sábado, 20 de outubro de 2012

Para que serve a filosofia?





Carta a Murilo Medici Navarro da Cruz




Murilo,


Você me escreveu:

"Mas sei que o materialismo dialético não se limita a estes pontos de vista renovados. Há nele uma pretensão sistemática. Há o objetivo de construir um edifício conceitual que explique a sociedade dita capitalista de cima a baixo, ou ao contrário, para nos mantermos no ponto de vista do materialismo que pôs o hegelianismo "de pé". E esta pretensão é que incomoda, porque me parece que deságua naquela discussão transcendental da qual você falou, a da teoria do valor e da dinâmica negativa do capital. Para o ceticismo, que compartilho com você, a imagem do sujeito-capital foi ficando cada vez mais estranha, distante e indesejável.

Se a pretensão do materialismo era que voltássemos nosso olhar para as relações sociais, talvez seja preciso mesmo um olhar mais direto aos acontecimentos do varejo sócio-econômico e cultural que nos cerca. Isso não significa deixar de lado o marxismo e se bandear para a posição de um crítico deste, mas apenas se contentar com as contribuições que a teoria crítica pode nos dar nesse olhar, sem ficar dizendo 'mas não é isso que está escrito n'O Capital...', como se este fosse um livro sagrado e o Marx nosso profeta.

Nesse sentido, para ir fechando este comentário também anti-twitter, ainda acho que vale a pena e faz sentido a consideração da filosofia. Como não fiz graduação nesta disciplina me sinto bem à vontade para me aproximar malandramente dos filósofos e seguir tentando me debater com os limites da linguagem. Até mesmo porque ainda acho que grande parte do que somos é linguagem, por enquanto é desta parte que eu quero tratar. É o que vem me interessando ultimamente. Será que já estou ficando velho? Esse é só o começo...?"



Um dos méritos de nosso falecido seminário é nunca ter acreditado que o objetivo da teoria social fosse diagnosticar as patologias pós-modernas. Ao contrário de Zizek, Bauman ou Lipovestky, nós nunca achamos que os modismos e cacoetes da classe média dos países centrais da OCDE definissem, como modelo, a direção de toda a humanidade restante (quer dizer, de uns poucos bilhões de chineses, hindus, africanos e latino-americanos); tampouco nos parecia verossímil que os cassinos de Las Vegas fornecessem alguma chave interpretativa para demolir o próprio conceito de realidade, como pretendia Baudrillard em seus momentos de humor involuntário. Felizmente, a nossa obtusidade materialista aliada à nossa boa formação uspiana nos protegeu de muita besteira.

Se não me engano, nossa pretensão era grande: nada menos do que uma crítica do capitalismo com base numa visão ampliada das práticas sociais. Daí nosso interesse pela antropologia e as memoráveis conversas que tivemos sobre Pierre Clastres. Mas nossa posição de esquerda e nossa comum herança marxista exigiam mais: a compreensão da dinâmica social deveria levar à emancipação, seja pela crítica das práticas existentes, seja pela proposição de novas relações que superassem as injustiças produzidas pelo processo histórico.

Mais de três anos se passaram desde o último encontro. Como disse na primeira carta que lhe mandei, não acredito mais que seja possível elaborar uma teoria que satisfaça nossas ambições totalizantes e emancipadoras. Você concordou com a linha geral de meu argumento e me respondeu que é necessário um "um olhar mais direto aos acontecimentos do varejo sócio-econômico e cultural que nos cerca" e que ainda acredita que a filosofia mereça consideração, mesmo que através de uma "aproximação malandra". Concedo tranquilamente que é preciso acompanhar o movimento do "varejo"; quanto à "aproximação malandra", tenho alguma coisa a dizer.

