quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Burgueses e filisteus: a Nova Direita (parte 2)








Caminhando sobre espelhos partidos


 “O assombro com o fato de que os episódios 
que vivemos no século XX ‘ainda’ sejam possíveis, 
não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, 
a não ser o conhecimento de que a concepção de história 
da qual emana semelhante assombro é insustentável”
Walter Benjamin, Sobre o conceito de História, Tese 8




1.
Terminologias políticas são confusas e vagas. A longevidade e a latitude de certas denominações ocultam incoerências e descontinuidades. Essas denominações anêmicas, lábeis e equívocas, incapazes de resistir a um exame crítico, são escoradas por tribunos de retórica inflamada; são repetidas pela multidão, que as tomam como chaves de entendimento do mundo; são incorporadas à doxa de uma época na forma de idées reçues, clichês e chavões. Essas noções mal definidas que se cristalizam na sua própria vagueza, eu as denomino conceitos-de-guerra.

Na minha longa e ainda inconclusa série A Claraboia e o Holofote tenho me dedicado às vicissitudes do comunismo como teoria e como conceito-de-guerra desde o Manifesto de Marx e Engels. Justamente por isso não me surpreendeu que, na polarização recente, o velho conceito-de-guerra tenha sido mais uma vez posto em circulação por aqueles que acreditam  numa conspiração da esquerda para abolir a propriedade privada, cancelar as liberdades individuais e instituir um Estado totalitário no Brasil. Que o velho conceito-de-guerra tenha recebido alguma cor local na forma de bolivarianismo, chavismo ou venezuelização (outros tantos conceitos-de-guerra) não muda o essencial do que está em jogo do ponto de vista da Nova Direita: a identificação da esquerda brasileira, em especial o Partido dos Trabalhadores, com um projeto comunista (ou bolivarista) que deve ser interrompido, punido e exterminado em nome de um outro projeto, o da Nova Direita.

Tão vaga como o “comunismo” e o “bolivarismo” – noções escoradas por tribunos de habilidade desigual,  mas fortemente empenhados em berrar até ensurdecer os ouvintes -, a denominação “Nova Direita” merece ser tratada com igual cuidado. A esquerda tem mais a ganhar com um esforço sincero de compreensão do que com as autocríticas perfunctórias de sempre. Nós, esquerdistas de coração e de pensamento, erramos na avaliação das forças sociais e políticas que se levantaram em oposição ao lulopetismo. Acreditávamos que dessa vez éramos impelidos pela própria História; acreditávamos que a classe trabalhadora (o que quer que isso signifique hoje no Brasil) estava conosco; acreditávamos que o exercício prolongado do poder pela esquerda, sustentado por um crescimento econômico sem percalços, iria atender todas as demandas dos segmentos que sempre foram deixados à margem do banquete.

Erros análogos foram cometidos pela esquerda em situação incomparavelmente mais grave, com custos catastróficos. Nas décadas de 1920 e 1930, as esquerdas italianas e alemãs não estavam capacitadas para diagnosticar e entender o fenômeno do fascismo e do nacional-socialismo. A perseguição sofrida pelos socialistas e comunistas nesses dois países, a tomada do poder pelos falangistas na Espanha e o pacto germano-soviético foram traumas históricos que repercutiram nos meios esquedistas do Ocidente e da periferia.  “Fascismo” e “fascista” passaram a ser os insultos clássicos da esquerda contra todos os seus adversários intransigentes. O fascismo passou a ser o espectro que ronda a esquerda, tanto como o comunismo é o espectro que ronda a direita. 

Eis a razão pela qual a esquerda brasileira se deixou assombrar por alguns mortos-vivos do regime militar que saíram em passeata ao lado do deputado ferrabrás Jair Bolsonaro (filiado a uma agremiação curiosamente chamada Partido Progressista, prova cabal de que as terminologias políticas são frouxas). Diante dessa promíscua reunião da bancada do alicate, a esquerda viu o que está habituada a ver - uma ameaça fascista -, deixando escapar o fundamental, que era a nova configuração da Direita. É essa configuração que, nós  esquerdistas de coração e de pensamento, devemos nos esforçar por compreender. 


2.
Não pretendo me ocupar da formação dos movimentos que foram às ruas nos últimos anos, nem dos modos de organização e financiamento dos think tanks da Direita brasileira. O que me interessa são suas matrizes culturais e ideológicas, declaradamente inspiradas na complexa cultura conservadora norte-americana. 

O tradicional anti-americanismo da esquerda e a força das correntes europeias na formação intelectual brasileira tiveram como resultado uma perigosa ignorância a respeito de vários aspectos da vida política, social e cultural dos Estados Unidos. O custo dessa ignorância é uma avaliação limitada e errônea da Direita que se mostrou ao mundo desde a eleição de Ronald Reagan em 1980.

É claro que a esquerda brasileira nunca foi nem poderia ser indiferente aos rumos do império norte-americano, mas naqueles anos finais da ditadura militar no Brasil, estávamos muito ocupados em construir alternativas democráticas para eliminar o que chamávamos de “entulho autoritário”. De maneira ingênua, tendíamos a subestimar a figura do Presidente Reagan, que escarnecíamos como um ator medíocre dominado pela esposa, que tinha feito carreira brigando com os hippies e universitários da Califórnia no final dos anos 60. Nas análises de que dispúnhamos na época, apenas dois aspectos eram privilegiados: a política externa de Reagan em relação à América Latina, ao Oriente Médio e à União Soviética e a sua política econômica. Lembro-me da manhã de dezembro de 1982 em que ouvi falar pela primeira vez na supply side economics. Nesse aspecto, víamos em Reagan apenas um homólogo de Margareth Tatcher, que se tornara primeira-ministra do Reino Unido em 1979. Ambos atacavam o welfare state em crise aguda na década de 1970, quando o legado de Keynes passou a ser criticado publicamente pelos monetaristas de Chicago, à frente dos quais estava o famoso Milton Friedman, e pelos liberarians liderados pelo Friedrich Hayek, que esteve no Brasil algumas vezes, mas só era conhecido por aqueles que, como eu, liam a revista Visão, do empresário Henry Maksoud. (Sim, leitor, eu já me iniciava nos tortuosos caminhos do marxismo e até por isso dedicava parte de meu tempo ao estudo dos críticos de Marx.  Ainda me recordo da última visita do velho Hayek ao Brasil em 1981 e me diverto com os neófitos que acham que a escola austríaca é o dernier cri da economia).

Nos Estados Unidos do começo dos anos 1980, o que estava em jogo era muito mais do que uma investida neoliberal contra a seguridade social. A agenda dos conservadores era bem mais ampla e viria a ter consequências com as quais, nós esquerdistas, temos que lidar hoje no Brasil. 

Acredito que uma visão sinótica do conservadorismo que ganhou força a partir da Era Reagan deve levar em conta três processos: a guerra cultural entre progressistas e conservadores estudada por James Davison Hunter em Culture Wars: the struggle to define America (1991), a formação da coalizão conservadora examinada por George H. Nash em The Conservative Intellectual Movement in America since 1945 (1976) e o surgimento de uma cultura mediana promovida por mediadores que pretendiam elevar o nível cultural do público, tema analisado por Joan Shelley Rubin em The Making of the Middlebrow Culture (1992).


3.

