sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A claraboia e o holofote #29 (XI)







Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista






Rosa Luxemburg



Congresso de fundação do KPD -  Partido Comunista Alemão  (1919)


Nosso programa e a situação política


A tarefa que hoje enfrentamos – discutir e adotar nosso programa – vai além da circunstância formal de que ontem nos constituímos em um novo partido autônomo e que um novo partido precisa oficialmente adotar um programa; a discussão de hoje sobre o programa é motivada por grandes acontecimentos históricos, sobretudo pelo fato de que nos encontramos num momento em que o programa social-democrata, o programa socialista do proletariado, deve ser erigido em novas bases. Camaradas, retomamos assim a trama urdida por Marx e Engels no Manifesto Comunista há exatamente setenta anos. Como vocês sabem, o Manifesto Comunista considera o socialismo, a realização dos objetivos socialistas a tarefa imediata da revolução proletária. Foi a concepção que Marx e Engels defenderam na revolução de 1848 e que considerava igualmente a base da ação proletária em sentido internacional. Ambos acreditavam então – assim como todos os dirigentes do movimento proletário – que se estava perante a tarefa imediata de introduzir o socialismo; que bastava realizar a revolução política, apoderar-se do poder político estatal para que o socialismo imediatamente se tornasse carne e osso. Depois, como vocês sabem, os próprios Marx e Engels revisaram totalmente esse ponto de vista. Eis o que dizem da própria obra no primeiro prefácio, que ainda assinaram juntos, para a edição do Manifesto Comunista de 1872:


“Atualmente, essa passagem, [o fim da seção II, isto é as medidas práticas a serem tomadas para realizar o socialismo] seria hoje diferente em muitos aspectos. Tendo em vista o imenso desenvolvimento da grande indústria nos últimos 25 anos e, com ele, o progressivo desenvolvimento da organização da classe operária em partido; tendo em vista as experiências práticas, primeiro da revolução de fevereiro e depois, sobretudo, da Comuna de Paris, que pela primeira vez permitiu ao proletariado durante dois meses a posse do poder político, esse programa está hoje obsoleto em alguns pontos. A Comuna, especialmente, demonstrou que ‘a classe operária não pode simplesmente se apoderar da máquina estatal já pronta e colocá-la em movimento para seus próprios fins”.

E o que diz essa passagem considerada obsoleta? Lemos o seguinte na página 23 [da edição alemã de 1894] do Manifesto Comunista:

"O proletariado utilizará seu domínio político para arrancar pouco a pouco todo o capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos nas mãos do Estado, ou seja, do proletariado organizado, como classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível a massa das forças produtivas.
Isso naturalmente só poderá ser realizado, no princípio, por uma intervenção despótica no direito de propriedade e nas relações burguesas de produção, isto é, por medidas que parecem economicamente insuficientes e insustentáveis, mas que, no curso do movimento, ultrapassam a si mesmas e são inevitáveis como meios para revolucionar todo o modo de produção.
Tais medidas, é claro, serão diferentes nos diferentes países.
Contudo, nos países mais avançados, as seguintes medidas poderão geralmente ser aplicadas:
1º) Expropriação da propriedade fundiária e emprego da renda da terra nas despesas do Estado.
2º) Imposto fortemente progressivo.
3º) Abolição do direito de herança.
4º) Confisco da propriedade de todos os emigrados e rebeldes.
5º) Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com capital do Estado e monopólio exclusivo.
6º) Centralização dos meios de transporte nas mãos do Estado.
7º) Multiplicação das fábricas nacionais e dos instrumentos de produção, cultivo e melhoramento das terras segundo um plano comum.
8º) Trabalho obrigatório igual para todos; constituição de exércitos industriais, especialmente para a agricultura.
9º) Unificação dos serviços agrícolas e industriais; medidas tendentes a eliminar gradualmente as diferenças entre a cidade e o campo.
10º) Educação pública e gratuita de todas as crianças. Eliminação do trabalho das crianças nas fábricas em sua forma atual. Combinação da educação com a produção matéria etc".

Como vocês veem, exceto por alguns detalhes, essas são as mesmas tarefas com que hoje, imediatamente nos defrontamos: a execução, a realização dos socialismo. Setenta anos separam o atual momento do tempo em que esse programa foi estabelecido; e a dialética histórica levou-nos hoje de volta à concepção que Marx e Engels haviam abandonado por considerá-la errada. Eles tinham então boas razões para considerá-la erada e abandoná-la. O desenvolvimento do capitalismo que, entretanto ocorreu, fez com que o erro de outrora hoje seja verdade, e hoje é tarefa imediata realizar o que Marx e Engels enfrentavam em 1848. Contudo, entre aquele ponto do desenvolvimento, o início, e a nossa concepção e tarefas atuais, existe todo o desenvolvimento não apenas do capitalismo, mas também do movimento proletário socialista e, em primeiro lugar, do movimento operário na Alemanha, país guia do proletariado moderno. Esse desenvolvimento ocorreu numa forma singular. Após as decepções da revolução de 1848, em que Marx e Engels abandonaram o ponto de vista segundo o qual o proletariado se encontrava na situação de poder imediata e diretamente realizar o socialismo, nasceram em todos os países partidos socialistas, social-democratas que adotaram um ponto de vista totalmente diferente. Proclamou-se como tarefa imediata a luta cotidiana no plano econômico e político para, pouco a pouco, formar os exércitos do proletariado, que seriam chamado a realizar o socialismo quando o desenvolvimento socialita tivesse alcançado a maturidade. Essa reviravolta, essa base totalmente diferente sobre a qual o programa socialista foi estabelecido adquiriu, sobretudo na Alemanha, uma forma bastante típica. Na Alemanha, até o colapso do 4 de agosto, predominava na social-democracia o Programa de Erfurt em que as chamadas tarefas mínimas urgentes ficavam em primeiro plano e o socialismo era transformado numa longínqua estrela distante, em objetivo final. Porém, mais importante do que aquilo que está escrito no Programa é a maneira pela qual é compreendido; e a compreensão do Programa era determinada por um documento histórico importante para a história de nosso movimento operário, a saber, o prefácio que Friedrich Engels escreveu em 1895 para Lutas de classes na França. Camaradas, não é apenas por interesse histórico que examino essas questões; pelo contrário, é uma questão bem atual e um dever histórico que nos incumbe, ao pormos nosso Programa no terreno em que Marx e Engels se encontravam em 1848. Em virtude das transformações introduzidas pelo desenvolvimento histórico, temos o dever de fazer, de maneira clara e consciente, uma revisão da concepção predominante na social-democracia alemã até o colapso de 4 de agosto. É aqui que essa revisão deve ser oficialmente feita.

Camaradas, como entendeu Engels a questão naquele famoso prefácio escrito em 1895 para Lutas de classes na França, de Marx, portanto já depois da morte deste? Voltando a 1848, ele mostrou em primeiro lugar que a concepção segundo a qual a revolução seria iminente tornara-se obsoleta. Em seguida, continua sua descrição:

“A história não nos deu razão, nem a nós nem a todos que como nós pensávamos. Ela mostrou que o grau de desenvolvimento econômico no continente ainda estava muito pouco maduro para permitir a eliminação da produção capitalista; mostrou-o por meio da revolução econômica que desde 1848 se estendeu a todo continente, implantou a grande indústria na França, Áustria, Hungria, Polônia e recentemente na Rússia, fazendo mesmo da Alemanha um país industrial de ponta – tudo isso em bases capitalistas, ainda perfeitamente suscetíveis de expansão em 1848”.

Expõe em seguida como, a partir daquela época, tudo mudou e aborda a questão das tarefas do partido na Alemanha:

“A guerra de 1870-71 e a derrota da Comuna de Paris deslocaram provisoriamente, como Marx havia predito, o centro de gravidade do movimento operário europeu da França para a Alemanha. A França precisou evidentemente de anos para se refazer da sangria de maio de 1871. Na Alemanha, em contrapartida, onde a indústria, favorecida pela benção dos bilhões franceses, se desenvolvia verdadeiramente como numa estufa e sempre mais rapidamente, a social-democracia crescia de maneira bem rápida e constante. Graças à inteligência dos trabalhadores alemães na utilização do sufrágio universal introduzido em 1866, o espantoso crescimento do partido manifestou-se aos olhos do mundo inteiro com números indiscutíveis”.

Segue-se a célebre enumeração, descrevendo nosso crescimento de uma eleição para a outra para o Reichstag, até chegarmos aos milhões de votos, e Engels conclui:

“Graças a essa eficaz utilização do sufrágio universal, uma forma de luta do proletariado, inteiramente nova, foi posta em ação e continuou a desenvolver-se rapidamente. Descobriu-se que as instituições estatais, nas quais se organiza a dominação da burguesia, ofereceu novas oportunidades para que a classe trabalhadora possa combater essas mesmas instituições estatais. Participou-se das eleições para certas Dietas, conselhos municipais, conselhos de notáveis, disputou-se à burguesia cada uma de suas posições em que uma boa parte do proletariado tinha algo a dizer. E assim o governo e a burguesia chegaram a temer mais a ação legal que a ação ilegal do partido operário, seus êxitos nas eleições mais do que os da rebelião”.

