quinta-feira, 3 de julho de 2014

Quando a pátria que temos não a temos #5





Mafra, quando as nuvens se juntam



Sem fausto nem glória



Sítio de triste memória é esta Mafra nevoenta em que desembarcamos num domingo sem vida, junto da mole de pedra erguida em desatinado contraste com a pequenez da vila. Mandou-a erigir D. João V, destinada a basílica e convento dos capuchinhos da Arrábida, como caríssimo ex-voto pela graça alcançada de fazer D. Maria Ana da Áustria parir um varão coroável.  

Não sou dos que increpam de bisonharia o monarca, que mesmo Oliveira Martins tinha como certo não ser sempre bolônio, mas ainda nos consterna e causa espécie a prodigalidade tão oposta a todo cálculo econômico, o suntuário e extravagante de que revestiu todas as liturgias, praticando um ultracatolicismo face ao qual o espírito tridentino da Igreja de Roma, ela mesma tão amiga de pompas e magnificências, figurava austero e mesquinho como um ágape huguenote. 


Se houvéssemos de fazer comparação, inútil buscá-la no fausto do Rei-Sol - monarca em tudo premeditado e astucioso -, antes a acharíamos naqueles selvagens da América do Norte que sacrificavam alegremente suas riquezas no potlatch.  É coisa a se lamentar que nenhum Marcel Mauss tenha buscado inspiração na mole de pedra do Palácio-Convento de Mafra para um novo ensaio sobre a dádiva. Oxalá entenderíamos que os portugueses de então não eram os infames cafres da Europa, mas quem sabe seus simpáticos iroqueses.


Eis que, já a andar perdido nessas cogitações de etnologia imaginária, deixei de fazer menção ao justo direito que D. João V tinha de erguer um monumento como haviam feito seus mais ilustres predecessores, pois que se a dinastia afonsina teve Alcobaça e a casa de Avis, Batalha e os Jerônimos, cabia aos Bragança, sentados sobre o ouro e os diamantes do Brasil, verem sua glória perpetuada nos mármores do Palácio-Convento.  Das pedras das Minas Gerais às pedras de Mafra fechava-se o círculo dessa verdadeira economia da Idade da Pedra. 


Era tarde demais, porém, e a era neolítica corria para o seu final. O que depauperou Portugal não foi o esgotamento das minas mas as razias do Capital, de cujo rationale o embaixador D. Luís da Cunha tinha não pouca compreensão, observador atento das mudanças geopolíticas da Europa a partir de seus postos diplomáticos em Paris e nas poderosas praças financeiras de Amsterdão e Londres. D. Luís viu bem que as proporções diminutas do país não habilitavam o rei de Portugal a parceiro válido e igual nas disputas dinásticas e territoriais, como fora a Guerra da Sucessão Espanhola. No desconcerto das potências europeias, cabia ao reino lusitano apenas um papel ancilar, razão pela qual, ainda nos anos de 1730, o embaixador sugeria à boca pequena (que era de fato audaz o sugerido) o traslado das Cortes de Lisboa para o Rio de Janeiro para fugir à hegemonia marítima inglesa, consagrada pelos tratados de Utrecht (1713-1715) e reforçada pelos investimentos holandeses na Inglaterra nas décadas seguintes.  A sugestão, porém, não foi levada a cabo nem pelo Marquês de Pombal, que devia a D. Luís sua nomeação a secretário do reino de D. José I.  Apenas D. João VI, acoimado com a injusta pecha de fujão, teve a hombridade de tal cometimento, é certo que in extremis e escoltado pela armada do rei Jorge.

O Palácio-Convento de Mafra talvez se pretendesse a imagem do Quinto Império que Portugal aspirava ser, império sacro no paraíso terreal de mil anos, mas é apenas um um Titanic encalhado numa província acanhada, desprovida e erma de beleza. É a ruína de uma ambição desmesurada, desmentida pela expansão do verdadeiro Imperium, o desenhado pelas linhas de circulação do Capital. 


Tenho pena de D. João V. Freirático embora, e ávido espectador da combustão de cristãos-novos inocentes, o homem tinha imaginação ambiciosa, virtude vilipendiada no mundo burguês e militarista que se constituiu desde então; sobretudo virtude que escasseou nos monarcas portugueses posteriores, à exceção de D. Fernando II, que era da estirpe dos príncipes visionários como seu primo maluco Ludwig da Baviera. 

Tenho pena também de D. Manuel II, que antes do exílio em Inglaterra, passou aquela noite de outubro de 1910, a última em Portugal, nesta verdadeira fortaleza da solidão, neste palácio que é o triunfo incerto da desmesura contra os fatos.  O palácio que poderia ser a sede do Quinto Império veio a ser o ponto final de quase oito séculos de monarquia lusitana. 

Percebo que suas proporções imensas impressionam o bom português que é Fernando Henrique, que nele vê não o desperdício de vidas, trabalho e recursos, mas a afirmação de uma grandeza feita para durar. Todavia Mafra não me faz bem. É que eu estou a cavaleiro entre a lógica do Capital que rege minha vida, inclusive a extensão de minhas viagens, e o desatino do rei barroco, tão contrário àquilo ao qual também eu sou intimamente contrário: o conselho prudente do contador, as advertências da agências de rating,  a seriedade solene do dinheiro. Apesar de beato, e beato baboso, D. João V podia proclamar: “Meu avô temia e devia; meu pai devia; eu não temo nem devo.” Essa bazófia, eu a admiro, mas não a suporto.  Impotente para resolver esta contradição, resolvi deixá-la inteira e intacta, expondo em forma de florilégio o desencontro das  vozes e dos pensamentos de quem testemunhou, registrou e pensou o mundo da época de D. João V.

Essa não é para ser uma visita feliz.