Em Culture Wars, James Davison Hunter relata como o pertencimento a uma denominação religiosa definia a identidade dos norte-americanos até que, no começo do século XX, a industrialização, a imigração, o crescimento urbano, o surgimento de uma sociedade de massas, as lutas pelos direitos dos trabalhadores e das mulheres e os avanços dos meios de comunicação, enfim, os processo ligados à modernização afetaram profundamente o Protestantismo, o Catolicismo e o Judaísmo, que passaram por uma cisão interna e por um realinhamento. Em cada uma das denominações passou a existir dois grupos: de um lado, os que observavam com receio as mudanças e desejavam colocar um freio moral no processo; de outro lado, os que endossavam as novas demandas sociais e viam como necessária a integração dos novos segmentos numa democracia ampliada e robustecida.  Essa divisão entre conservadores e progressistas acabou se tornando um fator que definia a identidade dos norte-americanos e orientava suas posições políticas. 

Cada um dos grupos passou a ter as suas diretrizes, suas instituições, seus representantes políticos. Cada um dos grupos construiu o seu sistema moral com base em seus interesses, valores e pressuposições. Cada um dos grupos passou a ter seu modo de percepção da realidade e seus critérios de julgamento moral.  Tomando como exemplo o problema do direito ao aborto, Davison Hunter comenta: “Em consequência desse estranhamento recíproco, fazer concessões se tornou virtualmente impossível no que diz respeito a vários temas políticos (…) A realidade da vida política e das políticas públicas numa democracia consiste, por bem ou por mal, num compromisso nascido da discussão pública e do debate. Todavia essa discussão pareceria inpraticável quando a linguagem moral empregada pelos lados opostos é tão completamente antitética. Pode-se facilmente imaginar um protestante evangélico, um católico da renovação carismática, um judeu hassídico ou um mórmon  fazendo a seguinte pergunta retórica: 'Como pode um assassinato ser um direito garantido pela Primeira Emenda?'  Poder-se-ia também imaginar um protestante liberal, um católico liberal, um judeu reformista ou um secularista  perguntar justamente o oposto: 'Como poderia ser chamado de assassinato o exercício dos direitos básicos da Primeira Emenda?'  A decisão política parece sociologicamente impossível quando a linguagem moral para se conversar sobre os problemas comuns é tão oposta" (Culture Wars, p. 128 a 130).

Num debate em que os oponentes não compartilham as mesmas premissas, os argumentos se revelam insuficientes e se torna necessário desqualificar o adversário: “Neutralizar a oposição através de uma estratégia de ridículo público, derrisão e insulto se tornou tão importante quanto tornar aceitáveis as alegações morais que cada um dos lado defende. Sem dúvida, a persuasão negativa se tornou ainda mais importante uma vez que, na discussão pública, o diálogo foi amplamente substituído pelo xingamento, denúncia e pela completa intolerância" (idem, p. 136).

A guerra cultural entre conservadores e progressistas em torno de cada item da agenda política moderna (reforma educacional, políticas de ação afirmativa, políticas ambientais, uso de drogas, porte de armas de fogo e reconhecimento de novos direitos em questões de gênero, orientação sexual e etnia) fornece o quadro mais amplo dentro do qual se articulou o pensamento da Direita norte-americana.

Em The Conservative Intellectual Movement in America since 1945, George H. Nash reconhecia três correntes maiores no movimento intelectual conservador: o conservadorismo propriamente dito, os neoliberais ou libertarians e os anticomunistas. 

O primeiro grupo eram os conservadores propriamente ditos. Eles se viam como herdeiros de Edmund Burke e dos Founding Fathers, desconfiavam da racionalidade humana e da ciência, desprezavam as massas e a vida democrática corrompida pela demagogia. Os conservadores criticavam a decadência cultural e rejeitavam o consumismo da sociedade capitalista, que conduziria a um hedonismo neopagão. Entre os intelectuais conservadores estavam Richard Weaver e Russell Kirk, autores de dois clássicos do pensamento conservador norte-americano: Ideas have Consequences (1948) e The Conservative Mind (1953).  

Russell Kirk expôs as linhas gerais do pensamento conservador na forma do seguinte decálogo (cf. "Dez Princípios Conservadores"):

1. Existe uma ordem moral duradoura já que a natureza humana é constante e as verdades morais são permanentes.
2. O respeito aos costumes e às convenções é que permite a convivência pacífica das pessoas.
3. Os direitos (inclusive o direito à propriedade) são sancionados pelo uso e pela antiguidade. É inaceitável pretender avaliar essa herança do passado com base no julgamento pessoal e no uso da razão privada.
4. É preciso prudência. As decisões políticas devem levar em conta os efeitos de longo prazo e não apenas a popularidade imediata.
5. É preciso entender a importância da variedade de instituições, de classes sociais e de modos de vida. Essa variedade não deve ser destruída pelos programas igualitários. Os homens só são iguais perante Deus e perante a lei.
6. O ser humano não é perfectível e não pode criar nada perfeito. O pensamento social utópico é falso e perigoso.
7. Liberdade e propriedade estão intimamente ligadas.
8. É preciso apoiar a vida comunitária, mas rejeitar o centralismo e o coletivismo feito em nome de uma Democracia abstrata.
9. É preciso haver meios para restringir os poderes e as paixões humanas para evitar a anarquia e a tirania.
10. É preciso conciliar a mudança e a estabilidade na sociedade.

A segunda corrente era a dos libertarians ou neoliberais, que se agregavam em torno de Friedrich Hayek. Eles confiavam no progresso, na ciência e no mercado como princípio autoregulador que garantiria que os indivíduos, agindo racionalmente em função de seus interesses privados, acabariam por produzir o máximo bem-estar comum sem a intervenção do Estado. 

Inicialmente os neoliberais não se reconheciam como conservadores. O próprio Hayek afirmou que, embora fosse possível aliar-se aos conservadores frente ao inimigo comum socialista, era preciso reconhecer os limites do conservadorismo: “Gostaria de enunciar agora o que me parece a objeção decisiva a qualquer conservadorismo que mereça assim ser chamado. É que pela sua própria natureza ele não pode oferecer uma alternativa quanto à direção em que estamos nos movendo” (“Why I am not a conservative”, p. 398). Para Hayek, essa insuficiência do pensamento conservador podia ser vista em vários aspectos, do qual destaco dois:

Primeiro: ”O conservadorismo é tão incapaz de produzir uma concepção geral de como a ordem social é mantida que os seus modernos seguidores, na tentativa de construir uma fundamentação teórica, invariavelmente apelam para autores que viam a si mesmos como liberais. Macaulay, Tocqueville, Lord Acton, and Lecky certamente consideravam-se liberais, e com razão; e mesmo Edmund Burke permaneceu um velho Whig até o fim e teria estremecido diante do pensamento de ser visto como um Tory” (idem, p. 401)

Segundo: “Enquanto um conservador tende a defender uma hierarquia particular e desejar que a autoridade proteja o status daqueles que ele valoriza, o liberal sente que nenhum respeito pelos valores estabelecidos pode justificar o apelo ao privilégio, ao monopólio ou a qualquer outro poder coercitivo do Estado que proteja essas pessoas contra as forças da mudança econômica. Embora o liberal esteja totalmente consciente do papel importante que as elites culturais e intelectuais exerceram na evolução da civilização, ele também acredita que essas elites têm que provar por si mesmas que são capazes de manter sua posição sob as mesmas regras que se aplicam a todos os demais” (idem, p.402-403).

