terça-feira, 7 de novembro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XVI)







Cenas da Revolução de 17



cena XI



A tomada do poder





[O que John Reed perdeu enquanto dormia]


Na quarta-feira, dia 7 de novembro, levantei-me muito tarde. A Fortaleza de Pedro e Paulo dava o tiro do meio-dia quando eu descia pela Avenida Niévski. Fazia um frio úmido e irritante. As portas do Banco do Estado estavam fechadas e guardadas por soldados com baionetas caladas.
- De que lado estão vocês? – perguntei. – Do governo?
- Já não mais mais governo, Slava Bogu! (graças a Deus) – respondeu um deles, com uma risada.
Foi tudo o que consegui saber. Os bondes passavam correndo pela Avenida Niévski, com homens, mulheres e crianças pendurados nos balaústres. As lojas estavam abertas e a multidão na rua parecia menos alarmada do que no dia anterior.



[Uma página perdida de Kafka]

Dirigi-me, então, para o Palácio de Inverno, seguindo a avenida Admiralteiski. Todas as entradas do Praça do Palácio estavam guardadas por sentinelas. A oeste, a não ser alguns soldados transportando pedaços de madeira, do pátio para a porta principal, tudo o mais permanecia tranquilo. Impossível saber se as sentinelas eram a favor do governo ou dos sovietes. Os papéis que obtivera no Smólni não serviam para nada. Resolvi, então, dar um golpe de audácia. Avancei com ar importante até a fileira de guardas e, exibindo meu passaporte norte-americano, disse em tom enérgico: "Serviço Oficial", e consegui passar. No saguão do palácio, estavam os mesmos porteiros de sempre, que gentilmente me desembaraçaram do chapéu e do capote. Subi. No corredor, sombrio e lúgubre, despojado de seus tapetes, passavam criados sem saber o que fazer. Diante da porta de Kerenski, estava um oficial ainda jovem, mordendo o bigode nervosamente. Indaguei se era possível entrevistar o presidente do conselho. Juntou os calcanhares, inclinou-se e respondeu-me em francês:
- Sinto muito, mas não é possível. Aleksandr Fiódorovitch está muito ocupado neste momento...
Depois, examinando-me, acrescentou:
- Na verdade, agora não está aqui.
- Onde poderei encontrá-lo?
- Partiu para a frente de combate... E, como seu automóvel estava sem gasolina, fomos obrigados a pedi-la emprestada no Hospital Inglês...
- E os ministros?
- Estão reunidos em sessão, mas não sei exatamente em que sala.
- Saberá dizer-me se é verdade que os bolcheviques vêm para cá?
- Sem dúvida. Não devem tardar. Espero, de um momento para outro, um telefonema anunciando sua chegada. Mas estamos preparados. Os junkers estão no palácio. Ali atrás daquela porta.
- Pode-se entrar?
- Não, impossível. É proibido.



[É uma loucura, uma loucura!]

Chegamos ao Smólni, cuja fachada maciça estava toda iluminada. Das ruas mergulhadas na escuridão chegavam sombras de forma imprecisa, movendo-se com precipitação. Passavam automóveis e motocicletas. Um enorme carro blindado, cor de elefante, avançava, buzinando, com duas bandeiras vermelhas nas portinholas. Fazia frio. Os soldados vermelhos tinham acendido uma fogueira ao lado da grade. Na parte de dentro, à luz do fogo, as sentinelas decifraram com dificuldade nossos passaportes e nos examinaram. (...)
Fiz Kamenev parar. Pequeno, movimentos vivos, rosto largo e expressivo, quase sem pescoço, Kamenev traduziu-me rapidamente para o francês a resolução que acabava de ser aprovada:
“O Soviete dos Deputados Operários e Soldados de Petrogrado apela a todos os operários de todos as partes da Rússia para que se coloquem com toda energia e com a maior abnegação a serviço da revolução operária e camponesa. O soviete declara ter certeza de que os operários das cidades, aliados aos camponeses pobres, saberão forjar uma disciplina inflexível e assegurar a ordem revolucionária mais perfeita, sem a qual será impossível fazer triunfar o socialismo. O soviete igualmente está seguro de que o proletariado dos países da Europa Ocidental auxiliará o proletariado russo na transformação socialista da Rússia, até a vitória completa e definitiva do socialismo em todo o mundo”.
- Então vocês acham que a partida está ganha? perguntei. Kamenev encolheu os ombros.
- Ainda há muita coisa por fazer, muita coisa mesmo. Estamos apenas começando.
Encontrei Riazanov no vestíbulo. Era vice-presidente do Conselho dos Sindicatos. Estava taciturno e mordia a todo instante o bigode grisalho:
- É uma loucura, uma loucura! – gritava. – Os trabalhadores da Europa não vão se mover. Toda a Rússia...
Levantou desesperadamente os braços para o céu e afastou-se rapidamente. Riazanov e Kamenev opunham-se à insurreição e tinham sido, por isso, severamente criticados por Lenin.
A sessão foi decisiva. Em nome do Comitê Militar Revolucionário, Trotsky declarou que o Governo Provisório não existia mais.
- Todos os governos burgueses – dizia ele – têm a característica de sempre enganar o povo. Nós, o Soviete dos Deputados Operários, Soldados e Camponeses, vamos fazer uma experiência sem precedentes na história. Vamos criar um governo cuja finalidade única será satisfazer as necessidades dos operários, dos soldados e dos camponeses.
Lenin foi recebido com imensa ovação. Profetizou a revolução social no mundo inteiro. E Zinoviev gritou:
- Hoje pagamos uma dívida ao proletariado internacional. Assestamos terrível golpe na guerra. Desferimos terrível golpe em todos os imperialismos, particularmente no imperialismo alemão, em Guilherme II, o Carrasco...
Logo depois, Trotsky anunciou que haviam sido enviados telegramas comunicando a vitória a todas as frentes do Exército. Mas até aquele momento nenhuma resposta chegara. Falava-se que tropas marchavam sobre Petrogrado. Era preciso enviar uma delegação ao seu encontro para fazê-las conhecer a verdade.
Alguém gritou:
-Vocês não esperaram que o Congresso Pan-Russo dos Sovietes manifestasse sua vontade!
Trotski respondeu friamente:
- A vontade do Congresso Pan-Russo dos Sovietes foi precedida pela sublevação dos operários e soldados de Petrogrado.