A filosofia é atividade e esforço. Que a palavra tenha a forma de substantivo é, para mim, sinal da reificação da atividade filosófica que, desde a antiguidade, sempre teve a tendência de transformar-se em resultados, em conclusões, em sistemas, em conteúdos doutrinais ensináveis. O ceticismo grego – especialmente a sua versão pirrônica – prestou um magnífico serviço à atividade filosófica denunciando o caráter contraditório das teorias filosóficas e de suas conclusões. Os céticos antigos chamavam de "dogma" a forma reificada e mumificada do esforço investigativo que as "escolas" (o platonismo, o aristotelismo, o epicurismo e o estoicismo) convertiam em ensinamentos que podiam ser vendidos na forma de livros ou de aulas de filosofia. Em outras palavras, o ceticismo combatia a transformação de uma atividade viva em produtos mortos que pretendiam se substituir à atividade que os havia gerado. Os resultados do esforço intelectual dos filósofos apareciam consubstanciados em obras que passavam a ser vistas como o próprio pensamento do filósofo. Na sua denúncia do caráter dogmático assumido pelo pensamento, os céticos antigos expuseram pela primeira vez o segredo do fetichismo da mercadoria. Portanto, para ser fiel à minha formação cética e marxista, devo considerar que a atividade filosófica não pode ser traída pelo fetichismo de seus resultados inevitavelmente parciais, contextuais e finitos, nem pode alimentar a esperança de ir mais longe do que isso. Então, a filosofia seria impossível?

Entre os freudianos, costuma-se dizer que há três profissões impossíveis: educar, curar e governar. Nessas atividades, a impossibilidade seria a de chegar a um resultado final definitivo que satisfaça as exigências dos envolvidos. Os freudianos gostam de fazer pose de realistas lúcidos, mas parecem ignorar que há dezenas de outras profissões no campo do impossível, a filosofia é apenas mais uma delas.

Como acontece com o alpinismo, o resultado da filosofia deve ser visto em conexão direta com o movimento que o produziu: escalar uma montanha depende dos atos físicos que, ao mesmo tempo, permitem a subida e nos colocam em risco. O êxito e o fracasso, a ascensão ou a queda estão implicados em cada movimento. A filosofia é a escalada impossível de uma montanha de altura infinita. Todas as etapas e resultados são apenas provisórios e não são independentes dos movimentos feitos, do percurso do pensamento, do processo lógico adotado. Podemos explicar o que um filósofo pensou e como ele chegou lá, mas tudo isso é apenas um quadro do que foi feito, uma linha num mapa, acompanhada de comentários. A filosofia estava na atividade que foi realizada e isso não pode ser ensinado sem que o percurso seja refeito em ato. O que poderia ser mais ridículo do que um curso teórico de alpinismo?

A filosofia, como profissão impossível, tem outra semelhança com o alpinismo: ela não serve para nada. E essa é precisamente a sua grandeza: ela não serve. Não está a serviço, não se coloca como serviçal nem como servo. Não se subordina, não se coloca no plano da utilidade. Esta sempre foi a superioridade aristocrática da filosofia sobre o plebeísmo das religiões. Non serviam: não servirei. O orgulho é uma virtude aristocrática dos filósofos contra a humildade hipócrita, ressentida e venenosa dos devotos, dos beatos, dos carolas e dos crentes em sistemas ideológicos (fascistas, comunistas, neoliberais, tanto faz).

A filosofia, como atividade que não serve ninguém, não serve para nada, coloca-se como o próprio negativo do mundo de relações sociais de onde provém. Diante da multidão de atitudes práticas e do mundo das trocas, a filosofia como investigação pura é um nada, uma excentricidade, um mero olhar curioso um tanto difícil de justificar, um luxo de dandy

