terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Até agora











Passado o choque da derrota, e já habituados aos personagens, podemos agora começar a avaliar o novo governo. Os seus defensores garantem que ele “tem tudo para dar certo” e sempre destacam a sua maciça base de apoio, os quase 58 milhões de votos recebidos. Os ministros e o próprio presidente costumam falar das medidas “robustas” que serão adotadas para isso ou aquilo. No entanto, as propostas mal foram ventiladas durante a campanha e a equipe ministerial mostra pouca coesão. As falas do chefe de Estado embora pareçam duras, firmes e peremptórios, são inseguras, incertas e oscilantes. Sempre na defensiva e um tanto frágil, o homem parece mais enérgico em apontar inimigos do que em indicar soluções. Os seus apoiadores dizem que isso ainda é efeito do atentado sofrido em Juiz de Fora. Verdade ou não, o espetáculo do vai-e-vem das decisões, as falas bisonhas deste ou daquele ministro e a inexperiência ou inadequação do elenco têm suscitado comentários jocosos e talvez já decepcione alguns de seus eleitores.

É que, por parte dos bolsonaristas, as expectativas eram muito altas. No dia da vitória, um motoboy que entrega pizzas festejava na minha rua. Ele se definiu como “um microempresário do setor de distribuição de alimentos” e sabia que agora o Brasil iria sair da crise em que a corrupção do PT mergulhou o país. Naquela mesma semana, um eleitor reagiu ao comentário crítico de um jornalista da Folha de São Paulo, dizendo: “Bolsonaro não foi eleito para fazer reformas, mas para o restabelecimento de princípios e valores morais”.

É compreensível que exista uma grande dose de auto-engano e de ilusão em épocas de eleição, mas é preciso levar em conta de que tipo de ilusão se trata. Os anos de conflito político e polarização que acompanharam as investigações da Operação Lava-Jato alimentaram um diagnóstico sobre a crise brasileira que ganhou ares de lugar-comum na imprensa, nas redes sociais e na conversa de esquina. De acordo com esse diagnóstico, estaríamos vivendo uma crise de gravidade sem precedentes no plano político e econômico, que levou o Brasil a um retrocesso em todos os setores. Uma crise tão profunda que levará uns vinte anos para superada (por que vinte anos? ninguém sabe). Tal crise teria sido causada pelo alto custo de um Estado inchado, corrupto e ineficiente, pois dominado pelo patrimonialismo da elite política, pelos males do presidencialismo de coalizão, com seu toma-lá-dá-cá promíscuo, e, enfim, pelo aparelhamento ideológico do Estado por esquerdistas, comunistas, terroristas ou bandidos ligados a Lula e ao PT.

Para sair da crise seria preciso encontrar uma alternativa consistente à direita. Essa demanda começou a se manifestar nas passeatas de Junho de 2013, nos panelaços de 2014, nos protestos de 2015 e 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff. Alguns intelectuais e jornalistas diziam representar uma Nova Direita, capaz de sanar os problemas do país pelo combater à corrupção, ao patrimonialismo e à hegemonia da esquerda. Enquanto o grosso da imprensa se limitava a fazer campanha pelas "reformas necessárias" no plano previdenciário e fiscal, a Nova Direita tinha em vista sua própria revolução: combate sem trégua à corrupção do Estado (como se a corrupção fosse vício exclusivo do Estado, repelido com horror pelo empresariado), desmantelamento do patrimonialismo pelo enxugamento da máquina administrativa, desregulamentação dos mercados, defesa da meritocracia e das soluções tecnocráticas de gerenciamento estatal. A Nova Direita, já se imaginando no poder, propunha até mesmo a criminalização das esquerdas. 