Conservadores e neoliberais, portanto, tinham pouco em comum. Eram basicamente grupos acadêmicos com reduzido número de adeptos e pouca ou nenhuma influência na vida política nacional. Como mostrou George H. Nash, o que forneceu o cimento para unir conservadores e neoliberais foi a corrente anticomunista, que não tinha um ideário intelectual sólido, mas era muito ativa politicamente e despertava grande atenção na imprensa.

Em meados da década de 1950, o filósofo e ativista político Frank Meyer propôs uma forma ecumênica de conservadorismo, que integrava aspectos das três correntes: a 
hostilidade conservadora à cultura moderna, a fé no poder auto-regulador do mercado e o discurso anti-comunista. Esse consenso conservador mais amplo, conhecido como fusionismo, passou a ser veiculado pela National Review, fundada em 1955 por William Buckley Jr., talvez o maior formador de opinião da direita norte-americana na segunda metade do século XX. Foi essa coalizão conservadora que apoiou Ronald Reagan em sua trajetória para a Casa Branca.

À sombra do grande trabalho historiográfico de Nash, gostaria de sublinhar que a força dessa coalizão dependia menos da solidez teórica de seus defensores do que da capacidade de dirigir-se a uma audiência mais numerosa, daí a importância de um público middlebrow que funcionasse como receptor e caixa de ressonância das ideias da nova direita.

Em The Making of the Middlebrow Culture, Joan Shelley Rubin mostra como a cultura middlebrow nos Estados Unidos surgiu de uma atitude de otimismo e confiança na capacidade de autodesenvolvimento do caráter. Escritores e educadores queriam estimular o aperfeiçoamento dos indivíduos de boa-vontade e elevar o nível de cultura geral do público. Associações como o Clube do Livro do Mês, publicações como as Seleções da Reader’s Digest, coleções como a Great Books of the Western World, programas radiofônicos como o Information Please!, em que especialistas respondiam questões de cultura geral enviadas pelo público, representaram um notável esforço de divulgação cultural consistente e responsável. (Apesar de entender a simpatia de Rubin pelos patronos da cultura middlebrow, não posso deixar de observar que se tratava de incutir um respeito acrítico pelos padrões culturais convencionais e uma aceitação de critérios de bom-gosto bem distantes do experimentalismo da alta cultura, como acusou Dwight MacDonald).

Esse grande esforço de elevação cultural  teria sucumbido na década de 1950, por várias razões: a especialização técnico-científica tomou o lugar do estudo das Humanidades; novas formas rápidas de comunicação estimulavam o desapreço pela leitura e pela instrução; o mercado cultural queria produtos que tivessem apelo direto e imediato. Em 1949, quando a promoção de uma cultura middlebrow dava sinais de esgotamento, o escritor Clifton Fadiman, apresentador do programa Information Please!, escreveu o artigo “The Decline of Attention”, que apontava a transformação do público leitor num público consumidor, que queria ser cortejado pelos escritores e jornalistas, ao invés de ser instruído por homens culturalmente superiores, razão pela qual era preciso que os profissionais da palavra se colocassem, na postura e na linguagem, no mesmo nível do público. Parecia que o ideal de autoaperfeiçoamento chegara ao fim em meados dos anos 50. 

O livro de Joan Shelley Rubin se detém nesse momento, mas não é difícil imaginar que o público middlebrow – sempre desconfiado das vanguardas e dos novos valores, mas não necessariamente conservador – tenha sofrido um choque com a agitação dos anos 1960, quando os valores tradicionais da classe média foram questionados, espezinhados e ridicularizados pela contra-cultura em nome de experiências vanguardistas no plano artístico, político e existencial. É bem possível que uma parte do público middlebrow tenha ficado profundamente perturbada pela contestação dos radicais e tenha dado adesão aos diagnósticos pessimistas dos conservadores, sempre hostis às vanguardas e à modernização cultural, vindo a engrossar as fileiras dos neoconservadores. Aqui talvez tenha se confirmado novamente a famosa boutade  de Irving Kristol segundo a qual os neoconservadores eram liberais que foram agredidos pela realidade.

Do ponto de vista intelectual, a força dos conservadores norte-americanos repousa, portanto, na existência de uma fratura social e cultural que os opõe aos progressistas; na articulação eficiente do consenso entre conservadores, neoliberais e anticomunistas (aos quais se juntaram depois os neoconservadores e a direita belicista) e na participação de um público middlebrow que expressa a dóxa conservadora e lhe dá ressonância social, promovendo-a ao nível de verdades autoevidentes, que se contrapõem às verdades autoevidentes defendidas pelos middlebrows progressistas, num debate em que nenhum lado consegue persuadir o lado oposto. 

À luz da experiência norte-americana resumida acima, cabe perguntar se (1) a violenta polarização que se viu nos segmentos médios da população brasileira pode ser comparada às guerras culturais norte-americanas e (2) se a Nova Direita brasileira é portadora de algum consenso elaborado em bases teóricas análogo àquele elaborado pelos fusionistas da década de 1950. 


(continua)




Perry Anderson, "A direita intransigente: Michael Oakeshott, Leo Strauss, Carl Schmitt, Friedrich von Kayek" in Espectro, Boitempo, São Paulo, 2012 | Norberto Bobbio, Nicola Matteucci, Gianfranco Pasquino, Dicionário de Política, Editora da UnB, Brasilia, 1998 | Edmund Burke, Reflexões sobre a Revolução em França, Editora da UnB, Brasília, 1997 | Jorge Chaloub e Fernando Perlatto, “A Nova Direita Brasileira: ideias, retórica e prática política” in Revista Inteligência Insight, ano XIX nº 72, Janeiro-Março de 2016 | Clifton Fadiman, "The Decline of Attention" in The Saturday Review, August, 1949 | Jürgen Habermas, “A crítica neoconservadora da cultura nos Estados Unidos e na Alemanha” in A Nova Obscuridade, Editora Unesp, São Paulo, 2015 | F. A. Hayek, “Why I am not a Conservative” in The Constitution of Liberty, The Chicago University Press, 1978 | James Davison Hunter, Culture Wars: the struggle to define America, Basic Books, 1991 | Samuel P. Huntington, “Conservatism as an Ideology” in The American Political Science Review, vol. 51, nº 2 (Jun. 1957) | Russell Kirk, “Dez Princípios Conservadores” in A Política da Prudência, É Realizações Editora, São Paulo, 2014 | Joseph de Maistre, Consideraciones sobre Francia, Tecnos, Madrid, 1990 | Herbert Marcuse, “Estudo sobre a Autoridade e a Família” in Ideias sobre uma Teoria Crítica da Sociedade, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1981 | Karl Mannhein, “O significado do conservantismo” in Mannheim: Sociologia, coleção “Grandes Cientistas Sociais, Ática, São Paulo, 1982 | George H. Nash, The Conservative Intellectual Movement in America since 1945, Intercollegiate Studies Institute, 30th edition, 2006 | Anthony Quinton, “Conservatism” in A Companion to Contemporary Political Philosophy, edited by Robert E. Goodin and Philip Pettit, Blackwell, Oxford, 1997 | Francisco Carlos Teixeira Silva, Sabrina Evangelista Medeiros, Alexander Martins Vianna, Dicionário Crítico do Pensamento da Direita, Mauad, Faperj, Rio de Janeiro, 2000 | Roger Scruton, “What is Conservatism” in Conservative Texts: an anthology, St. Martin’s Press, New York, 1991 | Joan Shelley Rubin, The Making of the Middlebrow Culture, University of North Carolina Press, Chapel Hill & London, 1992 | Richard M. Weaver, Ideas have Consequences, University of Chicago Press, Chicago and London, 1984







quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Burgueses e filisteus: a Nova Direita (parte 1)










A polarização


Desde as eleições presidenciais de 2014, quando os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) disputaram uma campanha renhida e ingrata, com uma estreita margem de vitória para o PT - que então ia para o quarto mandato presidencial -, houve uma notável polarização no plano político-econômico: de um lado, o “reformismo suave” do PT (nas palavras de André Singer), do outro lado, um programa de liberalização mais agressivo defendido pelo PSDB, com apoio do setor empresarial.