[Não fumem, camaradas!]

Era sufocante a temperatura da sala, apenas aquecida pelo calor de centenas de corpos suados. Espessa nuvem azulada elevava-se dessa multidão, tornando o ar irrespirável. De vez em quando, um dos presentes subia à tribuna e pedia aos camaradas que não fumassem. Então toda a sala, inclusive os fumantes, começava a gritar: - Não fumem, camaradas! – E todos continuavam fumando.


 [O nascimento de uma nação]

Mas, de repente, ouviu-se uma nova voz, mais profunda, dominando o tumulto da assembleia. Era a voz surda do canhão! Todos os olhares voltaram-se ansiosamente para as janelas. Uma espécie de febre ardente dominou a assembleia.
Martov pediu a palavra. E, com voz rouca, disse:
- Camaradas! A guerra civil já começou. É necessário discutir em primeiro lugar a solução pacífica da crise. Tanto por questões de princípios, como por motivos políticos, devemos começar a sessão de hoje discutindo com a maior urgência os meios de fazer cessar a guerra civil. Nossos irmãos estão morrendo nas ruas... neste momento em que se procura resolver a questão do poder, antes da abertura do Congresso dos Sovietes, por meio de uma conspiração militar organizada por um único dos partidos revolucionários – (Durante alguns instantes o trovejar da artilharia abafou-lhe as palavras) - ... Todos os partidos devem encarar este problema de frente. A primeira questão que o Congresso vai discutir é a do poder. Mas ela já está sendo resolvida nas ruas, pela força das armas... Temos a missão de criar um poder que toda democracia possa reconhecer. Se este congresso quer ser o porta-voz da democracia revolucionária, não deve ficar de braços cruzados ante a guerra civil que ameaça fazer explodir uma perigosa contra-revolução. Só há uma solução pacífica para a crise atual: a formação de um poder com a participação de todas as organizações democráticas num bloco unido... Proponho que se eleja uma delegação para negociar com todos os partidos e organizações socialistas.
O surdo rimbombar do canhão continuava a fazer estremecer os vidros das janelas, com intermitências regulares, enquanto os deputados discutiam e se insultavam.
Foi assim, sob o troar da artilharia, na obscuridade, no meio de ódios, de medo e da mais temerária das audácias, que nasceu a nova Rússia.

(John Reed, Os dez dias que abalaram o mundo, capítulo IV, Círculo do Livro, s/d pp. 98, 101-102, 107-110)








25 октября

Na terça-feira, dia 7 de novembro de 2017, levantei-me cedo. A estação Vila Madalena havia aberto há pouco quando eu desci a avenida Heitor Penteado. Fazia um frio úmido e irritante. As portas do Banco do Brasil estavam fechadas. 
Na esquina havia alguns policiais.
- De que lado estão vocês - perguntei - Do governo?
- Já não mais governo, graças a Deus - respondeu um deles, com uma risada.
Foi tudo o que eu consegui saber. Entrei no metrô e me dirigi ao local onde diariamente dispenso um pouco do meu sangue, do meu tempo e da minha vida para pagar minhas contas. Coloquei os auriculares e ouvi a Internacional cantada pelo coro do Exército Vermelho. Os meus camaradas de transporte público estavam taciturnos. 
Em frente ao SESC Pompeia, manifestantes do Movimento Brasil Livre iriam se reunir à tarde para apontar crucifixos e rosários contra a efígie da filósofa Judith Butler. No Palácio do Planalto, o Governo Provisório continuaria a sua luta desesperada para se manter no poder.

A Revolução Russa completa cem anos hoje.

Cem anos.