Embora bastante estridente na imprensa e na internet, essa Nova Direita era minoritária e quase não existia fora do Instituto Mises. Nas passeatas e protestos, o que se via mesmo era a velha direita: alguns integralistas, muitos saudosistas da ditadura militar e as legiões do Arcanjo Miguel, dispostas a lutar contra o aborto, o feminismo, o gayzismo e a imoralidade que aí está... A romagem dos agravados engordou com a chegada de setores da classe média irritados com os direitos recém-adquiridos pelas empregadas domésticas e com a invasão dos aeroportos e das universidades por "gente mais escurinha". Havia ainda uma massa de trabalhadores precarizados, representados pela numerosa classe dos motoristas de Uber, que se viam como "empresários" prejudicados de alguma forma pelas grandes somas desviadas pelos corruptos ligados ao governo. Por último, havia também a massa de jovens revoltados contra o establishment. Como o poder estava nas mãos de um partido de esquerda, era compreensível que esses jovens acabassem se alinhando à direita. Os mais extremados dentre eles marcavam sua insubordinação dando ouvidos à pregação de Olavo de Carvalho, um velho astrólogo esquistão, radicado nos Estados Unidos, que repete com veemência as teorias conspiratórias que circulam nos meios da alt right norte-americana, acrescidas de alguns disparates de cunho próprio. 

A vitória eleitoral só foi possível pela aliança entre a Nova Direita e as velhas direitas. Sua estratégia  de campanha consistia em obter apoio da massa de insatisfeitos fazendo acusações vagas e genéricas à classe política e exigindo punições duras e exemplares especialmente contra Lula e o PT. Uma vez castigados os culpados, o país entraria no rumo certo desde que o novo governo tivesse um sólido compromisso com a competência e a moralidade. A competência seria fornecida por um austero gerenciamento técnico da economia, atento às demandas do mercado. A moralidade viria tanto dos grupos religiosos conservadores quanto das Forças Armadas, apresentadas como reserva moral da nação e mantenedores da ordem e da soberania nacionais. Por razões que ainda devem ser estudadas pela ciência política ou pela patologia forense, a aliança entre Nova Direita e velhas direitas acabou por se firmar na figura de Jair Bolsonaro, que durante três décadas fora apenas uma  figura  pitoresca do baixo clero da Câmara dos Deputados. Ao ex-capitão, empurrado subitamente para as luzes da ribalta, cabia agora a missão de resgatar os valores perdidos e insistentemente proclamados pelos congressistas que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff: Deus, Pátria, Família, Moralidade. 

Com a vitória de Bolsonaro, começou a circular entre os seus apoiadores uma visão curiosa sobre a natureza da democracia e do mandato popular. De acordo com essa visão, o presidente eleito teria a chancela e a força do voto para impor suas decisões sem questionamento, de modo que aos candidatos e partidos derrotados e seus eleitores caberia apenas baixar a cabeça e apoiar o vencedor, que representaria a vontade coletiva da nação. Essa unanimidade em torno do líder é que promoveria o avanço do país pois “é preciso parar com o mimimi e a choradeira e deixar o homem trabalhar”. Fazer oposição, expressar discordância de princípios ou simplesmente formular dúvidas seriam provas de falta de patriotismo e um acinte à vontade do povo. Essa versão ingênua do Füherprinzip foi assim resumida por um eleitor bolsonarista num comentário de internet: “Democracia é isso, ou aceita ou cai fora”. 

Enfim, essa é a teoria e essas são as expectativas dos apoiadores do novo governo, porém nem todas as indicações ministeriais de Bolsonaro correspondem aos elevados padrões de competência e de moralidade apregoados tantas vezes. Também não são claros os limites entre as funções públicas e o papel dos membros da família do presidente e do seu vice. Além disso, faltam transparência, clareza e coerência na apresentação de metas e propostas e há um excesso de proclamações de valores a serem defendidos ou combatidos, de maneira mais ou menos quixotesca. 