Nos meses que se seguiram à eleição, os opositores ao PT se levantaram em imensas manifestações de protesto e descontentamento por todo o país, em especial nas capitais da região Sudeste. A Fronda dos Coxinhas era fácil de se prever, mas difícil de ser categorizada em termos sociais: havia os representantes das agremiações da Nova Direita, todos bastante empenhados e aguerridos, alguns laicos, outros ligados às igrejas pentecostais; havia os representantes de uma Direita arcaica, envelhecida e incômoda: os últimos integralistas, os saudosos da caserna e da tortura, os fascistas de velha cepa, a reação católica tradicional. Havia, por fim, os descontentes avulsos sem bandeira. Não se tratava, portanto, apenas de partidários do candidato derrotado Aécio Neves ou do PSDB, que deu uma adesão morna a essas manifestações.  Também não se tratava, como queriam alguns, de uma passeata de madames burguesas que supostamente mandavam as empregadas baterem panela em sinal de desaprovação à presidenta Dilma.

O tom cada vez mais veemente assumido por articulistas como Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino ou Marco Antônio Villa, a ampla difusão de insultos e boatos pelas redes sociais, as capas agressivas da revista Veja levaram os defensores do governo (ou da esquerda em geral) a retrucar com igual veemência e agressividade. Do lado da oposição, os ataques convergiram para a questão da corrupção do governo federal e a prática das “pedaladas” fiscais, que supostamente teriam se tornado constantes no governo de Dilma Rousseff (ver nota).  Essa última acusação serviu de base legal para o pedido de impeachment de Dilma, mas como se viu na noite de 17 de abril de 2016, os 367 deputados que votaram a favor do afastamento da presidenta alegaram pretextos vagos ou motivos curiosos, que iam do folclórico ao patético, sem qualquer análise cuidadosa da questão.

Nas ruas e nas redes sociais, não se viu coisa diferente. A verdade é que a questão das “pedaladas” envolvia aspectos técnicos de difícil compreensão, por isso mesmo ela precisava ser apoiada por algo mais substancioso, capaz de sacudir a opinião pública. Isso foi oferecido pelos lances cada vez mais audaciosos da Operação Lava-Jato, que se apresentava como a versão brasileira da Operação Mãos Limpas que, na Itália dos anos 1990, investigou uma ampla rede de corrupção política, financiamento ilegal e envolvimento com a máfia, acabando por levar a uma reestruturação geral do sistema partidário italiano. No Brasil, subitamente alguns juízes de instâncias mais baixas e membros do ministério público passaram ao proscênio, com luzes e fotos de capa, disputando o espaço antes reservado aos altos magistrados do Supremo Tribunal Federal em evidência desde 2012, quando começou o julgamento dos envolvidos com o "Mensalão" (o grande escândalo de corrupção do governo Lula).

A oposição política ao governo do PT ganhou a forma de uma cruzada judicial e moral contra a corrupção, que passou a ser vista como um mal inerente às práticas assistencialistas da esquerda, acusadas de onerar os cofres públicos e impor uma sobrecarga fiscal sobre os setores produtivos. Apoiar tais políticas passou a ser sinal de parasitismo, mau-caráter e cumplicidade com a prevaricação. Alguns influentes formadores de opinião passaram a exigir a destruição total do legado esquerdista, mais ou menos nos mesmos termos que a esquerda dos anos 1980 queria a destruição do legado do regime militar: o “entulho autoritário” como se dizia nos tempos da redemocratização do Brasil.

O que quer que se pense dos representantes da Nova Direita, é óbvio que eles tiveram bastante sucesso na sua campanha no plano político e conseguiram impor uma série de temas intensamente discutidos nas redes sociais, na imprensa e nas ruas. Em linhas gerais, essa pauta consiste na luta contra a corrupção, na proposta de liberalização econômica e na criminalização da esquerda. As duas primeiras têm um forte apelo: (1) mesmo os corruptos se declaram contra a corrupção e (2) a liberdade dos agentes econômicos sob as regras de mercado sem intervenção do Estado parece realmente algo que ainda não foi tentado no Brasil (essa é a bandeira de Rodrigo Constantino).  A terceira é a tentativa de destruir a própria respeitabilidade histórica da esquerda como interlocutor político. Esse projeto tem várias ramificações, como o movimento Escola sem Partido (contra a doutrinação esquerdista nas escolas); a crítica ao "coitadismo" ou "vitimismo", isto é, às políticas de reconhecimento dos segmentos oprimidos: mulheres, homossexuais, negros e índios entre outros; ou a desqualificação da esquerda, apresentada como doença (a esquerdopatia segundo Reinaldo Azevedo) ou como imoralidade (na visão de Olavo de Carvalho).

A esquerda, hoje na defensiva, é compelida a rearticular suas posições em torno dos três itens da pauta mencionada. No que se refere à luta contra a corrupção, os partidários da esquerda criticam a orientação política dos juízes e promotores da Operação Lava-Jato, assim como a natureza ilegal de alguns de seus procedimentos, mas concordam com a necessidade de uma ampla investigação das redes privadas de financiamento e favorecimento ilegais que permeiam todo o sistema político (e não apenas a esquerda ou o governo petista).

No que diz respeito à proposta de liberalização, privatização e Estado mínimo, a esquerda mantém sua posição histórica contra os mercados não-regulamentados. Na medida que a liberdade de mercado exige o fim das cláusulas legais de proteção aos trabalhadores, os defensores do livre mercado encontrarão entraves não apenas na oposição parlamentar de esquerda, mas também nos sindicatos e nos segmentos populares que detém a força numérica do voto. Dadas as condições sociais do Brasil, uma total desregulamentação dos mercados somente poderia ser feita por meios de golpes que atentassem contra a democracia (o que não parece ser um problema para alguns expoentes da Nova Direita, que costumam zombar das ilusões rousseaunianas acerca da soberania popular).

Por último, o esforço em transformar a esquerda em patologia pode exercer um efeito irresistível sobre os neodireitistas radicais, mas seu poder de convencimento é limitado pelo seu próprio radicalismo. Por isso, justamente esse que é o lance mais ousado da Nova Direita também é seu calcanhar de Aquiles teórico. Algo parecido, com resultado igualmente insatisfatório, já tinha sido tentado pela esquerda quando Adorno coordenou a pesquisa que resultou no livro The Authoritarian Personality (1950), uma obra pouco convincente que tentava mostrar as raízes patológicas de uma certa direita. (É verdade que muitos esquerdistas veem os adeptos da direita como vítimas de recalques freudianos, mas isso pertence a um folclore teoricamente inócuo e não às bases teóricas das várias correntes de esquerda. Qualquer tentativa de transformar essa crença folclórica em argumento se torna uma acusação ad hominem falaciosa). 