Ludmila e Fernando Henrique acabam de deixar o Toyota no estacionamento ao lado do Palácio Convento



1.  A colônia


Ribeirão do Carmo, Tripuí, Rio das Mortes, Diamantina


"Há poucos anos que se começaram a descobrir as minas gerais dos Cataguás, governando o Rio de Janeiro Artur de Sá; e o primeiro descobridor dizem que foi um mulato que tinha estado nas minas de Paranaguá e Curitiba. Este, indo ao sertão com uns paulistas a buscar índios e chegando ao cerro Tripuí desceu abaixo com uma gamela para tirar água do ribeiro que hoje chamam do Ouro Preto, e, metendo a gamela na ribanceira para tomar água, e roçando pela margem do rio, viu depois que havia granitos da cor do aço, sem saber o que eram, nem os companheiros aos quais mostrou os ditos granitos, souberam conhecer e estimar o que se tinha achado tão facilmente, e só cuidaram que aí haveria algum metal não bem formado, e por isso não conhecido. Chegando, porém, a Taubaté, não deixaram de perguntar que casta de metal seria aquele.  E, sem mais exame, venderam a Miguel de Sousa alguns daqueles granitos, por meia pataca e oitava, sem saberem eles o que vendiam, nem o comprador que coisa comprava, até que se resolveram a mandar alguns dos granitos ao governador do Rio de Janeiro, Artur de Sá; e, fazendo-se exame deles, se achou que era ouro finíssimo.
Em distância de meia légua do ribeiro do Ouro Preto, achou-se outra mina, que se chama a do ribeiro de Antônio Dias; e daí a outra meia légua, a do ribeiro do Padre João de Faria; e, junto desta, pouco mais de uma légua, a do ribeiro do Bueno e a de Bento Rodrigues. E, daí três dias de caminho moderado até o jantar, a do ribeirão de Nossa Senhora do Carmo, descoberta por João Lopes de Lima, além de outra, que chamam a do ribeiro Ibupiranga. E todas estas tomaram o nome dos seus descobridores, que todos foram paulistas."

André João Antonil, Cultura e Opulência do Brasil (1711), Parte III, capítulo 2 p 164-5


O lugar dos Brasis 


“No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais complexa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É este o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos.”

Caio Prado Júnior, Formação do Brasil Contemporâneo (1942), p. 25


“Escravismo, tráfico negreiro, formas várias de servidão formam portanto o eixo em torno do qual se estrutura a vida econômica e social do mundo ultramarino valorizado para o mercantilismo europeu. A estrutura agrária fundada no latifúndio se vincula ao escravismo e através dele às linhas gerais do sistema; e as grandes inversões exigidas pela produção só encontram rentabilidade, efetivamente, se organizada em grandes empresas. Daí decorre o atraso tecnológico, o caráter predatório e “cíclico” no espaço e no tempo, que assume a economia colonial. A sociedade se estamentiza em castas incomunicáveis, com os privilégios da camada dominante juridicamente definidos, que de outra forma seria impossível manter a condição escrava dos produtores diretos.”

Fernando A. Novais, O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial (1969), p. 62


Mariana:
a antiga vila do Ribeirão do Carmo foi rebatizada em 1745 em homenagem a D. Maria Ana da Áustria, esposa de D. João V


Mariana: Museu de Arte Sacra


Ouro Preto: ao  fundo, a Pedra do Itacolomi, que permitia aos paulistas reconhecer a região das minas do Tripuí


Outro Preto, antiga Vila Rica: Igreja de N. Sª do Carmo


Comarca do Rio das Mortes:
São João del Rey, elevada a vila em 1713, assim nomeada em homenagem a D. João V



Comarca do Rio das Mortes:
Tiradentes, antiga vila de São José del Rey, em homenagem ao D. José, Príncipe do Brasil, sucessor de D. João V


Distrito Diamantino:
Largo da Matriz de Diamantina



2. A metrópole


O absolutismo


"Só a vaidade dos reis é vaidade justa, porque a Providência já quando os formou para a dominação, logo os destinou para a figura de divindade, e com uma semelhança mais que material, e indiferente; porque a mesma essência de que são imagens, parece lhes comunica uma porção da ideia que representam. Por mais que os sucessos sejam regidos pelo acaso, contudo aos reis não os faz a fortuna, nem o valor; mas sim aquela mesma inteligência, que dá os primeiros e principais movimentos ao Universo. Ainda nos orbes celestes vemos alguns corpos, que parece custaram mais cuidado ao Autor do mundo, pois brilham com luz mais firme, mais intensa, e mais constante. Os monarcas parecem-se com os mais homens na humanidade, mas diferem nas qualidades da alma: a coroa, que os cinge, não só lhes ilustra a cabeça, mas também o pensamento; o cetro, que indica a majestade, também inspira o esforço; e a grandeza no poder também influi extensão no espírito; por isso na arte de reinar não há regras que possam ser sabidas por quem não é rei."

Matias Aires, Reflexões sobre a vaidade dos homens (1752), fragmento 51



Um império barroco


“Mesmo em Portugal, a exploração dos recursos minerais brasileiros e o grande florescimento do comércio português com a colônia permitiram à metrópole resolver o problema do balanço deficitário com o resto da Europa por meio do ouro que, em conjunção com os diamantes, enriqueceu a Coroa, a Igreja e a Corte, e forneceu a D. João V recursos suficientes para que não fosse obrigado, durante seu longo reinado (1706-1750), a convocar as Cortes e lhes pedir dinheiro. Conta-se que esse monarca disse, ao tratar do assunto: “Meu avô temia e devia; meu pai devia; eu não temo nem devo.”

Charles R. Boxer, O Império Marítimo Português (1969), p. 171

“Na essência é a falta duma burguesia forte e, por consequência, do capitalismo, elemento de ponderação prática e realista, que explicam esta explosão final e desmedida do barroco, em Portugal. O ouro, prêmio grande duma loteria dissolvente, que enriquecera o Rei e a fidalguia, substituíra-se em Portugal ao bom senso e ganhos trabalhosos duma classe média, que não prestava sem condições o seu apoio e que servia de elemento moderador, na medida em que a partilha do poder evita os desmandos oligárquicos duma classe.” 

Jaime Cortesão, Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid (1950), tomo 2, p.88



A esplanada diante do Palácio-Convento




Parte da fachada de 230 m do Palácio, Basílica e Convento de Mafra



3. O monarca


A paz doméstica de D. João V 


Cenas do cotidiano da família real em 1717, segundo a Gazeta de Notícias, que era publicada uma vez por semana.

