segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
Aviso aos Navegantes
O Sobrinho de Enesidemo chegou ao fim.
Caro leitor, peço-lhe a gentileza de acompanhar meu novo blog:
Papéis Velhos.
domingo, 22 de setembro de 2019
domingo, 23 de junho de 2019
Fotojornal: a máscara do Grande Inquisidor
Por uma fonte secreta,
o Sobrinho de Enesidemo
obteve a primeira foto da
máscara mortuária do
Grande Inquisidor de Curitiba.
Para todos os entusiastas do nosso Harvey Dent, lembramos as palavras do Prêmio Nobel de Literatura de 2016:
False-hearted judges dying in the webs that they spin,
Only a matter of time 'til night comes steppin' in
* * * * *
domingo, 19 de maio de 2019
Fotojornal: o bolsonarismo em seu estado atual
Para não ser reconhecido, o humorista Olavo de Carvalho disfarçou-se de cidadão respeitável em sua visita a Paris.
O criador do olavo-bolsonarismo foi visto ao sair de uma agência funerária.
Segundo o depoimento dos funcionários, ele veio solicitar a sua própria cremação.
Segundo o depoimento dos funcionários, ele veio solicitar a sua própria cremação.
A data não foi ainda decidida.
Em Brasília, o forte odor exalado pelo Capo se tornou indisfarçável.
A Câmara comunicou que tomará providências.
A Câmara comunicou que tomará providências.
O Primogênito do Capitão já prepara um lugar para chamar de seu.
Os nossos mais sinceros votos de que,
em breve,
venham os outros Zeros
que cercam o Grande Zero.
em breve,
venham os outros Zeros
que cercam o Grande Zero.
domingo, 21 de abril de 2019
Fotojornal: os valores bolsonaristas
A preocupação com o bem-estar social
Coerência e racionalidade
Uma nova visão da cidadania
A importância das redes sociais
O projeto para um novo Brasil
sábado, 13 de abril de 2019
Fotojornal: os cem dias de Salò
Agora que o regime de Saló chega aos seus três meses, a má vontade da imprensa e dos estudiosos em relação às
declarações dos bolsonaristas e olavistas se manifesta de maneira estridente. Impacientes com a insistência do capitão em celebrar o 31 de março de 64, os membros da confraria intelectual explodiram em protestos contra a tese de que o Nazismo seria uma posição
de esquerda.
É preciso sermos pacientes e aplicarmos aqui o princípio da caridade. Esquerda e Direita são referências puramente relacionais e historicamente voláteis. Quando eu e outros como eu olhamos para o
espectro político, vemos o Nazismo à direita de onde estamos. Pela mesma razão, quando Bolsonaro
e Olavo olham para o Nazismo, eles o vêem à sua esquerda.
Para ajudar nossos leitores a entender onde eles se encontram para que
tal visão seja possível, o Sobrinho de Enesidemo, vezeiro no esforço didático, elaborou um breve guia visual do olavo-bolsonarismo.
Pensei em denominá-lo "Bolsonarismo for Dummies", mas o título me pareceu algo redundante.
Bom proveito a todos!
Pensei em denominá-lo "Bolsonarismo for Dummies", mas o título me pareceu algo redundante.
Bom proveito a todos!
O olavo-bolsonarismo em imagens:
suas ideias e valores fundamentais
![]() |
O tradicionalismo de René Guénon |
![]() |
O civismo inabalável do Coronel Ustra |
![]() |
A conspiração globalista-comunista-islâmica-maçônica-papista-gayzista |
![]() |
A onipresença do marxismo cultural. |
![]() |
O Volk da República de Curitiba celebra os valores da família cristã Blut und Boden |
Senhor,
Que não nos falte o pão.
O circo já o temos.
Obras: Wolfgang Mattheuer (Erschrecken), Georg Günther (Erntepause)
domingo, 31 de março de 2019
Fotojornal: os últimos acontecimentos
O jantar na Embaixada do Brasil em Washington
Os olavistas
O segredo de Araújo
A situação do MEC
A relação entre o Executivo e o Legislativo
As propostas da esquerda até agora
Patriotas!
O Brasil nunca foi uma ditadura.
