domingo, 9 de dezembro de 2012

Uma carta parisiense em sete quadros





Carta a Léo Mesquita



Léo,

Muitas vezes quis fazer o mapa da “minha” Paris.

A Paris dos trabalhadores que mergulham bem cedo no ventre da terra, apressados, aborrecidos, de olhos inchados de sono, apinhados nas plataformas das estações de metrô do 12e. arrondissement.  

A Paris em que a vietnamita que trabalha no mercado Casino (45 rue de Reuilly) já me viu tantas vezes que me pergunta se eu não quero fazer uma carte fidelité

A Paris das frutas e legumes fresquinhos dispostos em pirâmides nas barracas da rua d’Aligre, naquela hora da manhã em que os restaurateurs e as concierges vem se abastecer com as cenouras de Colmar ou as cebolas doces das Cévennes. 

A Paris do português da feira livre do boulevard Edgar Quinet que, ao nos ouvir conversando na língua de Eça e de Machado, sorri e oferece azeitonas a Ludmila, transida de frio na manhã de seis graus negativos.
A Paris em que meu filho Ivan, para encher o saco do seu professor de sociologia, se faz fotografar junto do túmulo de Émile Durkheim.

A Paris em que, num banco de pranchão, minha filha Beatriz toma sol no pátio do Museu da Idade Média, protegida do barulho do mundo pelos altos muros que o Abade de Cluny mandou erguer no século XV. 

A Paris da praça da Sorbonne, onde vou espiar a vitrine da Librairie Philosophique J. Vrin, a mesma em que meus professores e mestres adquiriram munição para a agrégation ou para o doutorado. 

A Paris dos doces tunisianos da esquina da rua de la Harpe com a Saint-Séverin, não muito longe de Saint-Julien-le-Pauvre, que você já conhece.

Essa Paris é difícil de descrever e de compartilhar. Ela é quase toda íntima, modesta, feita de gestos simples, como o do operário que me explicou como dar um tranco na catraca do metrô da Gare de Lyon para economizar o bilhete. Nem você nem eu queremos aquela outra Paris – famosíssima -  que vive de vender cartões postais, chaveiros e bolsas da Louis Vuitton para os otários do mundo todo. Sobre essa Paris das sacolas eu prefiro calar. 

Há, porém, uma terceira Paris: a que nos chega pela poesia e pela história, toda feita de discursos, de cenas de romance, de filmes e de versos truncados. A cidade de Père Goriot, Éducation Sentimentale, Les Amants du Pont Neuf, Les Enfants du Paradis e dos Tableaux Parisiens. Essa cidade - construída na linguagem e na memória - atravessa o prisma de cada passante culto e refrata, mais do que gostaríamos, o espectro de nossas felicidades e angústias secretas. É dessa cidade que eu quero falar. 

Não é tanto a Paris dos lugares, mas a das sensações que acompanham, como a reminiscência de um perfume, certas passagens de Baudelaire. São os meus quadros parisienses, que espero que você aceite como prova de amizade e promessa de conversa em algum café do boul Mich. (A estação de metrô Saint-Michel está integrada ao RER. De Palaiseau, é muito fácil chegar lá, portanto, você não tem desculpas para não aparecer!) 


Estação Hôtel de Ville



Fourmillant cité, cité plein de rêves,
Où le spectre,  en plein jour, raccroche le passant!
Les mystères partout coulent comme des sèves
Dans les canaux étroits du colosse puissant
(Les Fleurs du Mal: Les Sept Vieillards)

O metro é incontornável como os canais em Veneza.  Os corredores vazios são enganosos. Nunca estamos sozinhos. Por perto, há sempre um músico, um ladrãozinho, um policial, um estudante, uma idosa que teima em enfrentar as escadas apesar dos joelhos doloridos. 

Nenhum lugar de Paris é tão bom para praticar a flânerie quanto os labirintos de azulejos brancos. Sem nada que distraia nossa vista, além dos cartazes de shows e dos anúncios de cosméticos da L’Óreal, podemos nos perder à vontade em nossas próprias evocações. 

Na linha 1, a estação Reuilly-Diderot é a boca pela qual eu entro nas entranhas da hidra, que vai me cuspir no Hôtel de Ville. Juro que se não fosse casado, pediria a mão da moça cuja voz escande duas vezes o título de cada parada, mas já percebi que ela é muito ocupada. Neste reino, o chavão “métro, boulot, dodo” vale como lema de vida para para os locais e para o meio milhão de franciliens que o sistema RER despeja na cidade a cada dia. 

Muito aliviado de não estar no frenesi de São Paulo, eu remo no sentido contrário, quase como um dândi de outros tempos. É por isso que tenho lazer suficiente para ver que, de Vincennes, o metrô traz uns senhores com as jaquetas muito puídas, cercados de chineses, vietnamitas e gente das ilhas Reunião. Vez por outra, até algum malgaxe extraviado. Na estação Bastilha, começam a entrar as secretárias e os jovens executivos bem alinhados que trabalham na Défense e votam na UMP. Na Rivoli descem os comerciários; na Palais Royal, as japonesas infatigáveis que vão fotografar todo o acervo do Louvre. Eu desço antes, no Hôtel de Ville, e vou me encontrar com o Sena que, desde a primeira vez, me abraçou como um velho amigo, apesar do rigor gelado de suas águas invernais. 



Ilha São Luís vista da Ponte d'Arcole


L’aurore grelottante en robe rose et verte
S’avançait lentement sur la Seine déserte,
Et le sombre Paris, en se frottant les yeux
Empoignant ses outils, vieillard laborieux.
(Les Fleurs du Mal: Le Crépuscule du matin)

Sobre a ponte d’Arcole, olhando o canal entre a Ilha da Cité e a Ilha São Luís, murmuro o mantra que aprendi com Giuseppe Ungareretti:

Questa è la Senna
E in quel suo torbido
Mi sono rimescolato
E mi sono conosciuto.