As dificuldades iniciais do novo governo têm várias fontes. Algumas vêm da inexperiência administrativa ou da incompetência pura e simples de alguns dos integrantes da equipe, conforme poderemos comprovar nos próximos meses. Outras vêm do voluntarismo afoito e irrefletido tantas vezes manifestado por Bolsonaro e por alguns de seus conselheiros. Outras ainda resultam da própria incongruência dos projetos dos vários segmentos da direita representados no governo: o ativismo jurídico, o intervencionismo militar (acompanhado de revisionismo histórico), o neoliberalismo, a cruzada contra o marxismo cultural e o globalismo, as pautas morais e religiosas do conservadorismo cristão. Há, porém, uma outra dificuldade, ainda mais profunda e que desafia qualquer grupo que venha a ocupar o governo de um país. Trata-se da dificuldade inerente ao exercício do poder de Estado.

Para governar não basta sentar-se num trono que concederia ao ocupante o dom misterioso de resolver problemas pela simples proclamação da sua vontade. Nem as piores tiranias funcionam sem mediações. Primeiro é preciso que o governante assuma as rédeas do Estado, o que não é a mesma coisa que ser eleito ou tomar posse do cargo. O encaminhamento das soluções para os problemas do país depende da capacidade de governar a máquina do Estado, com seus compromissos internos e externos, com seus múltiplos órgãos, suas instâncias de consulta, seus processos de decisão, seus sistemas de pesos e contrapesos, sua burocracia. Essas dificuldades não são exclusivas do governo de Bolsonaro. É comum que eleitores e políticos que lutam para chegar ao poder cometam dois tipos de erro: o de superestimar a capacidade do governo em resolver os problemas da sociedade e o de subestimar a complexidade da máquina do Estado. 

Mesmo que fosse possível reunir um grupo perfeito de técnicos competentes com reputação ilibada, isso não garantiria o êxito do governo, pois governar não é apenas encontrar soluções técnicas para os problemas, mas sobretudo o ato político de decidir quais são as prioridades, de lidar com o descontentamento dos preteridos, de mobilizar consenso em torno das propostas e de fazer com que a máquina do Estado se mova na direção dessas propostas, o que pode requerer concessões ou alianças indigestas. As soluções políticas nunca são puras nem elegantes. Não há técnica ou ciência que possam eliminar a incerteza do processo. Quando um grupo conquista o poder de Estado sempre corre o risco de acabar sendo conquistado e transformado drasticamente pelas exigências da máquina do Estado. Por isso, diante da urgência dos problemas, da magnitude das expectativas e da impaciência dos eleitores, existe sempre a tentação de buscar atalhos, domando a máquina à força. Tentação que deve ser especialmente forte entre os membros e partidários de um governo que cultua a figura do líder como messias e mito e tem a democracia em tão baixa conta que acha que suas credenciais democráticas possam ser comprovadas simplesmente por declarações perfunctórias de respeito à Constituição. O fato de que o Führerprinzip ingênuo dos bolsonaristas receba um endosso nada ingênuo de alguns ministros heideggerianos, como o chanceler Araújo, deve ser mais do que suficiente para espantar a modorra dos verdadeiros amigos da democracia.





100 anos do assassinato de Rosa Luxemburgo


"Liberdade é sempre a liberdade 
de quem pensa de modo diferente"






para saber mais








segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O adiamento








O encerramento deste blog, anunciado num momento de dor e cansaço, talvez tenha sido prematuro e mal pensado. Depois de acompanhar uma campanha de baixíssimo nível, feita de acusações, bravatas, ausência de propostas e notícias fraudulentas; depois de uma lastimável desarticulação das esquerdas; depois de um atentado, verdadeiro ou falso, mas tão providencial que foi celebrado como uma "facada divina" por um pastor aliado do candidato vitorioso; depois da convocação de um ministério que combina alguns valorosos egressos da West Point brasílica e algumas insípidas incompetências de sempre, corruptos fisiológicos dos Democratas e paladinos da Justiça, ríspidos porta-vozes da eficiência do mercado e pastoras sofridas que acreditam em princesas, pitorescos spenglerianos de ultimíssima hora e pícaros ávidos como os filhos do capitão; depois de ler com sentimento de dejà-vu as notícias do escândalo cujo protagonista é um factotum da família presidencial envolvido numa suspeita movimentação bancária que respinga lama na esposa e no filho mais velho do capo de Estado; enfim, depois de ler com atenção tudo o que a imprensa divulgou nos últimos meses, eu percebi que é melhor adiar o fim deste blog. Não que ele valha muita coisa ou tenha qualquer pretensão de representar algo importante neste momento, mas diante da derrota que as forças emancipatórias têm sofrido por toda parte, um gesto a mais de desistência é justamente o que não se pode conceder ao adversário. A nossa paralisia facilita seus movimentos. O nosso estupor alimenta a sua audácia. A nossa mudez engrandece a sua voz. A nossa inteligência inerte dá poder à sua estupidez ativa.