-----------------
abertura: Eugêne Laermans, A bandeira Vermelha, 1893 
Musée Fin-de-Siecle, Bruxelas







domingo, 29 de outubro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XV)





Cenas da Revolução de 17



cena X



Lenin




Durante todo esse período momentoso, Lenin se mostrou maior como estrategista do que como tático. Vivendo escondido primeiro em Helsingfors, depois em Viborg, perto de Petrogrado, chegando na capital apenas em 20 de outubro, dependente da informação dos jornais que lhe chegavam às mãos com algum atraso e dos encontros clandestinos com os membros confiáveis do partido, era natural que seu julgamento fosse falho em relação a alguns detalhes do levante planejado. Ele estava convencido, por exemplo, de que o sucesso seria mais certo em Moscou do que em Petrogrado e recomendava que o levante começasse em Moscou. Na verdade, Petrogrado caiu nas mãos dos bolcheviques quase sem luta, ao passo que vários dias de combate sanguinário foram necessários para conquistar Moscou. (...)

Mas esses eram apenas erros de pouca monta na avaliação dos detalhes, que poderiam ser corrigidos no desenvolvimento da ação. A grandeza indisputável de Lenin como líder revolucionário estava no fato de que ele percebeu imediatamente, após o colapso de Kornilov, que o tempo para a ação tinha chegado, de que ele sustentou sua visão com argumentos políticos de lógica implacável, disparados com paixão revolucionária, e de que ele nunca relaxou sua pressão sobre o Comitê Central do partido (em que alguns membros demonstravam hostilidade ou pouco entusiasmo com a insistência num levante) até que a oposição fosse esmagada e a organização do partido tivesse se alinhado com suas propostas. Aliás todo o conjunto do pensamento político de Lenin e dos traços mais salientes da sua personalidade estão refletidos com espantosa vivacidade nas cartas e panfletos que ele publicou em rápida sucessão naquele momento: “Os bolcheviques devem tomar o poder”, “Marxismo e Insurreição”, “Podem os bolcheviques manter o poder de Estado?”, “A crise está madura” etc.

De maneira geral, o estilo de Lenin não tinha nada de especial nem pretendia ter. Havia, porém, uma eloquência genuína na aspereza, dureza e timbre metálico de muitas frases nesses apelos ao levante. O que poderia ser mais forte, simples e decisivo do que a abertura de sua carta endereçada ao Comitê Central e aos comitês do partido em Moscou e Petrogrado: “Tendo obtido a maioria no Soviete dos Trabalhadores e Soldados em ambas as capitais, os bolcheviques podem e devem tomar o poder do Estado em suas mãos”. Ou o que poderia ser uma avaliação psicológica mais aguda das condições de uma revolução bem-sucedida do que o excerto seguinte de “Marxismo e Insurreição”:  “Uma insurreição deve apoiar-se num momento de virada na história de uma grande revolução, quando é maior a atividade nas fileiras mais avançadas do povo e quando são maiores as hesitações nas fileiras dos inimigos e dos amigos da revolução que se mostram fracos, frouxos e indecisos”.

Estas duas cartas foram lidas e discutidas na sessão do Comitê Central do partido em 28 de setembro. Lenin não apenas esboçava argumentos teóricos para uma tomada armada do poder, mas também um plano de ação bem definido. No entanto, essas cartas tiveram uma recepção fria. (...)

Todavia o momento e a crescente atmosfera revolucionária estavam do lado de Lenin. Em 12 de outubro, ele reforçou seu ponto de vista com outro artigo, “A crise está madura”, que começa com o grosseiro equívoco de que “estamos no limiar de uma revolução proletária mundial” mas faz uma análise correta das condições internas da Rússia, sublinhando pontos como os levantes camponeses que incendiavam o campo, a despeito de Kerensky, um socialista revolucionário, ser o chefe de governo; as tropas finlandesas e a frota do Báltico terem deixado o governo; o testemunho geral de que os soldados não iriam mais lutar; o movimento em direção ao bolchevismo refletido nas eleições municipais de Moscou.

Chama a atenção que durante todo o período crítico de preparo para o risco supremo do levante, Lenin mostrou pouco caso quanto às exigências estritas de disciplina no partido. Ele passou por cima do Comitê Central em mais de uma ocasião, enviando cópias de suas mensagens às organizações partidárias locais, entrando em contato direto com aqueles que ele via como os partidários mais confiáveis da insurreição, certificando-se de que cópias extras de seus apelos chegassem às mãos dos trabalhadores mais ativos ligados ao partido. Trotsky declara que no meio de outubro, Lenin anunciou sua renúncia como membro do Comitê Central “para ter liberdade de promover agitação nas fileiras inferiores do partido e no congresso do partido”. A renúncia não foi aceita e o incidente foi rapidamente encerrado, mas é sintomático do impulso infatigável de Lenin o medo de perder a oportunidade de um levante bem-sucedido. Entre 16 e 20 de outubro, ele mandou uma carta diretamente aos membros dos comitês de Petrogrado e Moscou, cujo conteúdo geral se resume às seguintes frases: “Esperar é um crime. Os bolcheviques não têm o direito de esperar até o Congresso dos Sovietes, eles devem agir imediatamente... Adiar é um crime. Esperar o Congresso dos Sovietes é um apego infantil à formalidade, é um vergonhoso apego à formalidade, uma traição da Revolução”.