(Houve apenas democracias um tanto enérgicas)
Obras de Gottfried Helnwein, Franz Sedlacek, Wolinski, Joseph Beuys e alguns achados casuais do Sobrinho de Enesidemo.
quinta-feira, 14 de março de 2019
Luto
Um dia depois da chacina na escola de Suzano.
Dois meses depois do rompimento da barragem de Brumadinho.
Um ano depois do assassinato ainda não resolvido de Marielle Franco e Anderson Gomes.
quinta-feira, 7 de março de 2019
Dos livros (parte II)
Dos livros (parte II)
Primeira questão: “Você já os leu
todos?”
Inúmeras vezes alguém que passeava os olhos pelos títulos e lombadas da minha biblioteca me fez essa pergunta. Um
certo invejoso despeitado, querendo ser original, advertiu-me que possuir tantos
livros equivaleria a fugir da obrigação de lê-los. Nem sempre a verdade está com os
invejosos despeitados. Acredito que, quando se tem uma biblioteca, os livros
ainda não lidos clamam contra a nossa negligência. Eles nos exortam a vencer a selva
de papel e palavras. Eruditos, ratos de sebo, quixotes e leitores míopes temos
todos nós epopeias secretas. Conhecemos os riscos das estantes abarrotadas,
travamos batalhas épicas nos in-folio alcantilados e disputamos escaramuças
rápidas nas brochuras sem relevo. Do picaresco ao heroico, em Garamond, Bodoni
ou Helvética, nada nos é estranho na galáxia de Gutenberg. Nenhum tigre de papel nos põe medo. A beleza das
extensas fileiras de livros que ainda não conhecemos é a promessa de que o prazer da descoberta, que vivíamos tão intensamente quanto os amores
adolescentes, será mantido mesmo quando já avançarmos muito nos anos.
Segunda questão: “Qual o seu livro
preferido?”
Essa pergunta vem de gente feliz, que
associa a leitura apenas ao prazer e não àquilo que ela é amiúde: um suplício de Tântalo muito familiar aos naturalistas que se põem a catalogar a infinita natureza. Para a gente feliz que faz listas de "livros preferidos", explico que os livros são incomensuráveis porque inseparáveis das circunstâncias de leitura. Uma obra
lida de uma sentada, movida pelo prazer e pela curiosidade, não pode ser medida
pela régua das obras lida de maneira reflexiva e lenta, às vezes, ao longo de
quase toda uma vida, ou de obras estudadas de maneira técnica e com anotações,
ou das que se prestam apenas a consultas breves. Há os livros de cabeceira e os que viajam na mochila, há livros de mesa e os há de escrivaninha, de rede e de banheiro.
No sentimento que temos por um livro, os meios de aquisição não são indiferentes, seja o furto, o empréstimo nunca devolvido, a
compra impulsiva, a aquisição longamente acalentada ou o achado surpreendente. Há
livros que entraram em minha casa menos pela importância intrínseca da obra do que pela
alegria de conhecer certa livraria em certa cidade.
Enfim, importa a hora e o momento em que lemos. Há livros solares, que nos acordam da modorra
dogmática. Outros exigem a solidão da madrugada. Há obras para se ler na juventude, como O
Apanhador no Campo de Centeio, que me dói ter lido tão tarde, trintão
e professor; outras, pelo contrário, li antes do tempo, sem poder entendê-las. Verdes que fossem ou serôdias, dessas leituras saí triste ou perplexo, mas nunca de mãos abanando.
