terça-feira, 6 de agosto de 2013

Il moto non è diverso dalla stasi #3






VERONA



Formas belas, singulares e irregulares (1786)

Na madrugada de 3 de setembro de 1786, poucos dias depois de ter comemorado seu aniversário de 37 anos, Goethe iniciou sua longa viagem pela Itália como um verdadeiro fugitivo. “Munido apenas de uma alforje e uma mochila de pele de texugo, lancei-me sozinho numa mala-posta e cheguei a Zwota às sete e meia (...) Após um verão tão ruim, tinha esperança de desfrutar de um belo outono.” (Goethe, Viagem à Itália, tradução Sergio Tellaroli, Companhia das Letras).

Junto ao Grande Brenner, o maciço divisor de águas, sempre atento às variações das formas, Goethe notou que “os Alpes calcários, que são os que venho atravessando até agora, possuem cor cinza e formas belas, singulares e irregulares, muita embora a rocha se divida em estratos e bancos.” (idem, 8 de setembro).  Logo adiante do Passo Brenner, começavam os vales íngremes do alto Ádige escoltados pelo recorte caprichoso das Dolomitas. As portas da Itália tão sonhada estavam abertas.

Ao chegar a Verona, no dia 16, Goethe admirou o anfiteatro romano (“o primeiro monumento importante da antiguidade que vejo, e tão bem conservado!”), visitou o museu lapidário fundado pelo marquês Maffei, olhou atentamente o movimento das lojas e oficinas, comentou a vesta de tafetá preto que as mulheres usavam sobre a saia e a zendale com que elas cobriam  cabeça e ombros. Quatro homens jovens de Verona jogavam uma partida de bola contra a equipe de Vicenza. Uma multidão assistia à disputa. Ele gostou das pinturas que viu nas galerias e espantou-se com o movimento da piazza Brà no final da tarde: “Uma hora, uma hora e meia antes do cair da noite, a nobreza começa a sair de casa rumo ao Brà, à rua comprida e larga que conduz à Porta Nuova, atravessando-a em direção à cidade; e, quando a noite chega, fazem todos o caminho inverso. Uma parte vai à igreja, rezar a Ave Maria della sera; outros detêm-se no Brà – os cavalheiros achegam-se às carruagens e põem-se a conversar com as damas; e tudo isso dura algum tempo; nunca esperei pelo final, pois os pedestres permanecem nas ruas até altas horas da noite.” (Viagem à Itália, 17 de setembro).

Os pedestres certamente estranharam o forasteiro tedesco que atravessava o Brà abraçado a ramos de cipreste. “Tais ramos, eu os apanhara no jardim Giusti, que goza de uma maravilhosa localização e abriga ciprestes gigantescos, alçando-se às alturas feito sovelas (...) Uma árvore cujos galhos todos, os jovens e os velhos, de alto a baixo, almejam o céu e que, ademais, vive por volta de trezentos anos é decerto digna de veneração. A julgar pela época em que o jardim foi plantado, seus ciprestes hão já de ter alcançado uma tal idade.” (idem, 17 de setembro).

A entrada do Giardino Giusti: foto de Ludmila Ciuffi



O anão e o corcunda (1913)


Vindo de Veneza, Kafka chegou a Verona em setembro de 1913. Trazia na bagagem uma edição da Viagem à Itália, de Goethe. O noivado com Felice Bauer não andava bem; Kafka estava infeliz e passou pouco tempo na cidade. 

O período italiano de Kafka sempre suscitou, entre os intérpretes, especulações desencontradas e fantasiosas, contra as quais reagiu Reiner Stach com certa exasperação: (...) Nor we do know how he spent the following one or two days in Verona, apart from the fact that he peeked in on a public festival, watched a melodrama at the movies with tears in his eyes, and sat morosely in the Church of Sant'Anastasia, which was recommended in all the tourist guides. (Kafka: the decisive years, capítulo 25, Harcourt Books)

Tudo o que se sabe daquela curtíssima passagem por Verona está registrado nas mensagens que Kafka enviou à noiva, como o cartão postal de 20 de setembro:  "In the Church of Sant'Anastasia in Verona, where I am sitting wearily in a pew. Opposite stands a life-size marble dwarf who, with a blissful expression on his face, is supporting a holy-water basin. - I am entirely cutt off from all mail, won't get any until the day after tomorrow in Riva, which makes me feel as though I were on some other planet; but otherwise I’m here in all my misery. "(Franz Kafka, Letters to Felice, tradução de  James Stern and Elisabeth Duckworth, Schocken Books)


nave central da igreja de Santa Anastácia

De volta à Praga, ele admitiria que “the postcard from Verona was not a postcard but a collapse” (idem, 29 de outubro)

Uma semana depois, Kafka acrescentou a uma carta outro importante registro feito em Verona: "I don't keep a diary at all, I wouldn't know what for; nothing happens to me to stir my inmost self. This applies even if I weep, as I did yesterday in a cinematographic theater in Verona. I am capable of enjoying human relationships, but not experiencing them. This I can verify again and again: yesterday at a fiesta in Verona, before that with the honeymoon couples in Venice." (idem, 6 de novembro)

Não se sabe que filme fez Kafka chorar nem em que sala de cinema isso aconteceu. Hans Zischler acredita que foi no desaparecido Cinema Calzoni (Kafka vai ao cinema, Prefácio, Jorge Zahar editor). O homem de mármore que sustenta a pia de água benta de Santa Anastácia continua lá. No entanto, é preciso observar que, para os veroneses, não se trata de um anão, mas de um corcunda (cf. Mario Patuzzo, Verona: romana, medievale, scaligera, p. 289). 