Sem pressa, atravesso a ponte e cruzo o parvis de Notre-Dame. Por precaução, sempre me afasto da possível trajetória dos suicidas-assassinos que pulam do frontão da catedral. Não quero morrer como a coitada da mãe de Amélie Poulain.  Avanço até o meio do parvis e me lembro de que, junto daquelas torres, o bom gigante Gargantua puniu a estupidez dos parisienses, urinando sobre a multidão que não sai dali.

Gargantua visitou a cidade e foi visto por todo mundo com grande admiração, pois o povo de Paris é tão tolo, tão basbaque e tão inepto por natureza, que um saltimbanco, um bufarinheiro, uma mula com campainhas, um velho no meio de uma praça, reúnem mais gente do que faria um bom pregador evangélico. E tanto o perseguiram, que ele foi obrigado a se refugiar entre as torres de Notre Dame. (...) Então, sorrindo, abriu a sua bela braguilha, e tirando para o ar livre o soberbo mastro, os regou tão fartamente, que afogou duzentos e sessenta mil, quatro centos e dezoito pessoas, fora mulheres e crianças.
Alguns deles fugiram daquela mijada com toda a força dos pés. E, quando chegaram além da Universidade, suando, tossindo, escarrando e perdendo o fôlego, começaram a renegar e a praguejar, rogando todas as pragas de Deus, uns furiosos, outros rindo.”
(Rabelais, Gargântua e Pantagruel, Livro I, capítulo XVII)

Eu me levanto. Na ponte Au Double, observo um bateau-mouche e tenho vontade de cuspir na cabeça dos suecos felizes que fotografam o cais Montebello e os arcobotantes da velha catedral.  Acabo não cuspindo em ninguém porque,  ao lado da Ludmila, um garotinho no colo da mãe dá bonjour a todos os que passam. Eu também fui inocente assim, mas não me lembro quando.



Fonte do Boulevard Saint-Michel


Quand, ainsi qu'un poète, il descend dans les villes,
II ennoblit le sort des choses les plus viles,
Et s'introduit en roi, sans bruit et sans valets,
Dans tous les hôpitaux et dans tous les palais.
(Le Fleurs du Mal: Le Soleil)

Paris é uma festa nos domingos de sol. No boulevard Saint-Michel, verifico como anda a luta entre o santo guerreiro e o dragão da maldade. Ao invés de labaredas, tudo se desfaz na água abundante da fonte. O RER nos deixa na estação dos Inválidos. A ponte Alexandre III solta faíscas de ouro. A cúpula da igreja dos Inválidos é a última coroa que Napoleão usurpou. E a mais bela. 

Vou à janela do Museu Rodin festejar o dia de luz.  


Igreja dos Inválidos vista do Museu Rodin


Jardim das Tulherias 


Quelle admirable journée! Le vaste parc se pâme sous l'œil brûlant du soleil, comme la jeunesse sous la domination de l'Amour.
L'extase universelle des choses ne s'exprime par aucun bruit; les eaux elles-mêmes sont comme endormies. Bien différente des fêtes humaines, c'est ici une orgie silencieuse.
(Petits poèmes en prose: Le Fou et la Vénus)

É janeiro e faz sol. Às treze horas, a temperatura sobe a dez graus. Os jatos da Dassault rabiscam as alturas e garantem que seja feita a vontade do Presidente da República Francesa tanto na terra como no céu. Multidões lotam o Jardim de Luxemburgo, as Tulherias, as margens do Sena e do Canal Saint-Martin, o Bois de Boulogne e o Buttes Chaumont. Massas enlouquecidas pela luz disputam ferozmente cada cadeirinha. 

Nos países tropicais, a luz quente do verão neutraliza tudo. Quase cancela nossa existência. Nos países temperados, um dia de sol no inverno é um chamado para a vida. Não dá tempo para metáforas nem para conceitos. Proíbe qualquer  nostalgia. Por um momento nos é dado não pensar.


Torre Eiffel vista do Palácio de Chaillot


Nul astre d’ailleurs, nuls vestiges
De soleil, même au bas du ciel,
Pour illuminer ces prodiges,
Qui brillaient d’un feu personnel!
(Le Fleurs du Mal: Rêve Parisien)

Nunca subi a Torre Eiffel. À medida que me aproximo, ela me aborrece cada vez mais. O elegante formato de candelabro se desfaz e surge um amontoado de ferro com rebites, como uma ponte antiga colocada no lugar errado. O grafismo vertical é derrotado pelo peso do metal. De perto, a torre parece que vai afundar. Ela é apenas a representação de uma ilusão, ela é a promessa de que a bigorna é capaz de alçar voo. 

Para apreciá-la, é preciso recuar até a esplanada do Chaillot e ignorar os vendedores e as adolescentes que se amontoam para as fotos. É melhor se estiver anoitecendo. Não tenha pressa. Leve consigo as músicas de que mais gosta. Logo a torre irá jogar seu jato de luz, velando pelo rebanho que vive junto aos seus pés.


Cemitério Père Lachaise

Pluviôse, irrité contre la ville entière,
De son urne à grands flots verse un frois ténébreux
Aux pales habitants du voisin cimetière
Et la mortalité sur les faubourgs brumeux.
(Les Fleurs du Mal: Spleen)

Paris é uma cidade da História. Isso quer dizer que os mortos são mais numerosos que os vivos. É preciso andar pelas alamedas do Père Lachaise, de preferência aquelas que não tem mortos de fama. As marquesas empobrecidas com a Revolução, os veteranos das campanhas napoleônicas, os burgueses da Terceira República merecem todos o nosso desprezo. É preciso visitá-los e rir das sepulturas ridículas com que eles tentaram ganhar um pobre ersatz de imortalidade. É preciso rir de cada um deles e imaginar que seremos os próximos. 