Nenhuma imagem do pensamento de Lenin nessa época seria completa sem uma menção ao seu notável panfleto “Podem os bolcheviques manter o poder do Estado?”, amplamente dedicado a refutar os argumentos apresentados por Maxim Gorky no seu jornal Novaya Zhizn (Vida Nova): “Depois da revolução de 1905, 130.000 senhores de terra governaram a Rússia. E 240.000 membros do partido bolchevique não poderiam governar a Rússia em nome dos interesses dos pobres e contra os ricos? ... O Estado é uma concepção de classe. O Estado é um órgão ou máquina de violência de uma classe contra outras. Na medida em que ele é uma máquina de tirania da burguesia sobre o proletariado, só pode haver um único slogan proletário: a destruição do Estado. E quando o Estado for proletário, quando ele for uma máquina de tirania do proletariado sobre a burguesia, então seremos a favor da autoridade firme e do centralismo, de maneira completa e sem reservas... Uma revolução popular, real e profunda é um processo incrivelmente tormentoso de morte da velha ordem social e nascimento da nova, de uma nova maneira de viver para dezenas de milhões de pessoas. A revolução é a mais feroz, aguda e desesperada luta de classes e guerra civil. Nenhuma grande revolução na história se realizou sem guerra civil... E quando o último dos trabalhadores não-qualificados, cada cozinheira, cada lavrador empobrecido ver, não apenas pelos jornais, mas com os próprios olhos, que o poder proletário não rasteja diante dos ricos, mas ajuda os pobres, que não foge das medidas revolucionárias, que toma o excedente dos ociosos para dá-los aos famintos, que assenta os sem-teto nos apartamentos dos ricos, que obriga os ricos a pagar pelo leite, mas não lhes dá nenhuma gota de leite até que as crianças das famílias mais pobres sejam alimentadas, que transfere a terra para quem labuta, que põe as fábricas e os bancos sob o controle dos trabalhadores, que pune séria e imediatamente os milionários que escondem suas riquezas,  quando os pobres virem e sentirem isso, então nenhum poder dos capitalistas e dos kulaks, nenhum poder capital financeiro internacional, que roubou milhões, poderá vencer a revolução do povo. Pelo contrário, é a revolução que conquistará todo o mundo, por causa dos levantes socialistas que amadurecem em todos os países”.

Se a esse feroz evangelho da luta de classes adicionarmos o toque de acre desprezo com que Lenin se refere, neste panfleto, a um engenheiro ex-bolchevique que levantou a objeção de que os trabalhadores da Rússia eram muito ignorantes e atrasados para fazer uma revolução exitosa (“Ele estaria pronto a reconhecer a revolução social se a história conduzisse a isso de maneira tão pacifica, tranquila, suave e exata quanto um trem expresso alemão que se aproxima da estação e o condutor abre as portas anunciando: Estação Revolução Social. Desçam todos”), nós teremos uma boa visão psicológica da condição interior do homem que logo iria derrubar o instável poder de Kerensky.

(William Henry Chamberlain, The Russian Revolution, Volume One, The Universal Library, New York, 1977, pp. 287-290)


















sábado, 30 de setembro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XIV)








Cenas da Revolução de 17



cena IX



Rumo ao Outubro Vermelho




Embora o golpe de Kornilov tenha fracassado sem nenhum tiro, suas consequências políticas foram graves. Seus resultados foram precisamente o oposto do que o general e seus conselheiros haviam esperado. O golpe deu às massas turbulentas e insatisfeitas o impulso necessário para levá-las à ação revolucionária violenta. Ele solapou completamente a frágil base de confiança em que se apoiava o Governo Provisório.

Embora pareça que tenha subestimado a força dos bolcheviques até o fim, Kerensky não era cego ao fato de que, uma vez que a ameaça da direita tivesse desaparecido, haveria uma ameaça mais séria da esquerda. Ele tentou levar adiante a velha política de oscilar entre as forças conservadoras e radicais do país. (...) Mas as possibilidades de manobras efetivas desse tipo eram pequenas. Até aqui o Governo Provisório devia a sua relativa estabilidade ao fato de que a grande maioria dos sovietes lhe concedia apoio formal, mas imediatamente após o caso Kornilov os sovietes começaram a deslizar das mãos dos mencheviques e dos socialistas revolucionários. Em 13 de setembro, o Soviete de Petrogrado, por 279 votos contra 115, com 51 abstenções, adotou uma resolução bolchevique, com as conhecidas exigências de imediatas negociações de paz, confisco de latifúndios e introdução do controle dos trabalhadores nas fábricas. O comparecimento a essa seção tinha sido pequeno e um teste de força mais decisivo teve lugar no dia 22, quando os mencheviques e os socialistas revolucionários na presidência do soviete renunciaram. Uma truque político esperto de Trotsky, que tinha sido libertado da prisão no dia 17, ajudou a mudar a maré a favor dos bolcheviques: ele apontou que Kerensky ainda era formalmente um membro da presidência e introduziu na votação o item da confiança ou ausência de confiança em Kerensky, que não era popular entre os baixos escalões militares, cujos votos decidiram o assunto. Os bolcheviques obtiveram uma segunda e decisiva vitória, com 519 votos contra 414, e 67 abstenções.