Por que Kafka achou que o corcunda era um anão?


Il gobbo em janeiro de 2013


O pó cintilante no cone de luz (1980-1987)


Na década de 1960, W.G. Sebald foi viver na Inglaterra, onde deu aulas nas universidades de Manchester e de East Anglia.  Seu primeiro romance  Vertigem: Sensações (Schwindel: Gefühle) foi publicado em 1990.  

O núcleo do romance são duas viagens feitas por um narrador sem nome, dado a achaques inexplicáveis e pressentimentos agourentos, na sua tentativa de seguir a trilha de Kafka na Itália. 

Na primeira viagem, em 1980, o narrador aluga um quarto em Verona e, em seguida, vai ao Giardino Giusti. “Lá passei as primeiras horas da tarde, deitado em um banco de pedra sob um cedro. Escutei o vento roçando de lá para cá os galhos e o som delicado do jardineiro limpando com ancinho as trilhas de cascalho entre as sebes baixas de arbustos, cujo aroma suave ainda enchia o ar, mesmo no outono” (Vertigem, Companhia das Letras, p.58)


Giardino Giusti visto do tempietto de Venere

Na igreja de Santa Anastácia, aprecia o afresco de São Jorge com a Princesa, que Pisanello pintou em 1435. 


O estado atual (2013) do afresco de Pisanello em Santa Anastácia

No entanto, uma sensação crescente de opressão o leva a partir imediatamente da cidade. 

Sete anos depois, vindo de Veneza e depois de uma breve parada em Pádua, onde visitou a Capela dos Scrovegni, o narrador é imobilizado por súbita vertigem na hora de desembarcar na estação Porta Nuova em Verona. Ele desiste e vai para Desenzano e para Milão.

Enfim toma a resolução de voltar a Verona e passa alguns dias na cidade. Na Biblioteca Cívica, consulta os velhos jornais de 1913. Encontra um amigo na piazza Brà e, tarde da noite, depois de alguns Fernet duplos, tem a impressão de ouvir as carruagens que, na época de Goethe, traziam cavalheiros para conversarem com as damas na praça. 

Na parte seguinte do romance, Sebald faz uma reconstituição bastante livre (unrealistic, segundo  Reiner Stach, op. cit.) do que teria sido a jornada solitária de Kafka em Verona no ano de 1913:

"Na tarde de sua chegada a Verona, ele seguiu a pé pelo Corso da estação até a cidade, e lá vagou longamente pelas ruas estreitas até entrar, na igreja de Santa Anastácia. Após descansar por uns instantes à meia-luz no ambiente fresco, com sensações ambíguas de gratidão e repugnância, pôs-se novamente a caminho, e ao sair correu os dedos, como se faz a um filho ou irmão menor, pelo cachos marmóreos de uma figura anã que, ao pé de uma das imponentes colunas, sustentava o peso imenso de uma pia de água benta. Nada sugere que ele tenha visto o belo mural de São Jorge pintado por Pisanello acima da entrada da capela dos Pellegrini. 
(...)
À noitinha, o dr. K. começou a reparar no volume crescente de pessoas nas ruas, ao que tudo indica com o único propósito de se divertirem, todas em pares ou mesmo em grupos de três ou quatro andando de braços dados. Talvez tenham sido os cartazes, ainda afixados por todo canto da cidade, anunciando os spettacoli lirici all’Arena do mês de agosto e a palavra AIDA impressa em letras garrafais que o induziram a achar que o espetáculo de despreocupação e harmonia dado pela população de Verona tinha algo de teatral, encenado expressamente para lhe apontar sua solidão e extravagância, um pensamento que não lhe saiu mais da cabeça e do qual só foi capaz de se livrar buscando refúgio em um cinema, provavelmente o Cinema Pathé di San Sebastiano. Aos prantos, registrou o dr. K. no dia seguinte em Desenzano, ele ficou ali sentado na escuridão daquela sala de cinematógrafo, seguinda a transformação em imagens das minúsculas partículas de pó cintilantes no cone de luz do projetor. As notas tomadas em Desenzano, todavia, não contém nenhuma referência ao que o dr. K. viu nesse dia 20 de setembro em Verona."  (Vertigem, Companhia das Letras, pp. 116-117). 



Via Duomo


Via Pigna


Nota explicativa


Sebald supõe que o filme que levou Kafka às lágrimas pode ter sido “O Estudante de Praga”, lançado naquele ano de 1913.  Ainda que seja verdade, cabe entender de que maneira o filme teria comovido Kafka. A tarefa não é trivial. Os dois maiores estudiosos do cinema “expressionista” alemão concordam com o valor e a novidade do filme de Paul Wegener, mas divergem quanto à sua relação com a cultura alemã.

Lotte Eisner, para quem o cinema alemão tem um caráter visionário de matriz romântica, afirma que “com o Estudante de Praga, os alemães compreenderam imediatamente que o cinema pode se tornar o médium por excelência de sua angústia romântica, permitindo reproduzir o clima fantástico das visões vagas que se esfumam na profundidade infinita da tela, espaço real que escapa ao tempo.” (A Tela Demoníaca, Paz e Terra, p. 40). 