Pont Neuf: estátua equestre de Henri IV


Solitude, silence, incomparable chasteté de l’azur !
(Petits poèmes en prose: Confiteor de l’artiste)

Anoitece. Nesta hora é preciso estar perto do Sena. É fácil entender o Impressionismo quando as luzes da cidade se acendem e as águas turvas do rio se enchem de manchas de cor. Nos dias claros de inverno, o céu adquire um azul muito fundo, o ar respira um cheiro de santidade. É bom passar pela ponte Neuf, descer ao extremo da Ilha da Cité e contemplar as águas que seguem na direção de Rouen. 

Já não há gaivotas. No Louvre, as japonesas estão terminando de fotografar o acervo. A voz do metrô repete pela milésima vez “Hôtel de Ville... Hôtel de Ville...” A loja de doces tunisianos já fechou. Os executivos da Défense fazem a happy hour.  Os parisienses compram o pão e o vinho do jantar. Os bateau-mouches se esmeram nas luzes. A Samaritaine, fechada há tantos anos, insiste em se anunciar. Os mortos de Paris são assim. Tarde da noite, quando o último transeunte se recolhe, a estátua equestre de Henri IV ganha vida e galopa pela Place Dauphine.

Às cinco da manhã, Paris acorda. Então será outra vez a hora de ouvir Jacques Dutronc.


Mande um grande abraço para a Juh!




domingo, 2 de dezembro de 2012

O Brasil é um país respeitável ?






Carta a Silas Passos Ferreira



Mano,


A posse do ministro Joaquim Barbosa como Presidente do Supremo Tribunal Federal foi uma daquelas ocasiões em que as forças contraditórias que movem a nossa vida social e política afloram em pronunciamentos, caretas e clichês. Havia o desconforto dos petistas: a dureza do ministro foi notória durante o julgamento do Mensalão; havia a comoção da comunidade negra que o via como o mais novo baluarte da "raça"; havia o alegre esforço dos fotógrafos em dar conta do enxame de famosos; havia a cautela politicamente correta de ignorar a pele negra do juiz e, ao mesmo tempo, celebrar o fato de que se tratava do primeiro negro a presidir o STF. Havia a euforia daquele setor da imprensa sobre o qual paira a suspeita de golpismo (os jornais O Globo, O Estado de São Paulo, Folha de S.Paulo e a revista Veja) que exaltava os serviços prestados à nação pelo ministro Joaquim Barbosa contra José Dirceu et alii. Pairava no ar um certo tom autocongratulatório que ficou evidente na coluna de Eliana Cantanhêde:

"Ao assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal, num dia histórico, Joaquim Barbosa elogiou a ‘trajetória vitoriosa de um povo que soube (...) entrar no seleto clube das nações respeitáveis'.

Pois o país também se orgulha da trajetória de um brasileiro negro, pobre e muito especial que entrou ontem no seleto clube de presidentes da mais alta corte.

Vale aí um reconhecimento a Lula: foi o primeiro operário presidente da República que nomeou o primeiro negro para o Supremo. O resultado dessa soma é que, apesar de ainda faltar muito, o Brasil se torna cada vez mais uma ‘nação respeitável’." (Folha de S.Paulo, 23 de novembro de 2012)


Nas muitas fotos divulgadas pela imprensa, o rosto austero da presidente Dilma Rousseff, em que alguns enxergavam o esgar de descontentamento com as sentenças de encarceramento aplicadas aos próceres do PT, parecia contrastar com a expressão segura e satisfeita de Joaquim Barbosa promovido a Robespierre, duro e incorruptível. Era possível, porém, ver outra coisa nas fotografias: ali estava a primeira presidente mulher ao lado do primeiro presidente negro do Supremo Tribunal Federal e ambos eram nomes indicados pelo primeiro operário a se tornar Presidente da República. Só faltou alguém puxar o bordão lulista "Nunca antes na história deste país..." E por tudo isso, parabéns ao povo brasileiro e felicitações a nós mesmos pela nação respeitável que seremos em breve!

O que dizer desta cediça retórica ufanista? Confesso que, no meio da ufanorreia, tive vontade de gritar TOCA RAUL!  De preferência "Ouro de Tolos".

Por tudo isso, não quero resistir à tentação de comentar frases feitas como "num dia histórico", "o pais se orgulha", "a trajetória de um brasileiro negro, pobre e muito especial", "seleto clube", "uma nação respeitável" e "o resultado dessa soma".




1."num dia histórico"


Peço perdão aos historiadores (especialmente ao meu velho amigo Renato Alencar Dotta), mas a História é uma rameira descarada! Ela está na boca de todo mundo, ela se presta a qualquer manipulação, ela se dá por toda parte e de todos os lados! Tudo pode se tornar "histórico", já que todos se julgam clientes da História, assim como técnicos da seleção brasileira de futebol.

Para que um acontecimento seja declarado "histórico" basta que seja significativo para um grupo e que possa ser o suporte de um valor de evocação. Um dia "histórico" é um dia que queremos recordar, um dia sobre o qual os discursos se concentram e se cruzam. A importância de um "dia histórico" não está na conjuntura que se oferece à análise do historiador treinado. Do ponto de vista historiográfico, os dias "históricos" (como o dia da tomada da Bastilha ou do assassinato de Kennedy) são paupérrimos. No diário de Colombo, não há anotação no dia 12 de outubro. Um "dia histórico" expressa somente um valor simbólico apropriado por uns e repelido por outros. "Dias históricos" são marcos de disputa política, são atestados das posições de força num dado momento.  Eles sinalizam conquistas, declarações de guerra, armistícios e  revoltas vitoriosas.