A partir desse momento o Soviete de Petrogrado, que gozava de mais autoridade na capital do que o Governo Provisório, caiu nas mãos dos bolcheviques. No dia 8 de outubro, Trotsky foi eleito presidente do soviete. Com seu costumeiro senso dramático, ele lembrou que tinha sido eleito para o mesmo posto em 1905, às vésperas da supressão do soviete e da prisão de seus líderes pelo regimento Ismailov. “Mas agora”, declarou triunfante, “o regimento Ismailov está inteiramente diferente. Nós nos sentimos muito mais firmes agora do que então”.

Lenin ainda estava escondido, com o risco de ser preso, mas os dois mais fortes sovietes do país (Moscou seguiu o exemplo de Petrogrado e se tornou bolchevique em 18 de setembro) estavam nas mãos do partido de Lenin.  Petrogrado e Moscou não estavam sozinhos. Já em 14 de setembro, o jornal bolchevique “Trabalhadores” anunciou que 126 sovietes tinham requerido que o Comitê Executivo Central do Soviete (Vtsik) tomasse o poder. O Vitsik, eleito pelo primeiro Congresso  dos Sovietes e dominado pelos mencheviques, não tinha nenhuma intenção de realizar esse pedido, mas o clima dos sovietes locais era bastante indicativo. No dia 18 de setembro, um congresso de sovietes no centro radical da Sibéria, Krasnoyarsk, mostrou uma maioria bolchevique. No dia seguinte, uma mensagem de Ekaterinburg, a principal cidade dos Urais, anunciou que  o poder passou para as mãos do soviete nessa importante região mineira e industrial. Na grande fábrica Briansk, em Ekatarinoslav, na Ucrânia, os trabalhadores aprovaram uma resolução de que “não reconhecemos o Governo Provisório”. A mesma oscilação de pêndulo para a esquerda era visível nas cidades do Volga, na bacia de Donetz. Já não era mais possível acreditar, como tinha ocorrido no verão, que as províncias mais conservadoras se oporiam a um avanço revolucionário em Petrogrado.

Ainda mais significativo, porque mais próximo do centro nervoso do regime de Kerensky, era a tendência na frota do Báltico e na Finlândia. No dia 23 de setembro, um congresso regional dos sovietes na Finlândia adotou as resoluções bolcheviques por grandes maiorias. Os socialistas revolucionários que tinham sido eleitos no congresso eram quase todos membros da ala esquerda do partido, que crescia agora firmemente e amiúde votava e agia com os bolcheviques.

A frota do Báltico, que sempre havia sido uma pacificadora nas agitações contra o Governo Provisório, tomou uma posição de clara oposição depois do caso Kornilov. Essa atitude em relação ao comandante-em-chefe, Kerensky, foi asperamente expressa em uma resolução publicada no congresso da frota do Báltico, que continha os seguintes dizeres: “Nós exigimos a remoção das fileiras do Governo Provisório do aventureiro político, Kerensky, como pessoa que, por suas trapaças políticas a favor da burguesia, desgraçou a grande revolução e, com ela, todo o povo revolucionário. Para você, traidor da revolução, Bonaparte Kerensky, aí vão nossas maldições”.



(William Henry Chamberlain, The Russian Revolution, Volume One, capítulo XIII)









quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XIII)







Cenas da Revolução de 17



cena VIII



Kornilov



"The reminscences of my childhood 
in Simbirsk connect me 
with the Lenin (Ulianov) family. 
In my youth fate brought me 
together with Korniloff."

Kerensky, The Catastrophe






[O  militar golpista de direita retratado por Kerenski]




A capital do Turquestão Russo era, acima de tudo, um centro militar. Muitas das figuras principais da Grande Guerra, particularmente os oficiais do Estado-Maior, serviram em algum momento de suas carreiras em Tashkent. Entre elas estava o jovem capitão Kornilov, que chegou a Tashkent imediatamente após sua graduação na Academia Militar. De compleição magra, esbelto e rijo, com olhos amendoados à maneira dos calmucos, Kornilov era de origem simples. (“Eu sou o general Kornilov, camponês, filho de um cossaco” escreveu o futuro general rebelado em uma das suas proclamações ao povo). O general Kornilov passava pouco tempo  nos salões da moda, embora suas portas estivessem sempre abertas para qualquer oficial do Estado-Maior, e não tinha gosto pelas damas nem pelas rodas sociais.  Era considerado um bocado tímido e até um tanto “bárbaro”.