Para Siefried Kracauer, de formação marxista, os elementos fantásticos do cinema são sintomas do mal-estar da sociedade alemã: “O Estudante de Praga introduziu um tema que se tornaria uma obsessão do cinema alemão: uma profunda e terrível preocupação com os fundamentos do eu. (...) A determinação com a qual o Estudante de Praga trata sua estória de horror como um caso de psicologia individual é também reveladora. Toda ação externa é apenas uma miragem que reflete os acontecimentos na alma de Baldwin. Baldwin não é parte do mundo; o mundo está contido em Baldwin. Para descrevê-lo, então, nada mais apropriado do que localizar o enredo numa esfera fantástica onde a realidade social não tinha de ser considerada (...) O significado cósmico atribuído  à vida interior de Baldwin reflete a profunda aversão de toda a classe média alemã a relacionar seus dilemas mentais à sua ambígua condição social.” (De Caligari a Hitler, Jorge Zahar Editor, p. 44)


San Zen che ride  (2012-2013)


Na entrada de igreja de San Fermo passamos muito tempo observando as portas de bronze de Luciano Minguzzi, artista pelo qual temos grande admiração desde que vimos sua "porta dos mártires" na Basílica de São Pedro, em Roma. Restou-nos, assim, pouco tempo para percorrer a igreja superior e quase tive que implorar para que o funcionário, com pressa de sair para o almoço, nos permitisse descer até a escura igreja inferior, remanescente do terremoto de 1117. Fomos os últimos a sair. Aliviado e pressuroso, o funcionário fechou as portas de Minguzzi atrás de nós. 

Estávamos sem pressa e sem fome. Atravessamos a ponte Navi e fomos seguindo o Ádige na direção do Castelo San Pietro. 


Verona vista do Castelo San Pietro (2012)


Embora fosse janeiro, o sábado era de sol. Não tínhamos vontade de subir novamente até o castelo. Muito melhor seria tomar um café em algum beco quieto perto do rio. Voltamos pelo Interrato Acqua Morta.  O asfalto cegava de tanta luz. Ninguém nas ruas, exceto um homem, com forte sotaque camponês, que me perguntou onde era a agência do correio mais próxima. Eu lhe expliquei que, naquela hora, as agências já deviam estar todas fechadas. Ele se foi decepcionado e nós entramos num café sem nome na Piazzeta Santa Maria in Organo, onde uma jovem com a serenidade despreocupada típica de Verona nos serviu uma torta de amêndoas deliciosa. Eu lhe perguntei se estávamos longe do Giardino Giusti. Ela respondeu que bastava seguir a rua atrás do café. 


Giardino Giusti: ao fundo, o tempietto de Venere e a torre de Santa Anastácia


Não sei quanto tempo andamos pelos ciprestes, estalando o cascalho entre as sebes. Não havia mais ninguém. Talvez fosse por isso que o bilheteiro nos recebeu com tanta solicitude. Eu me deitei por uns instantes num banco, mas o achei bastante desconfortável. Subimos até a balaustrada do mascherone  que, do alto, vigia todo o jardim. Verona começava a se perder na névoa da tarde. 

Ao sair do jardim, visitamos ali perto um monumento recente, dedicado aos judeus deportados de Verona. 


Monumento aos Deportados de Verona perto de Santa Mariai n Organo: foto de Ludmila Ciuffi


Depois de molharmos as mãos nas águas geladas do Ádige, continuamos ao longo do  rio passando por San Giorgio in Braida.
 




San Giorgio in Braida

Paramos num pequeno bar, onde duas velhinhas jogavam cartas. Tomamos café e uma grappa excelente, cujo nome infelizmente não me lembrei de perguntar. Na ponte Risorgimento, atravessamos para San Zeno. O sol já tinha se posto e eram apenas quatro e meia da tarde. 

Mosteiro, Basílica e Campanário de San Zeno: foto de Ludmila Cuffi


claustro do mosteiro de San Zeno

San Zeno, bispo de Verona no século IV, foi o mais simpático dos santos. Nascido no norte da África, jovem, risonho, ele era o bispo "mouro" que gostava de pescar na curva do Ádige usando o báculo episcopal. 

Depois de percorrer novamente aquela igreja de que gostamos tanto - e observarmos à exaustão as placas de bronze medievais que compõem a porta -, acendemos cada um de nós uma vela pedindo a intercessão de San Zeno, para que nunca nos falte a graça e o riso. 

A estátua de "San Zen che ride": foto de Ludmila Ciuffi


Antes de voltarmos para o hotel, passamos pela Piazza Brà. Parecia que toda a Verona passeava entre as barracas de strudel de Bolzano e de vinho quente feito com Valpolicella. Ludmila comprou um pão muito gostoso que fez companhia a uma garrafa de Amarone, que eu trouxe do supermercado PAM, a caminho do hotel.  

Por volta da meia-noite, quando saímos mais uma vez, ainda havia muitos passantes nas ruas e vários fotógrafos amadores disputavam espaço em volta da estátua de Dante na piazza dei Signori.



A estátua de Dante na Piazza dei Signori: foto de Ludmila Ciuffi


No dia seguinte, um domingo nublado, o povo elegeu o Papà del Gnocco, uma espécie de rei Momo do carnaval veronês. É pena não termos visto a festa do vencedor. Tínhamos ido para Pádua.




quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Il moto non è diverso dalla stasi #2





MILÃO


1848


Em junho de 1847, desejoso de passar algumas semanas de liberdade e de anonimato na companhia da sua amada Giuseppina Strepponi, que dava aulas de canto na capital francesa, Verdi chegou a Paris. Incansável e aparentemente inesgotável, ele já começava a compor uma nova ópera, O Corsário, quando soube da queda do rei Luís Felipe, derrubado pela agitação revolucionária de fevereiro de 1848.  Os levantes se espalharam por toda a Europa.