“A Rainha N. Sª acompanhada da Sereníssima Senhora Infanta D. Francisca foi terça feira passada à Igreja de S. Roque em público a oferecer ao glorioso Santo Inácio o novo Infante.” (2 de setembro)

“El-Rei nosso Senhor esteve a semana passada na vila de Sintra donde passou à de Mafra a ver um sítio para um convento de Capuchos Arrábidos que ali quer fundar. Tem-se feito preces públicas em todos os conventos e igrejas de esta cidade para implorar o bom sucesso das armas cristãs na Hungria contra os Infiéis.” (18 de setembro)

“Quarta feira fez-se uma Procissão solene desde a Santa Igreja Patriarcal até à de S. Roque, em ação de graças do bom sucesso da Rainha N. Sª no nascimento do Infante D. Pedro, e concorreram a ela todas as religiões e clero de Lisboa Ocidental, e se fez tudo com muita solenidade e magnificência.” (23 de setembro)

“El-Rei N. S. partiu domingo para Mafra a lançar a primeira pedra do templo e convento que quer edificar naquele sítio para os religiosos capuchos da província da Arrábida.” (18 de novembro)


“Sua Majestade que Deus guarde, foi para Mafra em 14 deste mês assistir à benção que em 17 do mesmo fez o senhor Patriarca, de benzer, e pôr a primeira pedra nos alicerces da Igreja de Santo Antônio, que o mesmo senhor manou edificar junto à dita vila, e esta função se executou com grande magnificência e luzimento.” (25 de novembro)

citado em Manuel Bernardes Branco, Portugal na época de D. João V (1886), pp. 50-1



As liberalidades pias do Fidelíssimo  


"Toda abundância de graças e honras, com que o magnânimo rei D. João V engrandeceu a sua real capela, ainda se não proporcionava com o dilatado de seu pio e régio coração, e assim obtendo da Santidade de Clemente XI a Bula Aurea, que começa: In supremo Apostalatus solio, expedida em 7 de novembro de 1716, fez exaltar a sua insigne colegiada em catedral metropolitana e patriarcal com a invocação de Nossa Senhora da Assunção, dividindo para este efeito esta cidade e seu arcebispado em duas partes, estabelecendo na parte ocidental um patriarca, a quem uniu a dignidade de capelão-mor com jurisdição de metropolita, o qual como patriarca ficou superior a todos os arcebispos, e bispos do reino, e ainda ao de Braga.
Para maior decoro e magnificência da sua dignidade lhe alcançou a regalia de andar vestido em hábito púrpura à maneira do arcebispo Salisburgense, primaz da Alemanha, e outros tantos privilégios e preeminências, unido-lhe também as honras e tratamento de cardeal, que lhe mandou dar por decreto de 17 de fevereiro de 1717. (...) Para tal fim consignou do patrimônio real e do rendimento das quintas de Minas Gerais para sustentação do patriarca e seus sucessores, em perpétua doação, todos os anos 220 marcos d'ouro, e o grande rendimento da Lezíria da Foz de Almonda, para que sem prejuízo dos pobres, pudesse luzir com esplendor de tão alta dignidade. E prosseguindo na ampliação da nova catedral, criou nova dignidade e cônegos para formarem um respeitoso cabido, enchendo-os de grande autoridades e honras, além das que o papa Clemente XI lhes outorgou pela constituição Gregis Dominici, de 3 de julho de 1718.
Continua a exercitar novas grandezas que já pareciam impossíveis à imaginação, e somente sondáveis e factíveis à dilatada esfera da sua ideia. Tornou a unir as duas cidades em uma só, e por constituição do papa Benedicto XIV passada em 13 de dezembro de 1740, e que principia com Salvatoris nostri, fez abrogar e extinguir a antiquíssima Sé de Lisboa Oriental, incorporando e estabelecendo uma só igreja patriarcal, com onímoda jurisdição metropolitana; e para que as dignidades se distinguissem mais especificamente, erigiu um excelentíssimo colégio de 24 principais com hábito cardinalício, e 72 prelados ou ministros de hábito prelatício, divididos em várias hierarquias, a saber - prelados, presbíteros com insígnias episcopais, e exercício do pontifical, protonotários, subdiáconos e acólitos, 20 cônegos, 12 beneficiários de 700$000 réis, 32 beneficiados, 32 clérigos beneficiados e outros mais ministros da igreja patriarcal."

Padre João Batista de Castro, Mappa de Portugal (1763) citado em Manuel Bernardes Branco, Portugal na épocha de D. João V, pp. 146-147



interior da Basílica de Nossa Senhora e Santo Antonio de Mafra



altar da Basílica


Um dos seis órgãos da Basílica, feitos em pau-santo, com ferragens de bronze feitas no Arsenal de Lisboa



4. As finanças do reino


Os que se exasperavam

"D. João V não regateava o preço das cousas; antes, como rei brasileiro, rico sem saber como, punha a honra na despesa, imaginando espantar o mundo com o modo perdulário com que dissipava. Mais de duzentos milhões de cruzados foram para Roma; não tem conta o que deu pelo reino às igrejas, aos conventos de frades e freiras; e na sua fúria de ser o esmoler-mor do catolicismo, lembrava-se de todos, derramando por toda a parte o ouro do Brasil: Santo Antão de Benavente, S. Francisco de Badajoz, a capela dos portugueses de Londres, o presepe de Belém na Palestina, os templos de Jerusalém, para não falar nos de Roma. - Alexandre de Gusmão, atônito, apertava a cabeça com ambas as mãos, exclamando: a fradaria absorve-nos, a fradaria suga tudo, a fradaria arruína-nos!"  

Oliveira Martins, História de Portugal (1879) tomo II, p. 150



“Ficou o rei, que está em casa, agora esperando que regresse o almoxarife que foi pelos livros da escrituração, e quando ele volta pergunta-lhe, depois de colocados sobre a mesa os enormes in-fólios, Então diz-me lá como estamos de deve e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais, Já o mês passado me disseste o mesmo, E também o outro mês, e o ano que lá vai, por este andar, ainda acabamos por ver o fundo ao saco, majestade, Está longe daqui o fundo dos nosso sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer que afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas, graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não, majestade, é o dinheiro que é merda (...)

José Saramago, Memorial do Convento (1982), p 283




Será mesmo?

Se é verdade que a maior parte do ouro brasileiro que chegava a Portugal tinha como destino final a Inglaterra, ou era transformado nas pedras de Mafra, ou desperdiçado nas igrejas e no patriarcado de Lisboa, parte dele infiltrou-se no campo, como provam as quintas e os solares encantadores construídos ou reconstruídos nesse período. (...)
Um balanço realizado em 1750 referente ao império português do Atlântico sul teria apresentado mais lucro do que perdas, se o reinado de dom João V fosse considerado como um todo. De fato, o governador de Angola em 1749-53, em sua correspondência particular, denunciava esse território como uma colônia corrupta e viciada, à beira da ruína total, mas, na correspondência oficial, afirmava que a exportação de escravos para o Brasil aumentara acentuadamente durante o seu mandato (...) No Brasil, apesar de vários conselheiros municipais de Minas informarem à Coroa em 1750-1 que a produção de ouro estava decrescendo de forma desastrosa e que o número de escravos importados diminuíra de modo alarmante, as frotas anuais do Rio de Janeiro continuavam ricamente carregadas. Da mesma maneira, embora os senhores de engenho da Bahia e de Pernambuco se queixassem mais do que nunca de problemas econômicos, cargas substanciais de açúcar continuavam sendo enviadas para Lisboa nas frotas de Salvador e Recife.