E aqui Engels começa uma crítica detalhada da ilusão segundo a qual, nas modernas condições do capitalismo, o proletariado poderia obter qualquer coisa nas ruas, com a revolução. Na medida em que estamos em plena revolução, uma revolução de rua com tudo o que ela comporta, penso que já é tempo de polemizar com uma concepção que oficialmente até o último minuto era habitual na social-democracia e que é corresponsável pelo que passamos em 4 de agosto de 1914.

Não quero dizer com isso que Engels, com suas declarações, compartilhe pessoalmente a culpa pela evolução que se produziu na Alemanha; digo apenas: aqui está um documento clássico que resume a concepção de que vivia a social-democracia alemã, ou melhor, que a matou. Aqui, camaradas, Engels expõe, com todo o conhecimento especializado de que dispunha no domínio da ciência militar, que, no estado atual de desenvolvimento do militarismo, da indústria e das grandes cidades, era pura ilusão acreditar que o povo trabalhador pudesse fazer revoluções de rua e vencer. Essa refutação teve duas consequências: primeiro, a luta parlamentar foi considerada a antítese da ação revolucionária direta do proletariado e quase o único meio da luta de classes. Essa crítica teve como resultado o parlamentarismo puro e simples. Segundo, considerou-se, curiosamente, que a mais poderosa organização do Estado de classes, o militarismo, a massa de proletários uniformizados, devia ser de antemão inacessível e imune à influência socialista. E quando o prefácio diz que seria mais insensato pensar que com o atual desenvolvimento de exércitos gigantescos o proletariado pudesse enfrentar soldados equipados com metralhadoras e com os mais recentes meios técnicos de combate, parte claramente do pressuposto de que todo soldado deve permanecer, de antemão e para sempre, um sustentáculo das classes dirigentes. Do ponto de vista da experiência atual e do Homem que se encontrava à cabeça de nosso movimento, esse erro seria incompreensível se não se soubesse em que circunstâncias efetivas nasceu o documento histórico mencionado. Em consideração a nossos dois grandes mestres e, sobretudo, a Engels que, tendo falecido muito mais tarde, defendia a honra e as opiniões de Marx, é preciso declarar que aquele, como se sabe, escreveu esse prefácio sob a pressão direta da fração parlamentar daquele tempo. Era a época em que na Alemanha – após o fim das leis antissocialistas no início dos anos 1890 – uma forte radical de esquerda se manifestava no interior do movimento operário alemão, procurando preservar os camaradas da total absorção numa luta puramente parlamentar. Para derrotar os elementos radicais na teoria e submetê-los na prática, para que graças à autoridade de nosso grandes mestres as massas deixassem de prestar-lhes atenção, Bebel e camaradas (exemplo típico do já era na época nossa situação: a fração parlamentar decidia, do ponto de vista intelectual e tático, sobre os destinos e tarefas do partido), Bebel e camaradas forçaram Engels, que vivia no exterior e devia confiar em suas afirmações, a redigir esse prefácio, uma vez que segundo eles era absolutamente necessário salvar o movimento operário alemão dos desvios anarquistas. Desde então essa concepção dominou a conduta da social-democracia alemã até nossa bela experiência de 4 de agosto de 1914. Foi a proclamação do parlamentarismo puro e simples. Engels não chegou a presenciar os resultados, as consequências práticas da utilização de seu prefácio, de sua teoria. Tenho certeza de que quando se conhecem as obras de Marx e Engels, quando se conhece o espírito revolucionário vivo, legítimo, autêntico que se manifesta em seus ensinamentos e em seus escritos, convencemo-nos de que Engels teria sido o primeiro a protestar contra os abusos resultantes do parlamentarismo puro e simples, contra essa corrupção, essa degradação do movimento operário tal como ocorreu na Alemanha décadas antes do 4 de agosto – pois 4 de agosto não caiu do céu como se fosse uma guinada inesperada, mas foi uma consequência lógica do que vivemos, dia após dia, ano após ano; Engels e Marx – se estivessem vivos -, teriam sido os primeiros a protestar com todas as forças contra isso, e frear brutalmente o veículo para que não caísse no pântano. Mas Engels morreu no mesmo ano em que escreveu o seu prefácio. Nós o perdemos em 1895; desde então, infelizmente, a direção teórica passou das mãos de Engels para às de um Kaustsky, e assistimos ao seguinte fenômeno: todo protesto contra o parlamentarismo puro e simples, o protesto vindo da esquerda a cada congresso do partido, sustentado por grupos maior ou menor de camaradas em luta encarniçada contra a corrupção cujas funestas consequências deviam aparecer a cada um, todos esses protestos foram tachados de anarquismo, anarcossindicalismo ou, no mínimo, antimarxismo. O marxismo oficial devia servir de cobertura para todas as hesitações, para todos os desvios em relação à verdadeira luta de classes revolucionária, para todas as meias medidas que condenavam a social-democracia alemã e, sobretudo, o movimento operário, inclusive o movimento sindical, a definhar nos limites e sobre o solo da sociedade capitalista, sem que houvesse a menor aspiração a sacudir a sociedade, a tirá-la dos eixos.

Camaradas, hoje vivemos o momento em que podemos dizer: retornamos a Marx, retornamos à sua bandeira. Ao declararmos hoje em nosso programa que a tarefa imediata outra não é senão – resumida em poucas palavras – fazer do socialismo uma verdade e um fato e destruir radicalmente o capitalismo, pomo-nos no terreno em que Marx e Engels se encontravam em 1848 e cujos princípios nunca abandonaram. Vê-se agora o que é o verdadeiro marxismo e o que era esse sucedâneo de marxismo que, sob o nome de marxismo oficial, ocupou tanto espaço na social-democracia alemã. Vejam pelos representantes desse marxismo a que ponto ele atualmente caiu: a assessor e adjunto de Ebert, David e consortes. Vemos aí os representantes oficiais da doutrina que durante dezenas de anos nos foi apresentada como o marxismo verdadeiro, autêntico. Não, o marxismo não levava a isso, a fazer política contrarrevolucionária com os Scheidemann. O verdadeiro marxismo combate igualmente aqueles que procuravam falsificá-lo; como uma toupeira, solapou os alicerces da sociedade capitalista e fez que hoje a melhor parte do proletariado alemão marchasse sob a nossa bandeira, a bandeira tempestuosa da revolução; e mesmo do outro lado, ali onde a contrarrevolução parece ainda dominar, temos partidários, futuros camaradas de luta.


Assim, camadaras, conduzidos pela marcha da dialética histórica e enriquecidos pela experiência do desenvolvimento capitalista dos últimos setenta anos, encontramo-nos, como já disse, no ponto em que se encontravam Marx e Engels em 1848, quando desfraldaram pela primeira vez a bandeira do socialismo internacional. Acreditava-se então, quando da revisão dos erros e ilusões de 1848, que o proletariado ainda tinha um longo caminho a percorrer até que o socialismo pudesse tornar-se realidade. Evidentemente os teóricos sérios não trataram nunca de fixar uma data obrigatória e certa para o colapso do capitalismo; porém, supunha-se vagamente que o caminho seria ainda muito longo, justamente o que exprime cada linha do prefácio escrito por Engels em 1895. Mas agora podemos fazer o balanço. Não foi um curtíssimo lapso de tempo em comparação com o desenvolvimento das antigas lutas de classes? Setenta anos de desenvolvimento do grande capitalismo bastaram para que hoje possamos pensar seriamente em eliminar o capitalismo da face da Terra. E mais: não somente somos hoje capazes de resolver essa tarefa, não somente é nosso dever para com o proletariado, como sua solução constitui hoje a única salvação para a sobrevivência da sociedade humana.

Será que essa guerra, camaradas, deixou alguma outra coisa da sociedade burguesa além de um enorme monte de escombros? Formalmente o conjunto dos meios de produção e mesmo numerosos instrumentos de poder, quase todos os instrumentos decisivos de poder, encontram-se nas ainda nas mãos da classe dominante. Não nos enganemos a esse respeito. Mas o que elas podem fazer com isso, fora tentativas obstinadas de restabelecer a exploração com um banho de sangue, não passa de anarquia. Elas foram tão longe que hoje o dilema enfrentado pela humanidade é: queda na anarquia ou salvação pelo socialismo. Os resultados da guerra mundial põem as classes burguesas na impossibilidade de encontrar uma saída no terreno de sua dominação de classe e do capitalismo. E é assim que podemos verificar a verdade que precisamente Marx e Engels formularam pela primeira vez num grande documento, o Manifesto Comunista, como base científica do socialismo: o socialismo se tornará uma necessidade histórica, no mais estrito sentido da palavra que hoje nós vivenciamos. O socialismo tornou-se uma necessidade, não apenas porque o proletariado não está mais disposto a viver em condições materiais oferecidas pelas classes capitalistas, mas também porque estamos todos ameaçados de desaparecer se o proletariado não cumprir o seu dever de classe, realizando o socialismo.