Logo o capitão Kornilov se tornou o assunto da capital. Tendo dominado um dos dialetos locais, o capitão se lançou a um empreendimento corajoso. Sozinho, disfarçado de mercador nativo, ele entrou no estado-tampão entre o Turkestão e a Índia Britânica, nessa época o coração do Afeganistão, território proibido para todos os estrangeiros, em especial os militares. No seu retorno a Tashkent, o jovem capitão se tornou o herói do momento. Contudo, ele não se deixou levar pelas perspectivas de sucesso social. Logo ele surpreendeu novamente a “alta sociedade” da capital provincial ao casar-se com a filha de um oficial de baixa patente. Isso já era demais: as portas da sociedade se fecharam para ele!

Muitos anos depois, quase na véspera de sua revolta contra o Governo Provisório, o General Kornilov, Comandante-em-chefe, tomou café da manhã comigo no Palácio de Inverno. Depois de uma conversa bastante tensa em meu escritório, tivemos um bate-papo leve no momento do café.

“Você provavelmente não se lembra de mim”, disse o general Kornilov em tom jocoso. “Eu costumava visitar a sua família e até dançar em sua casa em Tashkent”.

“É claro que ninguém se esqueceria disso”, respondi, relembrando a impressão produzida pela sua ousada expedição ao Afeganistão.

Kornilov permaneceu toda a sua vida um homem de gostos simples, um homem do povo. Não havia nele nada de um burocrata hereditário ou de um aristocrata latifundiário. Aliás as três figuras do movimento “branco” – Kornilov, Alexeiev e Denikin – eram todas de origem humilde e abriram seu caminho até o topo da hierarquia militar pelos seus próprios esforços. Por serem pobres, eles experimentaram todos os fardos de uma carreira de oficial no antigo regime. Todos os três eram decididamente hostis aos elementos privilegiados no exército, representado pelos Guardas. Todos os três tiveram um brilhante registro na Academia Militar. Todos os três fizeram avanços rápidos durante a Guerra, que arruinou tantas carreiras brilhantes, aquele tipo de avanço promovido nos círculos da corte e nas antessalas ministeriais.

Já em 1915, Alexeiev chegou ao Quartel-General como chefe do Estado-Maior do Comandante-em-chefe, o czar Nicolau II. A eclosão da Revolução encontrou Denikin e Kornilov no front. Ambos fizeram um trabalho notável em todas as operações no front da Galícia. Em uma operação desafortunada, no qual mostrou toda a sua ousadia e bravura, Kornilov foi feito prisioneiro pelos austríacos. Sua fuga audaciosa e seu retorno espetacular às linhas russas se tornaram uma das fontes de uma espécie de lenda korniloviana, que não chegou a alcançar, porém, as grandes massas populares e a base do exército.

De todos os três futuros líderes do Exército Branco, Kornilov era o menos talhado para o trabalho político. Do outro lado, o general Alexeiev tinha considerável perspicácia política, mas era demais para um político. Em ciência militar, Kornilov não era um estrategista, mas somente um tático, o que correspondia inteiramente à sua natureza impulsiva e irrefletida, dada a não perder tempo em considerações nos momentos de perigo e agindo com ousadia, rápido como um relâmpago e esquecido das possíveis consequências.

Aparentemente foi exatamente essa características de grande determinação e zelo, nem sempre desejáveis em líderes militares responsáveis, o que impediu a ascensão de Kornilov. Até a Revolução, ele permaneceu na sombra. Depois da Revolução, sua carreira se desenvolveu contrariamente à vontade de seus superiores militares imediatos. Sua própria indicação nos primeiros dias da Revolução como comandante do distrito militar de Petrogrado não conseguiu obter o apoio do general Alexeiev. Contudo, no seu posto o general Kornilov se mostrou inteiramente fraco, e não conseguindo lidar  com a guarnição de Petrogrado, ele retornou para o front em maio.

Imediatamente antes da sua renúncia como ministro da guerra, Gutchkov queria indicar Kornilov comandante do front noroeste, mas encontrou uma forte desaprovação do general Alexeiev, que, com a ameaça de sua renúncia, obrigou Gutchkov a abandonar essa intenção. Kornilov se tornou então comandante do 13º exército na Galícia, onde Zavoiko o encontrou.

Quando, na época do começo da contra-ofensiva alemã na Galícia, eu sugeri ao general Brusilov, comandante-em-chefe, a remoção do obviamente incompetente general Koutor e a sua substituição como comandante do front da Galícia pelo general Kornilov, eu encontrei em Brusilov a mesma oposição que Gutchov tinha encontrado em Alexeiev.  Mesmo assim, Kornilov foi indicado para o posto. Contrariando essa oposição das autoridades militares, o general Kornilov foi nomeado por minha sugestão, em primeiro de agosto, comandante-em-chefe do exército russo no lugar de Brusilov, que perdeu sua vontade de comandar.