PS - Houve um ruído excessivo, à direita e à esquerda, em torno
do vídeo tuitado por Bolsonaro. Por que essa surpresa e consternação? O capo é
fiel a si mesmo na forma, no conteúdo e nos meios. Na falta de outras virtudes, elogiemos ao menos a sua coerência e obstinação no picadeiro.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019
Dos livros (parte I)
Dos
livros (parte I)
Os
livros vieram todos abaixo, alguns cobertos pela espessa poeira que se
acumulou desde o verão passado, quando fiz faxina na biblioteca pela última
vez. Um país se faz com homens e livros e ambos, por razões não apenas de
higiene, precisam de alguma limpeza. Nas vezes em que estive em Milão, passava
diante do prédio em que morava Umberto Eco, ainda vivo naquele tempo, e pensava
nos muitos milhares de livros que ele tinha. E ali, de costas para o castelo
Sforzesco, na névoa gelada que desce dos Alpes quando o dia termina, eu
imaginava com inveja e horror o trabalho que dá limpar todo aquele armazém erudito que se acumulou durante uma vida de colecionador entregue ao amor pela página impressa ou manuscrita. É claro que o mandarim Umberto Eco não se rebaixaria à tarefa
servil de sentar-se com uns trapos para remover o pó dos alfarrábios, mas um tipo como eu, anônimo e sem prestígio, não pode se furtar à obrigação de descer os
volumes, espaná-los um a um, escoimá-los das traças e, antes de devolvê-los ao nicho,
abrir as folhas de guarda à procura de uma data, de uma dedicatória, da assinatura do falecido dono, de um autógrafo, de um antigo bilhete de metrô que foi usado como
marca-página. Depois, vadiar um pouco pelas páginas, pescar uma frase e fechar
abruptamente o livro para retomar a faina interrompida pela digressão. O livro
volta à estante, alinhado como um índice, mas a frase recém-pescada ressoa na
memória como se buscasse a contra-senha escondida noutro livro. A faxina é
interrompida mais uma vez. É urgente caçar, na massa nunca bem ordenada da
biblioteca, o verbete, a nota-de-rodapé, o colofão ou o posfácio que
completa o circuito da ideia que, encolhida e tremebunda, faz sinais de
que quer dizer algo importante. Mas ela é excessivamente tímida e não
desembucha logo. Na confusão dos livros que esperam sua vez espalhados no chão,
outras ideiazinhas se levantam, murmuram e agitam as mãozinhas, mas
nenhuma se impõe. Em dias de faxina da biblioteca, conceitos e versos querem saltar das páginas e têm ganas de ver a luz, todos ao mesmo tempo. Nessas ocasiões, o fundo lodoso do pensamento se agita com o tumulto das
formas conhecidas e com o sentimento de culpa pelos livros não lidos. Nesses dias, ao invés de arquitetura e harmonia, há apenas dissonância e desconcerto. A lógica perde o norte e o gume, e a cabeça, atordoada
pelo ruído das vozes roucas, fica imprestável como o piano quebrado que o vizinho abandonou no pátio.
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
Até agora
Passado
o choque da derrota, e já habituados aos personagens, podemos agora começar a
avaliar o novo governo. Os seus defensores garantem que ele “tem tudo para dar
certo” e sempre destacam a sua maciça base de apoio, os quase 58 milhões de
votos recebidos. Os ministros e o próprio presidente costumam falar das medidas
“robustas” que serão adotadas para isso ou aquilo. No entanto, as propostas mal
foram ventiladas durante a campanha e a equipe ministerial mostra pouca coesão.
As falas do chefe de Estado embora pareçam duras, firmes e peremptórios, são
inseguras, incertas e oscilantes. Sempre na defensiva e um tanto frágil, o
homem parece mais enérgico em apontar inimigos do que em indicar soluções. Os
seus apoiadores dizem que isso ainda é efeito do atentado sofrido em Juiz de
Fora. Verdade ou não, o espetáculo do vai-e-vem das decisões, as falas
bisonhas deste ou daquele ministro e a inexperiência ou inadequação do elenco
têm suscitado comentários jocosos e talvez já decepcione alguns de seus
eleitores.
É
que, por parte dos bolsonaristas, as expectativas eram muito altas. No dia da
vitória, um motoboy que entrega pizzas festejava na minha rua. Ele se definiu
como “um microempresário do setor de distribuição de alimentos” e sabia que
agora o Brasil iria sair da crise em que a corrupção do PT mergulhou o país.
Naquela mesma semana, um eleitor reagiu ao comentário crítico de um jornalista
da Folha de São Paulo, dizendo: “Bolsonaro não foi eleito para fazer
reformas, mas para o restabelecimento de princípios e valores morais”.