Todavia, temos que abandonar desde já a crença consoladora de que o futuro está do nosso lado. O futuro não está nem do nosso lado nem do de ninguém. O futuro é a rachadura no presente, que anuncia a destruição de tudo o que existe e de tudo o que conhecemos, ao mesmo tempo que deixa passar o incerto raio de luz que alimenta nossas expectativas e nos guia no esforço presente de transformar o mundo. A dificuldade é que o engajamento – por mais que se queira fundado no conhecimento das condições presentes e na memória rigorosa das condições passadas - nunca é independente das nossas expectativas, nutridas pelo medo ou pela esperança, pois "não há esperança sem medo, nem medo sem esperança (...) Como consequência, enquanto se está apegado à esperança, tem-se medo de que a coisa não se realize" (Spinoza, Ética, Parte III).  

Na tentativa de esconjurar a incerteza do futuro e aliviar o  fardo de nossos temores e aspirações, invocamos rezas, palpites, conjeturas, hipóteses, profecias, previsões do tempo, pareceres dos experts, modelos matemáticos, teorias sobre o sentido da História: toda a gama de racionalizações do que não poder ser legitimamente conhecido. Esses recursos seduzem porque toda a ignorância com foro de saber é altiva, loquaz e se presta ao comércio de opiniões, que é uma das delícias da vida social, ao passo que a ignorância humilde e consciente de si padece de laconismo. Para escapar à tolice e à impostura dessas previsões do futuro, seria preciso aderir a uma profilaxia muito mais profunda e muito mais enérgica do que a providência simples de pensar bem para não dizer bobagem. Seria preciso ir mais longe e extirpar o próprio medo e, junto com ele, a esperança.

No entanto, sem coragem, energia ou capacidade para um gesto tão radical, seja por causa de alguma falha inscrita na natureza humana ou da nossa mera acomodação ao que está dado - afinal de que valeria tentar mudar as regras da partida em curso-, endossamos, com igual facilidade, tanto o otimismo sazonal da virada de ano e quanto o pessimismo apocalíptico em relação ao Brasil, ao mundo e à espécie humana. Nadamos na contradição e no despropósito, como mostram nossas opiniões cambiantes e incoerentes, retratos de nossa rendição à facticidade e ao impensado. Eis o que um filósofo não pode aceitar e contra o que deve lutar. O enfrentamento que lhe cabe, feito com as armas da crítica, requer a paciência e a serenidade de compreender que a condição precária e provisória do agora exige um constante cuidado, que abre possibilidades futuras sem garanti-las, como descobriram os habitantes de certa ilha vulcânica no poema de Hans Magnus Enzensberger.






O adiamento


"Quando da célebre erupção do Helgafell, um vulcão

da ilha de Heimaey, transmitida ao vivo por uma dúzia

de equipes de TV a tossir sem parar, eu vi, sob a chuva sulfúrea

um homem de meia-idade, de suspensórios, que dava de ombros,

sem importar-se muito com a ventania, o calor,

as câmeras, as cinzas, os espectadores (inclusive eu,

acocorado em meu tapete, diante da tela azulada),

e investia com sua mangueira de jardim, delgada mas nítida,

contra a lava, até que finalmente vizinhos, soldados,

colegiais e mesmo bombeiros juntaram-se a ele, todos

apontando mais e mais mangueira para a lava incandescente

que avançava, erguendo um muro cada vez mais alto

de lava fria, endurecida pela água, cinzenta, e com isso

adiaram, não digo para sempre, não, mas ao menos

por enquanto, o naufrágio da civilização ocidental, de sorte que

as pessoas de Heimaey, uma ilha tão distante da Islândia,

a menos que tenham falecido de lá para cá, continuam

até hoje a acordar de manhã em suas casinhas de madeira

colorida e à tarde, longe do olhar das câmeras, regam a alface

adubada pela lava, que dá pés enormes em seus jardins,

só temporariamente, é claro, porém sem pânico".