Desde o seu início, a filosofia foi uma emancipação da condição alienada do homem no mundo da produção e das trocas, mas essa emancipação só se fez às custas da alienação do filósofo, do seu exílio na solidão ou atrás dos muros das academias, das pequenas irmandades, dos seminários entre amigos, dos clubes de pitagóricos, dos círculos iniciáticos. Alienados do meio social, os filósofos puderam entender a vida social como alienação primeira, como jogo de ilusões, como troca de opiniões sem fundamento, e viam no ser humano concreto apenas a idiossincrasia mesquinha e iludida que deveria ser superada para que se tivesse acesso ao campo da verdade universal e da totalidade do conhecimento. Todavia, muito cedo esse caminho de emancipação foi questionado  pelo ceticismo grego, que evidenciou o caráter conflitante das declarações dos filósofos e enumerou os obstáculos físicos, fisiológicos, cognitivos, sociais, ideológicos que impediam a apreensão da verdade e, com ela, o acesso à totalidade e à universalidade do conhecimento. 


Restou ao filósofo o horror à ilusão e o desprezo pelos que se comprazem com o fragmentário e o avulso, os mesmos que abraçam com facilidade a mistificação e o auto-engano. Por isso, uma das tarefas básicas da filosofia é articular discursivamente a experiência, que sempre se oferece de maneira parcial e situacional. Embora nem todos os filósofos acreditem na possibilidade de elaborar uma "suma" ou um sistema, não devemos nos enganar: todos os filósofos, mesmo os mais aforísticos, são movidos pelo desejo de exaurir as possibilidades de articulação da experiência através de conceitos como estrutura, ordem, lógica, hierarquia ou valor. Um filósofo é sempre alguém profundamente insatisfeito com a aparência suja e poluída da experiência tal como ela se oferece cotidianamente e, cheio de um zelo impaciente e enojado, pega o desentupidor de borracha para desobstruir as privadas cheias da bosta dogmática e dos vômitos opinativos, cujos odores nauseabundos empesteiam o ar do pensamento.

Trata-se de uma tarefa interminável porque a fragmentação e a desordem não são elementos que vem de fora da experiência, não são produtos recentes das relações pós-modernas, hipermodernas ou líquidas (de acordo com o ideólogo, quero dizer, sociólogo famoso de plantão). A fragmentação, a desordem e a alienação são constituídas pelo próprio mundo da produção, das trocas e da comunicação. No nível mais primário, somos um feixe de necessidades e carências que precisam ser satisfeitas por objetos e pessoas que não estão sob nosso controle. Nascemos destituídos de nós mesmos, somente sobrevivemos e crescemos através da mediação dos outros. Nós somos um outro – o feto, o bebê, o filho desejado ou indesejado – antes de podermos dizer "eu". Ninguém nasce como indivíduo autônomo das fantasias liberais, ninguém nasce enunciando cogito, ergo sum. Somos apenas um sistema nervoso incipiente e precariamente protegido em volta de um tubo digestivo que mama e defeca. Inter faeces et urinam nascimur. Chegamos ao mundo alheios a quase tudo e destituídos de quase tudo. Nascemos na alienação e nela permanecemos antes mesmo de sermos sequestrados pelo mundo do capital.

Nossas necessidades de alimento, abrigo ou sexo evidenciam a nossa finitude, a nossa incompletude, nossa alienação. Para satisfazer nossas carências, precisamos agenciar as pessoas como for possível e precisamos produzir ou adquirir os objetos de que temos necessidade. De negociação em negociação, de aquisição em aquisição, de produção em produção reunimos as condições para a nossa vida, mas o custo disso é experimentar o mundo sob a ótica da fragmentação, das limitações e das carências. O mundo nos vem em pequenos bocados.  A atividade de um filósofo é a tentativa de superar esse caráter fragmentado, episódico e áspero do mundo. O que incomoda na filosofia é a sem-cerimônia com a qual ela se coloca além do plano das carências e lamúrias do sujeito concreto e individuado. O caráter aparentemente abstrato da filosofia, mesmo nas filosofias ditas existenciais, é essa recusa de dar ouvidos à choradeira subjetiva que os psicanalistas escutam (e até incentivam) para ganhar o pão de cada dia.