As barricadas em Viena ameaçaram o governo de Metternich, artífice da Santa Aliança reacionária. A notícia se espalhou rapidamente pelo Vêneto e pela Lombardia, que estavam sob o domínio dos Habsburgos desde a queda de Napoleão.  Os nacionalistas republicanos radicais, adeptos de Giuseppe Mazzini, viram uma oportunidade para libertar o norte da Itália. Na cidade de Milão, durante cinco dias - as Cinque Giornate de 18 a 22 de março -, os patriotas combateram as tropas austríacas, que foram obrigadas a bater em retirada. A bandeira tricolor foi hasteada no alto do Duomo. Parecia, enfim, que chegara a hora de criar uma Itália livre e unificada. 


O pináculo do Duomo em 2012: foto de Ludmila Ciuffi

Entusiasmado, Verdi correu para Milão, onde chegou no dia 5 de abril. Para o seu libretista Francisco Maria Piave, escreveu: Onore a questi prodi, onore a tutta l’Italia che in questo momento è veramente grande! L’ora è suonata, siine persuaso, della sua liberazione. È il popolo che la vuole e quando il popolo vuole non avvi potere assoluto che le possa resistere. Sì, sì ancora pochi anni forse pochi mesi e l’Italia sarà liberta, una, reppublicana...” (Gustavo Marchesi, Giuseppe Verdi, Skira).

Verdi era um nacionalista sincero e grande admirador de Mazzini, mas também era um homem prático que zelava pelos seus negócios. Em Milão, discutiu com o empresário Merelli a montagem de suas óperas no Teatro alla Scala. Também aproveitou para adquirir uma propriedade rural, o sítio de Sant’Agata, que comprou em 1º de maio.  Antes de voltar para Paris e para Giuseppina, Verdi teve um encontro com Mazzini em Milão.  



Teatro alla Scala


No momento em que Verdi regressou à capital francesa, o governo instaurado pela revolução de fevereiro enfrentava uma onda crescente de insatisfação. O idílio entre a burguesia e o proletariado chegara ao fim.  Na última semana de junho, as forças do general Cavaignac sufocaram o levante dos trabalhadores. A violência da repressão era inaudita: pela primeira vez a artilharia pesada foi usada dentro da cidade. Milhares de operários foram mortos, dezenas de milhares foram presos e deportados. O evento repercutiu por toda a Europa e, segundo Dolf Oehler (O Velho Mundo desce ao Inferno), constitui o trauma recalcado da modernidade.

(Certamente foi a carnificina que levou Verdi e Giuseppina a buscarem a tranquilidade no subúrbio bucólico de Passy, onde já viviam outros artistas como Chopin.)

Em Turim, o rei Carlos Alberto de Savóia temia um levante radical no Piemonte. Os liberais turineses, entre os quais o jovem Cavour, clamavam por uma intervenção em apoio aos nacionalistas lombardos. As tropas do Piemonte foram enviadas para Milão, mas seu deslocamento foi tão lento e desajeitado que permitiu ao exército austríaco, liderado pelo octogenário Marechal Radetzky, colocar-se em segurança e receber reforços. 

Para decepção dos radicais de Milão, logo ficou evidente que a intervenção da casa de Savóia atendia apenas aos objetivos de anexar a Lombardia ao Piemonte, mas o intento não se realizou. No final de maio, as tropas do rei Carlos Alberto foram derrotadas facilmente pelos austríacos na batalha de Custoza.  Em março do ano seguinte, uma nova derrota face aos austríacos em Novara levou a um armistício humilhante para o Piemonte. O rei Carlos Alberto abdicou em favor de seu filho Vittorio Emanuele II. 

A Lombardia e o Vêneto caíram novamente sob o domínio dos Habsburgos. 


1898


A Itália havia se tornado um Estado-nação liberal sob o domínio da casa de Savóia desde 1870, mas as generosas esperanças dos mazzinistas tinham sido desbaratadas.  A desigualdade social e regional era imensa. Os trabalhadores urbanos qualificados ou semiqualificados procuravam emprego na França e na Inglaterra. Os camponeses pobres eram atraídos por vagas ofertas de trabalho no Novo Mundo. No Palácio Dória, em Gênova, onde passava os invernos com Giuseppina, Verdi lamentou muitas vezes o infortúnio que empurrava tantos italianos pobres para longe da Pátria.

Em 1898, um aumento súbito e brutal do preço do pão desencadeou tumultos por toda a Itália. Em Milão, os operários da Pirelli começaram a distribuir panfletos de protestos. Policiais infiltrados prenderam os operários. A manifestação dos trabalhadores diante da delegacia de policia resultou na libertação de vários operários, mas um deles continuou detido. Em solidariedade com o companheiro preso, milhares de trabalhadores abandonaram as fábricas para se manifestar. Houve um confronto violento com os policiais. O deputado socialista moderado Filippo Turatti tentou libertar o operário preso, mas nada obteve. 

Os protestos duraram quatro dias – as Quattro Giornate, de 6 a 9 de maio.  A polícia começou a abrir fogo contra a multidão. Um operário e um policial foram mortos. Os sindicatos convocaram uma greve geral. Em resposta aos tumultos, as forças da “ordem” foram reforçadas e colocadas sob o comando do general Florenzio Bava Beccaris.  O rei Umberto I e seu primeiro ministro, o marquês de Rudini, decretaram lei marcial. Com a cidade em estado de sítio, canhões e metralhadoras foram usados para dispersar as barricadas formadas na Porta Garibaldi e na Porta Ticinese.  Os números são incertos, mas alguns historiadores falam de 100 operários mortos e 400 feridos (por exemplo, Adrian Liyttelton, “Politics and Society 1870-1915” in  The Oxford Illustrated History of Italy).