Eu apresentei esse relato da carreira do general Kornilov para que o leitor possa entender os eventos que se seguiram e possa imaginar porque eu, até o último momento, não podia nem poderia ver no general Kornilov um dos conspiradores, a despeito de todas as indicações de uma conspiração militar em preparação contra o Governo Provisório e da grande quantidade de evidências que eu reuni a respeito disso. Ao içá-lo ao posto mais alto do exército, face à oposição de seus superiores e da sua impopularidade entre a esquerda política, ao ignorar suas declarações extremamente indisciplinadas a respeito do Governo Provisório e, ao demonstrar em todas essas ocasiões muita paciência, acreditei firmemente que o soldado incomparavelmente corajoso não se envolveria num esconde-e-esconde político e não atiraria de emboscada.

Para grande infortúnio da Rússia foi o que aconteceu.

(Alexander F. Kerensky, The Catastrophe: Kerenky's own story of the Russian Revolution, D. Appleton and Company, New York, 1927)











sexta-feira, 28 de julho de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XII)






Cenas da Revolução de 17



cena VII



Kerenski à frente da nova coalizão



"Com a renúncia dos ministros kadets  e do Príncipe Lvov, Kerensky se tornou, no dia 7 de julho, Primeiro-Ministro do governo socialista remanescente, que prosseguiu cambaleante até o dia 21 de julho. Aqueles que apoiavam Kerenski entre os SR [partido socialista revolucionário], tentaram deter a maré montante de pacifismo e de radicalização agrária entre os SRs criando uma facção coesa em torno do jornal Volya Naroda (Vontade do Povo). Os esforços de Kerensky para resolve a “Crise de Julho” no governo eram contrariados pelos ultimatos feitos pelos Kadets, pelo novo Comitê-Central dos Sovietes de toda a Rússia e pelos SRs. A crise foi causada pelas exigências do General Kornilov ao ser promovido ao Comando Supremo do Exército no dia 18 de julho. No dia 21, Kerensky renunciou e se retirou por vários dias. Na sua ausência, uma conferência dos líderes burgueses e dos Sovietes aconteceu no Palácio de Inverno. O resultado foi a Segunda Coalizão, cujos membros deveriam prestar contas apenas ao gabinete [e não mais aos Sovietes]. O novo governo, liderado por Kerenski, esperava angaria ganhar apoio público na Conferência de Estado que deveria se reunir em Moscou em Agosto.  

A segunda coalizão durou de 25 de julho até 27 de agosto. Suas realizações positivas foram obscurecidas pela disputa quase pública entre o Primeiro Ministro e o Comandante Supremo, que passou para a história como o “Caso Kornilov”. As exigências de Kornilov de agir sem interferência do governo, de restaurar a pena de morte no exército, de militarizar as fábricas e estradas de ferro e de criar um governo ditatorial circulavam, a princípio, apenas em pequenos círculos, mas os rumores de tensão persistiam. A Conferência de Estado em Moscou (12 a 15 de agosto) reuniu burgueses e socialistas, mas não conseguiu superar a dissensão entre eles. O próprio Kerenski encerrou a segunda coalizão em 27 de agosto ao exigir a renúncia de todos os ministros para assim poder afastar Kornilov, a quem ele acusava de motim. Kerensky era agora legalmente ditador".  

(The Blackwell Encyclopedia the Russia Revolution, “1917 and after Political Developments, Provisional Government”, Blackwell, Oxford, 1988,  pp. 126-127)












sexta-feira, 14 de julho de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XI)


 




Cenas da Revolução de 17



cena VI



As Jornadas de Julho






"No decorrer do debate, Martov relembrou a observação de Cavour 
de que qualquer asno poderia governar por meio de estado de sítio. 
É como os bolcheviques governaram depois. 
Infelizmente estaria além da capacidade de Tseretli 
mesmo com a ajuda do estado de sítio."

Sukhanov, The Russian Revolution 1917



“A 2 de julho, à notícia da contra-ofensiva alemã, os soldados e os operários dos subúrbios de Petrogrado começaram a agitar-se como em fevereiro. Depois, quando souberam que os ministros kadets tinham-se demitido sob o pretexto de que membros do governo haviam concluído um acordo com a Rada da Ucrânia, foram levados ao auge da indignação.

No Soviet, Zinoviev e Trotski censuraram os responsáveis, esses ministros kadets, agentes da contra-revolução no próprio seio do governo. Condenaram igualmente os membros do Comitê Executivo do Congresso dos Sovietes e exigiram sua detenção por não terem assumido o poder total, apesar de convidados a fazê-lo há várias semanas pelas fábricas e pelos regimentos da capital.

Estes apelos a uma manifestação repercutiam num ambiente já carregado: as ameaças dos cossacos, as advertências da Igreja e dos antigos líderes da Duma, a campanha da extrema-direita tinham sensibilizados os soldados para os perigos de uma reação. Os da retaguarda estavam furiosos por ver a disciplina retomar seus direitos, a guerra continuar, a Revolução terminar. Estavam prontos para responder à força com violência e os próprios bolcheviques ficaram surpreendidos e também preocupados com as reações que suas palavras de ordem tinham provocado.