Hans Magnus Enzensberger, O Naufrágio do Titanic, Canto X

Companhia das Letras, São Paulo, 2000























terça-feira, 10 de julho de 2018

Dicionário aleatório #15










Conservadorismo (parte II)


Tenho alguns amigos conservadores. Alguns deles até sabem ler, mas não o fazem com frequência. Nada sabem de Russell Kirk ou Edmund Burke. Nunca citam Mises nem Hayek. Eles apenas ouvem a rádio Jovem Pan e as notícias que circulam pelo WhatsApp. Eu duvido que eles fariam investimentos financeiros com base nesses boatos, mas quando se trata de política, eles se servem deles com o ardor dos neófitos. 

Como tenho algumas luzes e paciência de professor, na época da campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff fui obrigado a explicar a vários amigos conservadores que, em caso do afastamento, assumiria o vice-presidente Michel Temer e não Aécio Neves, o segundo colocado nas eleições de 2014. Meus amigos - vários deles egressos de instituições respeitáveis como o ITA e a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – olhavam-me incrédulos. Recordei-lhes que, com o afastamento de Fernando Collor em 1992, quem se tornou presidente foi Itamar Franco e não o Luís Inácio Lula da Silva, o segundo colocado nas eleições de 1989. Eles argumentaram que isso tinha sido há muito tempo e que as regras tinham mudado com a nova constituição. Eu respondi que a constituição vigente ainda era a de 1988 e, portanto, as regras se mantinham. 

Quando Dilma Rousseff foi finalmente afastada e o vice-presidente assumiu, meus amigos conservadores, devidamente orientados pela Jovem Pan e pelo WhatsApp se regozijaram com a seriedade de Michel Temer, seu discurso firme, sua abertura para o diálogo, sua experiência com o Congresso. Um desses amigos me disse, em tom triunfante, que Temer reduziria o número de ministérios, um grande passo na contenção dos gastos do Executivo. Talvez porque eu seja um desmancha-prazeres inveterado, condição própria de quem é assíduo nos livros, perguntei se as verbas destinadas aos ministérios extintos seriam transferidas para os outros ministérios. O amigo conservador não entendeu a questão. Junto ao quadro negro da sala dos professores, expliquei-lhe, como quem parte pão aos pequeninos, que de nada vale reduzir o número de ministérios se o orçamento total do Executivo continuar o mesmo. O amigo insistiu que Temer iria dar um jeito nisso porque ele era um homem que sabia dialogar e tinha vontade firme de levar adiante as “reformas necessárias”. Alguns amigos elogiaram a beleza da primeira-dama e outros até saudaram a dicção mesoclítica de Temer em contraponto à fala rude de Lula e ao destampatório de Dilma. Há aqueles que gozam com o português rotundo e rebarbativo dos bacharéis tanto quanto outros gozam com o cheiro dos coturnos e com os gritos que vem do porões.

Agora faltam menos de três meses para a eleição presidencial. Os amigos conservadores não gostam mais de Michel Temer. É verdade que nem todos são bolsonaristas, mas a maioria costuma rir das grossas chalaças do capitão ou, ao menos, não as acha gravosas. Diante das reações insatisfeitas de alguns, limitam-se a repetir os dois mantras máximos da direita: “o povo anda muito cheio de mimimi” e “o mundo está ficando muito chato”. Talvez eles tenham razão.