Este valor simbólico é eficiente porque está decalcado sobre uma estrutura de narrativas míticas. O "dia histórico" vale porque é um dejà vu de outro "dia histórico" numa cadeia que chega aos mitos fundadores, muitas vezes de origem religiosa ou folclórica, que estão no limiar de nossa consciência. Os antigos teólogos cristãos sempre entenderam isso muito melhor do que os historiadores,  razão pela qual explicavam que o Antigo Testamento era a prefiguração do Novo Testamento: os três dias de Jonas no ventre da baleia eram a figura, isto é, o anúncio metafórico dos três dias de Jesus no sepulcro antes de ressuscitar. As sequências de passos que levavam à redenção universal formavam um amplo sistema de correspondências, analogias e equivalências aparentes. É isso que acontece com os "dias históricos".

Que tipo de cerimônia foi a posse de Joaquim Barbosa? A apoteose do herói salvador que restabeleceu a ordem ameaçada pela arrogância insensata dos homens (um pouco como Cincinato, na classificação que Raoul Girardet elaborou em Mitos e Mitologias Politicas). É verdade que, como Cincinato, o nosso herói teve origem humilde (para usar o clássico eufemismo para a pobreza), o que dá mais relevo e grandeza a seu serviço.

Pelo que percebo da imprensa supostamente golpista, os cumprimentos e elogios destinados a Joaquim Barbosa naquele "dia histórico" deveriam ser entendidos assim: Parabéns, herói! Agora descanse com sua coroa de louros e não arrisque a sorte numa nova empreitada. Não vá querer escarafunchar as mazelas do PSDB! Nada de mensalões tucanos, hein! Repouse na paz dos justos, você já fez a sua parte.


2."o país se orgulha"

Numa entrevista, Deleuze comentou que Michel Foucault  ensinou  que é indecente tomar a palavra em nome do outro e usurpar o seu lugar de enunciação. 

Na vida política das democracias parlamentares, essa usurpação é quase inevitável. Cada figura pública ou jornalista que sobe à tribuna da imprensa pensa estar falando em nome de um amplo consenso.

Essa retórica do consenso utiliza substantivos abstratos que expressam coletividades humanas concretas: o povo, a pátria, a nação, o país, a república, a sociedade. No discurso político manipulatório esses substantivos são sempre promovidos ao papel de entidades vivas e pulsantes, autênticos personagens alegóricos que querem isso ou aquilo. Trata-se de usurpar o lugar da enunciação daqueles que não podem se manifestar pelos canais da imprensa, do palanque ou da tribuna. Trata-se de esconder a diversidade e segmentação das demandas reais e promover a imagem de uma comunidade que fala em uníssono, sem cisões. A unidade seria o mais religioso de todos os mitos políticos segundo Raoul Girardet.

É claro que não se trata de negar a existência dos corpos coletivos, como as sociedades, as pátrias e as nações, e de afirmar que só há indivíduos. Deixo essa e outras tarefas cômicas para a notável equipe da revista Veja, que conta com humoristas do porte de Reinaldo Azevedo e José Roberto Guzzo. 

O problema é que nenhum indivíduo que estuda e pensa pode aceitar o uso político da prosopopeia em frases feitas como "o país se orgulha" ou "a sociedade brasileira exige", não importa se as frases venham da direita ou da esquerda, dos brancos ou dos negros. É indecente usurpar o lugar da enunciação do outro para declarar uma comunhão nacional, principalmente quando o usurpador fala em nome de apenas 10 a 20% da população do Brasil, como acontece com os plumitivos do Planeta Diário que lemos pela manhã.  


3."a trajetória de um brasileiro negro, pobre e muito especial"

É curioso que no discurso jornalístico, basta que alguém adquira um certo renome para deixar de ser uma pessoa e passar a ser um projétil ou um bólido. Não se trata mais de vida, mas de trajetória. 

Uma vida se dá em muitos planos, tem segredos, sujeiras e contradições. Uma vida é feita de rotina, fezes, trabalho, pequenos deslizes e manchas nas cuecas ou calcinhas, desventuras variadas, cochilos e hipocrisias. A metáfora da trajetória é reconfortante porque reduz a vida de alguém a uma partícula puntiforme que se desloca numa linha unidimensional orientada por um vetor. Ou seja, uma série de parâmetros de grandeza identificável.

Na vida de Joaquim Barbosa, tudo se resumiria em superar a pobreza, já que não era possível deixar de ser negro, e tornar-se Presidente do Supremo Tribunal Federal depois de alcançar a fama como juiz durão num processo de corrupção de alto coturno, envolvendo figurões próximos ao ex-presidente da República. Para definir uma trajetória, basta haver dois pontos: a pobreza do menino negro de Paracatu e o esplendor midiático que, até data recente, seria dedicado a Lady Gaga.

E por que a história do brasileiro Joaquim Barbosa é "especial"? Porque é uma exceção notável. Porque raramente um brasileiro negro e pobre consegue chegar tão longe:


"As mortes por assassinato entre os jovens negros no país são, proporcionalmente, duas vezes e meia maior do que entre os jovens brancos. Em 2010, o índice de mortes violentas de jovens negros foi de 72 para cada 100 mil habitantes; enquanto entre os jovens brancos foi de 28,3 por 100 mil habitantes. A evolução do índice em oito anos também foi desfavorável para o jovem negro. Na comparação com os números de 2002, a taxa de homicídio de jovens brancos caiu (era 40,6 por 100 mil habitantes). Já entre os jovens negros o índice subiu (era 69,6 por 100 mil habitantes).


De acordo com o professor Julio Jacobo, responsável pelo estudo, os dados são "alarmantes" e representam uma "pandemia de mortes de jovens negros. (...)

O professor enfatizou que as taxas de assassinato entre a população negra no Brasil são superiores às de muitas regiões que enfrentam conflitos armados. Jacobo também comparou a situação brasileira à de países desenvolvidos, como Alemanha, Holanda, França, Polônia e Inglaterra, onde  a taxa de homicídio é 0,5 jovem para cada 100 mil habitantes"



Nesse campo de guerra, a palavra "trajetória" volta ao seu sentido próprio e a realidade cobra seu tributo de sangue. Que um negro pobre brasileiro tenha finalmente se tornado Presidente do STF deveria ser ocasião para reflexões amargas sobre o racismo brasileiro e não para regozijos fáceis. 