Charles R. Boxer, O Império Marítimo Português (1969), p. 187-8



Santo Elias: uma das esculturas encomendadas na Itália por D. João V


Os corredores do Palácio



5. A parte pensante do reino



Os estrangeirados


"Com mão larga e escolha segura, [D. João V] soube pôr estrangeiros e estrangeirados ao serviço de suas preocupações de senhor dum império.
Não foram poucos os estrangeiros que chamou a Portugal, para saciar a sua sede de fausto e de teatro: arquitetos, músicos, pintores e gravadores, empresários de ópera e cantores sacros e profanos.
(...) Mais nítida e predominante foi, todavia, a sua tendência a aproveitar os estrangeirados na defesa diplomática, na administração e na solução os problemas da soberania portuguesa no além-mar e, em particular, no Brasil.
(...) Estrangeirados, é certo, mas sem deixar de ser, por isso, portugueses. De todos esses diplomatas o mais estrangeirado foi seguramente D. Luis da Cunha (...) Todavia, ele permanece português, com a marca indelével da genuidade de origem."

Jaime Cortesão, Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid (1950), tomo 2 p. 93


D. Luís da Cunha, médico consultante mas não consultado



"Grande seria a minha fortuna se erigindo-me em médico consultante, ainda que não consultado, e só pelo amor que tenho ao doente, indico os remédios que se me oferecem, não aprendidos na escola de Avicena,, mas nas observações que tenho feito em semelhantes enfermidades"

"Se pois V. A. quiser dar um a volta aos seus reinos, observará em primeiro lugar a estreiteza dos seus limites, à proporção do seu vizinho. Achará, não sem espanto, muitas terras usurpadas ao comum, outras incultas, muitíssimos caminhos impraticáveis, de que resulta faltar o que elas podiam produzir, e não haver entre as províncias a comunicação necessária para o seu comércio: achará muitas e grandes povoações quase desertas, com as suas manufaturas arruinadas, perdidas, e extinto totalmente o seu comércio: achará que a terça parte de Portugal está, possuída pela Igreja, que não contribui para a despesa e segurança do Estado, quero dizer, pelos cabidos das dioceses, pelas colegiadas, pelos priorados, pelas abadias, pelas capelas, pelos conventos de frades e freiras: e, enfim, achará que o seu reino não é povoado como pudera ser, para prover de gente as suas largas e ricas conquistas, de que separadamente tratarei.
(...)
Da mesma sorte dissera que V. A. Acharia certas boas povoações quase desertas, como por exemplo na Beira Alta os grandes lugares da Covilhã, Fundão, e cidade da Guarda e de Lamego; em Trás-os-Montes a cidade de Bragança, e destruídas as suas manufacturas. E se V. A. perguntar a causa desta dissolução, não sei se alguma pessoa se atreverá a dizer-lha com a liberdade que eu terei a honra de fazê-lo; e vem a ser que a Inquisição prendendo uns por crime de judaísmo e fazendo fugir outros para fora do reino com os seus cabedais, por temerem que lhos confiscassem, se fossem presos, foi preciso que as tais manufacturas caíssem, porque os chamados cristãos-novos os sustentavam e os seus obreiros, que nelas trabalhavam, eram em grande número, foi necessário que se espalhassem e fossem viver em outras partes e tomassem outros os ofícios para ganharem o seu pão, porque ninguém se quis deixar morrer de fome.
A segunda parte da causa, que não é irreparável, como em seu lugar direi, foi a permissão que S. Majestade deu aos ingleses para meterem em Portugal os seus lanifícios, principalmente os panos, havendo doze anos que o dito senhor os tinha proibido, de que resultava que as nossas manufaturas se iam aperfeiçoando de tal maneira, que eu mesmo vim a França e passei a Inglaterra vestido de pano fabricado na Covilhã ou no Fundão. Para esta desgraça concorreram três coisas, a primeira querer o senhor rei D. Pedro comprazer com a rainha de Inglaterra, com a qual acabava de fazer um tratado de perpétua aliança defensiva e lhe pedia que levantassem pragmática; a segunda ser D. João Methuen [no original Matuen], seu embaixador, irmão de um grande mercador de panos e assim trabalhou em causa própria, sem embargo de que sempre lhe fui contrário; e a terceira, que pôs a foice à raiz, foi que o dito embaixador fez conceber a certos senhores, cujas fazendas pela maior parte consistem em vinhos, que estes teriam melhor consumo em Lisboa pela grande quantidade que deles sairia para fora, se por equivalente desta permissão, Inglaterra se obrigasse a que os vinhos de Portugal pagassem de direitos a terça parte menos que os de França; e isto bastou para que o tratado se concluísse e para que as nossas fábricas, como acima digo, totalmente se perdessem 
Não há dúvida que a extração dos nossos vinhos cresceu incomparavelmente, mas sujeita a que a poderemos perder todas as vezes que os ingleses deixarem de se conformar ao pé da letra com o mesmo tratado, isto é, que os vinhos de França não paguem de direitos a terça parte de mais do que os de Portugal, porque logo não terão [a] saída que agora têm, enquanto os primeiros pagam não só a dita parte de mais, mas metade; e nem por isso se deixe de tirar de Bordéus uma excessiva quantidade por serem melhores, mais baratos e ser mais breve o seu transporte.
Contudo esta grande exportação de vinhos não é tão utilíssima como se imagina, porque os particulares converteram em vinhas as terras de pão, tirando assim delas maior lucro, mas em desconto a generalidade padece maior falta de trigo, de centeio e cevada, de sorte que se o vinho sai de Portugal, é necessário que de fora lhe venha maior quantidade de pão."