É
compreensível que exista uma grande dose de auto-engano e de ilusão em épocas
de eleição, mas é preciso levar em conta de que tipo de ilusão se trata. Os anos de conflito político e polarização que acompanharam as investigações da
Operação Lava-Jato alimentaram um diagnóstico sobre a crise brasileira que
ganhou ares de lugar-comum na imprensa, nas redes sociais e na conversa de
esquina. De acordo com esse diagnóstico, estaríamos vivendo uma crise de
gravidade sem precedentes no plano político e econômico, que levou o Brasil a
um retrocesso em todos os setores. Uma crise tão profunda que levará uns vinte
anos para superada (por que vinte anos? ninguém sabe). Tal crise teria sido
causada pelo alto custo de um Estado inchado, corrupto e ineficiente, pois
dominado pelo patrimonialismo da elite política, pelos males do presidencialismo de coalizão, com seu toma-lá-dá-cá promíscuo, e, enfim, pelo
aparelhamento ideológico do Estado por esquerdistas, comunistas, terroristas ou
bandidos ligados a Lula e ao PT.
Para
sair da crise seria preciso encontrar uma alternativa consistente à direita.
Essa demanda começou a se manifestar nas passeatas de Junho de 2013, nos
panelaços de 2014, nos protestos de 2015 e 2016 contra a presidenta Dilma
Rousseff. Alguns intelectuais e jornalistas diziam representar uma Nova
Direita, capaz de sanar os problemas do país pelo combater à corrupção, ao
patrimonialismo e à hegemonia da esquerda. Enquanto o grosso da imprensa se
limitava a fazer campanha pelas "reformas necessárias" no plano
previdenciário e fiscal, a Nova Direita tinha em vista sua própria revolução:
combate sem trégua à corrupção do Estado (como se a corrupção fosse vício
exclusivo do Estado, repelido com horror pelo empresariado), desmantelamento do
patrimonialismo pelo enxugamento da máquina administrativa, desregulamentação
dos mercados, defesa da meritocracia e das soluções tecnocráticas de
gerenciamento estatal. A Nova Direita, já se imaginando no poder, propunha até mesmo a criminalização das esquerdas.
Embora
bastante estridente na imprensa e na internet, essa Nova Direita era minoritária e
quase não existia fora do Instituto Mises. Nas passeatas e protestos, o que se
via mesmo era a velha direita: alguns integralistas, muitos saudosistas da
ditadura militar e as legiões do Arcanjo Miguel, dispostas a lutar contra o
aborto, o feminismo, o gayzismo e a imoralidade que aí está... A romagem dos
agravados engordou com a chegada de setores da classe média irritados com os
direitos recém-adquiridos pelas empregadas domésticas e com a invasão dos
aeroportos e das universidades por "gente mais escurinha". Havia
ainda uma massa de trabalhadores precarizados, representados pela numerosa
classe dos motoristas de Uber, que se viam como "empresários"
prejudicados de alguma forma pelas grandes somas desviadas pelos corruptos ligados ao governo.
Por último, havia também a massa de jovens revoltados contra o
establishment. Como o poder estava nas mãos de um partido de esquerda, era compreensível que esses
jovens acabassem se alinhando à direita. Os mais extremados dentre eles marcavam sua insubordinação dando
ouvidos à pregação de Olavo de Carvalho, um velho astrólogo esquistão, radicado nos Estados Unidos, que repete com veemência as teorias
conspiratórias que circulam nos meios da alt right norte-americana,
acrescidas de alguns disparates de cunho próprio.
A vitória eleitoral só foi possível pela aliança entre a Nova Direita e as velhas direitas. Sua estratégia de campanha consistia em obter apoio da massa de insatisfeitos fazendo acusações vagas e genéricas à classe política e exigindo punições duras e exemplares especialmente contra Lula e o PT. Uma vez castigados os culpados, o país entraria no rumo certo desde que o novo governo tivesse um sólido compromisso com a competência e a moralidade. A competência seria fornecida por um austero gerenciamento técnico da economia, atento às demandas do mercado. A moralidade viria tanto dos grupos religiosos conservadores quanto das Forças Armadas, apresentadas como reserva moral da nação e mantenedores da ordem e da soberania nacionais. Por razões que ainda devem ser estudadas pela ciência política ou pela patologia forense, a aliança entre Nova Direita e velhas direitas acabou por se firmar na figura de Jair Bolsonaro, que durante três décadas fora apenas uma figura pitoresca do baixo clero da Câmara dos Deputados. Ao ex-capitão, empurrado subitamente para as luzes da ribalta, cabia agora a missão de resgatar os valores perdidos e insistentemente proclamados pelos congressistas que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff: Deus, Pátria, Família, Moralidade.