Camaradas, esta é a base geral sobre a qual foi elaborado o problema que hoje adotamos oficialmente e de cujo projeto vocês tinham tomado conhecimento na brochura ‘O que quer a Liga Spartakus?’. Ele encontra-se em oposição consciente à separação entre reivindicações imediatas da luta política e econômica, chamadas reivindicações mínimas, e o objetivo final socialista, como programa máximo. Em oposição consciente a isso, liquidamos hoje os resultados dos últimos setenta anos de desenvolvimento e, sobretudo, o resultado imediato da guerra, dizendo: para nós, agora, não existe programa mínimo nem programa máximo; o socialismo é uma única e mesma coisa – isso é o mínimo que temos de realizar hoje.

Não me estenderei aqui no que diz respeito às medidas detalhadas que propusemos em nosso projeto de programa, pois vocês têm a possibilidade de tomar posição sobre cada uma delas, e comentá-las aqui detalhadamente nos levaria muito longe. Considero como minha tarefa assinalar e formular apenas os grandes traços gerais que distinguem nossa tomada de posição programática daquela existente até hoje, a da assim chamada social-democracia alemão oficial. Em contrapartida, considero mais importante e mais urgente pormo-nos de acordo sobre a maneira de avaliar as circunstâncias concretas, a maneira de configurar as tarefas táticas, as palavras de ordem práticas que decorrem da situação política de acordo com a concepção que tentei caracterizar, segundo a qual a realização do socialismo constitui a tarefa imediata, cuja luz deve guiar todas as medidas, todas as tomadas de posição de nossa parte.

Camaradas, creio poder dizê-lo com orgulho, nosso Congresso é o congresso constitutivo do único partido socialista revolucionário do proletariado alemão. Esse Congresso coincide, por acaso, ou melhor, para falar com precisão, não por acaso, com uma guinada no desenvolvimento da própria revolução alemã. Pode-se dizer que com os acontecimentos dos últimos dias encerrou-se a fase inicial da revolução alemã, que encontramos agora num segundo estágio, mais avançado, do desenvolvimento; é dever de todos nós e ao mesmo tempo fonte de um melhor e mais profundo conhecimento para o futuro fazer nossa autocrítica, fazer um exame crítico aprofundado do que realizamos, do que criamos e do que negligenciamos; isso nos permitirá adquirir pontos de apoio para o nosso procedimento futuro. Lancemos um olhar perscrutados sobre a primeira fase da revolução que acabou de encerrar.

Seu ponto de partida foi o 9 de novembro. O 9 de novembro foi uma revolução cheia de insuficiências e de fraquezas. Não é de admirar. Essa revolução chegou após quatro anos de guerra, após quatro anos no decorrer dos quais, graças à educação da social-democracia e dos sindicatos livres, o proletariado alemão revelou uma dose de infâmia e de renegação de suas tarefas socialistas sem igual em nenhum outro país. Se nos pusermos sobre o terreno do desenvolvimento histórico – e é justamente o que fazemos como marxistas e socialistas -, não se pode esperar ver surgir de repente, em 9 de novembro de 1918, uma revolução grandiosa, com consciência de classe e dos fins a atingir, numa Alemanha que ofereceu a terrível imagem do 4 de agosto e dos quatro anos que se seguiram; o que o 9 de novembro nos fez viver foi muito mais o colapso do imperialismo existente do que a vitória de um princípio novo. Simplesmente havia chegado o momento em que o imperialismo, colosso de pés de barro, apodrecido por dentro, tinha que desabar; e o que se seguiu foi um movimento mais ou menos caótico, sem plano, pouquíssimo consciente, no qual o único vínculo unificador, o único princípio constante, libertador, era resumido na palavra de ordem: formação dos conselhos de operários e soldados. Era a palavra-chave dessa revolução que lhe conferiu imediatamente o caráter especial de revolução socialista proletária – apesar das insuficiências e fraquezas do primeiro momento; e quando vierem com calúnias contra os bolcheviques russos, nunca deveremos nos esquecer de responder: onde aprenderam vocês o abc da atual revolução. Com os russos, com os conselhos de operários e soldados; e aquela gentinha que hoje, à cabeça do ‘governo socialista’, considera sua função, de mãos dadas com o imperialismo inglês, assassinar traiçoeiramente os bolcheviques russos, apoia-se formalmente nos Conselhos de Trabalhadores e Soldados, é obrigada a reconhecer que foi a Revolução Russa a emitir as primeiras palavras de ordem da revolução mundial. Podemos dizer com segurança – e isso resulta por si mesmo de toda a situação: qualquer que seja o país, depois da Alemanha, em que a revolução proletária irrompa, seu primeiro gesto será a formação de Conselhos de Trabalhadores e Soldados.

É justamente nisso que consiste o vínculo que unifica internacionalmente a nossa ação, é a palavra-chave que separa fundamentalmente a nossa revolução de todas as revoluções burguesas anteriores; é bem característico das contradições dialéticas em que esta revolução se move, aliás como todas as revoluções, que em 9 de novembro, quando deu seu primeiro grito, seu grito de nascimento por assim dizer, ela tenha encontrado a fórmula que agrupou todo mundo. A revolução encontrou instintivamente essa fórmula, apesar de 9 de novembro estar situada muito aquém dela. Em virtude das insuficiências, das fraquezas, por falta de iniciativa pessoal e de clareza sobre as tarefas a realizar, ela deixou escapar, somente dois dias após a revolução, a metade dos instrumentos de poder que havia conquistado em 9 de novembro. Isso mostra, por um lado, que a revolução atual está submetida à lei todo-poderosa da necessidade histórica, o que nos garante que alcançaremos nosso objetivo passo a passo, apesar de todas as dificuldades, complicações e fraquezas pessoais; mas, por outro lado, ao confrontarmos essa palavra de ordem clara com as insuficiências da prática à qual estava ligada, é preciso dizer que esses eram justamente os primeiros passos da revolução; ela terá de fazer ume esforço poderoso e percorrer um longo caminho para crescer e realizar plenamente suas primeiras palavras de ordem.

Camaradas, a primeira fase, que vai de 9 de novembro até estes últimos dias, é caracterizado por ilusões de todos os lados. A primeira ilusão do proletariado e dos soldados que fizeram a revolução foi a da unidade sob a bandeira do ‘socialismo’. Nada pode caracterizar melhor as fraquezas internas da revolução de 9 de novembro do que seu primeiro resultado: elementos que, duas horas antes da explosão da revolução, estimavam ter por função persegui-la, torna-la impossível, chegaram à cabeça do movimento – os Ebert-Scheidemann com Haase! A ideia da união das diferentes correntes socialistas no júbilo geral da unidade era a divisa da revolução de 9 de novembro – uma ilusão que devia vingar-se de forma sangrenta e com a qual deixamos de viver e de sonhar só nos últimos dias; mesma ilusão da parte do Ebert-Scheidemann e mesmo dos burgueses – de todos os lados. Além disso, uma ilusão da burguesia ao fim desse estágio: ela esperava, na realidade, manter as massas com rédea curta e reprimir a revolução socialista graças à combinação Ebert-Haase, graças ao ‘governo socialista’; e uma ilusão do governo Ebert-Scheidemann, que esperava poder deter a luta de classes socialista das massas trabalhadoras com a ajuda das massas de soldados no front. Essas eram as diversas ilusões que explicam também os acontecimentos dos últimos tempos. Todas as ilusões desfizeram-se em nada. Viu-se que a aliança de Haase com Ebert-Scheidemann sob o emblema do ‘socialismo’ não passava, na realidade, de uma folha de parreira sobre uma política puramente contrarrevolucionária; e, como em todas as revoluções, pudemos nos curar dessa ilusão. Existe um método revolucionário particular para curar o povo de suas ilusões, mas a cura é paga, infelizmente, com o sangue do povo. Nessa revolução, exatamente como em todas as anteriores, o sangue das vítimas (...) marcaram a grande massa com o selo desse saber, dessa verdade: o que vocês juntaram como se fosse um governo socialista nada mais é que um governo da contrarrevolução burguesa; quem continua a tolerar esse estado de coisas trabalha contra o proletariado e contra o socialismo.
(...)
Camaradas, eis um imenso campo a lavrar. Devemos fazer os preparativos de baixo para cima, devemos dar aos Conselhos de Trabalhadores e Soldados tal poder que, quando o governo Ebert-Scheidemann ou outro parecido for derrubado, isso será apenas o ato final. Assim, a conquista do poder não deve ser feita de uma vez, mas ser progressiva: nós nos introduziremos no Estado burguês até ocuparmos todas as posições, que defenderemos com unhas e dentes. E a luta econômica, em minha opinião e na de meus amigos mais próximos do partido, deve ser igualmente conduzida pelos conselhos de trabalhadores. São também os conselhos de trabalhadores que devem dirigir os conflitos econômicos e fazer-lhes tomar vias sempre mais largas. Os conselhos de trabalhadores devem ter todo o poder no Estado. É nessa direção que devemos trabalhar nos próximos tempos; se assumirmos essa tarefa, resulta daí que devemos contar com uma colossal exacerbação da luta nos próximos tempos. Pois trata-se de lutar passo a passo, corpo a corpo, em cada Estado, em cada cidade, em cada aldeia, em cada comuna, a fim de transferir para os Conselhos de Trabalhadores e Soldados todos os instrumentos do poder que será preciso arrancar, pedaço a pedaço, à burguesia.