Por isso mesmo é vergonhosa a maneira como articulistas da imprensa, valendo-se de palavras do próprio Joaquim Barbosa, usaram o caso muitíssimo excepcional do menino negro e pobre que chegou ao estrelato jurídico como justiceiro do Mensalão, para criticar mais uma vez as cotas raciais nas universidades. 

Carlos Heitor Cony, por exemplo, veio com essa na crônica espantosa chamada "Um homem é um homem" na Folha de 30 de novembro:


"O ministro é, acima de tudo, um cidadão como outro qualquer, não deve o cargo que ocupa atualmente a uma cota racial, é um brasileiro nascido em Paracatu, que se destacou no ofício que escolheu e para o qual se preparou ao longo da vida, vencendo dificuldades que, de uma forma geral, todos nós enfrentamos, uns mais, outros menos, no desafio clássico do "struggle for life", a luta pela vida. 

Se há um povo que não tem necessidade de rotular seus filhos pelas características raciais, esse povo é o brasileiro, formado e formatado pela miscigenação do branco europeu, do negro africano e do índio nativo. Gobineau e Chamberlain abasteceram os nazistas e os demais racistas, condenando a mistura do sangue como o maior inimigo do gênero humano.

No caso brasileiro, apesar da discriminação que ainda existe, embora atenuada em relação a outros tempos (fomos o último país a abolir a escravidão), há motivos de sobra para não nos admirarmos quando um negro ou afrodescendente (detesto essa classificação pretensamente correta) ocupa na sociedade o lugar que mereceu.

Basta citar que três dos nossos maiores artistas foram negros: Aleijadinho, na escultura, Machado de Assis, na literatura, e padre José Maurício, na música erudita. Isso sem falar na arte dita popular, bastando citar Pixinguinha, sem falar em vultos históricos como José do Patrocínio, Cruz e Souza, André Rebouças, ou nossos atletas e artistas em todos os setores.
(...)
E para recuar ainda mais a constatação da negritude como elemento civilizatório, lembrarei aquele hino atribuído a Salomão: Nigra sum sed formosa, ideo dilexit me Rex et introduxit me in cubiculum suum (Sou negra, mas formosa, por isso o rei me amou e me introduziu em seu cubículo).

Na realidade, o rei não introduziu uma negra em sua alcova. Introduziu uma mulher que lhe deu prazer e descendência."


Que Carlos Heitor Cony, dono de uma prosa tão elegante, tenha escrito um texto tão ruim é sinal de que está doente ou de que foi convencido a endossar opiniões com as quais não concorda. Nem vou discutir o título tautológico "Um homem é um homem", marca costumeira de conformismo que pretende se passar por lucidez. 


Segundo Cony, Barbosa não é exceção, é apenas um cidadão como qualquer outro que ascendeu pelo mérito, dispensando o benefício do sistema de cotas. Ele simplesmente foi vitorioso na batalha darwiniana pela vida, que todos enfrentam, uns mais, outros menos. Cony "passou batido" pelo fato de que a batalha de uns já está ganha de antemão, enquanto outros não vão ter trajetória porque estão na trajetória de uma bala.


Será que Cony diria que os jovens negros que não param de morrer são apenas incompetentes derrotados no struggle for life ? Como entender uso da expressão inglesa por parte de Cony?Seria pudor diante da obscenidade de uma vida social regida pelas  leis do estado de natureza? Ou seria uma piscadela do escritor para nós, seus admiradores, que esperam que ele esteja apenas brincando de assumir o discurso do patronato? Será que Carlos Heitor Cony entrou numa "Frias"?


Da maneira mais inconsequente, depois de fazer menção ao struggle for life que Joaquim Barbosa teria vencido com garbo e merecimento, a crônica se lembra do espírito de harmonia que há no Brasil, resultado do congraçamento das raças. É a tradicional fantasia branca de que a miscigenação, por envolver sexo, seria um ato de amor em que a mulher oferece ao homem prazer e descendência. No entanto, a assimetria da relação está inscrita no próprio texto bíblico: a jovem negra Sulamita é apenas uma concubina levada ao harém do rei mais poderoso de Israel para lhe dar uns momentos de gozo. (Nigra sum sed formosa: sou negra, mas formosa, diz a mocinha "morena" se desculpando perante o rei branquelo, que está louquinho para dar uma bimbada e voltar a lamentar a vanidade do mundo no Eclesiastes...)

No Brasil, somente é possível sustentar a fantasia da miscigenação feliz por meio de alguma amnésia seletiva, como se nenhuma índia jamais tivesse sido estuprada por algum bandeirante ou grileiro, nenhuma escrava jamais tivesse sido violada por um feitor ou por um sinhozinho assanhado querendo aumentar o plantel de negrinhos. É sabido que gente de origem senhorial, para mostrar espírito progressista, gosta de confessar que tem "um pé na cozinha". Fernando Henrique fez isso. 


Cony não nos poupa nem aquele chavão que consiste em elencar o indefectível rol de negros e mulatos elevados a "vultos históricos" (palavra típica dos livros de educação moral e cívica e dos manuais escolares de priscas eras): Aleijadinho, Machado de Assis, André Rebouças, José do Patrocínio, Cruz e Souza, Pixinguinha e nossos atletas... Sobre as dificuldades imensas que eles enfrentaram, nenhuma palavra:  nada sobre as circunstâncias abjetas da morte de Cruz e Sousa ou as razões do alcoolismo e das internações de Lima Barreto. Nenhuma explicação sobre os critérios de admissão nesse reduzidíssimo panteão de celebridades negras, sobre os quais se tecem comentários dignos de serem compilados no dicionário de idées reçues de Bouvard e Pécuchet.