Com
a vitória de Bolsonaro, começou a circular entre os seus apoiadores uma visão
curiosa sobre a natureza da democracia e do mandato popular. De acordo com essa
visão, o presidente eleito teria a chancela e a força do voto para impor suas
decisões sem questionamento, de modo que aos candidatos e partidos derrotados e
seus eleitores caberia apenas baixar a cabeça e apoiar o vencedor, que
representaria a vontade coletiva da nação. Essa unanimidade em torno do líder é
que promoveria o avanço do país pois “é preciso parar com o mimimi e a choradeira e
deixar o homem trabalhar”. Fazer oposição, expressar discordância de
princípios ou simplesmente formular dúvidas seriam provas de falta de patriotismo e um
acinte à vontade do povo. Essa versão ingênua do Füherprinzip foi
assim resumida por um eleitor bolsonarista num comentário de internet: “Democracia
é isso, ou aceita ou cai fora”.
Enfim,
essa é a teoria e essas são as expectativas dos apoiadores do novo governo, porém nem todas as indicações ministeriais de Bolsonaro correspondem aos
elevados padrões de competência e de moralidade apregoados tantas vezes. Também
não são claros os limites entre as funções públicas e o papel dos membros da
família do presidente e do seu vice. Além disso, faltam transparência, clareza
e coerência na apresentação de metas e propostas e há um excesso de
proclamações de valores a serem defendidos ou combatidos, de maneira mais ou
menos quixotesca.
As
dificuldades iniciais do novo governo têm várias fontes. Algumas vêm da
inexperiência administrativa ou da incompetência pura e simples de alguns dos
integrantes da equipe, conforme poderemos comprovar nos próximos meses. Outras
vêm do voluntarismo afoito e irrefletido tantas vezes manifestado por Bolsonaro
e por alguns de seus conselheiros. Outras ainda resultam da própria
incongruência dos projetos dos vários segmentos da direita representados no
governo: o ativismo jurídico, o intervencionismo militar (acompanhado de
revisionismo histórico), o neoliberalismo, a cruzada contra o marxismo cultural
e o globalismo, as pautas morais e religiosas do conservadorismo cristão. Há,
porém, uma outra dificuldade, ainda mais profunda e que desafia qualquer grupo
que venha a ocupar o governo de um país. Trata-se da dificuldade inerente ao
exercício do poder de Estado.
Para
governar não basta sentar-se num trono que concederia ao ocupante o dom misterioso de resolver problemas pela simples proclamação da sua vontade. Nem as
piores tiranias funcionam sem mediações. Primeiro é preciso que o governante assuma as
rédeas do Estado, o que não é a mesma coisa que ser eleito ou tomar posse do cargo. O encaminhamento das soluções para os problemas do país
depende da capacidade de governar a máquina do Estado, com seus compromissos
internos e externos, com seus múltiplos órgãos, suas instâncias de consulta,
seus processos de decisão, seus sistemas de pesos e contrapesos, sua
burocracia. Essas dificuldades não são exclusivas do governo de Bolsonaro. É
comum que eleitores e políticos que lutam para chegar ao poder cometam dois
tipos de erro: o de superestimar a capacidade do governo em resolver os
problemas da sociedade e o de subestimar a complexidade da máquina do
Estado.