O estado de sítio foi mantido depois da violentíssima repressão dos trabalhadores. Os jornais de oposição foram empastelados e os vários políticos socialistas, entre os quais Filippo Turati, foram presos.  O general Bava Beccaris, que passou a ser chamado de “carniceiro de Milão”, foi condecorado pelo ultrarreacionário rei UmbertoI. 


A porta do Duomo



Os laços e os nós


Em 1848, Mazzini e seus seguidores conseguiram proclamar repúblicas efêmeras em Roma e Veneza. No ano seguinte as forças de Garibaldi, que defendiam a república romana, foram vencidas por tropas francesas.  O papa Pio IX retornou do exílio e promoveu uma restauração impiedosa, anunciando com clareza a linha reacionária de seu longuíssimo pontificado. 

Mazzini teve que se exilar mais uma vez.  Depois de muitos anos em Londres, ele se estabeleceu em Lugano em 1868.  Foi na Suiça que o velho revolucionário italiano teve um encontro casual e fugaz com o jovem Friedrich Nietzsche que voltava do serviço como enfermeiro durante a guerra franco-prussiana. O famoso herói italiano deixou uma fortíssima impressão em Nietzsche, conforme contou mais tarde a sua irmã.


Marx não compartilhava a mesma opinião positiva sobre Mazzini. O autor de Das Kapital sempre acreditou que a burguesia republicana e nacionalista era fundamentalmente conservadora. Quando Mazzini fez objeções à Comuna de Paris (18 de março a 27 de maio de 1871), as suspeitas de Marx foram confirmadas. Giuseppe Mazzini morreu pouco depois, em 1872.

O destino de Nietzsche é bem conhecido. Ele abandonou as aulas de Filologia na Basileia e iniciou seu périplo pelas pensões e hotéis da Suiça e da Itália. Em janeiro de 1889, já tomado pela loucura em Turim, escreveu várias cartas estranhas, entre as quais um bilhete endereçado ao rei Umberto I. Nietzsche o chamava de “meu amado filho” e assinava como “O Crucificado”. 

Umberto I foi assassinado em julho de 1900 por um anarquista que pretendia vingar-se da condecoração do “carniceiro de Milão”. O regicídio abalou profundamente Giuseppe Verdi, que chegava aos 87 anos. Ele faleceu num hotel em Milão no dia 27 de janeiro de 1901. 

A máscara mortuária de Verdi no Museu do Teatro alla Scala: foto de Bia Ciuffi


2012-2013


Acho que herdei algo do gênio ressentido da minha mãe, que nunca esquecia as maldades e desacatos, reais ou supostos, que lhe foram feitos. Por isso, quando voltamos a Milão, não contive um sorriso maldoso ao encontrar, na bilheteria da exposição “Picasso” no Palazzo Reale, a mesma jovenzinha antipática que, um ano antes, fizera cara feia quando eu pedi o devido desconto no ingresso de meus filhos, ambos menores de 18 anos. Que alegria vingativa eu tive ao vê-la trabalhando num domingo à noite, em plena Befana, quando o movimento festivo nas ruas estava no auge. E que alegria vê-la ainda lá, quase às onze da noite, quando Ludmila e eu saímos para comer castanhas assadas, caminhando sem nenhuma pressa em direção à livraria Hoepli, já fechada, cujo letreiro enorme podia ser visto da esquina, ou até Brera, passando em frente à igreja de São Fidélis, perto da casa de Manzoni. 


Uma rua de Brera

O meu prazer de voltar a Milão enfrenta seriamente o desgosto pela banalidade que tenta se disfarçar em elegância ou grandeza. É o que vejo na galeria Vittorio Emanuele, espantosa combinação de triunfalismo arquitetônico, impostação burguesa e vulgaridade turística. Meu filho Ivan percebeu bem que essa aparente incongruência se materializava na existência de um McDonalds no centro da galeria, onde os basbaques admiram a imponência ridícula dos carabinieri e alguns mentecaptos fazem giros sobre os colhões do touro da casa de Savoia, desenhado no pavimento.

A entrada da galeria Vittorio Emanuele vista da praça do Duomo

Há cem anos, percorrendo os túmulos faraônicos do Cemitério Monumental de Milão, Walter Benjamin teve o mesmo sentimento artístico ofendido, entre a perplexidade e a irrisão. Aqueles túmulos seriam uma vingança dos ricos contra o nivelamento imposto pela morte: eram monumentos ao deus do dinheiro (Benjamin, Il mio viaggio in Italia).

 Nem tudo é mau gosto oitocentista no Cemitério Monumental

Por tudo isso, tenho escassa estima pelo “Quadrilátero de Ouro”, onde os novos-ricos russos fazem estrepitosamente suas compras nos finais de semana. É com uma curiosidade desconfortável que olho as vitrines da rua Montenapoleone  enquanto seguimos em direção à via Manzoni. Ao lado do hotel onde morreu Giuseppe Verdi, pegamos o metrô, sentido Comasina. A voz do condutor vai escandindo as estações: Turati, Reppublica, Milano Centrale e Sondrio, onde descemos.

Felizmente, Milão não é apenas um acinte da burguesia.   Minha filha Beatriz gosta da pista de neve que a prefeitura fez entre o castelo Sforzesco e o Parque Sempione.  Ludmila e eu amamos a cidade antiga que, neste ano, comemora os 1700 anos do édito de Constantino.  E é com fervor que percorremos as velhas basílicas do século IV e V: a de Santo Ambrósio, a de São Lourenço, a de Santo Eustórgio, com suas criptas paleocristãs, seus santos fundadores, seus tesouros de arte, suas cicatrizes dos bombardeios de 1943. Todas elas tão dignas, tão quietas, tão distantes das mundaníssimas igrejas de Roma. 