4."seleto clube"


Seria o caso de aplicar aqui a celebérrima piada de Groucho Marx sobre não querer entrar nos clubes que o aceitassem como sócio? Mas foi visível a satisfação de Joaquim Barbosa ao entrar no "seleto clube". Isso é que é a verdadeira promoção que marca a trajetória de um negro pobre. Agora ele faz parte da elite majoritariamente branca. E, de preferência, nada de cotas para facilitar a ascensão de outros negros. Um clube seleto não pode admitir cotistas, apenas candidatos que foram duramente testados segundo os critérios estabelecidos por legisladores brancos cujas famílias remontam às capitanias hereditárias, coté casa grande e não coté senzala.

A maldade me atiça e me dá ganas de perguntar:  Tivesse Joaquim Barbosa assumido o papel desempenhado pelo relator Lewandowski ou por Dias Toffoli - ambos considerados brandos e até coniventes com os réus -, teria a sua posse como Presidente do STF recebido tanta cobertura da imprensa? Será que não ouviríamos comentários bem desagradáveis a respeito da "pele morena" de Barbosa e das coisas que gente "de cor" costuma fazer na entrada ou na saída? Vou perguntar para dois ou três eleitores do PSDB que eu conheço.



5."um país respeitável"


Para uma camada não muito grande da população brasileira, tudo se passa como se o primeiro presidente operário, a primeira mulher presidente e o primeiro negro na presidência do STF fossem atestados de que as questões cruciais já estivessem a caminho de uma solução. Agora somos – ou em breve seremos - um país respeitável, no "seleto clube" das potências de primeiro escalão. Mais dois ou três negros, mulheres ou operários em posições importantes e já poderemos dizer que somos uma democracia plena em que as oportunidades são iguais, sem necessidade de medidas de reforço e de promoção social.

Esse negro no STF, essa mulher ou esse operário no Palácio do Planalto ocupam um papel duplo na argumentação da imprensa: ora eles representam indivíduos que chegaram a suas posições por um processo único e irrepetível, ora eles são vistos como pessoas metonímicas que representam um grupo, uma classe, uma categoria social inteira: o ministro negro representa a conquista realizada por todos os negros; a presidente mulher é a emancipação de todas as mulheres; o presidente operário e migrante nordestino redime a condição social dos trabalhadores que passaram pelas agruras do êxodo rural. Como indivíduos singulares, eles podem ser admirados ou criticados. Joaquim Barbosa seria autoritário e turrão, Dilma seria mal humorada e conduziria a economia de maneira desastrosa, Lula seria um grosseirão ignorante e cachaceiro. Entretanto, como pessoas metonímicas, elas são citadas com condescendência até por seus inimigos políticos como sinais do avanço social no Brasil, que nos coloca em plano de igualdade com os "países respeitáveis" (aqueles que dispõem de poderio militar conjugado com alto índice de desenvolvimento humano).

O problema é que a própria ideia de "país respeitável" é apenas uma imagem criada pelo bovarismo tradicional das nossas elites, que gostam de comparar o calçamento ruim de São Paulo com as calçadas impecáveis de certos países-padrão. Essa elite faz compras na rua Montenapoleone, na Avenue Montaigne e na Via Veneto, mas finge que não vê os africanos que pedem dinheiro para os turistas na frente do Duomo de Milão, os barracos de madeira e lata a 5 km do centro turístico de Paris, a multidão sem-teto que dorme na marquise da estação Termini em Roma. Não chegam a ver os desempregados que vagam nas praças, nem a tensão raivosa na cara dos franceses de origem árabe que moram nos cortiços de Saint-Denis, ou os velhos abúlicos que estão perdendo seus benefícios sociais com os programas de austeridade que pipocam por toda a União Europeia. Nossa elite acha ousado fumar maconha em Amsterdam, mas não se preocupa com o avanço da direita xenófoba nos países do Norte. Pois é essa elite que fala de "países respeitáveis", como a pacífica Noruega, onde um fanático de extrema direita mata dezenas de estudantes em férias. 

Ah, os países respeitáveis!



6."o resultado dessa soma"


Nas contas da Eliane Cantanhêde, a soma tem resultado diferente de zero e positivo. Não conferi, mas sei que alguns jovens negros morreram enquanto eu escrevia esta carta e não sei quando é que teremos outro negro no STF. Tudo bem. Sei que não são apenas os negros pobres que passam por dificuldades no struggle for life. Você e eu vivemos num país em que os ruralistas chamam os índios de latifundiários e os Guarani-Kaiowá estão fodidos... Há colunistas da imprensa supostamente golpista que encolhem os ombros e dizem que o modo de vida dos índios está definitivamente comprometido por causa do... consumismo.

"Mesmo hoje, quando restam poucos John Waynes a advogar que índio bom é índio morto, a cultura dessas populações sofre uma ameaça ainda mais séria, que é o desejo de seus representantes de gozar as facilidades da vida moderna. Não dá para censurá-los por essa escolha." (Folha de S.Paulo, Índios e a globalização, 13 de novembro de 2012)

Helio Schwartsman, de quem me lembro nos corredores do Departamento de Filosofia da USP carregando gentilmente a valise de Gérard Lebrun, esqueceu que os John Wayne não são poucos no Mato Grosso do Sul. 

Chega. Comecei a carta com espírito de ironia, mas fui perdendo a paciência com tudo. Lembrei-me de uma velhíssima charge do Angeli da época do Presidente Figueiredo, que dizia que o Brasil mudou, mas não avisou para onde.

Para você, o tradicional abraço macho-pra-caramba. E não deixe de mandar um grande abraço para a Sara, para a Gabi, para o Neylor, para o Rodrigo e para a Dona Leila. 

E tomara que o struggle for life seja manso para todos nós.



domingo, 25 de novembro de 2012

Nada de carta: mon coeur mis à nu






Hoje, nada de carta. 

O autor, notório homem sem qualidades (espero que apenas no sentido de Musil), expõe algumas páginas arrancadas de seu velho caderno de réprobo. 