Para isso, é preciso primeiro educar nossos camaradas, é preciso educar os proletários. Mesmo onde existem Conselhos de Trabalhadores e Soldados, ainda falta a consciência de quais são suas funções. Precisamos primeiro ensinar às massas que o Conselho de Trabalhadores e Soldados deve ser, em todas as direções, a alavanca da maquinaria do Estado, que ele deve apoderar-se de todos os poderes para fazê-los convergir para o mesmo canal: a transformação socialista. Mesmo as massas trabalhadoras, já organizadas nos Conselhos de Trabalhadores e Soldados, encontram-se a milhas disso, exceto naturalmente algumas pequenas minorias de proletários, que têm clara consciência de suas tarefas. Isso não constitui uma carência, mas é algo muito normal, Exercendo o poder, a massa deve aprender a exercer o poder. Não há nenhum outro meio de lhe ensinar isso. Felizmente, foi-se o tempo em que se tratava de ensinar o socialismo ao proletariado. Para os marxistas da escola de Kaustsky esse tempo parece não ter acabado. Educar as massas proletárias de maneira socialista significava: fazer-lhes conferências, distribuir panfletos e brochuras. Não, a escola socialista dos proletários não precisa de nada disso. Eles são educados quando passam à ação. No princípio era a ação, é aqui a divisa; e a ação consiste em que os Conselhos de Trabalhadores e Soldados se sentem chamados a tornar-se o único poder público em todo o Reich e aprendem a sê-lo. Só dessa maneira podemos minar o solo, a fim de que se torne maduro para a transformação que deve coroar nossa obra. Eis porque, camaradas, era por um cálculo claro, com uma consciência clara que declaramos ontem, que eu, em particular, disse: ‘Parem de encarar a luta tão levianamente!”. (...) Quero dizer com isso que a história não nos faz a tarefa tão fácil como nas revoluções burguesas, em que bastava derrubar o poder oficial no centro e substitui-lo por alguns homens, ou por algumas dúzias de homens novos. Precisamos trabalhar de baixo para cima, o que corresponde precisamente ao caráter de massa de nossa revolução, cujos objetivos visam aos fundamentos, ao solo da constituição social, o que corresponde ao caráter da atual revolução proletária; devemos conquistar o poder político não por cima, mas por baixo. O dia 9 de novembro foi a tentativa de abalar os poderes públicos, a dominação de classe, uma tentativa débil, incompleta, inconsciente, caótica. Agora é preciso dirigir, com total consciência, toda a força do proletariado contra os fundamentos da sociedade capitalista. É na base, onde cada patrão se defronta com seus assalaridado, na base, onde todos os órgãos executivos de dominação política de classe se defrontam com os objetos dessa dominação, as massas, é lá que devemos arrancar, passo a passo, os instrumentos de poder aos dominantes., pondo-os em nossas mãos. Tal como o descrevo, o processo parece talvez mais demorado do que se estava inclinado a ver num primeiro momento. Penso que é saudável para nós encararmos com plena clareza todas as dificuldades e complicações dessa revolução. Pois espero que, assim como eu, nenhum de vocês deixará a descrição das grandes dificuldades, das tarefas que se acumulam, paralisar seu ardor ou sua energia; ao contrário, quanto maior a tarefa, mais concentraremos todas as nossas forças; e não esqueceremos: a revolução sabe realizar sua obra com extraordinária rapidez. Não pretendo profetizar de quanto tempo esse processo precisa. Qual de nós faz a conta, qual de nós se preocupa com que nossa vida mal baste para consegui-lo? Importa somente que saibamos com clareza e precisão o que temos que fazer; e o que temos que fazer, espero tê-lo de algum modo exposto, com minha poucas forças, em suas grandes linhas.


(Congresso de Fundação do KPD - Partido Comunista Alemão in Textos Escolhidos volume II, pp. 343-356)


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Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios, Companhia das Letras, São Paulo, 1987  |  Gilbert Badia, Le Spartakisme et sa problématique, Annales. Histoire, Sciences Sociales, 21e Année, No. 3 (May - Jun., 1966), pp. 654-667  |  Riccardo Bellofiore, Rosa Luxemburg and the Critique of Political Economy, Routledge, Abindgon, New York, 2009  |  George Castellan, A propos de Rosa Luxemburg, Revue d'histoire moderne et contemporaine (1954) T.23e, No. 4 (Oct. - Dec,. 1976), pp. 573-582  |  Charles F. Elliott, Lenin, Rosa Luxemburg and the dilemma of non-revolutionary proletariat, Midwest Journal of Political Science, vol. IX number 4 november 1965  |  Paul Frölich, Rosa Luxemburgo: vida y obra, Editorial Fundamentos, Madrid, 1976 | Norman Geras, A Actualidade de Rosa Luxemburgo, AntídotoLisboa 1978  |  J. W. von Goethe, Fausto, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1987  |  Daniel Guérin, Rosa Luxemburgo e a espontaneidade revolucionária, Editora Perspectiva, São Paulo, 1982  | Eric J. Hobsbawn (org), História do Marxismo, O Marxismo na época da Segunda Internacional (3 volumes), Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1982, 1984  |  Hajo Holborn, A History of Modern Germany 1840-1945, Princeton University Press, Princeton, 1982 | M.C. Howard and J. E. King, A History of Marxian Economics, volume 1 1883-1929, Princeton University Press, New Jersey, 1989  |  Leszek Kolakowski, Main Currents of Marxism (3 vol.), Clarendon Press, Oxford, 1978 | Gérard Bensussan, George Labica, Dictionnaire Critique du Marxisme, Quadrige/PUF, Paris, 1999 |  Isabel Maria Loureiro, Rosa Luxemburg: os dilemas da ação revolucionária, Editora Unesp, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2004  |  Georg Lukács, Histoire et Conscience de Classe, Les Éditions de Minuit, Paris, Paris, 1976  | Ralph Haswell Lutz, The German Revolution 1918-1919, Cambridge University Press, 1967  |  Rosa Luxemburgo, Textos Escolhidos, 3 volumes, Isabel Loureiro (org.), Editora Unesp, São Paulo, 2011  |  Rosa Luxemburg, A Acumulação do Capital e Anticrítica, 2 volumes, coleção "Os Economistas", Nova Cultural, São Paulo, 1988  |  Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto Comunista, Boitempo, São Paulo, 1998  |  J. P. Nettl, Rosa Luxemburgo, Ediciones Era, México, 1974; Rosa Luxemburg, Il Saggiatore, Milano, 1978 |  Carl E. Schorske, German Social Democracy 1905-1917, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 2014 | H. Schurer, The Russian Revolution of 1905 and the Origins of German CommunismThe Slavonic and East European Review, Vol. 39. N. 93 (Jun. 1961) pp. 459-471




Ein Marxist hat nicht das Recht, Pessimist zu sein.  


Die Befreiung der Arbeiterklasse muß das Werk der Arbeiterklasse selbst sein.





sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A claraboia e o holofote #29 (X)







Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista






Rosa Luxemburg


A conferência nacional da Liga Spartakus (1918)



texto integral



Amanhã reúnem-se representantes da mais odiada, da mais caluniada, da mais perseguida tendência política de toda a Alemanha – a Liga Spartakus. Com orgulho e confiança reúnem-se sob a bandeira posta à prova na tempestade para, numa breve reunião cercada pelo sopro quente da revolução, deliberar sobre os objetivos e os caminhos a seguir.

Como outrora em Flandres o nome ‘Geusen’, mendigos, o nome dos ‘spartakistas’ tornou-se hoje na Alemanha símbolo da luta revolucionária intensa, da energia proletária inquebrantável, do apego firme aos objetivos do socialismo, símbolo de tudo aquilo que as classes dominantes, a que a sociedade capitalista tem horror e que odeia até a morte.

A Liga olha retrospectivamente para seu breve, porém movimentado passado. O colapso da social-democracia alemã em 4 de agosto de 1914 foi a hora do nascimento de Spartakus. A bancarrota ruidosa da tática partidária tradicional, sua traição vergonhosa às tarefas e deveres de honra mais sagrados do socialismo na hora da grande decisão trouxe imediatamente à tona a rebelião aberta e enérgica dos spartakistas. Deles saiu, já em agosto de 1914, o primeiro protesto público contra o vexame do partido oficial, publicado na imprensa italiana, inglesa, holandesa e que alto bradava: tenham esperança e animem-se! Ainda existem socialistas na Alemanha!

Quando as massas trabalhadoras, na hipnose paralisante do delírio bélico, ainda assistiam indiferentes ou mesmo exultantes ao assalto vitorioso do imperialismo, quando o partido jazia numa plúmbea tranquilidade de cemitério depois do suicídio de 4 de agosto, desses mesmos spartakistas saíram as primeiras reuniões na periferia de Berlim – Steglitz, Mariendorf, Charlottenburg, NeuKöllm -, as primeiras conferências em Stuttgart, Frankfurt am Main, Leipzig, os primeiros sinais de união contra o partido oficial, os primeiros enfrentamentos, olhos nos olhos, com os traidores do socialismo e da Internacional.

Da tribuna do Reichstag, no jornal Internationale, na brochura de Junius, em panfletos, o pequeno grupo lutou incansavelmente, sob o estado de sítio e a ditadura da espada, para salvar a honra do proletariado alemão, para sacudir as massas, para atiçar a faísca sagrada do idealismo revolucionário.