Mesmo que fosse possível reunir um grupo perfeito de técnicos
competentes com reputação ilibada, isso não garantiria o êxito do
governo, pois governar não é apenas encontrar soluções técnicas para os problemas, mas sobretudo o ato político de decidir quais são as prioridades, de lidar com o
descontentamento dos preteridos, de mobilizar consenso em torno das propostas e de fazer com que a máquina do Estado se mova na direção dessas propostas, o que
pode requerer concessões ou alianças indigestas. As soluções políticas nunca são puras nem elegantes. Não há técnica ou ciência que possam eliminar a incerteza do processo. Quando um grupo conquista o poder de Estado sempre corre o risco de
acabar sendo conquistado e transformado drasticamente pelas exigências da
máquina do Estado. Por isso, diante da urgência dos problemas, da magnitude das
expectativas e da impaciência dos eleitores, existe sempre a tentação de buscar atalhos, domando a máquina à força. Tentação que deve ser especialmente forte entre os
membros e partidários de um governo que cultua a figura do líder como messias
e mito e tem a democracia em tão baixa conta que acha que suas credenciais
democráticas possam ser comprovadas simplesmente por declarações perfunctórias de respeito à Constituição. O fato de que o Führerprinzip ingênuo
dos bolsonaristas receba um endosso nada ingênuo de alguns ministros
heideggerianos, como o chanceler Araújo, deve ser mais do que suficiente para
espantar a modorra dos verdadeiros amigos da democracia.
"Liberdade é sempre a liberdade
de quem pensa de modo diferente"
para saber mais
segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
O adiamento
O encerramento deste
blog, anunciado num momento de dor e cansaço, talvez tenha sido prematuro e mal
pensado. Depois de acompanhar uma campanha de baixíssimo nível, feita de
acusações, bravatas, ausência de propostas e notícias fraudulentas; depois de
uma lastimável desarticulação das esquerdas; depois de um atentado, verdadeiro
ou falso, mas tão providencial que foi celebrado como uma "facada
divina" por um pastor aliado do candidato vitorioso; depois da convocação
de um ministério que combina alguns valorosos egressos da West Point brasílica
e algumas insípidas incompetências de sempre, corruptos fisiológicos dos Democratas
e paladinos da Justiça, ríspidos porta-vozes da eficiência do mercado e
pastoras sofridas que acreditam em princesas, pitorescos spenglerianos de
ultimíssima hora e pícaros ávidos como os filhos do capitão; depois
de ler com sentimento de dejà-vu as notícias do escândalo cujo protagonista é um factotum da
família presidencial envolvido numa suspeita movimentação bancária que respinga
lama na esposa e no filho mais velho do capo de Estado; enfim, depois de ler
com atenção tudo o que a imprensa divulgou nos últimos meses, eu percebi que é
melhor adiar o fim deste blog. Não que ele valha muita coisa ou tenha qualquer
pretensão de representar algo importante neste momento, mas diante da derrota
que as forças emancipatórias têm sofrido por toda parte, um gesto a mais de
desistência é justamente o que não se pode conceder ao adversário. A nossa
paralisia facilita seus movimentos. O nosso estupor alimenta a sua audácia. A
nossa mudez engrandece a sua voz. A nossa inteligência inerte dá poder à sua
estupidez ativa.
Todavia, temos que
abandonar desde já a crença consoladora de que o futuro está do nosso lado. O
futuro não está nem do nosso lado nem do de ninguém. O futuro é a rachadura no
presente, que anuncia a destruição de tudo o que existe e de tudo o que
conhecemos, ao mesmo tempo que deixa passar o incerto raio de luz que alimenta
nossas expectativas e nos guia no esforço presente de transformar o mundo.
A dificuldade é que o engajamento – por mais que se queira fundado no
conhecimento das condições presentes e na memória rigorosa das condições
passadas - nunca é independente das nossas expectativas, nutridas pelo medo ou
pela esperança, pois "não há esperança sem medo, nem medo sem
esperança (...) Como consequência, enquanto se está apegado à esperança, tem-se
medo de que a coisa não se realize" (Spinoza, Ética, Parte
III).
Na tentativa de
esconjurar a incerteza do futuro e aliviar o fardo de nossos temores e
aspirações, invocamos rezas, palpites, conjeturas, hipóteses, profecias, previsões do tempo, pareceres dos experts, modelos matemáticos, teorias sobre o sentido da História: toda a gama de
racionalizações do que não poder ser legitimamente conhecido. Esses
recursos seduzem porque toda a ignorância com foro de saber é altiva, loquaz e se presta
ao comércio de opiniões, que é uma das delícias da vida social, ao passo que a
ignorância humilde e consciente de si padece de laconismo. Para escapar à
tolice e à impostura dessas previsões do futuro, seria preciso aderir a uma profilaxia muito mais profunda e
muito mais enérgica do que a providência simples de pensar bem para não dizer
bobagem. Seria preciso ir mais longe e extirpar o próprio medo e, junto com ele, a
esperança.