1985

setembro

Nasci mnemônico como uma erva antiga, capaz de reconduzir um homem a seu berço. Lembrar das felicidades passadas desenerva. Quanta miséria o passado pode suportar?

A lua da noite anterior punha reflexos numa vasta selva-oliva silenciosa. Fleumática desde sempre.

Passa das treze horas, o dia põe em desordem as roupas inundadas de suor.

(Queda livre:  haverá alguma liberdade na queda?)

Bebi em imaginação tonéis de vinho. Estou com Baco e Sileno, todos ébrios. Saímos os três pelo Largo do Café, deslizando por aquelas paredes de granito. Sileno caiu de seu burrico, lamentou-se pelo odre de vinho rasgado sobre o pavimento sujo: "Não se coloca vinho novo em odres velhos". Eu protestei: "ó Sileno! Isto não é mitologia, é o evangelho!", mas ele não deu importância à queixa de plágio.

Na rua São Bento, diante da avenida São João, tombamos aos pés do Martinelli. Um policial atentou para esse comportamento estranho por parte de três figuras mitológicas (pois também eu sou um mito).

— Documentos, camaradas!

Sileno arrotou. Baco brandiu o tirso ao agente da lei.

- Perdão, senhor Baco. Se eu o tivesse reconhecido de chofre, não o incomodaria. Mas não conheço esse aí (olhou para mim).

- Mortal, mortal, este é meu mais novo discípulo.

O burrico de Sileno zurrou uns pensamentos engraçados. Uma folha de parreira caiu da coroa que lhe cingia a cabeça.

Apolo nos localizou ao romper do Sol, marchando alegremente pelo Anhangabaú, e repreendeu os companheiros:

- Ó Baco, se seguires o Anhangabaú nesta direção não vais chegar ao Olimpo para a apoteose de Héracles.

O deus da embriaguez e seu companheiro ascenderam até serem cobertos por uma nuvem de poluentes. 

Não serei beatificado por querer a verdade perambulando perto de mim, ou um pouco mais adiante. Sento-me sobre cinzas — boa é a música que ouço agora— roendo uma cenoura crua.

Dou tapas nos fundilhos para tirar o pó escuro que sujou meu uniforme de punk. Meu cabelo não cresceu desde o início da história e o corte de gilete no peito continua insignificante. 

Lucienne-Marie, por favor, chame um médico, que eu necessito de urgentes cuidados. 

Camarada Ulianov, sofro como um cão velho e sarnento.

Tristeza, essa mancha de cinzas não quer sair da calça!





1992


Agosto

Li Almeida Garrett.  Ludmila, Marina e eu assistimos às apresentações do Bolshói e do Kirov. Passeei pela rua 13 de maio. Comprei um Dom Quixote. Consegui aulas de Sociologia numa outra escola. Gostei do livro da Scarlett Marton sobre Nietzsche. Comprei muitos livros em sebo. Adriana veio passar uma temporada conosco. Estudei grego. Li Borges, Machado de Assis e Shakespeare. Fui convocado a trabalhar nas eleições. Passei os olhos nos Pequenos Poemas em Prosa, de Baudelaire. Matriculei-me no curso de estética sobre Diderot, Voltaire e Sade. Tomei gosto pela Semiótica. Refleti sobre os protestos estudantis contra o Presidente Collor. Estudei o estoicismo. Conheci o Professor Bento Prado Jr. Com o Renato, assisti Wild at Heart no Sesc Carmo. Coloquei para correr um patife que assediava a Adriana. Nasceu meu sobrinho Lucas. Tentei entender a natureza das coisas.


Setembro

Assisti às conferências de Jean Pierre Vernant. Conheci Antonio Cândido. Conversei em mau inglês com um professor da Tanzânia. Li Mensagem e pensei em Bataille. Fiz muitos exercícios de grego. Ouvi inúmeras vezes K626 de Mozart. Achei-me amargo e plebeu. Estudei o problema do critério em Sexto Empírico. Fui niilista, esquizóide, curei-me pela música. Quis saber onde estava o centro de gravidade das minhas preocupações. Ludmila e eu vaiamos e xingamos o Presidente da República, o presidente do PMDB e o governador de São Paulo, numa grande manifestação pelo impeachment de Collor. Recebi cartas sentimentais de minhas ex-alunas. Terminamos a greve dos professores. Redigi meu projeto. Renunciei a ser um simples amante da música. Tive uma sexta-feira, 25, das mais azaradas e engraçadas. Amarguei o suspense pela votação do impeachment. Comemorei com a Ode à Alegria aquele grande dia 29. No dia seguinte, de ressaca, me achei incorrigível.