As perseguições caíram compactamente sobre os desmancha-prazeres. Sumiram durante anos um atrás do outro, mandados para prisões e penitenciárias repletas ou mandados das fábricas para as trincheiras. Contudo, quando algum continuava em liberdade, logo o grupo se reunia de novo, logo recomeçava o trabalho subterrâneo, o tenaz trabalho de toupeira que devia solapar o edifício rígido do imperialismo.

E os vínculos com a massa proletária continuaram a tecer-se cada vez mais fortemente. Enquanto os independentes [os militantes do USPD], depois de dois anos de paciente colaboração com os Judas do movimento operário, de modo hesitante e irresoluto deles se separaram, a fim de teimosamente levar adiante as tradições viciadas e fraudulentas da velha social-democracia e de sua ilusória existência parlamentar, os spartakistas abriram caminho para um tática nova e revolucionária, a da ação de massas extraparlamentar, exortaram e chamaram incansavelmente à greve de massas até conseguirem fortalecer e elevar a autoconfiança, a coragem do operariado para a luta.

Depois de cada arranque, as ondas de luta, que quase não se moviam, diminuíam e se acalmavam; uma calmaria mortal, plúmbea, parecia reapoderar-se do espírito das massas. Era preciso uma vontade férrea e uma fé que remove montanhas para nesses quatro anos e três meses não afrouxar nem um dia, não abandonar o incansável trabalho de mineiro, não cair no pessimismo confortável a respeito das ‘massas alemãs’, que servia de pretexto barato à própria indolência dos independentes.

Para os spartakistas não havia desânimo nem vacilações. Assobiando alegremente nas celas gradeadas e nas fábricas, nas trincheiras e nos centros de deliberação conspirativos, farejados por espiões, cercados de agentes de polícia, eles aguçaram suas flechas, difundiram seus panfletos, instigaram fortemente a consciência moral das massas, desafiaram audaciosamente sem parar o colosso triunfante do imperialismo.

Até que em 9 de novembro, o colosso de pés de barro caiu ruidosamente ao chão, o proletariado alemão finalmente recuperou sua grandeza e a revolução começou.

Desde o primeiro dia da revolução começou uma cruzada da burguesia, da pequena burguesia, dos oficiais, do pessoal de Ebert – de todos os elementos contrarrevolucionários contra a Liga Spartakus. Esse era o recibo pelo cumprimento do dever sob a ditadura da espada do imperialismo; ao mesmo tempo, era o instinto seguro dos guardiões da ordem social capitalista sob ameaça que dirigia todas as suas flechas envenenadas para onde sentia bater o coração da revolução proletária.

Os inimigos mortais do proletariado e do socialismo não foram enganados por seu instinto. Na revolução alemã cabe à Liga Spartakus um papel especial, uma tarefa de grande responsabilidade, um alto dever.

Um abismo profundo a separa dos mercenários a serviço dos exploradores e opressores, do pessoal de Ebert-Scheidemann, manchado de sangue, a quem só tem a oferecer um punho cerrado.

Um abismo também a separa dos independentes que, nas cinco semanas de revolução, entenderam que deviam evoluir não para a frente mas para trás; que, de críticos passivos da prostituição scheidemanniana durante a guerra, transformaram-se em ativos participantes dessa prostituição; que, por cima dos golpes, intrigas e túmulos, por cima de infâmias e poças de sangue, ainda estendem a mão a Ebert-Scheidemann para um trabalho conjunto. Para esse pessoal – mesmo que amanhã, sob a pressão do desprezo geral e de seu próprio colapso moral, finalmente rompam o vínculo infame com o governo de Ebert – valem as palavras: tarde demais! Eles estão liquidados para a revolução, para o proletariado. A continuação de seu caminho, leva-os para o lamaçal da contrarrevolução à qual estenderam por muito tempo a mão auxiliadora.

Mas existe também um limite que nos separa dos elementos indecisos e pusilânimes do USPD, os quais, exasperados com a profunda queda dos Haase-Dittman e companheiros, não têm, contudo, coragem nem firmeza para levá-los ao pelourinho, para fazer o grande ajuste de conta das massas com eles, para se colocar diante da alternativa de se separarem da contrarrevolução ou se excluírem das fileiras do proletariado combativo.

Revoluções não conhecem meias medidas, não fazem compromisso, não rastejam, não se curvam. Revoluções precisam de intenções explícitas, princípios claros, corações decididos, homens completos.

A revolução atual, que está somente em seu primeiro estágio, que tem diante de si formidáveis perspectivas e que precisa superar problemas histórico-universais, deve ter uma bússola segura que imperturbavelmente aponte, em cada estágio da luta, em cada vitória e em cada derrota para o mesmo grande objetivo: a revolução socialista universal, o enérgico poder combativo do proletariado pela libertação da humanidade do jugo do capital.

Ser essa bússola que aponta a direção, essa flecha que se move para diante, o fermento proletário-socialista da revolução – eis a tarefa específica da Liga Spartakus no embate atual entre dois mundos.

A história é a única mestra verdadeira e a revolução é a melhor escola para o proletariado. Elas cuidarão de que o ‘pequeno grupo’ dos mais caluniados e perseguidos se torne pouco a pouco aquilo que sua visão de mundo o destina: ser a massa combativa e vitoriosa do proletariado socialista-revolucionário.

(A Conferência Nacional da Liga Spartakus in Textos Escolhidos, volume II, pp. 329-333)





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Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios, Companhia das Letras, São Paulo, 1987  |  Gilbert Badia, Le Spartakisme et sa problématique, Annales. Histoire, Sciences Sociales, 21e Année, No. 3 (May - Jun., 1966), pp. 654-667  |  Riccardo Bellofiore, Rosa Luxemburg and the Critique of Political Economy, Routledge, Abindgon, New York, 2009  |  George Castellan, A propos de Rosa Luxemburg, Revue d'histoire moderne et contemporaine (1954) T.23e, No. 4 (Oct. - Dec,. 1976), pp. 573-582  |  Charles F. Elliott, Lenin, Rosa Luxemburg and the dilemma of non-revolutionary proletariat, Midwest Journal of Political Science, vol. IX number 4 november 1965  |  Paul Frölich, Rosa Luxemburgo: vida y obra, Editorial Fundamentos, Madrid, 1976 | Norman Geras, A Actualidade de Rosa Luxemburgo, AntídotoLisboa 1978  |  J. W. von Goethe, Fausto, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1987  |  Daniel Guérin, Rosa Luxemburgo e a espontaneidade revolucionária, Editora Perspectiva, São Paulo, 1982  | Eric J. Hobsbawn (org), História do Marxismo, O Marxismo na época da Segunda Internacional (3 volumes), Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1982, 1984  |  Hajo Holborn, A History of Modern Germany 1840-1945, Princeton University Press, Princeton, 1982 | M.C. Howard and J. E. King, A History of Marxian Economics, volume 1 1883-1929, Princeton University Press, New Jersey, 1989  |  Leszek Kolakowski, Main Currents of Marxism (3 vol.), Clarendon Press, Oxford, 1978 | Gérard Bensussan, George Labica, Dictionnaire Critique du Marxisme, Quadrige/PUF, Paris, 1999 |  Isabel Maria Loureiro, Rosa Luxemburg: os dilemas da ação revolucionária, Editora Unesp, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2004  |  Georg Lukács, Histoire et Conscience de Classe, Les Éditions de Minuit, Paris, Paris, 1976  | Ralph Haswell Lutz, The German Revolution 1918-1919, Cambridge University Press, 1967  |  Rosa Luxemburgo, Textos Escolhidos, 3 volumes, Isabel Loureiro (org.), Editora Unesp, São Paulo, 2011  |  Rosa Luxemburg, A Acumulação do Capital e Anticrítica, 2 volumes, coleção "Os Economistas", Nova Cultural, São Paulo, 1988  |  Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto Comunista, Boitempo, São Paulo, 1998  |  J. P. Nettl, Rosa Luxemburgo, Ediciones Era, México, 1974; Rosa Luxemburg, Il Saggiatore, Milano, 1978 |  Carl E. Schorske, German Social Democracy 1905-1917, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 2014 | H. Schurer, The Russian Revolution of 1905 and the Origins of German CommunismThe Slavonic and East European Review, Vol. 39. N. 93 (Jun. 1961) pp. 459-471




Ein Marxist hat nicht das Recht, Pessimist zu sein.  


