revolucionário que a história conhece? (Anti-Dühring) 
(pp. 232-3; 235)


A substituição do Estado burguês pelo proletário é impossível sem a revolução violenta. A supressão do Estado proletário, isto é, a supressão de todo Estado, é impossível a não ser pela via da extinção.
 (p. 236)


Capítulo II 

O Estado e a Revolução. A experiência dos anos 1848-1851

O Estado é a organização especial da força, é a organização da violência para a repressão de uma classe qualquer. Qual é então a classe que o proletariado deve reprimir? Naturalmente apenas a classe dos exploradores, isto é, a burguesia. 
(...)
Os democratas pequeno-burgueses, esses pretensos socialistas que substituíam a luta de classes pelos sonhos de entendimento das classes, concebiam a própria transformação socialista de um modo sonhador, não sob a forma do derrubamento do domínio da classe exploradora, mas sob a forma da submissão pacífica da minoria à maioria que ganhou consciência das suas tarefas. Esta utopia pequeno-burguesa, indissoluvelmente ligada ao reconhecimento de um Estado colocado acima das classes, conduzia na prática à traição dos interesses das classes trabalhadoras, como o mostrou, por exemplo, a história das revoluções francesas de 1848 e 1871, como o mostrou a experiência de participação 'socialista' nos ministérios burgueses na Inglaterra, na França, na Itália e em outros países no fim do século XIX e no princípio do século XX.
(p.238)

A doutrina da luta de classes, aplicada por Marx à questão do Estado e da revolução socialista, conduz necessariamente ao reconhecimento do domínio político do proletariado, da sua ditadura, isto é, de um poder não partilhado com ninguém e que se apoia diretamente na força armada das massas. O derrubamento da burguesia só pode ser realizado pela transformação do proletariado em classe dominante capaz de reprimir a resistência inevitável, desesperada, da burguesia e de organizar para um novo regime de economia todas as massas trabalhadoras e exploradas. 

O proletariado necessita do poder do Estado, de uma organização centralizada da força, de uma organização da violência, tanto para reprimir a resistência dos exploradores como para dirigir a imensa massa da população, o campesinato, a pequena burguesia, os semiproletários, na obra da organização da economia socialista.
Educando o partido operário, o marxismo educa a vanguarda do proletariado, capaz de tomar o poder e de conduzir todo o povo ao socialismo, de dirigir e de organizar todos os trabalhadores e explorados na obra da organização da sua vida social, sem a burguesia e contra a burguesia. Pelo contrário, o oportunismo hoje dominante educa no partido operário representantes dos trabalhadores mais bem pagos, que se desligam das massas, que se 'arranjam' bastante bem sob o capitalismo, que vendem por um prato de lentilhas o seu direito de primogenitura, isto é renunciam ao papel de chefes revolucionários do povo contra a burguesia.
"O Estado, isto é, o proletariado organizado como classe dominante" (Manifesto Comunista) - esta teoria de Marx está indissoluvelmente ligada a toda a sua doutrina sobre o papel revolucionário do proletariado na história. O remate deste papel é a ditadura proletária, o domínio político do proletariado."
 (p. 239)


O poder do Estado centralizado, próprio da sociedade burguesa, surgiu na época da queda do absolutismo. As duas instituições mais características desta máquina do Estado são: o funcionalismo e o exército permanente. (...) 
O funcionalismo e o exército permanente são um 'parasita' no corpo da sociedade burguesa, parasita gerado pelas contradições internas que dilaceram esta sociedade, mas precisamente um parasita que 'obstruiu' os poros vitais. O oportunismo kautskiano hoje dominante na social-democracia oficial considera que esta concepção do Estado como um organismo parasitário é um atributo particular e exclusivo do anarquismo. (...)
O desenvolvimento, o aperfeiçoamento, a consolidação deste aparelho burocrático e militar prosseguem através de todas as revoluções burguesas que a Europa viu muitas vezes desde o tempo da queda do feudalismo. Em particular, precisamente, a pequena burguesia é atraída para o lado da grande burguesia e é submetia a ela, em grau significativo, por meio deste aparelho, que dá às camadas superiores do campesinato, dos grandes artesãos, dos comerciantes etc., lugarzinhos relativamente cômodos, tranquilos e honrosos, que colocam os seus possuidores acima do povo.
 (p. 241)