Alguns intelectuais neodireitistas gostariam de expurgar não apenas as formas intransigentes e radicais do esquerdismo, mas também a própria herança iluminista que a esquerda sempre reivindicou. Não se trata apenas de afastar Dilma, prender Lula ou cassar o registro do PT, não se trata apenas de instaurar uma patrulha de direita inversa às antigas patrulhas de esquerda, não se trata apenas de denunciar os totalitarismos comunistas, não se trata apenas enterrar O Capital e banir o Manifesto Comunista, trata-se de negar Voltaire, Rousseau e Kant. Trata-se de um projeto coletivo ambicioso, mas que tropeça em alguns óbices práticos, que constituem seu calcanhar de Aquiles. É que no seu esforço de anular a esquerda como interlocutor político, a Nova Direita acaba por lhe prestar um serviço valioso, porquanto reaviva nas várias correntes de esquerda - todas abrangidas pela criminalização - a consciência dos princípios e tarefas históricas que irmanam os comunistas, os socialistas, os anarquistas, os social-democratas e os herdeiros mais consequentes de Stuart Mill. 

A meu ver, a novidade da Nova Direita brasileira consiste na aliança entre um ideário conservador visceralmente avesso ao diálogo com a esquerda e uma prática política jacobina de mobilização das “massas” em torno da caçada aos corruptos. Todavia, é difícil ver o que as obras intelectualmente refinadas de pensadores como Eric Voegelin, Russell Kirk, Constantin Noica ou Roger Scruton, que têm servido de suporte aos teóricos da Nova Direita,  têm a ver com o furor demogógico e jacobino que faz da caça a um punhado de corruptos uma espécie de catarse nacional, independentemente da questão da legalidade dos procedimentos, como se o juiz Sergio Moro fosse o novo Robespierre incorruptível do Comitê de Salvação Nacional.


Na minha análise do “conservadorismo” à brasileira, vou deixar de lado a proposta de desregulamentação dos mercados, não porque seja irrelevante, mas sim porque se trata de um debate já bastante antigo. O que desejo discutir é o contraste entre o conservadorismo teoricamente respeitável e a forma jacobina que assumiu nas ruas e nas redes sociais.

(continua)




Nota:
O termo “pedalada fiscal” se refere à prática de esconder o orçamento deficitário atrasando o repasse das verbas aos bancos públicos e privados como se, na prática, o governo tivesse tomado um empréstimo não autorizado com esses bancos, o que contraria a Lei de Responsabilidade Fiscal aprovada em 2000, durante a Presidência de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).


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Foto: "Egg Fight", obra do artista Yinka Shonibare, Museu Afro Brasil, São Paulo, 2015
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sábado, 3 de setembro de 2016

Burgueses e filisteus: dois contos da mesma cidade










No último 31 de agosto, o Senado aprovou a cassação do mandato da presidenta Dilma Rousseff, afastada desde maio. Tenha ou não ocorrido um golpe palaciano-parlamentar contra Dilma, com a conivência da grande imprensa, o que parece consensual é que, pelo menos desde 2014, duas narrações disputam os “corações e mentes” dos segmentos que se pretendem politizados: um é o relato do projeto redentor interrompido, o outro é o da intervenção salvadora. O primeiro é endossado pelos partidários do PT e de amplos setores da esquerda brasileira; o segundo é apoiado pelo PSDB, rival histórico do PT, e pelas agremiações da Nova Direita, que fizeram clamor nas ruas das capitais brasileiras em 2015.



Para os partidários do PT, os anos de Lula e Dilma à frente do governo federal representaram uma ruptura com a multissecular tradição política de conchavo das elites, que sempre redundou em opressão e pobreza para a maior parte da população brasileira. A elevação dos níveis salariais e o reforço dos direitos trabalhistas, juntamente com uma política de pleno emprego e de benefícios sociais, permitiu que camadas antes excluídas do consumo pudessem se integrar a uma classe média ampliada. Essa política teria sido tolerada pelas elites tradicionais e pelo grande empresariado paulista enquanto a economia se encontrava em sua curva ascendente, todavia, quando as dificuldades internacionais interromperam o ciclo de crescimento, as elites hostis às conquistas sociais do governo petista se articularam para impedir o avanço do projeto redentor e destruir aquilo que foi construído desde 2003. A classe média que foi às ruas em 2015 – isto é, os agora folclóricos “coxinhas” – teria sido apenas uma massa de descontentes manobrados por grupos poderosos.

Para os oponentes do PT, a história foi bem diferente. Lula e Dilma implementaram um programa assistencialista que garantiria vitórias constantes nas eleições, uma vez que teriam o apoio dos bolsões de pobreza assistidos pelo governo federal, transformados em currais eleitorais. Esse programa era irresponsável do ponto de vista econômico e clientelista do ponto de vista político e somente poderia ter apoio dos parlamentares e dos escalões técnicos por meio das piores formas de cooptação política criadas pelo presidencialismo de coalização vigente desde o governo Collor. Depois de três mandatos presidenciais petistas, a corrupção se entranhou nas áreas diretamente controladas pelo governo federal. O sangramento bilionário dessa corrupção associado ao gerenciamento incompetente da política monetária e fiscal fez com que o Brasil mergulhasse numa gravíssima crise econômica que destruiu qualquer aquisição que, por ventura, tenha ocorrido durante a temporada petista. Por isso, os setores da classe média e do empresariado, indignados com a corrupção e o assistencialismo irresponsável, se aliaram num amplo movimento espontâneo, análogo ao movimento das "Diretas Já" em 1984. Essa articulação só foi possível porque uma ampla frente de agremiações de Direita vinha se compondo nos últimos anos sob a inspiração intelectual ou política de figuras públicas que, há muito tempo, batiam-se contra as ilusões da esquerda. Para essa Nova Direita, os beneficiários do assistencialismo petista – os folclóricos “petralhas” ou “mortadelas”- eram cúmplices do esquema parasitário que sugava recursos que deveriam ser dirigidos aos empreendedores, os únicos capazes de trazer prosperidade duradoura ao país.

Essas são as duas narrativas. A adesão a qualquer uma delas depende mais das paixões políticas de cada um do que do esforço sincero de encontrar a verdade, que, pobrezinha, correu para se esconder no fundo de algum poço assim que essa guerra começou. Eis porque estamos à mercê das revelações bombásticas, vazadas de maneira maliciosa ou oportunista, e das interpretações dadas pelos pundits da grande imprensa e dos órgãos “independentes” da internet.  Em outras palavras, estamos completamente às escuras, guiados pelas opiniões desencontradas de um bando de cegos pretensiosos, aos quais damos ouvido em função do hábito de ler este ou aquele jornalista que nos parece mais simpático, processo tão científico de decisão quanto o uni-duni-tê que praticávamos com sacrossanta seriedade aos sete anos.

Em vista disso, é melhor baixarmos nossas pretensões de compreender o processo real e nos limitarmos ao pouco que nos é dado ver nessa hora de fumaça e poeira.  Ao invés de perdermos tempo discutindo as figuras borradas e fugidias que vemos projetadas nas paredes - Dilma, Temer, Eduardo Cunha entre outros -, observemos o comportamento daqueles que, como nós, estão acorrentados nesta caverna. Ao invés de discutirmos em vão um futuro que não conhecemos e um processo cuja totalidade sempre nos escapa, vamos nos contentar com aquilo que podemos realmente alcançar: uma descrição sócio-psicológica dos lulopetistas e dos neodireitistas.