2001


abril

Não dormi bem de sábado para domingo. A crescente excitação de ver a Lapa madrugando me arrancou da cama antes das seis. Beijei as crianças e acordei Ludmila para avisá-la de que iria sair. Desci a Gomes Freire na direção da Riachuelo. Havia prostitutas e tresnoitados na esquina com a Mem de Sá.  Subi com firmeza a antiga Matacavalos, muito agitada por botequins e rapazes que voltavam de bailes. Os prédios de apartamentos pequenos e desgastados quase anularam o antigo casario do século XIX. A composição era convencional, pobre e sem surpresa (o diabo ia dizendo: “paulista”...). Quando passei a rua do Senado, procurei o lugar onde morou o jovem Bento de Albuquerque Santiago. Topei com um posto de gasolina enegrecido pela graxa. Um anticlímax de lei. Era preciso não desistir. Prossegui até a Presidente Vargas, esperando o sol surgir daquela aura rubra que emanava da Candelária. O locutor da Central do Brasil anunciou com voz redonda a partida dos trens para Belford Roxo. Enveredei através da massa que trafegava nas ruas sujas, ensombradas pela falésia do morro da Previdência (se a coragem e as pernas me permitissem iria até a Favela da Pedra Lisa). Fui atraído pelo esplendor fanado dos velhos hotéis convertidos em cabeças de porco, em lupanares fétidos para as putas de mamas despencadas da rua Barão de São Félix. Esgotos abertos, água parada nas sarjetas até a Camerino. Do Valongo, galguei a ladeira do Livramento, cruzando com os populares que, endomingados, iam à missa ou levavam os filhos a passeio. Casinhas de pobreza nostálgica, à parte da cidade, dispostas de portas abertas sobre vielas encalacradas. E sobretudo o sol forte iluminando toda a cidade ao pé do morro. Do alto se enxergava tudo, bem longe. Perdi-me a caminho da Gamboa. Desci ladeiras que eram volutas com o relevo da Lua, velhas como o dilúvio, desmanteladas como as que outrora subiam o morro do Castelo. Voltei a salvo de tombos para a Central e para as cutias do Campo de Santana. Vi um batizado, pouco antes de saudar as esfinges da Loja Grande Oriente na rua do Lavradio.  Armavam uma feira de antiquário, mas resolvi continuar, embora já fosse quase oito da manhã, até o Passeio Público.  No entanto, não havia vivalma naquele banco de pedra em que José Dias caluniou os olhos de Capitu a um Bentinho pasmo. Retornei pela rua das Marrecas, dobrei a esquina da rua dos Barbonos, digo, Evaristo da Veiga, passei pela ruína da rua dos Arcos. Logo estava de volta ao hotel para o café da manhã. 
Somos bem Brasil, os vivos e os mortos que se transformaram no húmus da terra, como aquele marinheiro de Álbion cujo epitáfio li no Cemitério dos Ingleses: He loved the country and wanted to stay... Humor britânico in extremis.





2011


Janeiro

Quando o trem passou sobre o Schelde, o país estava sem governo há exatos seis meses. Olhei na direção em que o rio desce para Antuérpia e – para esquecer o vaivém inútil na Gare du Midi, imensa e mal sinalizada - sonhei com caravelas, galeões e urcas abarrotadas de pimenta, tapetes, pau-brasil, peças de prata e peles de pantera. Na planura encharcada e cinzenta, eu vi camponeses de Brueghel arrastando as botas pesadas de lama.  Se viessem falar comigo, já tinha uma desculpa pronta: en français, s'il vous plaît ! ik heb geen Nederlands spreken. À medida que o comboio desacelerava ao entrar na estação Sint Pieters, os camponeses se transformavam nos garotos que iam para as escolas de Gent. Ludmila, Beatriz e eu tivemos que trocar de trem. Em Bruges, saímos do lado errado da estação, debaixo de uma chuvinha irritante. Cada cidade nova que visitamos se torna particular pelo acúmulo de muitas insignificâncias em que buscamos a cidade sonhada. Bruges era a folha de plátano molhada na sarjeta, uns discretos adesivos de venda de sexo, a fumaça que subia de um telhado íngreme. Queria partir logo que cumpríssemos os rituais de turista. Errávamos pelas ruas:  eu tinha medo e vergonha de pedir informações em francês. Já imaginava a fúria dos partidários do Vlaam Belang ou o gorducho Bart de Wever correndo para me chutar a bunda. 

Atrás das cortinas de renda, os habitantes invisíveis haviam sido postos para dormir desde a época do rei Leopoldo. Bruge, la morte. O sino de Sint Salvator anunciou que eram nove horas. A Grote Markt não me encantou e Ludmila não chegou a me convencer da necessidade de galgar os degraus do Belfort. Com aquele mau tempo iríamos enxergar o quê? Muito melhor seria caminhar ao longo dos canais, medindo a cidade. De todos os lados, os ciclistas começaram a aparecer no Spinolarei e no Groenerei. Paramos para as fotos obrigatórias no Rozenhoedkaai. Eu não estava encantado nem feliz. Torcia para que o Ivan tivesse mais sorte em Vancouver.  Bruges me fazia de bobo. Não gosto de ser turista nem gosto de estar perdido. Na livraria na rua Dijver as edições holandesas de Spinoza e de Cees Nooteboom proclamavam minha ignorância do idioma. Milhares de livros que eu não podia ler. 

Desanimado, senti que era melhor não perder mais tempo e irmos logo para o Groeninge visitar a exposição dos “primitivos” flamengos, única razão da nossa presença naquele tédio em forma de cidade.  Não sei se foi a beleza minuciosa de Van Eyck ou o murmúrio babélico que emanava dos connoisseurs; não sei se foi a acolhida gentil na entrada do museu ou uma frase bem brasileira dita por alguém que passou por nós em direção ao banheiro, sei apenas que, quando saímos, um sol úmido coloria os telhados vermelhos e uma ave – nem cisne nem corvo - cantou. 


Veio a vontade de atravessar a ponte de São Bonifácio, de contornar a catedral de Onze Lieve Vrouwe, de contar cada tijolo do Gruuthuse. Já não tinha medo do Vlaam Belang. Olhei com carinho para o alto do Belfort e fiz questão de chamá-lo de ‘beffroi” em voz alta; dei as costas para as lojas de chocolate, ignorei a Basílica do Heilige Bloed: fomos comer stoemp com cerveja Duvel e nos embevecer no Rozenhoedkaai, o lugar mais lindo do mundo. E seguimos pelos becos até o Minnewater, o lugar mais lindo do mundo. E entramos no pátio das beguinas, o lugar mais lindo do mundo. Sint Salvator avisou que eram cinco horas. Que pena! As torres da cidade se dissolviam na névoa luminosa daquele céu imenso que amo em Ruysdael (eu pensei: meu Deus! Essa luz existe! Eu vi essa luz!) Voltamos com os estudantes para a estação. Pedi os bilhetes para Bruxelas num francês sonoro ao qual o bilheteiro da SNCB respondeu num holandês teimoso. Não liguei. Flandres era também o meu país.