Basílica de Santo Ambrósio

Pórtico da Basílica de Santo Ambrósio

Detalhe do púlpito da basílica de Santo Ambrósio: foto de Ludmila Ciuffi

A colunata romana do pátio da basílica de São Lourenço

O parque atrás da basílica de São Lourenço

Basílica de Santo Eustórgio: foto de Ludmila Ciuffi
A  cúpula da capela Portinari na Basílica de Santo Eustórgio

Há também o prazer de folhear as belas edições da Skira, na Via Torino, ou o privilégio de comer bem na trattoria do Salvatore, conversando com dona Rita, que se senta conosco numa noite de pouco movimento para reclamar da crise italiana e saber das coisas do Brasil. Ludmila e eu esvaziamos uma abençoada garrafa de Nero d’Avola, que nos conduziu leves para o leito na noite de despedida.


a rua lateral do Duomo: foto de Ludmila Ciuffi


No dia seguinte, partimos para Verona.





terça-feira, 23 de julho de 2013

Il moto non è diverso dalla stasi #1





TURIM

I

Nietzsche



“Turín es mi lugar “probado” y lo escogí desde entonces por residencia. Volvi a ocupar el mismo alojamento que había ya ocupado em la primavera, Via Carlo Alberto, 6111, enfrente del poderoso palácio Carignano, en el que nasció Vittorio Emanuele. Mis ventanas daban a la plaza Carlo Alberto, al mediodia, sobre um horizonte bordeado de colinas. Sin vacilación, y sin dejarme distraer un momento, reanudé mi trabajo. No me quedaba más que terminar el último cuarto de la obra. El 30 de septiembre, gran victoria; séptimo dia, ociosidade de um dios que se pasea a lo largo del Po. El mismo dia escribi también el prefácio de “El Ocaso de los Ídolos”, cuya corrección me habia servido de recreo durante el mes de septiembre.
Jamás he passado um otoño como aquél, jamás hubiera yo creído que uma cosa como aquélla fuera posible sobre la tierra: um Claude Lorrain transportado el infinito, todos los días de igual perfección insuperable.”
(Ecce Homo, capítulo “El Ocaso de los Ídolos”, Obras Completas de Federico Nietzsche, M. Aguilar Editor, Buenos Aires)



Via Carlo Alberto, 6111



Em 5 de abril de 1888, vindo de Gênova, Nietzsche chega à capital da casa de Savóia. Eufórico com o tempo excelente e com as ruas largas, retas e planas, que favoreciam longas caminhadas, escreve para o seu amigo Peter Gast:

Turim, caro amigo, é uma descoberta capital. Falo pensando que talvez possa tirar proveito desta notícia. A minha disposição é boa, trabalho de manhã à noite – um pequeno panfleto sobre a música ocupa-me os dedos – digiro como um semideus, durmo apesar do barulho noturno das viaturas. Tudo isto são sintomas de uma eminente adaptação a Turim. (citado por Daniel Halévy, Nietzsche, capítulo Nox ruit)




Palazzo Carignano: a fachada barroca de Guarino Guarini


Enquanto redige seu  panfleto, Nietzsche descobre numa biblioteca da cidade uma tradução francesa do Código de Manu, a antiquíssima lei sacerdotal hindu que estabelece o sistema de castas e os deveres morais relativos a cada uma delas. Em êxtase, ele torna a escrever a Peter Gast:

Não se poderia, sem pecar contra o espírito, associar na mesma frase a Lei de Manu, livro de uma incomparável espiritualidade, e a Bíblia. Preste-se atenção: as leis de Manu tem atrás de si, em si, uma verdadeira filosofia e não uma repugnante judaíce de rabinismo e superstição (...) Vamos ao essencial e mostraremos a diferença fundamental: com as leis de Manu, as classes superiores, os filósofos e os guerreiros, mantem o controle da multidão; em toda a parte os valores superiores, o consentimento à vida, o sentimento da perfeição, de um triunfal bem-estar: o sol ilumina todas as páginas do livro. Onde o cristianismo exibe a sua insondável vulgaridade (a sexualidade, a mulher, o casamento), as leis de Manu aplicam-se com respeito, amor e confiança. Como se poderia por nas mãos de mulheres e crianças um livro onde se encontram estas palavras: Para evitar o impudor, que cada um tenha a sua mulher, cada mulher tenha um marido. É melhor casar-se do que arder... (citado por Daniel Halévy, Nietzsche, capítulo Nox ruit).

Se há algo que não se pode negar é a amplitude do "demasiado humano" em Nietzsche. Do sublime ao ridículo, da plenitude à tacanheza, nada lhe foi estranho.




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O “pequeno panfleto sobre a música” será publicado no final de setembro de 1888, com o nome de O Caso Wagner.  A violência do ataque contra o antigo ídolo e mentor Richard Wagner, que havia morrido há cinco anos, causará indignação nos círculos wagnerianos e a perda de mais alguns amigos.

Apartémosnos finalmente, por un momento, para respirar, del estrecho mundo a que todo problema sobre el valor de personas condena al espíritu. Un filósofo siente la necesidad de lavarse las manos después de haberse ocupado durante largo tiempo sobre el “caso Wagner”. Ahora voy a exponer mi concepto de lo moderno. Toda época encuentra en la medida de sus fuerzas otra medida para estabelecer qué virtudes le están permitidas y cuáles vedadas. O tiene las virtudes de la vida ascendente, y entonces resiste em sus más profundas raíces a las virtudes de la vida descendente. O ella misma es uma vida que desciende, y entonces tiene necesidad de las virtudes de la decadencia, y odia todo lo que se justifica con la plenitude y la abundancia de fuerzas. La estética está indisolublement ligada a estas premisas biológicas: hay uma estética de la decadencia, hay una estética clássica; lo bello en si es una quimera tal como lo entende el idealismo.