Quanto mais se procede às 'redistribuições' do aparelho burocrático entre os diversos partidos burgueses e pequeno-burgueses (entre os democratas-constitucionalistas, os socialistas-revolucionários e os mencheviques, para tomar o exemplo russo), tanto mais claro se torna para as classes oprimidas, com o proletariado à cabeça, a sua hostilidade irredutível em relação a toda a sociedade burguesa. Daí a necessidade para todos os partidos burgueses, mesmo para os mais democráticos e 'revolucionários-democráticos', entre eles, reforçar a repressão contra o proletariado revolucionário, de consolidar o aparelho de repressão, isto é, a própria máquina de Estado. Tal curso dos acontecimentos obriga a revolução a 'concentrar todas as suas forças de destruição' contra o poder de Estado, obriga a colocar a tarefa de não melhorar a máquina do Estado, mas de destrui-la, de suprimi-la.
(p.242)


Capítulo III 

O Estado e a Revolução. A experiência da Comuna de Paris de 1871. A análise de Marx

A única ‘correção’ que Marx julgou necessário fazer no Manifesto Comunista foi feita por ele na base da experiência revolucionária dos communards parisienses.
O último prefácio à nova edição alemã do Manifesto Comunista, assinado por ambos os seus autores, é datado de 24 de junho de 1872. Neste prefácio os autores, Karl Marx e Friedrich Engels, dizem que o programa do Manifesto Comunista ‘está hoje, num passo ou noutro, obsoleto’.
‘...A Comuna, nomeadamente, forneceu a prova de que a classe operária não pode limitar-se a tomar conta da máquina de Estado que encontra montada e a pô-la em funcionamento para atingir os seus objetivos próprios...’ 
(...)
Assim, Marx e Engels consideravam que uma das lições principais e fundamentais da Comuna de Paris tinha uma importância tão gigantesca que a introduziram como correção essencial do Manifesto Comunista.
É extraordinariamente característico que precisamente esta correção essencial tenha sido deturpada pelos oportunistas, e nove décimos, se não noventa e nove centésimos, dos leitores do Manifesto Comunista ignoram certamente o seu sentido. (...) Por agora bastará assinalar que a ‘compreensão’ corrente, vulgar, da famosa máxima de Marx citada por nós consiste em que Marx teria sublinhado aqui a ideia de um desenvolvimento lento, em oposição à conquista do poder, e outras coisas semelhantes.
Na realidade, é exatamente o contrário. A ideia de Marx consiste em que a classe operária deve quebrar, demolir a ‘máquina de Estado que se encontra montada’ e não limitar-se simplesmente à sua conquista.
(p. 246-7)


Pelo que substituir a máquina de Estado quebrada?
A esta pergunta Marx dava em 1847, no Manifesto Comunista, uma resposta ainda completamente abstrata, ou melhor, uma resposta que indicava as tarefas, mas não os meios para as resolver. Substitui-las pela ‘organização do proletariado como classe dominante’, pela ‘luta pela democracia’ – tal era a resposta do Manifesto Comunista.
Sem cair em utopias, Marx esperava da experiência do movimento de massas a resposta à questão de quais as formas concretas que tomaria esta organização do proletariado como classe dominante, de que maneira precisa esta organização se conciliaria com a mais completa e a mais consequente ‘luta pela democracia’.
(p. 249)


Aqui observa-se exatamente um dos casos de ‘transformação da quantidade em qualidade’: a democracia, realizada de modo tão completo e consequente quanto é possível, converte-se de democracia burguesa em proletária, de Estado (=força especial para a repressão de uma classe determinada) em qualquer outra coisa que já não é, para falar propriamente, Estado.
(p. 250)


A elegibilidade completa, a amovibilidade a cada momento de todos os funcionários públicos sem exceção, a redução dos seus vencimentos ao habitual ‘salário operário’, estas medidas democráticas simples e ‘compreensíveis por si mesmas’, unindo completamente os interesses dos operários e da maioria dos camponeses, servem ao mesmo tempo de ponte que conduz do capitalismo para o socialismo. Estas medidas dizem respeito à reorganização estatal, puramente política da sociedade, mas só adquirem, naturalmente todo o seu sentido e importância em ligação com a realização ou a preparação da ‘expropriação dos expropriadores’, isto é, com a transformação da propriedade privada capitalista dos meios de produção em propriedade social.
(p. 251-2)


A Comuna substitui o parlamentarismo venal e apodrecido da sociedade burguesa por instituições onde a liberdade de opinião e de discussão não degenera em engano, porque os próprios parlamentares têm de trabalhar, executar eles próprios as suas leis, comprovar eles próprios o que se consegue na vida, responder eles próprios diretamente perante os seus eleitores. As instituições representativas permanecem, mas o parlamentarismo como sistema especial, como divisão do trabalho legislativo e executivo, como situação privilegiada para os deputados não existe aqui.  Não podemos conceber uma democracia, mesmo uma democracia proletária, sem instituições representativas, mas podemos e devemos concebê-la sem parlamentarismo, se a crítica da sociedade burguesa não é para nós uma palavra oca (...)
(p. 253)