O que essa observação me tem mostrado é que, embora suas aspirações políticas pareçam seguir caminhos opostos, os lulopetistas e os neodireitistas são muito parecidos: a mesma exasperação moral pequeno-burguesa, a mesma certeza de que podem salvar o Brasil, o mesmo gosto pela mobilização de rua e pelo alçamento de bandeiras, o mesmo ativismo nas redes sociais, o mesmo repertório de ofensas, as mesmas lacunas de formação intelectual manifestas na necessidade de incensar certos gurus que veem tudo e sabem tudo. Neste ambiente de declarações apressadas, fulminações, lágrimas, histrionismos, apóstrofes dirigidas a Deus ou ao Julgamento da História e conclamações em nome do povo – todos se julgam porta-vozes das ruas e arautos dos brasileiros em geral -, enfim, neste ambiente tóxico e hostil ao pensamento, o que tem proliferado é, na verdade, apenas o jacobinismo.

O jacobinismo é o ativismo político dos middlebrows: a mania de acreditar em conspirações (o Foro de São Paulo ou o Instituto Millenium como fábricas de golpes), a indignação moral, a aspiração de salvar a pátria, o espírito gregário, o radicalismo verbal, a disposição de apontar adversários políticos como inimigos a serem eliminados, a paixão pela tribuna (que agora está instalada nas redes sociais e nas seções de comentários da imprensa online). Esses cacoetes, extremamente fortes na esquerda brasileira, também aparecem em alguns dos mais prestigiados mentores da Nova Direita, uma vez que eles são egressos das fileiras do Partido Comunista (como Olavo de Carvalho) ou vieram das alas radicais do PT (como Reinaldo Azevedo), todos eles seguidores da retórica acusatória de outro ex-comunista, Carlos Lacerda. A Nova Direita brasileira é, na verdade, a velha esquerda às avessas, mas o mau hálito continua o mesmo, denunciando aquele velho refluxo gástrico que afeta a esquerda brasileira desde a década de 1930 (assunto longo e doloroso que, por si só, merecerá uma série vindoura).

Um genuíno conservador no Brasil sempre foi ave rara, mas é curioso que os jacobinos de direita se digam conservadores com a mesma santa simplicidade com que os jacobinos de esquerda, todos eles proudhonianos de segunda mão, se dizem marxistas. É que o rótulo de conservador ou de marxista tem um pedigree ao qual os middlebrows, na sua alodoxia, não conseguem resistir.

O que eu quero fazer no próximo capítulo é mostrar a imensa distância que existe entre um autêntico conservador (necessariamente highbrow porque o conservadorismo autêntico, como o marxismo autêntico é biscoito fino para poucos) e esse “conservadorismo” jacobino, verdadeiro aborto de fundo de quintal, que tem se visto nas redes sociais e na avenida Paulista.









quarta-feira, 20 de julho de 2016

Burgueses e filisteus: ainda o middlebrow








A Guerra dos Brows 

em 6 perguntas e respostas





There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses

T.S. Eliot, The Waste Land





 1. O que são os brows?

Os brows designam os três níveis de cultura nas sociedades modernas: a alta cultura, a cultura média e a baixa cultura (ou cultura de massa).  As expressões highbrow, middlebrow e lowbrow se tornaram correntes no mundo anglófono a partir da década de 1920 e foram bastante utilizadas até o começo da década de 1960.  Ao longo dessas décadas, os defensores da alta cultura, como Virgínia Woolf, Aldous Huxley, Sinclair Lewis, George Orwell, Theodor W. Adorno, Clement Greenberg e Dwight MacDonald fizeram violentos ataques à cultura de massa, por sua vulgaridade conformista, e à cultura média, por sua mediocridade pretensiosa e auto-satisfeita. Por sua vez, os defensores da alta cultura eram criticados nos meios de comunicação como intelectuais elitistas, avessos à democratização do conhecimento (que seria beneficiada pelos clubes do livro, pelas Seleções do Reader’s Digest, pelas obras de divulgação de Will Durant etc.) e aos prazeres do homem simples (ou seja, a música leve, o rádio, a televisão, o esporte, o churrasco, a cerveja etc.)

A partir dos anos de 1970, a distinção dos brows foi cada vez mais rejeitada em nome de critérios de correção política até que, nos anos de 1990, começou a ser recuperada – para além do seu aspecto polêmico e acusatório - quando os métodos da historiografia das mentalidades passaram a inspirar pesquisas sobre a cultura norte-americana. Um dos marcos dessa nova abordagem foi The Making of the Middlebrow Culture, de Joan Shelley Rubin, publicado em 1992.


2Como cada um dos níveis é definido?

Cada um deles pode ser definido tanto pelo grau de elaboração e complexidade do ponto de vista da produção quanto pelo grau de acessibilidade do ponto de vista do consumo.

No nível alto, estão os produtores culturais cujas obras, ao realizar a síntese de inúmeras e complexas mediações, exercem um efeito transformador sobre o campo cultural. O consumo dessas obras exige várias condições: vasto capital cultural acumulado através de um longo período de ócio estudioso (a especialização técnica é estranha ao nível alto da cultura), postura ascética, gosto pela solidão, acesso a recursos econômicos e culturais que estão além da maioria das pessoas, geralmente acompanhado da disposição a renunciar às modalidades hedonistas de comportamento. A estudiosa britânica Nicola Humble observou que é próprio da alta cultura a atitude de debruçar-se sobre o texto no momento da leitura. Trata-se da leitura lenta, anotada e acompanhada de aparato crítico. É assim que se lê O Capital, de Marx; A Origem das Espécies, de Darwin; Economia e Sociedade, de Weber; Ser e Tempo, de Heidegger. Também é assim que se faz a leitura erudita da grande tradição literária ocidental ou o estudo das formas e práticas artísticas.

No nível intermediário, estão os produtores culturais que primam pela generalização, pela versatilidade, pela engenhosidade ou pela apreensão intuitiva da natureza humana ou da vida social. A cultura média é avessa às mediações numerosas, complexas e entrelaçadas valorizadas pela alta cultura. Nicola Humble comenta que a atitude própria da leitura de nível médio é o relaxamento físico de quem lê na rede, na cama ou na poltrona, mergulhado no enredo e, muitas vezes, identificando-se com um dos personagens. A postura do leitor apaixonado de romances pode ser transposta para o leitor de obras de divulgação, que busca um enriquecimento cultural prazeroso e um ócio proveitoso. O enriquecimento cultural, para o indivíduo de cultura média, consiste na aquisição de noções gerais que possam valer como moeda sonante nas ocasiões em que é preciso afastar a suspeita de que se é ignorante, noções que são obtidas pela redução das obras a uma “ideia principal”, isto é, a fórmulas, tópicos, regras básicas, divisões binárias, receitas, esquemas fáceis de serem entendidos, retidos na memória e comunicados. Esse procedimento pode ser feito de maneira legítima: é o caso da transposição didática, ou de maneiras ilegítimas: é o caso da tolice e das idées recues ridicularizadas por Flaubert. De qualquer maneira, a cultura média, com seu gosto pelos esquemas, pela sua rapidez e pela sua comunicabilidade, se presta melhor às redes sociais do que a alta cultura, cuja lentidão e caráter hermético repelem as práticas de compartilhamento em rede.