O adiamento
"Quando da célebre erupção do Helgafell, um vulcão
da ilha de Heimaey, transmitida ao vivo por uma dúzia
de equipes de TV a tossir sem parar, eu vi, sob a chuva sulfúrea
um homem de meia-idade, de suspensórios, que dava de ombros,
sem importar-se muito com a ventania, o calor,
as câmeras, as cinzas, os espectadores (inclusive eu,
acocorado em meu tapete, diante da tela azulada),
e investia com sua mangueira de jardim, delgada mas nítida,
contra a lava, até que finalmente vizinhos, soldados,
colegiais e mesmo bombeiros juntaram-se a ele, todos
apontando mais e mais mangueira para a lava incandescente
que avançava, erguendo um muro cada vez mais alto
de lava fria, endurecida pela água, cinzenta, e com isso
adiaram, não digo para sempre, não, mas ao menos
por enquanto, o naufrágio da civilização ocidental, de sorte que
as pessoas de Heimaey, uma ilha tão distante da Islândia,
a menos que tenham falecido de lá para cá, continuam
até hoje a acordar de manhã em suas casinhas de madeira
colorida e à tarde, longe do olhar das câmeras, regam a alface
adubada pela lava, que dá pés enormes em seus jardins,
só temporariamente, é claro, porém sem pânico".
Hans Magnus Enzensberger, O Naufrágio do Titanic, Canto X,
Companhia das Letras, São Paulo, 2000
terça-feira, 10 de julho de 2018
Dicionário aleatório #15
Conservadorismo (parte II)
Tenho alguns amigos conservadores. Alguns deles até sabem ler, mas não o fazem com frequência. Nada sabem de Russell Kirk ou Edmund Burke. Nunca citam Mises nem Hayek. Eles apenas ouvem a rádio Jovem Pan e as notícias que circulam pelo WhatsApp. Eu duvido que eles fariam investimentos financeiros com base nesses boatos, mas quando se trata de política, eles se servem deles com o ardor dos neófitos.
Como tenho algumas luzes e paciência de professor, na época da
campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff fui obrigado a explicar a vários amigos conservadores que, em caso do afastamento, assumiria o
vice-presidente Michel Temer e não Aécio Neves, o segundo colocado nas eleições
de 2014. Meus amigos - vários deles egressos de instituições respeitáveis
como o ITA e a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo – olhavam-me
incrédulos. Recordei-lhes que, com o afastamento de Fernando Collor em
1992, quem se tornou presidente foi Itamar Franco e não o Luís Inácio Lula da Silva, o segundo
colocado nas eleições de 1989. Eles argumentaram que isso tinha sido
há muito tempo e que as regras tinham mudado com a nova constituição. Eu
respondi que a constituição vigente ainda era a de 1988 e, portanto, as regras
se mantinham.
Quando Dilma Rousseff foi finalmente afastada e o
vice-presidente assumiu, meus amigos conservadores, devidamente orientados pela Jovem
Pan e pelo WhatsApp se regozijaram com a seriedade de Michel Temer, seu
discurso firme, sua abertura para o diálogo, sua experiência com o Congresso.
Um desses amigos me disse, em tom triunfante, que Temer reduziria o número de
ministérios, um grande passo na contenção dos gastos do Executivo. Talvez
porque eu seja um desmancha-prazeres inveterado, condição própria de quem é
assíduo nos livros, perguntei se as verbas destinadas aos ministérios
extintos seriam transferidas para os outros ministérios. O amigo conservador não entendeu a questão. Junto ao quadro negro da sala
dos professores, expliquei-lhe, como quem parte pão aos pequeninos, que de nada vale reduzir o número de ministérios se o orçamento total do Executivo continuar o mesmo. O amigo insistiu que Temer
iria dar um jeito nisso porque ele era um homem que sabia dialogar e tinha
vontade firme de levar adiante as “reformas necessárias”. Alguns
amigos elogiaram a beleza da primeira-dama e outros até saudaram a dicção mesoclítica de Temer em contraponto à fala rude de
Lula e ao destampatório de Dilma. Há aqueles que gozam com o português rotundo
e rebarbativo dos bacharéis tanto quanto outros gozam com o cheiro dos coturnos
e com os gritos que vem do porões.