Organizaremos a grande produção partindo do que já foi criado pelo capitalismo, nós próprios, os operários, apoiando-nos na nossa experiência operária, criando uma disciplina rigorosíssima, de ferro, apoiada pelo poder de Estado dos operários armados, reduziremos os funcionários públicos ao papel de simples executantes das nossas diretivas, de capazes e contabilistas (naturalmente com técnicos de todos os gêneros e níveis) responsáveis, amovíveis e modestamente pagos – eis a nossa tarefa proletária, eis por onde podemos e devemos começar na realização da revolução proletária. (...)
Um espirituoso social-democrata alemão dos anos 1870 chamou aos correios um modelo de empresa socialista. Isto é muito justo. Os correios são agora uma empresa organizada segundo o tipo de monopólio capitalista do Estado. O imperialismo transformará progressivamente todos os trusts em organizações de tipo semelhante. Acima dos ‘simples’ trabalhadores, que estão sobrecarregados e que passam fome, encontra-se aqui exatamente a mesma burocracia burguesa. Mas o mecanismo de gestão social aqui já está pronto. (...)
Toda a economia nacional organizada como os correios, de forma  que os técnicos, os capatazes, os contabilistas, como todos os funcionários públicos recebam um vencimento que não exceda um ‘salário operário’, sob o controle e a direção do proletariado armado – eis o nosso fim imediato.
(p. 255-6)


Capítulo IV 

Continuação. Explicações complementares de Engels

(...) aquela ideia fundamental que passa como um fio vermelho através de todas as obras de Marx, a saber, que a república democrática é a via de acesso mais próxima para a ditadura do proletariado, Pois tal república, não eliminando de modo nenhum o domínio do capital e, consequentemente, a opressão das massas e a luta de classes, conduz inevitavelmente a um tal alargamento, desenvolvimento, clarificação, agravamento desta luta que, uma vez que surge a possibilidade de satisfazer os interesses fundamentais das massas oprimidas, esta possibilidade se realiza inevitável e unicamente na ditadura do proletariado.
(p. 269-70)


Engels chega aqui ao limite interessante em que a democracia consequente, por um lado, se transforma em socialismo e, por outro lado, reclama o socialismo. Pois para suprimir o Estado é preciso transformar as funções do serviço de Estado em operações de controle e de registro tão simples que sejam acessíveis e realizáveis pela imensa maioria da população e, depois, por toda a população sem exceção. E que a completa eliminação do carreirismo exige que o lugarzinho ‘honroso’, ainda que não lucrativo, ao serviço do Estado, não possa servir de trampolim para saltar para lugares altamente lucrativos nos bandos e nas sociedades por ações, como acontece constantemente em todos os países mais livres.
(...)
O desenvolvimento da democracia até o fim, a procura das formas desse desenvolvimento, a sua comprovação na prática, etc., tudo isso é uma das tarefas integrantes da luta pela revolução social. Tomado em separado, nenhum democratismo dá o socialismo, mas na vida o democratismo nunca será ‘tomado em separado’, antes será ‘tomado juntamente com’, exercerá sua influência também na economia, impelirá a sua transformação, sofrerá a influência do desenvolvimento econômico, etc. Tal é a dialética da história viva.
(p. 275)

Nos raciocínios habituais sobre o Estado comete-se constantemente o erro contra o qual Engels adverte aqui e que assinalamos de passagem na exposição anterior. A saber: esquece-se constantemente que a supressão do Estado é também a supressão da democracia, que a extinção do Estado é a extinção da democracia.
À primeira vista tal afirmação parece extremamente estranha e incompreensível; talvez mesmo surja em alguns o receio de que nós esperemos o advento de uma organização social em que não se observe o princípio da subordinação da minoria pela maioria, pois não será a democracia precisamente o reconhecimento de tal princípio?
Não. A democracia não é idêntica à subordinação da minoria à maioria. A democracia é um Estado que reconhece a subordinação da minoria à maioria, isto é, uma organização para exercer a violência sistemática de uma classe sobre outra, de uma parte da população sobre outra.
Propomo-nos como objetivo final a supressão do Estado, isto é, de toda a violência organizada e sistemática, de toda a violência obre os homens em geral. Não esperamos o advento de uma ordem social em que o princípio da subordinação da minoria à maioria não seja observado. Mas, aspirando ao socialismo, estamos convencidos de que ele se transformará em comunismo e, em ligação com isto, desaparecerá toda a necessidade da violência sobre os homens em geral, da subordinação de um homem a outro, de uma parte da população a outra parte dela, porque os homens se habituarão a observar as condições elementares de convivência social sem violência e sem subordinação.
(p. 277-8)