No nível mais baixo, que é o da cultura de massa, estão os produtores que dispõem apenas de um pequeno repertório de padrões, satisfatórios justamente por não quebrarem as expectativas e favorecerem a previsibilidade e a compreensão instantânea. Os consumidores da cultura de nível baixo querem diversão imediata a baixo custo. 


3. Essa distinção tem significado social?

A divisão dos três níveis culturais é um aspecto da modernização nas sociedades de classes. À medida que as conquistas sociais do movimento operário se consolidavam, nas décadas de 1920-30, no reconhecimento legal de menores jornadas de trabalho e do descanso remunerado, ganhava força um ramo novo de atividades voltadas para o lazer e o entretenimento: tratava-se da indústria cultural que dava os seus primeiros passos. Todavia, por parte de muitos intelectuais, educadores e lideranças sindicais havia a expectativa de que o tempo livre propiciasse ocasião para o aprimoramento educacional dos menos instruídos. Essas duas demandas contraditórias – propiciar evasão e promover o aperfeiçoamento pessoal – eram satisfeitas de maneiras diferentes segundo as classes sociais e adquiriam as mais diversas formas: a mania das palavras-cruzadas, o almanaque do Biotônico Fontoura, as palestras radiofônicas, a criação de bibliotecas circulantes, o esforço editorial de Monteiro Lobato, as aulas noturnas nas sedes dos sindicatos, as enciclopédias vendidas de porta em porta etc. 

Num artigo de 1949, notável como peça de humor e como sociologia do habitusRussell Lynnes descreveu os três níveis como faixas de consumo que corresponderiam à partilha objetiva dos bens culturais nas diferentes classes sociais e às atitudes subjetivas dos consumidores em relação a esses bens. Assim, os níveis culturais seriam resultado tanto da posição de classe (definida por renda e por escolaridade) quanto da inserção em certos grupos de status (por exemplo, os que apreciam vinhos sentados em suas cadeiras Barcelona, ou os que tomam cerveja barata diante da TV num sofá comprado em liquidação).

Que a equivalência entre níveis culturais e classes sociais não fosse perfeita, Lynnes já o sabia, quando lembrou que a cultura highbrow não estava vinculada à classe alta (e posso acrescentar que se trata de um fato facilmente comprovável pois os ricos homens de negócio gostam de aparecer como patronos da alta cultura pelas mesmas razões que os usurários medievais gostavam de aparecer como doadores da Igreja). Pode-se dizer mais: os pobres não são necessariamente lowbrows e a classe média não é necessariamente middlebrow, mesmo porque é geralmente nas classes médias que se encontram os grandes produtores da alta cultura. Talvez seja melhor dizer que o que Russell Lynnes percebeu não foi a correspondência entre os níveis sociais e a estrutura tripartida das classes no capitalismo do século XX, mas sim a homologia entre a partilha de bens culturais e a partilha de renda e de escolaridade. A verdade não era que a cultura highbrow fosse a cultura dos ricos, mas sim que a cultura highbrow, no seu desprezo pela cultura middlebrow e lowbrow, emulasse a intolerância, a exclusão e o autoritarismo com que a elite econômica tratava os moradores dos andares de baixo. O mesmo se passaria em relação à cultura middlebrow, por um lado fascinada pelos bens da alta cultura, por outro horrorizada diante da vulgaridade demasiado comercial da cultura de massas.

Portanto, a guerra dos brows seria uma forma da luta de classes, mas uma forma distorcida e deformada pelo fetichismo de uma nova mercadoria que era a “cultura”, a oferta de bens simbólicos materializados em produtos e serviços colocados à disposição pela indústria cultural, que tinha, por sua vez, a capacidade de estender sempre e cada vez mais o círculo do que é chamado de cultura, a ponto de abarcar todas as práticas humanas. O problema é que essa extensão ilimitada do âmbito da cultura não se fazia sem prejuízo dos bens tradicionalmente associados à alta cultura, elencados nos cânones e referendados pelos currículos escolares. É esta situação que Allan Bloom, em The Closing of the American Mind, e Alain Finkielkraut, em La Défaite de la Pensée, ambos de 1987, tinham em vista quando denunciavam que um concerto de rock tivesse mais importância do que um curso sobre Aristóteles ou que um par de botas pudesse valer tanto quanto as obras de Shakespeare. Quando tudo se torna cultura, quando a indústria cultural abarca todo o fazer humano, a esfera da alta cultura passaria a ser ameaçada pela nova barbárie representada pelo relativismo cultural (queixa de Bloom) ou pelo multiculturalismo (queixa de Finkielkraut). Mas talvez seja perigoso ir tão longe. Tanto em Bloom quanto em Finkelkraut, as lamúrias indignadas diante do gosto pobre dos jovens da época (eu era um deles!) ou diante dos solecismos cometidos pelos universitários (resultado óbvio e previsível de qualquer expansão real do número de vagas nas universidades) se juntam com um esforço por afirmar a supremacia do cânone cultural do Ocidente como o único legítimo, com a mesma certeza como outrora se afirmava a supremacia racial dos europeus e o fardo do homem branco. Essa veia antidemocrática e reacionária que salta em certos críticos culturais (ela é visível nas têmporas de Dwight MacDonald, por exemplo), é um mal que devemos ter o cuidado de evitar, ao mesmo tempo que reconhecemos que esses críticos tocaram em problemas legítimos.

A guerra dos brows, como eu disse acima, é uma versão deformada da luta de classes. Às vezes, deformada no limite da inversão. É preciso entender que a defesa dos bens e práticas da alta cultura é, na verdade, tão solidária da verdadeira democratização cultural quanto a defesa intransigente das formas legítimas de transposição didática (próprias do middlebrow) ou o reconhecimento do status cultural das formas populares e étnicas de arte, em contraposição e em resistência às formas padronizadas da indústria cultural.


4Que  relação  existe entre o nível de instrução, a inserção social e a cultura middlebrow?

O sistema educacional reproduz as relações das classes sociais com os bens culturais, mesmo quando se trata de um sistema em aparência universal e igualitário na transmissão dos conteúdos escolares como é o da França. No começo dos anos 1970, Nicos Poulantzas argumentava que a formação escolar francesa – baseada em avaliações de mérito escolar no cumprimento das condições de um currículo afastado do mundo do trabalho – tinha pouco efeito sobre a burguesia e sobre os trabalhadores, mas era de molde a prover a formação de uma pequena-burguesia ansiosa por distinguir-se dos trabalhadores e identificar-se com a classe dominante. A disfuncionalidade da escola se mostrava plenamente funcional em reproduzir e reforçar a divisão de classes e a situação ancilar da pequena-burguesia em relação à grande burguesia. Isso aconteceria tanto no caso da formação bem-sucedida dos técnicos e engenheiros quanto no caso da formação ratée: Se uma secretária datilógrafa titular do 'bac' se sente frustrada em suas expectativas, não é evidente que se aproximará, por isso, da classe operária: é bem possível que sua ‘proximidade’ com a classe operária, articulada à sua qualificação escolar, reforce nela as práticas de distinção em relação à classe operária”  (Les classes sociales dans le capitalisme d’aujourd’hui, p. 286).