Agora
faltam menos de três meses para a eleição presidencial. Os amigos conservadores não gostam mais de Michel Temer. É verdade que nem todos são bolsonaristas, mas a maioria costuma rir das grossas chalaças do capitão ou, ao menos, não as acha gravosas. Diante das reações
insatisfeitas de alguns, limitam-se a repetir os dois mantras máximos da direita: “o povo anda
muito cheio de mimimi” e “o mundo está ficando muito chato”. Talvez eles tenham razão.
Em todo caso, com o debate político num ponto tão baixo, acho melhor me despedir dos leitores. Quando comecei este blog há exatamente seis anos, eu acreditava numa
oportunidade de diálogo de alto nível que foi desmantelada a
partir de 2014.
Para
os amigos de esquerda, repito que temos que fazer o que a esquerda sempre faz nos tempos difíceis: retomar com paciência a compreensão teórica e a busca de caminhos políticos viáveis. Precisamos
estudar ainda mais. Precisamos ler com mais argúcia. Precisamos ampliar nosso
horizonte de compreensão. E se, quando sairmos da zona de sombra, tivermos que fracassar de novo, é
importante fracassarmos melhor.
O
Sobrinho de Enesidemo encerra aqui as suas emissões.
SEPTEMBER 1, 1939
W.H. Auden
I sit in one of the dives
On Fifty-second Street
Uncertain and afraid
As the clever hopes expire
Of a low dishonest decade:
Waves of anger and fear
Circulate over the bright
And darkened lands of the earth,
Obsessing our private lives;
The unmentionable odour of death
Offends the September night.
Accurate scholarship can
Unearth the whole offence
From Luther until now
That has driven a culture mad,
Find what occurred at Linz,
What huge imago made
A psychopathic god:
I and the public know
What all schoolchildren learn,
Those to whom evil is done
Do evil in return.
Exiled Thucydides knew
All that a speech can say
About Democracy,
And what dictators do,
The elderly rubbish they talk
To an apathetic grave;
Analysed all in his book,
The enlightenment driven away,
The habit-forming pain,
Mismanagement and grief:
We must suffer them all again.
Into this neutral air
Where blind skyscrapers use
Their full height to proclaim
The strength of Collective Man,
Each language pours its vain
Competitive excuse:
But who can live for long
In an euphoric dream;
Out of the mirror they stare,
Imperialism's face
And the international wrong.
Faces along the bar
Cling to their average day:
The lights must never go out,
The music must always play,
All the conventions conspire
To make this fort assume
The furniture of home;
Lest we should see where we are,
Lost in a haunted wood,
Children afraid of the night
Who have never been happy or good.
The windiest militant trash
Important Persons shout
Is not so crude as our wish:
What mad Nijinsky wrote
About Diaghilev
Is true of the normal heart;
For the error bred in the bone
Of each woman and each man
Craves what it cannot have,
Not universal love
But to be loved alone.
From the conservative dark
Into the ethical life
The dense commuters come,
Repeating their morning vow;
'I will be true to the wife,
I'll concentrate more on my work,'
And helpless governors wake
To resume their compulsory game:
Who can release them now,
Who can reach the dead,
Who can speak for the dumb?
All I have is a voice
To undo the folded lie,
The romantic lie in the brain
Of the sensual man-in-the-street
And the lie of Authority
Whose buildings grope the sky:
There is no such thing as the
State
And no one exists alone;
Hunger allows no choice
To the citizen or the police;
We must love one another or die.
Defenseless under the night
Our world in stupor lies;
Yet, dotted everywhere,
Ironic points of light
Flash out wherever the Just
Exchange their messages:
May I, composed like them
Of Eros and of dust,
Beleaguered by the same
Negation and despair,
Show an affirming flame.
* * * * *
