Capítulo V 

As bases econômicas da extinção do Estado

Democracia significa igualdade. Compreende-se a grande importância que tem a luta do proletariado pela igualdade e a palavra de ordem de igualdade se a compreendermos corretamente no sentido da supressão das classes. Mas a democracia significa apenas igualdade formal. E imediatamente depois da realização da igualdade de todos os membros da sociedade em relação à propriedade dos meios de produção, isto é, a igualdade do trabalho, a igualdade do salário, levantar-se-á inevitavelmente perante a humanidade a questão e avançar da igualdade formal para a igualdade de fato, isto é, para a realização da regra: ‘de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades.’ Por que etapas, através de que medidas práticas a humanidade chegará a este fim supremo, não sabemos nem podemos saber. Mas o que importa é compreender como é imensamente falsa a concepção burguesa habitual segundo a qual o socialismo é qualquer coisa morta, cristalizada, dada de uma vez para sempre, quando na realidade apenas com o socialismo começa um movimento de avanço rápido, verdadeiro, efetivamente de massas, com a participação da maioria e depois de toda a população, em todos os domínios da vida social e individual.
A democracia é uma forma de Estado, uma das suas variedades. E, consequentemente, ela representa em si, como em qualquer Estado, a aplicação organizada, sistemática, da violência sobre as pessoas. Isso por um lado. Mas, por outro lado, significa o reconhecimento formal da igualdade entre os cidadãos, do direito igual para todos de determinar a organização do Estado e de o dirigir. E isto, por seu turno, liga-se ao fato de que num certo grau de desenvolvimento da democracia, ela, em primeiro lugar, une a classe revolucionário que está contra o capitalismo, o proletariado, e permite-lhe quebrar, demolir completamente, fazer desaparecer da face da terra a máquina de Estado burguesa, mesmo que republicana-burguesa, o exército permanente, a polícia, o funcionalismo, e substitui-los por uma máquina de Estado mais democrática, mas ainda uma máquina de Estado, sob a forma das massas operárias armadas que passam à participação de todo o povo na milícia.
Aqui “a quantidade transforma-se em qualidade’: este grau do democratismo está ligado à saída do quadro da sociedade burguesa, ao começo da sua reorganização socialista. Se todos participam realmente na administração do Estado, então o capitalismo cria, por sua vez, as premissas para que ‘todos’ possam realmente participar na administração do Estado. Entre estas premissas conta-se a alfabetização geral já realizada por uma série de países capitalistas mais avançados, em seguida o ‘educar e disciplinar’ de milhões de operários pelo grande, complexo e socializado aparelho dos correios, dos caminhos-de-ferro, das grandes fábricas, do grande comércio, dos bancos etc., etc.
Com tais premissas econômicas é perfeitamente possível, depois de derrubados os capitalistas e os funcionários, passar imediatamente à sua substituição de um dia para o outro – em matéria de controle da produção e da distribuição, em matéria de registro do trabalho e dos produtos – pelos operários armados, por todo o povo armado.
Nota: Quando um Estado se reduz na parte principal de suas funções a este registro e controle por parte dos próprios operários, então deixa de ser um ‘Estado político’, então as funções públicas transformam-se de políticas em funções simplesmente administrativas.
(p. 289)


Capítulo VI 

A vulgarização do marxismo pelos oportunistas

De uma maneira geral, pode-se dizer que do esquivar-se à questão da atitude da revolução proletária para com o Estado, esquivar-se vantajoso para o oportunismo e que o alimentava, resultou a deturpação do marxismo e sua completa vulgarização.
(p. 292)


A social-democracia germânica, na pessoa de Kautsky, parecia declarar: mantenho-me nas minhas concepções revolucionárias (1899). Reconheço em particular a inevitabilidade da revolução social do proletariado (1902). Reconheço que começa uma nova era de revoluções (1909). Mas, apesar de tudo isso, recuo em relação àquilo que Marx disse já em 1852, logo que coloca a questão das tarefas da revolução proletária em relação ao Estado (1912).
(p. 298)



Posfácio

É mais agradável e mais útil viver a ‘experiência da revolução’ do que escrever sobre ela.
(p. 305)




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(V.I. Lenin, O Estado e a Revolução in Obras Escolhidas, tomo 2, Edições Avante/Edições Progresso, Lisboa - Moscou, 1978, pp. 219-305)
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Ein Marxist hat nicht das Recht, Pessimist zu sein.  



вся власть Советам!