D. Luís da Cunha, Testamento Político (1747)


"... considerei que sua Majestade se achava em idade de ver florentíssimo e bem povoado aquele imenso continente do Brasil, se nele, tomando o título de Imperador do Ocidente, quisesse ir estabelecer naquela região a sua Corte, levando consigo todas as pessoas que, de ambos os sexos a quisessem acompanhar, que não seriam poucas, com infinitos estrangeiros; e na minha opinião o lugar mais próprio de sua residência seria a cidade do Rio de Janeiro, que em pouco tempo viria a ser mais opulenta que a de Lisboa. (...)

Qual a residência para a monarquia será mais vantajosa, aquela em que pode viver precariamente esperando ou temendo, que cada dia o queiram despojar do seu diadema ou aquela em que pode dormir o seu sono descansado e sem algum receio de que o venham inquietar? Problema que em duas palavras resolvo dizendo, que o dito príncipe para poder conservar Portugal necessita totalmente das riquezas do Brasil e de nenhuma maneira das de Portugal, que não tem para sustentar o Brasil, de que se segue, que é mais cômodo e mais seguro estar onde se tem o que sobeja, que onde se espera o de que se carece". 

D Luís da Cunha, Instruções inéditas a Marco Antônio de Azevedo Coutinho (cerca de 1730-1740), p.211; 217-218










A biblioteca joanina de Mafra



6. O sistema-mundo


A satisfação do sagaz brichote

"Os ingleses tiram de Portugal, vinhos em grande quantidade, azeite moderadamente, couros da Bahia, pau do Brasil, laranjas, limões, romãs, figos, passas, amêndoas, bengalas do Brasil, casquinha da ilha da Madeira, vinho da mesma ilha, tabaco do Brasil em rolo.
Mandam para Portugal panos, estamenha, droguetes, sarjas, sempiternas, baetas, meias de seda e de laia, chapéus, couros preparados, carnes salgadas, manteiga, roupa de Silésia, estanho, cortiça, trigo, centeio, cevada, farinha, gesso, carvão, fivelas, machados, enxadas, ferramentas diversas, alfinetes, agulhas e outras mais coisas." 

D. Luís da Cunha, Testamento Político (1747)


“O papel essencial desempenhado pelo ouro brasileiro no aumento das exportações inglesas para Portugal durante o reinado de D. João V com frequência foi enfatizado pelos ingleses ali domiciliados. Em 1706, o cônsul em Lisboa escreveu que o comércio dos fabricantes de lã ingleses “melhora dia a dia e melhorará mais à medida que seu país for se tornando mais rico, o que necessariamente tem de acontecer se puderem continuar a importar tanto ouro do Rio todos os anos". Em 1711, os mercadores residentes em Lisboa atribuíram o crescimento do seu negócio principalmente “ao incremento do comércio português com os Brasis e à grande quantidade de ouro que de lá é trazida.”

Charles R. Boxer, O Império Marítimo Português (1969), p. 179



O verdadeiro Imperium

"No mar, sem nenhuma frota principal inimiga para enfrentar, a Marinha inglesa e a decadente esquadra holandesa podiam demonstrar a flexibilidade de um poderio naval superior. O novo aliado, Portugal, podia ser assistido pelo mar, enquanto Lisboa, por sua vez, proporcionava uma base naval avançada, e o Brasil, uma fonte de ouro. Era possível enviar soldados para o hemisfério ocidental para atacar as possessões francesas nas Antilhas e América do Norte, e esquadras podiam caçar navios espanhóis que transportavam metais preciosos. A tomada de Gibraltar não só deu à marinha inglesa uma base para controlar a saída do Mediterrâneo, como dividiu as bases franco-espanholas e as frotas."

Paul Kennedy, Ascensão e queda das grandes potências (1987), p. 108



"Embora a fuga do capital excedente dos investimentos holandeses para os ingleses só se tenha tornado maciça nessa época, a transferência já havia começado uns trinta anos antes, quando chegava ao fim a Guerra da Sucessão Espanhola. Essa guerra mostrara, sem sombra de dúvida, que a ascensão do poderio inglês no mar e do poderio francês em terra havia criado uma situação em que os holandeses não tinham nenhuma vantagem competitiva na luta europeia pelo poder. (...)
Não havia muito mais que um credor pudesse desejar, de modo que, na década de 1710, o capital excedente holandês começou a saltar do apinhado barco holandês para o inglês, na esperança de conseguir uma carona para o comércio e a colonização do Atlântico, ambos em expansão."

Giovanni Arrighi, O longo século XX (1994), p. 210-11 


Os petrechos prosaicos do Palácio de Mafra



 7. Antes de partir


 O Palácio-Convento julgado por Herculano  e Oliveira Martins


"Colocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender quanto é clara e precisa a linguagem destas crônicas, lidas de poucos, em que as gerações escrevem misteriosamente a história de seu viver (...) A Batalha representa uma geração enérgica, moral, crente. Mafra, uma geração efeminada, que se finge de forte e grande. A Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma sensaboria de mármore. Ambas, ecos perenes que repercutem, nos séculos que vão passando, a expressão complexa, e todavia clara e exata, de duas épocas históricas do mesmo povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice caquética."

Alexandre Herculano, revista "Panorama" (1843)  cit. Manuel Bernardes Branco, Portugal na épocha de D. João V, pp. 156-157


"Mafra devorou, em dinheiro e gente, mais do que Portugal valia."

Oliveira Martins, História de Portugal (1879), tomo II, p. 151



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Matias Aires, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, Martins Fontes, São Paulo, 1993  |  André João Antonil, Cultura e Opulência do Brasil, Editora Itatiaia Ltda, Belo Horizonte, 1997  |  Giovanni  Arrighi, O longo século XX, Contraponto e Editora da Unesp, Rio de Janeiro e São Paulo, 1996  |  Charles R. Boxer, O Império Marítimo Português, Companhia das Letras, São Paulo, 2002  |  Manuel Bernardes Branco, Portugal na Epocha de D.João V, Livraria de Antonio Maria Ferreira Editor, Lisboa, 1886  | Jaime Cortesão, Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, Ministério das Relações Exteriores, Instituto Rio Branco, Rio de Janeiro, 1956  |  D. Luís da Cunha, Testamento Político  | D Luís da Cunha, Instruções inéditas a Marco Antônio de Azevedo Coutinho, Academia de Ciências de Lisboa/Imprensa da Universidade, Coimbra, 1929  |  Júnia Ferreira Furtado, Os oráculos da geopolítica iluminista: D. Luís da Cunha e Jean-Baptiste Bourguignon D’Anville na construção da cartografia européia sobre o Brasil  |  Paul Kennedy, Ascensão e queda das grandes potências, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1989  | Joaquim Romero Magalhães, O projecto de D. Luís da Cunha para o império português in Estudos em homenagem a Luís Antonio de Oliveira Ramos, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2004  |  J.P. Oliveira Martins, História de Portugal, tomo II, Livraria Bertrand, Lisboa, 1882  |  Rui Moura (coordenador), História de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010  |  Fernando A. Novais, O Brasil nos quadros do Antigo Sistema Colonial in Brasil em Perpectiva, Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1971  | Caio Prado Júnior, Formação do Brasil Contemporâneo - Colônia, Editora Brasiliense Ltda, São Paulo, 1957  |   José Saramago, Memorial do Convento, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1996  | Ronaldo Vainfas (direção), Dicionário do Brasil Colonial, Objetiva, Rio de Janeiro, 2000