En la estrecha esfera de los llamados valores morales no se puede encontrar un mayor contraste que el que existe entre una moral de señores y una moral de valoraciones cristianas; esta última ha crecido sobre un terreno completamente malsano (los Evangelios nos presentan exatamente los mismos tipos fisiológicos que describen las novelas de Dostoiewski), mientras la moral de los señores (romana, pagã, clásica, moral del Renacimiento) es el linguaje simbólico de las buenas constituiciones, de la vida ascendente, de la voluntad de poder entendida como princípio de la vida. La moral de los señores afirma tan instintivamente como niega la cristiana (Dios, el más allá, renuncía a si mismo, son puras negaciones). La primera comunica a las cosas su plenitude: esclarece, estabelece, racionaliza el mundo; la segunda empobrece, palidece, afea el valor de las coisas, niega el mundo. El “mundo” es una injuriosa palabra del cristianismo. Estas formas contrarias en la óptica de los valores son necesarias; son modos de ver, que no se alcanzan con argumentos y refutaciones. No se refuta el cristianismo, no se refuta una enfermedad de los ojos. El hecho de haber combatido el pesimismo como una filosofía fué el colmo de la idiotez erudita. Las nociones “verdadero” e “no verdadero” no tienen a lo que creo, ningún sentido en la óptica.

De lo único de que nos debemos defender es  de la falsedad, de la doblez del instinto, que no quiere considerar como constrastes estos contrastes; esta, por ejemplo, fué la voluntad de Wagner, que fué un no pequeño maestro de tales falsedades. (El Caso Wagner, epílogo, Obras Completas de Federico Nietzsche, M. Aguilar Editor, Buenos Aires)

Nas décadas seguintes, a crítica às "premissas biológicas" da estética decadente e o desprezo pela "repugnante judaíce de rabinismo e superstição" foram levadas adiante justamente por ideólogos que entronizaram aquilo que Nietzsche combatia: as virtudes da nação alemã, a demagogia e o culto a Richard Wagner, tanto pelas virtudes romanas e nobres de Rienzi, quanto pela pureza cristã de Parsifal.


Como aconteceu muitas vezes, as palavras de Nietzsche foram interpretadas da maneira mais torpe, mas é verdade que havia nelas muita torpeza, muita doença sem cura e muita vulgaridade de pregador de praça pública.




Palazzo Carignano: pórtico da Piazza Carlo Alberto


Feliz com a primavera espiritualmente tão rica, Nietzsche faz as malas e parte no dia 5 de junho. O verão, decide passá-lo na Suiça, em Sils-Maria, onde escreve mais dois livros: O Anticristo e O Crepúsculo dos Ídolos. No outono, retorna a Turim. Põe-se a reler toda a sua obra e escreve Ecce Homo:

É a ele próprio, é à sua glória, que consagra esse livro, o seu último livro. A euforia rompe os freios do hábito e da razão que controlam, em cada pessoa, os reflexos do orgulho ingênuo, e ele entoa a litania dos louvores a si próprio. Leiamos os títulos dos capítulos: Porque sou tão prudente – Porque sou tão refletido – Porque escrevi livros tão bons  – Porque sou uma fatalidade - Glória e eternidade. (Daniel Halévy, Nietzsche, capítulo Nox ruit)

A euforia domina Nietzsche. É certo que havia boas razões para isso. Sua obra começava a suscitar reações de admiração. Numa carta, o crítico Georg Brandes conta  o êxito do seu curso sobre Nietzsche em Copenhagen. Também o dramaturgo sueco August Strindberg lhe escreve, empolgadíssimo com a leitura de O Caso Wagner. Embora estivesse longe de ser entendido e amado, Nietzsche se sente engrandecido e deseja saborear cada momento. Come bem e frequenta os cafés mais movimentados, sempre com roupas bem cuidadas. Quer ser visto e gosta do respeito carinhoso que as pessoas lhe demonstram, como relata na carta a Meta von Salis, de 29 de dezembro:

O mais singular aqui em Turim é a total fascinação que eu exerço – em todas as classes. A cada instante sou tratado como um príncipe, há uma distinção extrema no modo como abrem a porta para mim e me servem uma comida. Cada rosto se transfigura quando entro numa loja grande (citado por Safranski, Nietzsche: biografia de uma tragédia, capítulo 14)



Ponte Vittorio Emanuele


Os sinais do colapso se acumulam rapidamente. Nietzsche fala sozinho, dança nu no apartamento e escreve cartas incoerentes para os amigos Franz Overbeck e Jacob Burckhardt, que se inquietam.