Die Befreiung der Arbeiterklasse muß das Werk der Arbeiterklasse selbst sein.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A claraboia e o holofote #29 (IX)









Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista



 


Rosa Luxemburg


A  Revolução Russa (1918)




Excertos



I

A Revolução Russa é o fato mais marcante da guerra mundial. (...) O alcance prodigioso obtido pela revolução na Rússia, seu efeito profundo que abala todas as relações de classe, revelando o conjunto dos problemas econômicos e sociais, fazendo-a avançar com a fatalidade de sua lógica interna, do primeiro estágio da república burguesa pra fases novas –não tendo sido a queda do czarismo senão um pequeno episódio, quase uma ninharia- tudo isso mostra claramente que a libertação da Rússia não foi obra da guerra nem da derrota militar do czarismo, não foi mérito das ‘baionetas alemãs em punhos alemães’, como prometia o editorial da Neue Zeit dirigida por Kautsky, mas que ela possuía raízes profundas no próprio país e atingira a plena maturidade interna. (...)
Porém, para todo observador que reflita, esse desenvolvimento é uma prova flagrante contra a teoria doutrinária que Kautsky compartilha com o partido dos socialistas governamentais, segundo a qual a Rússia, país economicamente atrasado, essencialmente agrário, não estaria maduro para a revolução social nem para uma ditadura do proletariado. Essa teoria que só admite como possível na Rússia uma revolução burguesa – concepção de que resulta igualmente a tática da coalização dos socialistas com o liberalismo burguês na Rússia – é, ao mesmo tempo, a da ala oportunista do movimento operário russo, os chamados mencheviques, sob a experimentada direção de Axelrod e Dan. Tanto os oportunistas russos quanto os alemães estão totalmente de acordo com os socialistas governamentais alemães nessa concepção fundamental da Revolução Russa, da qual decorre naturalmente a tomada de posição em questões de detalhes da tática. Na opinião dos três, a Revolução Russa deveria ter parado no estágio da derrubada do czarismo, nobre tarefa que, na mitologia da social-democracia alemã, os estrategistas militares do imperialismo haviam estabelecido. Se foi além, se estabeleceu como tarefa a ditadura do proletariado, isso aconteceu, segundo essa doutrina, por simples erro da ala radical do movimento operário russo, os bolcheviques; e todas as intempéries que a revolução enfrentou no seu desenvolvimento posterior, todas as confusões de que foi vítima, nada mais são que o simples resultado desse erro fatal. Teoricamente, essa doutrina, apresentada tanto por Vorwärts de Stampfer quanto por Kautsky como fruto do ‘pensamento marxista’, chega à descoberta ‘marxista’ original de que a transformação socialista é assunto nacional, por assim dizer doméstico, de cada Estado moderno em particular. Nas brumas desse esquema abstrato, um Kautsky sabe, de maneira natural, descrever com minúcias as imbricações econômicas mundiais do capitalismo, que fazem com que todos os países modernos sejam organicamente interdependentes.
A revolução na Rússia – fruto do desenvolvimento internacional e da questão agrária – não pode ser resolvido nos limites da sociedade burguesa.
(...)
É claro que só uma crítica aprofundada e refletida, não uma apologia acrítica, será capaz de recolher esses tesouros de experiências e ensinamentos. De fato, seria loucura imaginar que o primeiro experimento histórico mundial de ditadura da classe operária, realizado nas mais difíceis condições – em plena conflagração mundial e em pleno caos provocado pelo genocídio imperialista, preso na armadilha de ferro da potência militar mais reacionária da Europa, em face da completa omissão do proletariado internacional -, que num experimento de ditadura operária em condições tão anormais, tudo o que se fez ou deixou de fazer na Rússia alcançasse o cúmulo da perfeição. Ao contrário, os conceitos elementares da política socialista e a compreensão dos pressupostos históricos necessários à realização dessa política obrigam a reconhecer que, em condições tão fatais, nem o mais gigantesco idealismo nem a mais inabalável energia revolucionária seriam capazes de realizar a democracia e o socialismo, mas apenas rudimentos frágeis e caricaturais de ambos.
Encarar isso com clareza, em todas as suas implicações e consequências profundas, é, incontestavelmente, o dever elementar dos socialistas de todos os países; pois somente a partir dessa compreensão amarga é que se poderá medir toda a extensão da responsabilidade específica do proletariado internacional no que se refere ao destino da Revolução Russa. Aliás, é apenas por esse meio que se verá a importância decisiva de uma ação internacional conjunta na revolução proletária – condição fundamental, sem a qual a maior habilidade e os mais sublimes sacrifícios do proletariado de um único país enredam-se inevitavelmente numa confusão de contradições e erros.
(...)
Seria igualmente errado temer que um exame crítico dos caminhos seguidos até aqui pela Revolução Russa possa abalar perigosamente o prestígio e o exemplo fascinante do proletariado russo, o único capaz de vencer a inércia fatal das massas alemãs. Nada mais falso. O despertar da combatividade revolucionária da classe operária alemã não pode provir, como que por encanto, de qualquer operação de sugestão praticada segundo o espírito dos métodos de tutela da social-democracia alemã – que Deus a tenha -, que incitaria a massa a crer cegamente numa autoridade imaculada, que a das próprias ‘instâncias’, quer a do ‘exemplo russo’. A capacidade de o proletário alemão realizar ações históricas não pode nascer da fabricação de um entusiasmo revolucionário acrítico; ao contrário, só nascerá da compreensão da terrível gravidade, de toda a complexidade das tarefas a cumprir, da maturidade política e da autonomia intelectual, da capacidade de julgamento crítico das massas, sistematicamente abafadas ao longo de décadas, sob os mais diversos pretextos pela social-democracia alemã.

II

O primeiro período da Revolução Russa, desde a sua explosão em março até a revolução de outubro, corresponde exatamente, em seu curso geral, ao esquema evolutivo das grandes revoluções inglesa e francesa. É o desenvolvimento típico de todo primeiro grande conflito generalizado das forças revolucionárias engendradas no seio da sociedade burguesa, contra as amarras da velha sociedade.

Ela progride naturalmente em linha ascendente: moderados no início, os objetivos radicalizam-se cada vez mais e, paralelamente, passa-se da coalizão de classes e partidos à dominação exclusiva do partido mais radical.
(...)
Desde o primeiro momento, a força motriz da revolução havia sido a massa do proletariado urbano. Mas sua reivindicações não se esgotavam com a democracia política; ao contrário, dirigiam-se para a questão candente da política internacional: a paz imediata. Ao mesmo tempo, a revolução se apoiava na massa do exército, que fazia a mesma reivindicação de paz imediata, e na massa dos camponeses, que punha em primeiro plano a questão agrária, pivô da revolução desde 1905. Paz imediata e terra - esses dois objetivos implicavam a cisão no interior da falange revolucionária. A reivindicação de paz imediata estava em contradição absoluta com a tendência imperialista da burguesia liberal, cujo porta-voz era Miliukov; a questão agrária era, no início, um espantalho para a outra ala da burguesia, a nobreza proprietária de terras, mas, em seguida, foi considerada um atentado à sacrossanta propriedade privada em geral, tornando-se um ponto sensível para o conjunto das classes burguesas.

Assim, no dia seguinte ao da primeira vitória da revolução, começou em seu seio uma luta interna em torno das duas questões principais: a paz e a questão agrária. A burguesia liberal adotou uma tática diversionista e evasiva. As massas trabalhadoras, o exército e os camponeses pressionavam cada vez mais violentamente. Não há dúvida de que o próprio destino da democracia política da República estava ligado à questão da paz e à questão agrária. As classes burguesas que, submersas pela primeira vaga tempestuosa da revolução, se tinham deixado arrastar até a forma do Estado republicano, começaram imediatamente a procurar pontos de apoio na retaguarda e a organizar em segredo a contrarrevolução.
(...)
Nessa situação, coube à tendência bolchevique o mérito histórico de ter proclamado e seguido, desde o início, com uma coerência férrea, a única tática que podia salvar a democracia e fazer avançar a revolução. Todo o poder exclusivamente nas mãos das massas trabalhadoras e camponesas, nas mãos dos sovietes - essa era de fato a única saída para as dificuldades em que a revolução havia caído, o golpe de espada que cortava o nó górdio -, tirava a revolução do impasse e deixava o campo livre para que ela continuasse a se desenvolver sem entraves.