Mafra vista da escadaria do Palácio-Convento






sábado, 21 de junho de 2014

Quando a pátria que temos não a temos #4





Em Tomar, quando a névoa se vai


 Uma manhã de nevoeiro 


Lisboa amanheceu no nevoeiro. Do parque Eduardo VII não se via o Tejo e mal se enxergava o Castelo de São Jorge. Mas era um mau dia para a volta de D. Sebastião. Notícias de adesão à greve geral eram divulgadas pela RTP. O Metropolitano só voltaria a funcionar a partir das 11 horas, como pudemos verificar pela multidão ansiosa à qual nos juntamos à entrada da estação  Marquês de Pombal.  A custo, e ainda indecisos, chegamos à estação Santa Apolônia, onde tomaríamos o comboio rumo a Tomar. Já o dia se abria quando embarcamos. Santarém repousava gloriosa ao sol. Não demorou para que Ludmila e eu galgássemos o outeiro do castelo de Tomar, cuja aparência conhecia apenas por um documentário um tanto sensacionalista que o Discovery Channel fizera sobre os Templários. 

Ao percorrermos o claustro da lavagem e o do cemitério a caminho da nossa esperada visita à Charola, ocorreu-me que os impérios universais, como o de Carlos V e o de Filipe de Espanha, que foi aqui levantado rei de Portugal, embaraçam as linhas das nações, mas não abolem, antes reforçam, pela lei da reação, o sentimento de pertencimento à terra. Os impérios são grandes fautores dos nacionalismos.

É isso que desperta em Portugal e noutros países submetidos ao imperialismo da Troika um sentimento de impotência que só encontra escape na derrisão cínica ou na afirmação da nacionalidade contra o cosmopolitismo dos ricos da União Europeia. 

No entanto, eu, mestiço num povo de mestiços que foram sempre súditos de todas as Metrópoles econômicas e culturais, também sei que os impérios, ao enredarem as linhas das nações, misturam o cá e o lá das maneiras mais inesperadas. É verdade que produzem reações nacionalistas violentas, que custam a ser reprimidas, mas também ensinam o que é pertencer a muitos lugares,  o que é ser habitante de si mesmo e cidadão do universo.  

É por isso que agora Tomar é meu cá, tanto quanto Paris, Verona ou Bruxelas, ou tanto quanto o humilde bairro sem fama nem nomeada da maior cidade do Brasil, que me viu crescer e aprender a ler todos os nomes no Atlas.


claustro de D. João III

1314-2014

A história começa em França.

Diante dos inquisidores leais a Felipe o Belo, os templários foram acusados de enriquecimento ilícito, sodomia, obscenidade, recusa dos sacramentos, idolatria, renegação de Cristo. Uma bula do papa Clemente V suprimiu a ordem dos Cavaleiros do Templo.

Os templários nunca chegaram a ser condenados pela Inquisição, mas o rei exigiu que Jacques de Molay, grão-mestre da ordem, e seus companheiros fossem queimados na ponta da Île de la Cité, diante dos jardins do palácio real, no dia 18 de março de 1314.


Nos sete séculos que se passaram, o nome dos templários foi metido no saco de maldades ao qual se lançariam também o dos jesuítas, maçons e sábios do Sião. Sinal certo e claro de que esteve muito ocupada a andar pelo mundo a senhora Difamação, cujas sete bocas falam com fluência todas as línguas dos homens e que nunca se separa de suas irmãs aleijadas e impertérritas: Ignorância, vestida de remendos, e Suspeição, sempre embuçada.



Paris: ponta da Île de la Cité

D. Dinis


Com a dissolução da ordem do Templo, seus bens foram colocados sob sequestro e passaram aos cuidados de administradores eclesiásticos. No reino de Portugal, para evitar que fossem confiscados pela Igreja, D. Dinis os apreendeu e incorporou ao domínio real até que a situação se deslindou em 1319, quando uma bula papal autorizou a criação da Ordem de Cristo, à qual D. Dinis entregou os bens dos templários portugueses, entre eles o Castelo de Tomar.

A fortificação fora construída em 1160 por Gualdim Pais, mestre dos templários portugueses, incumbido por Afonso Henriques de defender a região das investidas dos mouros, recentemente expulsos de Santarém e Lisboa. É bem possível que se tenha iniciado na mesma época a edificação da charola, a igreja "redonda" que é marca da ordem, inspirada nas antigas plantas octogonais do mundo romano tardio das quais são exemplos a Basílica do Santo Sepulcro ou San Vitale de Ravena, que havia servido de modelo para a Capela Palatina de Carlos Magno.



A charola dos templários



a alcáçova do castelo de Tomar



Porta do Sol, junto à alcáçova

D. Henrique


D. João I obteve permissão papal para colocar seus três filhos à frente de cada uma das ordens militares portuguesas: a de Santiago, a de Cristo e a de Avis. Coube ao infante D. Henrique administrar a Ordem de Cristo em 1418. O papa atribuiu à Ordem lutar contra os mouros e expandir a fé cristã na África.

D. Henrique não esquentou lugar em Tomar, que se tornara sede da Ordem de Cristo em 1357.  O Infante se estabeleceu entre Sagres e o Cabo de São Vicente e orientou suas atividades para a exploração marítima. Logo depois de elevado a governador da ordem de Cristo, ele patrocinou a conquista da Ilha da Madeira e, um pouco mais tarde, dos Açores.

Do ano de 1434 em que Gil Eanes dobrou o Cabo do Bojador até 1447, ano seguinte à chegada de Dinis Dias às costas do Senegal, um terço das expedições africanas foram enviadas por iniciativa exclusiva de D. Henrique. Como se ainda fosse pouco, à fama do Infante foram acrescentados outros êxitos marítimos da Ordem de Cristo, da qual foram cavaleiros vários dos navegantes ilustres que dilataram a fé e o império, entre os quais Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral.