Em todo caso, com o debate político num ponto tão baixo, acho melhor me despedir dos leitores. Quando comecei este blog há exatamente seis anos, eu acreditava numa oportunidade de diálogo de alto nível que foi desmantelada a partir de 2014. 

Para os amigos de esquerda, repito que temos que fazer o que a esquerda sempre faz nos tempos difíceis: retomar com paciência a compreensão teórica e a busca de caminhos políticos viáveis. Precisamos estudar ainda mais. Precisamos ler com mais argúcia. Precisamos ampliar nosso horizonte de compreensão. E se, quando sairmos da zona de sombra, tivermos que fracassar de novo, é importante fracassarmos melhor.



O Sobrinho de Enesidemo encerra aqui as suas emissões.


 
SEPTEMBER 1, 1939

W.H. Auden

I sit in one of the dives
On Fifty-second Street
Uncertain and afraid
As the clever hopes expire
Of a low dishonest decade: 
Waves of anger and fear 
Circulate over the bright
And darkened lands of the earth, 
Obsessing our private lives;
The unmentionable odour of death 
Offends the September night.

Accurate scholarship can
Unearth the whole offence
From Luther until now
That has driven a culture mad,
Find what occurred at Linz,
What huge imago made
A psychopathic god:
I and the public know
What all schoolchildren learn,
Those to whom evil is done
Do evil in return.

Exiled Thucydides knew
All that a speech can say
About Democracy,
And what dictators do,
The elderly rubbish they talk
To an apathetic grave;
Analysed all in his book,
The enlightenment driven away,
The habit-forming pain,
Mismanagement and grief:
We must suffer them all again.

Into this neutral air
Where blind skyscrapers use 
Their full height to proclaim 
The strength of Collective Man, 
Each language pours its vain 
Competitive excuse:
But who can live for long
In an euphoric dream;
Out of the mirror they stare, 
Imperialism's face
And the international wrong.

Faces along the bar
Cling to their average day:
The lights must never go out,
The music must always play,
All the conventions conspire
To make this fort assume
The furniture of home;
Lest we should see where we are, 
Lost in a haunted wood,
Children afraid of the night
Who have never been happy or good.

The windiest militant trash 
Important Persons shout
Is not so crude as our wish: 
What mad Nijinsky wrote 
About Diaghilev
Is true of the normal heart; 
For the error bred in the bone 
Of each woman and each man 
Craves what it cannot have, 
Not universal love
But to be loved alone.

From the conservative dark
Into the ethical life
The dense commuters come,
Repeating their morning vow;
'I will be true to the wife,
I'll concentrate more on my work,'
And helpless governors wake
To resume their compulsory game: 
Who can release them now,
Who can reach the dead,
Who can speak for the dumb?

All I have is a voice
To undo the folded lie,
The romantic lie in the brain
Of the sensual man-in-the-street 
And the lie of Authority
Whose buildings grope the sky: 
There is no such thing as the State 
And no one exists alone;
Hunger allows no choice
To the citizen or the police;
We must love one another or die.

Defenseless under the night
Our world in stupor lies;
Yet, dotted everywhere,
Ironic points of light
Flash out wherever the Just
Exchange their messages:
May I, composed like them
Of Eros and of dust,
Beleaguered by the same
Negation and despair,
Show an affirming flame.



* * * * *







sábado, 30 de junho de 2018

Dicionário aleatório #14








Conservadorismo  (parte I)


Os conservadores, numerosos hoje e cada vez mais desinibidos, proclamam suas certezas, sem se dar conta de que apenas repetem banalidades ou inverdades tão infaustas quanto os da esquerda moribunda. Eu, que me dedico à modesta e inglória tarefa de catalogar os episódios e documentos da Estupidez, vou colhendo material para um futuro tratado.