Demonstrando sua cólera ao apelo do Pravda, os manifestantes se dirigiram para a sede dos Sovietes. Reprovaram violentamente seus líderes por não se apoderarem do poder, proferiram insultos e ameaças. Tchernov quis responde e quase foi linchado; escapou por um triz, graças a uma intervenção de Trotsky. Logo se produziram tumultos, chocando-se de um lado os marinheiros de Kronstadt, os soldados amotinados, uma parte dos manifestantes, e de outro tropas fiéis ao Soviet e ao governo. Houve cerca de 40 mortos e mais de 80 feridos. A volta à ordem deu lugar a cenas penosas, principalmente quando, na madrugada do dia 4 de julho, o exército dispersou  os operários de Putilov, suas mulheres e seus filhos, que tinham passado a noite em volta da sala do Congresso. Esses infelizes se haviam juntado à manifestação porque não tinham mais o que comer há vários dias.

Sabendo que contava com a direção dos Sovietes, o governo procedeu da maneira mais fácil: ignorou as causas profundas do descontentamento popular e acusou os bolcheviques que, por fim, se tinham unido ao movimento e haviam organizado manifestações em toda a Rússia. (...) Para produzir um efeito decisivo e dar um caráter espetacular às acusações, Perevertchev, Ministro da Justiça, tornou públicos documentos que mostram ser Lenin um agente do Kaiser. (...) O caso teve uma repercussão considerável. Lenin fugiu par a Finlândia, onde permaneceu oculto sob um disfarce, e essa fuga conferiu crédito às acusações formuladas contra ele. Trostky, Zinoviev e alguns bolcheviques foram presos”.
(Marc Ferro, A Revolução Russa de 1917, Perspectiva, São Paulo, 2007, pp. 69-70)

* * *

“Assim, ao aproximar-se o fim do quarto mês, a Revolução de Fevereiro, politicamente falando, já se tinha esgotado. Os conciliadores tinham perdido a confiança dos operários e dos soldados. O conflito entre os partidos dirigentes dos sovietes e as massas soviéticas tornara-se desde então inevitável. Após o desfile de 18 de junho, o antagonismo entre os dirigentes e as massas devia, inelutavelmente, assumir caráter de violência declarada.

Foi assim que sobrevieram as Jornadas de Julho. Quinze dias após a manifestação organizada de cima para baixo, os mesmos operários e soldados saíram para a rua, dessa vez porém graças à própria iniciativa, e exigiram do Comitê-Executivo Central que assumisse o poder. Os conciliadores recusaram-se categoricamente. As Jornadas de Julho provocaram conflitos de rua, causaram vítimas e terminaram pelo esmagamento dos bolcheviques, declarados também responsáveis pela incapacidade do regime de fevereiro. A proposta que Tseretelli fizera, a 17 de junho, para que se declarasse os bolcheviques fora da lei e para que fossem desarmados – proposta repelida naquela época – foi posta integralmente em execução no começo de julho. Os jornais bolcheviques foram interditados. Os contingentes militares dos bolcheviques foram dispersos. Foram tomadas todas as armas aos operários. Os líderes do Partido foram declarados mercenários do estado-maior alemão. Uns viram-se forçados a esconder-se, enquanto que outros foram presos.

Foi, porém, precisamente em virtude da “vitória” alcançada em julho pelos conciliadores contra os bolcheviques, que a impotência da democracia se manifestou plenamente. Contra os operários e soldados, os democratas foram obrigados a lançar tropas notoriamente contra-revolucionárias, hostis não somente aos bolcheviques, como também aos sovietes. O Comitê-Executivo não possuía mais tropas fiéis”.
(Trotsky, História da Revolução Russa, vol. 1, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977, p. 383)





O SOBRINHO DE ENESIDEMO

2012-2017

5 ANOS


O adiamento

"Quando da célebre erupção do Helgafell, um vulcão
da ilha de Heimaey, transmitida ao vivo por uma dúzia
de equipes de TV a tossir sem parar, eu vi, sob a chuva sulfúrea
um homem de meia-idade, de suspensórios, que dava de ombros,
sem importar-se muito com a ventania, o calor,
as câmeras, as cinzas, os espectadores (inclusive eu,
acocorado em meu tapete, diante da tela azulada),
e investia com sua mangueira de jardim, delgada mas nítida,
contra a lava, até que finalmente vizinhos, soldados,
colegiais e mesmo bombeiros juntaram-se a ele, todos
apontando mais e mais mangueira para a lava incandescente
que avançava, erguendo um muro cada vez mais alto
de lava fria, endurecida pela água, cinzenta, e com isso
adiaram, não digo para sempre, não, mas ao menos
por enquanto, o naufrágio da civilização ocidental, de sorte que
as pessoas de Heimaey, uma ilha tão distante da Islândia,
a menos que tenham falecido de lá para cá, continuam
até hoje a acordar de manhã em suas casinhas de madeira
colorida e à tarde, longe do olhar das câmeras, regam a alface
adubada pela lava, que dá pés enormes em seus jardins,
só temporariamente, é claro, porém sem pânico".

Hans Magnus Enzensberger, O Naufrágio do Titanic, Canto X, 
Companhia das Letras, São Paulo, 2000