O Infante D.Henrique quase nunca saiu ao mar, mas a posteridade, vezeira em levar a sérios seus próprios gracejos, deu o nome de "Navegador" a este príncipe riquíssimo que navegava apenas nos portulanos e enfrentava a ira do mar Oceano com ambos os pés plantados na boa e firme terra do Algarve. 


O Infante, com sua nau de brinquedo e os pés firmes no chão, sonha em fazer a dura travessia de Belém à longínqua Almada 

entrada da charola de Tomar, decorada no reinado de D. Manuel I




o tambor octogonal no centro da charola 



o exterior do tambor central da charola

D. Sebastião  


O Desejado foi menino solitário num palácio triste e austero, governado pela saias devotas da avó Catarina, regente, e pelas púrpuras cardinalícias do tremebundo tio-avô Henrique. O paço real era uma grande sacristia dirigida pelos padres Luís da Câmara e Amador Rebelo, preceptores da Companhia de Jesus. Pelos cantos, nobres espadas enferrujadas contavam façanhas das antigas jornadas d'África, que o principezito ouvia com o mesmo prazer espantado com que seguia a relação da batalha milagrosa de Ourique ou as aventuras não menos estapafúrdias dos cavaleiros do rei Sagramor, que Jorge Ferreira de Vasconcelos lhe dedicara em 1567. 

A ninguém parecerá estranho, portanto, que o último monarca da dinastia de Avis, do mesmo sangue do Infante Santo D. Fernando, que morreu prisioneiro em Fez; herdeiro de D. Manuel, rei venturoso e governador da Ordem de Cristo; neto de Carlos V, imperador do Sacro Império e rebento dos reis católicos de Castela e Aragão; a ninguém parecerá estranho que o Desejado se tenha feito cruzado.

Foi duas vezes a África. Na última, desembarcou no Marrocos para apoiar o xarife Moulay Mohamed, que disputava com seu tio Moulay Malik o domínio de Fez. Na batalha de Alcácer Quibir, os três monarcas morreram. Aquele dia 4 de agosto de 1578 encerrou a última cruzada do mundo mediterrâneo. 

O rei português desapareceu no areal. Voltará, quem sabe, num dia de nevoeiro.

O Desejado se tornou O Encoberto.




claustro de D. João III

António Sérgio e Oliveira Martins


Leitor de Spinoza, António Sérgio não era paciente com a besteira nem caridoso com os mitos. Do seu exílio espanhol, disposto a conter a maré montante neo-sebastianista, resolveu aquilatar o real valor do rei de carne e osso que sumiu no areal. Com uma fúria que desmente os que o acoimam racionalista, Sérgio exprobou, acérrimo, o último monarca de Avis:

"Não  é propriamente a imprudência o que deploramos em D. Sebastião, mas a estupidez, o desvairamento, a tontaria, a explosividade mórbida, a ferocidade inútil, a pataratice constante desse impulsivo degenerado, que era de todo destituído das qualidades de comando absolutamente indispensáveis para a execução do que ambicionava. Se um acaso, por exemplo, lhe desse a vitória em Alcácer Quibir, logo outras asneiras o haveriam perdido, porque o dom da asneira em jacto era nesse jovem uma propriedade congénita." (1)

No entanto, já na geração anterior, Oliveira Martins percebera que o sebastianismo pouco tinha a ver com o rei desaparecido. O mito sebástico teria raízes na cultura celta dos antigos lusitanos. D. Sebastião era o avatar de outro rei que voltaria das brumas: Artur. Esse suposto legado celta, moldado pelo messianismo judaico-cristão, ressurgia nos tempos de crise na forma de um esperado herói providencial. 

"O sebastianismo era pois uma explosão simples da desesperança, uma manifestação do gênio natural íntimo da raça, e uma abdicação da história. Portugal renegava, por um mito, a realidade; morria para a história, desfeito num sonho; envolvia-se, para entrar no sepulcro, na mortalha de uma esperança messiânica." (2)

Com a desaparição do rei sem sucessor, crise derradeira de uma estirpe que começara numa crise, o que restava aos portugueses era o sebastianismo, "prova póstuma da nacionalidade" (3).

Talvez hoje seja mais fácil ter complacência com o mito sebástico do que gastar o verbo em objurgatórias contra um rei morto. Porém os mitos aderem a qualquer suporte em que possam medrar. E medram demasiado depressa, se não se lhes dá uma forte vassourada de quando em quando. Por isso, António Sérgio não exorbitou e certamente daria uns vigorosos golpes de vassoura nas confrarias que saudaram, em plena crise da zona do euro, o retorno à pátria do elmo que o Desejado levou para Alcácer Quibir.

Privilégio dos reis é o serem inimputáveis, como o são os asnos que invadem hortas, razão pela qual não têm que se defender, mas, diante da cara feia que lhe fazem os historiadores, pode ser que o Desejado, seguindo o exemplo do narrador das Proezas da Segunda Távola Redonda e antecipando-se a um fidalgo manchego, de lanza en astillero y rocin flaco, nos fizesse mercê de um simples alvitre a propósito do despropósito de seus atos:

"Muitas culpas houve no mundo de homens graves que, dado que não se louvem nem devam seguir, muitas vezes tirou delas a suma providência por sua bondade louvado fruto; não ficam por isso os autores delas desculpados, mas é louvada a divina habilidade que de males frutifica bens. Donde se culpamos dom Lucidardos por seguir seu Amor vão, louvemos o autor do bem, que de seus trabalhos culpados tira tão heroicas e louvadas obras para exemplo da animosa cavalaria (...)" (4)

Mas será verdade que tudo vale a pena quando a alma não é pequena?


A charola (ao fundo) e a praça de armas vistas do muro a sudeste

Filipe de Espanha


Com o desaparecimento de D. Sebastião, o velho cardeal D. Henrique assume o trono. Nas cortes de Almeirim, em janeiro de 1580, o cardeal morre sem haver nomeado um sucessor. 

D. Antonio, prior do Crato, neto de D. Manuel e combatente de Alcácer Quibir, é proclamado rei em Santarém, Setúbal e Lisboa. 

Filipe II,  também pretendente ao trono, dispôs suas tropas em Badajoz, prontas para uma invasão. O Duque de Alba foi convocado para chefiar a operação. O prior do Crato, facilmente derrotado, se exilou na França de Henri IV.