O partido de Lênin foi, assim, o único na Rússia que compreendeu, nesse primeiro período, os verdadeiros interesses da revolução. foi o elemento que a fez avançar e, nesse sentido, o único partido que praticou uma política realmente socialista.
(...)
Com isso, a Revolução Russa apenas confirmou a lição fundamental de toda grande revolução, cuja lei vital é a seguinte: ela precisa avançar muito rápida e decididamente, abater com mão de ferro todos os obstáculos e pôr seus objetivos sempre mais longe, ou será logo jogada aquém de seu frágil ponto de partida e esmagda pela contrarrevolução. Parar, marcar passo, contentar-se com o primeiro objetivo alcançado, isso não existe numa revolução. E quem quiser transpor para a tática revolucionária essa sabedoria caseira das guerrinhas parlamentares mostra apenas que a psicologia, que a própria lei vital da revolução lhe é tão estranha quanto toda experiência histórica, que permanece um livro fechado a sete chaves.
(...)
Kautsky e seus correlegionários russos, que desejavam que a Revolução Russa conservasse o 'caráter burguês' de sua primeira fase, são a exata contrapartida dos liberais alemães e ingleses do século passado que distinguiam assim os dois célebres períodos da grande Revolução Francesa> a 'boa' revolução da primeira fase, a fase girondina, e a 'má', após a tomada do poder pelos jacobinos. Essa concepção liberal, superficial da história, não precisava naturalmente compreender que, sem a tomada do poder por esses jacobinos 'sem medida', até mesmo as tímidas meias conquistas da fase girondina logo teriam sido soterradas sob as ruínas da revolução, e que a alternativa real à ditadura jacobina, tal como posta pela marcha inexorável do desenvolvimento histórico no ano de 1793, não era a democracia 'moderada', e sim a restauração dos Bourbon! Em nenhuma revolução o 'justo meio' pode ser mantido, pois sua lei natural exige decisões rápidas: ou a locomotiva subirá a encosta histórica a todo vapor até o cume, ou, arrastada pelo próprio peso, voltará à planície de onde partiu, arrastando consigo para o abismo os que, sem esperança de salvação, com suas fracas forças, queriam detê-la no meio do caminho.
(...)
Os bolcheviques resolveram dessa forma a célebre questão da 'maioria do povo', pesadelo que sempre oprimiu os social-democratas alemães. Pupilos incorrigíveis do cretinismo parlamentar, eles transpõem simplesmente para a revolução a sabedoria caseira do jardim da infância parlamentar: para fazer alguma coisa, é preciso ter antes a maioria. Portanto, também na revolução, conquistemos primeiro a 'maioria'. Mas a dialética real das revoluções inverte essa sabedoria de toupeira parlamentar: o caminho não leva à tática revolucionária pela maioria; ele leva à maioria pela tática revolucionária. Só um partido que saiba dirigir, isto é,  fazer avançar, ganha seguidores na tempestade. A resolução com que Lênin e seus companheiros lançaram no momento decisivo a única palavra de ordem mobilizadora - todo o poder ao proletariado e ao campesinato! - fez de uma minoria perseguida, caluniada, 'ilegal', cujos dirigentes, como Marat, preciavam esconder-se em caves, quase de um dia para outro, a dona absoluta da situação.
Os bolcheviques também estabeleceram imediatamente, como objetivo da tomada de poder, o mais avançado e completo programa revolucionário: não se tratava de garantir a democracia burguesa, e sim a ditadura do proletariado, tendo como fim a realização do socialismo. Eles adquiram assim o imperecível mérito histórico de terem proclamado, pela primeira vez, os objetivos finais do socialismo como programa imediato da prática política.


III

A palavra de ordem lançada pelos bolcheviques - apropriação imediata e repartição das terras pelos camponeses - (...) não só não é uma medida socialista como bloqueia o caminho que para lá conduz, acumulando dificuldades insuperáveis para a reestruturação das condições agrárias em sentido socialista.

A tomada das terras pelos camponeses conforme a sumária e lapidar palavra de ordem de Lênin a seus amigos - Vão e tomem as terras! - levou simplesmente a uma passagem brusca e caótica da grande propriedade fundiária à propriedade fundiária camponesa. Não foi criada a propriedade social, e sim uma nova propriedade privada: dividiu-se a grande propriedade em médias e pequenas propriedades, a grande exploração relativamente avançada em pequenas explorações primitivas que, no plano técnico, trabalham com os meios da época dos faraós. E mais: essa medida e a maneira caótica, puramente arbitrária, como foi aplicada não eliminaram as diferenças de propriedade no campo, mas as agravaram. Embora os bolcheviques recomendassem ao campesinato formar comitês de camponeses, a fim de fazer da apropriação das terras da nobreza uma espécie de ação coletiva, é claro que esse conselho genérico não podia mudar nada no tocante à prática efetiva e à real correlação de forças no campo. Com ou sem comitês, os camponeses ricos e os usurários, que formavam a burguesia rural e que de fato detinham o poder local em toda a aldeia russa,  foram certamente os principais beneficiários da revolução agrária. Mesmo sem ver, é evidente para todo mundo que, no fim da partilha das terras, as desigualdades econômicas e sociais no seio do campesinato não foram eliminadas e sim exacerbadas, assim como acabaram agravados os antagonismos de classe. Mas esse deslocamento de forças ocorreu, incontestavelmente, em detrimento dos interesses proletários e socialistas.

Discurso de Lênin sobre a centralização necessária na indústria, a nacionalização dos bancos, do comércio e da indústria. Por que não das terras? Aqui, ao contrário, descentralização e propriedade privada.
(...)
Agora, após a 'tomada de posse', a coletivização socialista da agricultura tem um novo inimigo, uma massa de camponeses proprietários que aumentou, se fortaleceu enormemente e que defenderá com unhas e dentes, contra todo  atentado socialista, sua propriedade recentemente adquirida.

Os bolcheviques são em parte culpados pela transformação da derrota militar no colapso e na desagregação da Rússia. Eles próprios agravaram de maneira considerável as dificuldades objetivas da situação com uma palavra de ordem, que puseram em primeiro plano na sua política, o assim chamado direito à autodeterminação dos povos, ou o que na realidade se escondia por trás desse palavreado: a desagregação do Estado russo.
(...)
Em primeiro lugar, o que choca na obstinação e na intransigência com que Lênin e seus companheiros se agarraram a essa palavra de ordem é o fato de ela estar em flagrante contradição, não só com seu anterior pronunciado centralismo político, mas também com sua atitude perante os outros princípios democráticos. Enquanto manifestava um desprezo glacial pela Assembleia Constituinte, pelo sufrágio universal, pela liberdade de imprensa e de reunião, em suma, por todo o aparato das liberdades democráticas fundamentais das massas populares, cujo conjunto constituía o 'direito à autodeterminação' na própria Rússia, eles tratavam o direito das nações à autodeterminação como a joia da política democrática, por amor da qual era preciso calar todas as considerações práticas da crítica realista. Enquanto não se tinham deixado impressionar minimamente pelo voto popular para a Assembleia Constituinte da Rússia - voto popular fundado no sufrágio mais democrático do mundo, dado na plena liberdade de uma república popular - e, após austeras considerações críticas, simplesmente declararam nulo seu resultado, em Brest defenderam o 'voto popular' das nações não russas para decidir fazer, ou não, parte do Estado Russo, apresentando-o como verdadeiro paládio da liberdade e da democracia, a quinta-essência inalterada da vontade popular, a instância suprema, a instância decisiva na questão do destino político das nações.

Essa contradição flagrante é tanto mais incompreensível que as formas democráticas da vida política em todos os países, como veremos em seguida, constituem de fato os mais preciosos e indispensáveis fundamentos da política socialista, ao passo que o ilustre 'direito à autodeterminação' não passa de oca fraseologia pequeno-burguesa, disparate.
(...)
Os bolcheviques tiveram que aprender, em seu detrimento e no da revolução, que, sob a dominação do capitalismo, não existe autodeterminação da 'nação', que, numa sociedade de classes, cada classe da nação aspira a se 'autodeterminar' de um modo diferente, que, para as classes burguesas, as considerações sobre a liberdade nacional vêm muito depois das considerações sobre a dominação de classe. A burguesia finlandesa, assim como a pequena burguesia ucraniana, pôs-se totalmente de acordo ao preferir a dominação alemã à liberdade nacional, caso esta tivesse de estar ligada aos perigos do 'bolchevismo'.
(...)
Como é possível que em todos esses países a contrarrevolução triunfe de maneira súbita? Foi precisamente separando-o da Rússia que o movimento nacionalista paralisou o proletariado e o entregou à burguesia nacional dos países limítrofes.
(...)
A melhor prova é a Ucrânia, que deveria representar um papel tão fatal nos destinos da Revolução Russa. O nacionalismo ucraniano na Rússia era completamente diferente do tcheco, do polonês ou do finlandês, nada mais que um simples capricho, uma frivolidade de algumas dúzias de intelectuais pequeno-burgueses, sem raízes na situação econômica, política ou intelectual do país, sem qualquer tradição histórica, pois a Ucrânia nunca formou um Estado ou uma nação, não tinha nenhuma cultura nacional, exceto os poemas românticos e reacionários de Chevtchenko. (...) E com sua agitação doutrinária sobre o 'direito à autodeterminação', Lênin e seus companheiros inflaram artificialmente essa farsa ridícula de alguns professores e estudantes universitários, transformando-a num fator político. 


IV

É fato que Lênin e seus companheiros, até a vitória de outubro, exigiam com estardalhaço a convocação de uma Assembleia Constituinte, e que justamente a política de contemporização do governo Kerenski nesse ponto constituía uma das acusações dos bolcheviques contra esse governo, dando-lhe motivos para os mais violentos ataques. (...) E agora, depois dessas declarações, o primeiro passo de Lênin após a Revolução de Outubro foi dispersar essa mesma Assembleia Constituinte à qual a revolução deveria conduzir.

Com base nas insuficiências específicas da Assembleia Constituinte reunida em outubro, Trotsky conclui que toda Assembleia Constituinte é supérflua e generaliza mesmo essas insuficiências, proclamando a inutilidade, durante a revolução, de toda representação popular de eleições populares gerais.