O filósofo não se rende ao existente. Uma das tarefas do pensamento filosófico é formular, analisar e comparar possíveis diagramas de ordenação da experiência. O que move o pensamento é justamente essa tensão entre uma experiência subjetiva necessariamente carente, finita e fragmentada (que é a do próprio filósofo como ser humano concreto) e a exigência de compreensão exaustiva. Existem alpinistas porque existem montanhas, isto é, porque a superfície seca do planeta é desnivelada pelas forças tectônicas e erosivas que engendram e delineiam os continentes. Existem filósofos porque a experiência é fragmentada e contraditória devido às mesmas forças biológicas e sociais que engendram a vida, definem as relações humanas e tornam possível o pensamento.

Por causa disso, os esquemas e conceitos que ordenam, no plano intelectual, a experiência não eliminam o aspecto fragmentário inerente à própria experiência. O que quer que digam os filósofos, os indivíduos continuarão fundamentalmente carentes e sofredores. Nenhuma filosofia pode abolir a realidade biológica, psicológica e social que gera as contradições do mundo e das opiniões. A filosofia não tem o poder de pacificar o mundo e superar as contradições reais, da mesma maneira que o alpinismo não tem o poder de suprimir as montanhas. O filósofo escala as contradições reais para tentar ver além delas. Uma das belezas da filosofia é que as perspectivas possíveis que o filósofo entreviu ou explicitou nessa escalada podem ter valor heurístico para pessoas sem formação acadêmica em filosofia, para artistas, para cientistas ou para reformadores sociais. Essas pessoas tem todo o direito de "pilhar" as perspectivas delineadas pelos filósofos, apanhando conceitos e "ideias". Talvez isso seja uma "aproximação malandra", mas essa aproximação é bem vinda. Nesse caso, a palavra "malandragem" não tem carga pejorativa. É apenas uma maneira simpática de denominar uma atitude de curiosidade não-dogmática que é, em si mesma, uma virtude genuína de quem lê obras filosóficas.

"Malandragem" em filosofia seria produzir no leitor uma sensação de suficiência e de pacificação, seria promover a reconciliação e reduzir as angústias. Por isso mesmo, eu só consigo me relacionar com a filosofia no limite da ruptura. Minha insatisfação com os filósofos é imensa porque sei que nenhum deles pode reduzir as minhas necessidades e carências, aquelas mesmas que me impelem a uma resposta para além do limite da subjetividade lamurienta. É dessa tensão entre a individualidade concreta e a universalidade que não posso escapar, embora tenha renunciado – definitivamente – à consecução de tarefas acadêmicas em filosofia, tarefas que muitas vezes parecem uma malandragem de tipo bem pejorativo.

Há filósofos que buscam o espaço da academia como reserva florestal do pensamento, protegida pela lei contra o mundo das imposições do capital. Não posso censurá-los. Eu, que estou atolado até o pescoço no trabalho e nas relações econômicas, sei o quanto tudo isso custa ao pensamento. O que me incomoda são os que buscam a academia por causa de uma noção equivocada do status universitário e, como bestas apáticas numa jaula, esperam pelo bocado de refeição jogado pelo Estado, situação que os envergonha intimamente e que, por isso, deve ser afastada das cogitações intelectuais sob pena de quebrar aquela ilusão profissional que Bourdieu considerava parte do habitus acadêmico.

Em resumo, não acho que a filosofia possa me levar a alguma verdade, mas tenho que impedir que a ignorância e a besteira cresçam na ausência da verdade. Embora tenha decidido não ser filósofo profissional, não posso abandonar a atividade pensante sob o risco de me tornar um cretino confuso, como alguns que a profissão me apresentou. 

Mencionarei os nomes quando nos encontrarmos de novo. Até lá, aguardarei ansiosamente a cerveja, as novidades, os argumentos e os seus improváveis sinais de velhice.  


Um abraço do amigo




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