A epidemia de gripe grassava por toda a península ao longo de 1580. Camões morreu em junho; a rainha Ana, esposa de Filipe, grávida, faleceu em outubro. Filipe nunca mais se casou. O luto retardou seus planos a respeito de Portugal. Somente em dezembro atravessou a fronteira e entrou em Elvas, donde enviou convocações para que as Corte de Portugal se reunissem em Tomar, para evitar a epidemia em Lisboa.

Filipe II foi solenemente levantado e jurado como Rei de Portugal nas Cortes de Tomar em 16 de abril de 1581, domingo.  

"Para Espanha, a união ibérica significou antes de mais o cumprimento de um desígnio perfilhado, pelo menos, a partir de Isabel a Católica e que jamais deixou de ter adeptos: congregação política de todo o espaço ibérico debaixo do mesmo cetro, com o epicentro em Castela, bem significado na escolha de Madrid como capital equidistante. Como dirá Pierre Vilar, «em 1580 colocar-se-á o verdadeiro ponto culminante da história peninsular». a anexação de Portugal arrastou o seu vasto império espalhado pelos continentes asiático, africano e americano com as suas enormes riquezas potenciais ou reais.
E o ideal da Monarquia Universal tornou-se real, a Monarquia Universal finalmente chegou. de algum modo refez-se a unidade do mundo que o Tratado de Tordesilhas havia salomonicamente rompido." (5)


Em Tomar, os portugueses exigiram que Portugal fosse tratado como herança e não como conquista do rei Filipe. Essa demanda foi enunciada de maneira cristalina pelo "braço do povo" reunido num capítulo nas Cortes.

"Posto que vossa Majestade herdou estes reinos e senhorios de Portugal, nem por isso se uniram aos de Castela, mas os herdou e principalmente e de per si, pelo que lembramos e pedimos a Vossa Majestade que estes reinos fiquem sempre inteiros e sejam per si em tudo e por tudo se hajam de reger e governar por suas leis, ordenações, foros e costumes, como até agora se fez e usou." (6)

O Estatuto de Tomar reconheceu que Portugal não estava sujeito a Castela. Esse princípio claro de divisão do lá e cá será esquecido mais tarde pelo Conde Duque de Olivares, o todo-poderoso ministro de Filipe IV, braço forte de um rei pasmado. 

A janela da Casa do Capítulo, executada entre 1510 e 1513



Detalhe da decoração manuelina do exterior  da igreja de Tomar



Uma das janelas da igreja 

Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel


Gaspar de Guzmán, futuro Conde-Duque de Olivares, nem mesmo havia nascido quando das Cortes de Tomar. Seu tempo ainda está distante.

No entanto, outro grande do mundo partiu daqui mesmo, em Tomar, em dezembro de 1582. Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, o Duque de Alba, o estrategista militar de Carlos V e de Filipe II, o vencedor da batalha de Mühlberg contra os príncipes luteranos da Liga Esmalcáldica, o carrasco da independência dos Países Baixos, o invasor de Portugal. 

Era um homem duríssimo. Quando Filipe quis investigar os excessos cometidos durante a invasão, o duque de Alba se recusou a colaborar. O rei desistiu, mas queixou-se de que "a arrogância do duque é igual à sua lealdade". (7)

De todas os crimes infames cometidos em nome do poder e da religião, poucos há tão abomináveis quanto as milhares de execuções ordenadas pelo Duque para conter a revolta dos Países Baixos contra o domínio intolerante da Espanha católica. A carnificina culminou na decapitação de Lamoraal, conde de Egmont na Grand-Place de Bruxelas em 1568.

Alba se tornou um nome odiado na Europa protestante, mas Egmont foi transformado em mártir da liberdade num drama de Goethe, que inspirou uma das mais belas aberturas de Beethoven, cujo maior desejo sempre foi o de compor a música da emancipação humana.

De tudo isso, resta que o temível Duque de Alba, cruel cá e lá, morreu às turras com seu rei, às margens do modesto rio Nabão, na pequena Tomar, numa terra em que era odiado. 

Nem sequer me lembrei dele quando, entre as ameias do castelo dos Templários, naquela tarde de sol em que eu sonhava de olhos abertos com todos os nomes do Atlas, eu olhava para Tomar, cidade sem névoas.



Bruxelas: Grand-Place/Grote-Markt  


Notas:

(1) António Sérgio, Breve Interpretação da História de Portugal, p. 104

(2) Oliveira Martins, História de Portugal, tomo II, p. 82

(3) idem, p. 79

(4) Jorge Ferreira de Vasconcelos, Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda, capítulo 43, p. 289

(5) Francisco Ribeiro da Silva, "Felipe II e Portugal" in Quinhentos/Oitocentos (Ensaios de História), p. 251

(6) citado em Rui Ramos (coordenador), História de Portugal, p. 277

(7) Henry Kamen, Filipe da Espanha, p. 260


Alain Demurger, Os Cavaleiros de Cristo: Templários, Teutônicos, Hospitalários e outras ordens militares na Idade Média (sécs. XI-XVI), Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2002  |  Encyclopaedia Britannica  | Jacqueline Hermann, No reino do Desejado: a construção do sebastianismo em Portugal (séculos XVI e XVII), Companhia das Letras, São Paulo, 1998  |  Henry Kamen, Filipe da Espanha, Record, Rio de Janeiro, 2003  |  Jacques Le Goff (direção), Homens e Mulheres da Idade Média, Estação Liberdade, São Paulo, 2013  |  Eduardo Lourenço, Mitologia da Saudade, Companhia das Letras, São Paulo, 1999  |  J.P. Oliveira Martins, História de Portugal, tomo II, Livraria Bertrand, Lisboa, 1882  |  Rui Ramos (coordenador), HIstória de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2010  |  Antonio Sérgio, Breve Interpretação da História de Portugal, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1983  |  Francisco Ribeiro da Silva, Quinhentos / Oitocentos (Ensaios de História), Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2008 | Jorge Ferreira de Vasconcelos, Memorial das Proezas da Segunda Távola Redonda, ao muito alto e muito poderoso rei Dom Sebastião, primeiro deste nome em Portugal, Nosso Senhor; Impressa pela primeira vez no ano de 1567, Typographia do Panorama, Lisboa, 1867 


claustro da Hospedaria, à direita, o exterior do coro manuelino da igreja de Tomar