Para Bourdieu, à posição de classe pequeno-burguesa corresponde uma cultura mediana, cujo modelo não é a cultura escolar legítima, mas a cultura assistemática, lacunar e avulsa dos autodidatas. Essa cultura exibe a enorme distância existente entre o simples reconhecimento extasiado de alguns bens da alta cultura e o autêntico conhecimento desses bens (que exige a capacidade de compreendê-los e de apreciá-los). O pequeno-burguês revela seu caráter middlebrow justamente na sua "boa vontade cultural": por não ser  capaz de compreender e, desta forma, avaliar criticamente as obras da alta cultura, o pequeno-burguês se contenta em reconhecê-las e admirá-las docilmente, esvaziadas que estão de qualquer conteúdo preciso e reduzidas ao name dropping inócuo ou ao cluster de clichés.

O pequeno-burguês é reverência diante da cultura” (A distinção, p. 300), porém, essa reverência se manifesta de maneira equivocada uma vez que a cultura pequeno-burguesa toma os produtos de vulgarização e os símiles como exemplares da cultura legítima. “Diferentemente da vulgarização legítima – ou seja, escolar – que, ao proclamar abertamente seus objetivos pedagógicos, pode deixar aparecer tudo o que o esforço impõe para abaixar o nível da produção, a vulgarização habitual não pode, por definição, apresentar-se tal qual ela é.” (A distinção, p. 303). Enquanto a vulgarização feita através da transposição didática é uma simplificação legítima justamente por não deixar esquecer que há um universo mais complexo que deve ser alcançado por esforço e aproximações sucessivas, a vulgarização banal de que se serve o pequeno-burguês middlebrow para obter distinção social é apenas promessa de cultura com baixo esforço. Nessa ausência de esforço, a cultura legítima (ou alta cultura) só entra na forma de “referências” (fragmentos, citações ou alusões): “A cultura média deve uma parte de seu encanto, para os membros das classes médias que são seus destinatários privilegiados, às referências à cultura legítima que ela contém e mediante as quais tende e sente-se autorizada a confundir-se com ela”. (A distinção, p. 300). O pequeno-burguês é cúmplice do embuste na medida em que ele aceita alegremente o consumo dos símiles: ele toma o jornalista como pensador, lê o ideólogo como filósofo, vê originalidade e brilhantismo na imitação cediça, aceita como fato o boato, acredita em todas as conspirações. Em suma, é o freguês que habitualmente leva gato por lebre, marca da alodoxia da cultura middlebrow segundo Bourdieu.


5. O que é a cultura middlebrow no que tem de ilegítima, isto é, afastada das formas autênticas de transposição didática?

É o resultado de uma cultura escolar essencialmente disfuncional que, na sua ânsia de distinção, recusa os sinais de vulgaridade e busca os sinais de cultura legítima. Esses sinais de cultura legítima – geralmente associados a conhecimentos de filosofia, literatura, história e arte – são adquiridos de modo lacunar, à maneira dos autodidatas, cujo único móvel é a curiosidade (por oposição à problematização, que é o móvel da cultura legítima). O conhecimento se torna, assim, simples agregação de elementos avulsos obtidos nos acasos de livraria ou dos meios de comunicação, ou por mero colecionismo de fatos diversos, bem diferente do labor contínuo e sistemático da cultura legítima. As formas básicas dessa cultura - como o almanaque, a revista, o jornal, as redes de compartilhamento na internet - são aquelas em que a miscelânea de fatos  mais ou menos apócrifos e de opiniões mais ou menos autorizadas toma o lugar do esforço de compreensão abrangente.  Se a cultura middlebrow tem as qualidades da comunicabilidade e da rapidez, paga o preço de toda linguagem que não tomou as medidas profiláticas que caracterizam a alta cultura, que é o risco de cair na tolice e no falar-merda.

A cultura middlebrow, precisamente por seu caráter alodoxo, não consegue ser reflexão sobre si mesma, mas apenas reflexo consagrador dos valores consagrados pelo momento.


6. Quais as relações entre essa cultura  middlebrow e o filistinismo?

Dwight MacDonald apontava que a cultura middlebrow era a grande ameaça à alta cultura, na medida em que pretendia se fazer passar por ela. Todavia, enquanto a alta cultura era marcada pela pesquisa estética e pela autonomia, a cultura middlebrow era uma cultura marcada pela posse de certos produtos consagrados segundo um cânone definido por mediadores culturais: os críticos, os editores, os ideólogos, os jornalistas de prestígio, os “formadores-de-opinião”, os spin doctors e os pundits. Sem autonomia crítica, a cultura middlebrow estaria condenada à reprodução de cânones, das listas dos melhores e dos mais importantes e acabaria por mumificar-se no conservadorismo, na vulgarização e na rotinização das conquistas da alta cultura.  

Se, nesse aspecto, a cultura middlebrow é inegavelmente filistina, ela também o é no que se refere à sua moralidade. Trata-se de um aspecto em que eu devo me aventurar quase totalmente desabrigado pelos estudiosos, uma vez que – com exceção de Nietzsche – ninguém se dedicou seriamente a investigar o substrato moral do filistinismo. O pequeno-burguês middlebrow, não importa a sua posição política, é um poço de exigências morais. Como “bela alma” que é, acredita que suas exigências morais são universalmente válidas e, por si mesmas, possam eximí-lo de qualquer legitimação racional de suas ações. A ideia de que a moralidade está autorizada a prescindir da inteligência, da cultura, do bom-senso, dos meios de avaliação racional sempre constituiu o pior aspecto do jacobinismo, assim como de diversas modalidades de anarquismo e de socialismo, mas também de várias tendências da direita, tanto da velha quanto da nova. A inflamação do nervo moral por causa das justas demandas de um punhado de homens bons (sempre pequeno-burgueses), que representam o clamor da verdade em meio à corrupção generalizada é uma doença que já teria sido debelada se Nietzsche fosse realmente um autor lido e não apenas um autor reconhecido por um séquito admirativo de middlebrows, que nunca percebem que são o assunto e o alvo dos sarcasmos do pensador idolatrado.

Também por causa desse filistinismo, que não é algo residual, senão a coisa em sua essência mesma, o pequeno-burguês middlebrow vê em tudo assunto para tomadas de decisão do tipo “culpado” ou “inocente”. Essa vontade ativa de colocar-se como juiz e júri em julgamentos apressados, vontade tão próxima da moralidade dos linchadores, é o aspecto mais repulsivo do pequeno-burguês middlebrow, mas totalmente solidário da sua alodoxia cultural e do seu conhecimento feito de miscelâneas.

Que esse tipo social profundamente reativo e fundamentalmente infeliz tenha se convertido no fiel da balança da vida política brasileira, seja na sua forma lulo-petista, seja na sua forma neodireitista, é uma das infelicidades desse momento. Que tenhamos que escolher entre Mino Carta e Reinaldo Azevedo, ou entre Marilena Chauí e Olavo de Carvalho é algo que consterna. Todavia, não é hora para lamentações. É preciso seguir a investigação. Estamos a caracterizar os filisteus ressurrectos que emergiram da tumba recentemente. Já lhe notamos os traços pequeno-burgueses e sua participação nos piores aspectos da cultura middlebrow. Há, porém, um outro aspecto que temos que estudar: a natureza do seu conservadorismo que, salvo equívoco, não parece tributário das formas clássicas conhecidas (todas admiráveis e respeitáveis), mas sim de partos recentes e de alguns abortos de fundo de quintal.



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O Sobrinho de Enesidemo

4ª ano