'Graças à luta aberta e direta pelo poder governamental, as massas trabalhadoras acumulam em muito pouco tempo uma experiência política considerável e sobem rapidamente, em seu desenvolvimento a um nível mais elevado. O pesado mecanismo das instituições democráticas segue tanto mais dificilmente esse desenvolvimento, quanto maior for o país e mais imperfeito seu aparato técnico'. (in Trotsky, Da revolução de Outubro ao tratado de paz de Brest)

Pode-se objetar, antes de tudo, que essa apreciação das instituições representativas exprime uma concepção um tanto esquemática e rígida, que contradiz expressamente a experiência histórica de todas as épocas revolucionárias.
(...)
Tudo isso mostra que o 'pesado mecanismo das instituições democráticas' encontra um corretivo exatamente no movimento vivo e na pressão constante da massa. E quanto mais democrática a instituição, quanto mais viva e forte a pulsação da vida política da massa, tanto mais imediata e precisa é a influência que ela exerce - apesar das etiquetas partidárias rígidas, das listas eleitorais obsoletas etc. É claro que toda instituição democrática tem seus limites e lacunas, o que aliás, compartilha com todas as instituições humanas. Só que o remédio encontrado por Lênin e Trotsky - suprimir a democracia em geral - é ainda pior que o mal que devia impedir; ele obstrui a própria fonte viva a partir da qual podem ser corrigidas todas as insuficiências congênitas das instituições sociais: a vida política ativa, sem entraves, enérgica das mais largas massas populares.
(...)
Quando após a Revolução de Outubro, toda a camada média, a intelligentsia burguesa e pequeno-burguesa boicotaram durante meses o governo soviético, paralisando as estradas de ferro, os correios, o telégrafo, as escolas e o aparelho administrativo, insurgindo-se assim contra o governo dos trabalhadores, impunham-se todas as medidas de pressão para quebrar com mão de ferro a resistência contra ele: privação dos direitos políticos, dos meios de subsistência etc. Dessa forma, se exprimia com efeito a ditadura socialista, que não deve recuar perante nenhum meio coercitivo para impor ou impedir certas medidas no interesse de todos. Em contrapartida, um direito de voto [exclusivo àqueles que vivem do próprio trabalho] que priva vastas camadas da sociedade de direitos, que as exclui politicamente do quadro social, sem ser capaz, economicamente, de criar um lugar para elas no interior desse quadro; uma privação de direitos que não é uma medida concreta visando a um fim concreto, mas uma uma regra geral de efeito duradouro, não constitui uma necessidade da ditadura e sim uma improvisação incapaz de sobreviver. 
(...)
As tarefas gigantescas que os bolcheviques enfrentaram, com coragem e determinação, exigiam precisamente a mais intensiva formação política das massas e acúmulo de experiências... Liberdade somente para os partidários do governo, somente para os membros de um partido - por mais numerosos que sejam -, não é liberdade. Liberdade é sempre liberdade de quem pensa de modo diferente. Não por fanatismo pela 'justiça', mas porque tudo quanto há de vivificante, salutar, purificador na liberdade política depende desse caráter essencial e deixa de ser eficaz quando a 'liberdade' se torna privilégio.
(...)
A prática do socialismo exige uma transformação completa no espírito das massas, degradadas por séculos de dominação da classe burguesa. Instintos sociais em vez de instintos egoístas; iniciativa das massas em vez de inércia; idealismo, que faz superar todos os sofrimentos etc. Ninguém sabe disso melhor, nem descreve com mais precisão, nem repete com mais obstinação do que Lênin. Só que ele se engana completamente quanto aos meios. Decretos, poder ditatorial dos contramestres, punições draconianas, domínio do terror, tudo isso são paliativos. O único caminho que leva ao renascimento é a própria escola da vida pública, a mais ampla e ilimitada democracia, opinião pública. É justamente o domínio do terror que desmoraliza. 
(...)
O erro fundamental da teoria de Lênin-Trotsky consiste precisamente em opor, tal como Kautsky, a ditadura à democracia. 'Ditadura ou democracia', assim é posta a questão, tanto pelos bolcheviques quanto por Kautsky. Este se decide naturalmente pela democracia, isto é, pela democracia burguesa, visto que é a alternativa que propõe à transformação socialista.  Em contrapartida, Lênin-Trotsky se decidem pela ditadura em oposição à democracia e, assim, pela ditadura de um punhado de pessoas, isto é, pela ditadura burguesa. São dois polos opostos, ambos igualmente afastados da verdadeira política socialista. Quando o proletariado toma o poder (...) tem o dever e a obrigação de tomar imediatamente medidas socialistas da mais maneira mais enérgica, mais inexorável, mais dura, por conseguinte, exercer a ditadura, mas a ditadura de classe, não a de um partido ou de uma claque. (...) Nunca fomos idólatras da democracia formal só pode significar que sempre fizemos distinção entre o núcleo social e a forma política da democracia burguesa; que sempre desvendamos o áspero núcleo da desigualdade e da servidão sociais escondido sob o doce invólucro da igualdade e da liberdade formais - não para rejeitá-las, mas para incitar a classe trabalhadora a não se contentar com o invólucro, incitá-la a conquistar o poder político para preenchê-lo com um conteúdo social novo. A tarefa histórica do proletariado, quando toma o poder, consiste em instaurar a democracia socialista no lugar da democracia burguesa, e não em suprimir a democracia. (...) A democracia socialista começa com a destruição da dominação de classe e a construção do socialismo. Ela começa no momento da conquista do poder pelo partido socialista. Ela nada mais é que a ditadura do proletariado.
(...)
Os bolcheviques procederiam também dessa maneira se não sofressem a terrível pressão da guerra mundial, da ocupação alemã e de todas as dificuldades anormais daí decorrentes, dificuldades que obrigatoriamente desfiguram qualquer política socialista, mesmo impregnada das melhores intenções e dos mais belos princípios. (...) O perigo começa quando querem fazer da necessidade virtude,  fixar em todos os pontos da teoria uma tática que lhes foi imposta por essas condições fatais e recomendar ao proletariado internacional imitá-la como modelo de tática socialista.
(...)
O que permanece como mérito histórico imperecível [dos bolcheviques] é que, conquistando o poder político e colocando o problema prático da realização do socialismo, abriram caminho ao proletariado internacional e fizeram progredir consideravelmente, no mundo inteiro, o conflito entre capital e trabalho. Na Rússia, o problema só podia ser colocado. Ele não podia ser resolvido na Rússia, ele só podia ser resolvido internacionalmente. E, nesse sentido, o futuro pertence por toda parte ao 'bolchevismo'.

(A Revolução Russa in Textos Escolhidos, volume II, pp 174-212)
  
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Hannah Arendt, Homens em tempos sombrios, Companhia das Letras, São Paulo, 1987  |  Gilbert Badia, Le Spartakisme et sa problématique, Annales. Histoire, Sciences Sociales, 21e Année, No. 3 (May - Jun., 1966), pp. 654-667  |  Riccardo Bellofiore, Rosa Luxemburg and the Critique of Political Economy, Routledge, Abindgon, New York, 2009  |  George Castellan, A propos de Rosa Luxemburg, Revue d'histoire moderne et contemporaine (1954) T.23e, No. 4 (Oct. - Dec,. 1976), pp. 573-582  |  Charles F. Elliott, Lenin, Rosa Luxemburg and the dilemma of non-revolutionary proletariat, Midwest Journal of Political Science, vol. IX number 4 november 1965  |  Paul Frölich, Rosa Luxemburgo: vida y obra, Editorial Fundamentos, Madrid, 1976 | Norman Geras, A Actualidade de Rosa Luxemburgo, AntídotoLisboa 1978  |  J. W. von Goethe, Fausto, Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 1987  |  Daniel Guérin, Rosa Luxemburgo e a espontaneidade revolucionária, Editora Perspectiva, São Paulo, 1982  | Eric J. Hobsbawn (org), História do Marxismo, O Marxismo na época da Segunda Internacional (3 volumes), Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1982, 1984  |  Hajo Holborn, A History of Modern Germany 1840-1945, Princeton University Press, Princeton, 1982 | M.C. Howard and J. E. King, A History of Marxian Economics, volume 1 1883-1929, Princeton University Press, New Jersey, 1989  |  Leszek Kolakowski, Main Currents of Marxism (3 vol.), Clarendon Press, Oxford, 1978 | Gérard Bensussan, George Labica, Dictionnaire Critique du Marxisme, Quadrige/PUF, Paris, 1999 |  Isabel Maria Loureiro, Rosa Luxemburg: os dilemas da ação revolucionária, Editora Unesp, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2004  |  Georg Lukács, Histoire et Conscience de Classe, Les Éditions de Minuit, Paris, Paris, 1976  | Ralph Haswell Lutz, The German Revolution 1918-1919, Cambridge University Press, 1967  |  Rosa Luxemburgo, Textos Escolhidos, 3 volumes, Isabel Loureiro (org.), Editora Unesp, São Paulo, 2011  |  Rosa Luxemburg, A Acumulação do Capital e Anticrítica, 2 volumes, coleção "Os Economistas", Nova Cultural, São Paulo, 1988  |  Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto Comunista, Boitempo, São Paulo, 1998  |  J. P. Nettl, Rosa Luxemburgo, Ediciones Era, México, 1974; Rosa Luxemburg, Il Saggiatore, Milano, 1978 |  Carl E. Schorske, German Social Democracy 1905-1917, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 2014 | H. Schurer, The Russian Revolution of 1905 and the Origins of German CommunismThe Slavonic and East European Review, Vol. 39. N. 93 (Jun. 1961) pp. 459-471




Ein Marxist hat nicht das Recht, Pessimist zu sein.  


Die Befreiung der Arbeiterklasse muß das Werk der Arbeiterklasse selbst sein.