Nos últimos tempos, fiquei curioso com a admiração de meus amigos conservadores por Churchill. Na Livraria da Vila, ouvi um casal bisonho derramar elogios sobre “o líder conservador que derrotou o nazismo”. Meus amigos conservadores (ao menos os que são alfabetizados) também pensam assim. Para eles, sempre é importante ficar do lado do vencedor (o que me faz pensar de que lado estariam se estivéssemos no mundo d’O Homem do Castelo Alto). Não vou negar o carisma do velho buldogue fumarento, mas há algum exagero em acreditar que Hitler foi derrotado pela tenacidade de Churchill e não pelo avanço avassalador do Exército Vermelho após a Batalha de Stalingrado ou pela entrada dos Estados Unidos na guerra (o que equivaleria a conceder uns nacos de glória ao assistencialista Roosevelt e ao comunista Stálin). Tudo bem, muitos franceses também gostam de acreditar que foi o general De Gaulle que libertou a França e, entre nós, alguns abençoam o general Olímpio Mourão por nos salvar do perigo vermelho twice in a life. A seara das ilusões piedosas é infinita e cada um acredita nos unicórnios que quiser.

O problema é que, a meu ver, as credenciais conservadoras de Churchill não são tão nítidas quanto querem os meus amigos. Eu costumo lembrar-lhes que, em 1940, os conservadores autênticos eram o ex-primeiro ministro Neville Chamberlain, que entregara a Tchecoslováquia para aplacar a sanha devoradora de Hitler, e Lord Halifax, que acreditava  que o Reino Unido poderia obter uma paz – em separado - com a Alemanha nazista por intermédio da Itália de Mussolini. É verdade que eles não tinham o benefício da posteridade de que gozam os conservadores de hoje, que apostam tranquilamente no cavalo vencedor depois que a corrida foi ganha. No cenário incerto de 1940, Chamberlain e Halifax eram os verdadeiros conservadores, aqueles que realmente endossariam a definição – aliás muito bonita – do filósofo conservador Roger Scruton segundo a qual o conservadorismo é aquela convicção, que vem com a maturidade, de que as coisas boas são difíceis de conseguir, mas muito fáceis de perder. Por que envolver-se numa luta contra a Alemanha nazista, a maior máquina de guerra da Europa, se era possível fazer pactos com Hitler para que Picadilly Circus não fosse bombardeada? Por que arriscar-se a perder tudo de bom que havia sido conquistado nas Ilhas Britânicas?

Querer a paz e a ordem no seu jardim é o desejo mais sincero de um conservador. Os conservadores que eu conheço tremem só de imaginar revoluções cruentas e se mostram indignados com a guilhotina ou o assassinato dos Romanov, embora sejam capazes de dormir muito bem enquanto crianças são sacrificadas para aplacar a fúria de algum Moloch. This is not my business, dizem eles, e se viram de lado para roncar, sonhando com os seus jardins. Meus amigos conservadores me ensinaram que um bom conservador não se deixa levar por sentimentalismos baratos, a não ser quando se trata de chorar pela admirável mãe-coragem Maria Antonieta, pelo destino cruel dos pobres filhinhos do czar ou pela carga indevida de impostos que onera as empresa para alimentar uma legião de parasitas do poderoso Welfare State tupiniquim, admirado em toda a galáxia pela sua generosidade e alcance. Nesse caso, Deus nos livre do “mimimi” da direita.

Volto a sir Winston. Declarar guerra à Alemanha nada tinha de conservador. Tampouco o fim do famoso discurso de 28 de maio: “If this long island story of ours is to end at last, let it end only when each one of us lies choking in his own blood upon the ground”. Numa vã tentativa de protegerem-se da luz solar da verdade usando apenas o delicado tamis da fantasia, meus amigos juram que o velho era um conservador puro e citam o inevitável aforismo – na verdade uma frase feita que já corria nos meios políticos desde o século XIX – segundo o qual quem não é socialista aos vinte não tem coração, mas quem ainda é socialista aos quarenta não tem cérebro. Eu, que tenho mais de cinquenta e ainda sou socialista, sou um energúmeno descerebrado como o leitor bem sabe, mas o que dizer desses gênios precoces do MBL que juram ser conservadores aos 20 anos? Com certeza, eles não têm cérebro nem coração. Mas quem precisa disso para ser um conservador no mundo confuso de 2018?