Uma vez mais Nietzsche quis se arrancar ao furor de criar e de destruir que o devora há mais de um ano; quis ultrapassar a inspiração dionisíaca, aumentá-la num outro fervor desconhecido até para ele. Goethe, o apolíneo, tantas vezes invocado desde há dois anos, não o pode salvar. Necessita encontrar outro recurso; não uma serenidade, esse tempo passou, a alma pede-lhe outra coisa, exige um fervor. Criar ou descobrir um novo fervor sempre foi uma das suas esperanças. A euforia exalta-o, o último São Silvestre não passará em vão. Eis o momento, recentemente anunciado com dois versos:

Nun lacht die Welt, der grause Vorhang riss,
Die Hochzeit kam für Licht und Finsterniss ..... 
(Finalmente o mundo ri, a cruel cortina rasga-se/ Chega o tempo dos esponsais para a luz e as trevas)

Em papéis que mãos atentas apanharão daí a pouco na desordem do quarto do alucinado, serão encontrados, escritos a lápis, os dois nomes juntos: Dioniso, o Crucificado. “Num dia que se deve situar entre 28 de dezembro e 3 de janeiro – escreve Charles Andler – Dioniso e o Crucificado fundiram-se nele...” (Daniel Halévy, Nietzsche, capítulo Nox ruit)

No dia 3 de janeiro, Nietzsche viu um cocheiro que chicoteava um cavalo na Piazza Carlo Alberto. Cheio de compaixão, abraçou-se ao animal para protegê-lo e, entre lágrimas, desmaiou. O amigo Franz Overbeck vem buscá-lo e parte com ele no  dia 9. Nietzsche estava demente e assim permaneceu até morrer em 1900.

Ninguém jamais soube o que foi feito do cavalo da Piazza Carlo Alberto, mas o grande diretor húngaro Bela Tárr ofereceu uma resposta ficcional à questão no filme O Cavalo de Turim (A Torinói Ló, 2011). O cocheiro e a sua filha são seres taciturnos, fustigados pela crueldade de um vento incessante, isolados na repetição, no silêncio e na pobreza, até que a própria luz do mundo se esvai. 




II

Primo Levi



Quando o jovem partisan Primo Levi foi preso por uma milícia fascista em dezembro de 1943, ele preferiu declarar-se judeu, ao invés de membro da guerrilha. Depois de passar pelo campo de transferência de Fossoli, em 22 de fevereiro de 1944 foi enviado para Auschwitz, onde recebeu o número de registro 174.517 e foi destinado ao trabalho no campo de Buna-Monowitz (Auschwitz III).

Após a libertação em janeiro de 1945, o Exército Vermelho transferiu os sobreviventes para um campo em Katowice, cujo comandante tentava reunir informações sobre as condições sanitárias do Lager. O médico Leonardo Debenedetti, também sobrevivente, e Primo Levi, que era químico, foram solicitados a redigir o Relatório sobre a organização higiênico-sanitária do campo de concentração para judeus de Monowitz–Auschwitz.  Os sobreviventes começavam a dar o seu testemunho do horror dos campos de extermínio.

A volta para casa foi difícil. O medo, a situação política instável, a falta de meios de transporte, a destruição das cidades do Leste europeu obrigaram Levi a fazer um caminho tortuoso pela Polônia, Bielo-Rússia, Ucrânia, Romênia, Hungria, Alemanha e Áustria. Quando chegou a Turim em outubro daquele ano, começou a escrever o relato da sua experiência em Auschwitz, que se tornou sua primeira obra: Se questo è um uomo.

A recusa das grandes editoras, incluindo a casa Einaudi, de Turim, uma das mais importantes da Itália, não o impediu de publicar o livro por um pequeno editor em 1947. A repercussão foi mínima. Desanimado, Primo Levi se dedicou ao trabalho na indústria química. Mas, em 1956, por causa do vivo interesse que o público demonstrou por uma exposição sobre os deportados de Turim , Levi voltou a propor o livro à editora Einaudi, que o aceitou dessa vez. O sucesso nacional e internacional de Se questo è um uomo encorajou o autor a retomar suas memórias do Holocausto  em várias outras obras.

Com exceção do período como partisan e como prisioneiro, Levi sempre viveu no apartamento do terceiro andar da Corso Re Umberto, 75, onde ele nasceu e que ainda hoje pertence à sua família.


Entrada do edifício de Primo Levi em janeiro de 2013


Na manhã de 11 de abril de 1987, como sempre fazia, a concièrge foi à porta de seu apartamento para entregar-lhe a correspondência. Ela desceu a escada espiral e, mal tinha se fechado em seu quartinho no térreo, ouviu o baque forte de um corpo contra o piso. Era Primo Levi. A autópsia revelou que o esmagamento do crânio lhe causou morte instantânea. Não havia nenhum sinal de violência que não tivesse relacionado à queda.

A divulgação da notícia consternou os amigos e admiradores de Levi. Logo a hipótese de um acidente (Levi se queixara de tontura ao seu médico nos dias anteriores) foi desafiada pela hipótese de suicídio. Para alguns, Levi teria concluído a sua obra e só lhe restava a morte; para outros, a doença da mãe do escritor, que a tornara totalmente dependente do filho se tornou desesperadora à medida que ele envelhecia; para Elie Wiesel, outro grande expoente da literatura de testemunho do Holocausto, Primo Levi, como outros sobreviventes, jamais superou a trauma do Lager e “morreu em Auschwitz, quarenta anos depois”.

A hipótese de suicídio de Primo Levi, ao que me parece, admite pelo menos três interpretações. Pensada à maneira estóica, seria o ato derradeiro de autonomia e de soberania, que daria ao intelectual o direito de encerrar a obra, sem sobras nem aparas. Poderia ser ainda um ato de recusa final do absurdo da existência por alguém que, depois de ter olhado o abismo da crueldade, sentia culpa por ter sobrevivido. Ou seria o ato impulsivo de desesperança de um homem velho que lutava contra a depressão e mergulhou no fosso da escada para liquidar a fatura.

Tenho a impressão de que, para aqueles que acreditam na hipótese do suicídio, a possibilidade de uma morte meramente acidental deve parecer um anticlímax metafísico, isto é, uma intromissão indevida e brutal da contingência do mundo. É por isso que as objeções factuais que o sociólogo italiano Diego Gambetta levantou contra a hipótese do suicídio encontraram e encontram tanta resistência. 

[A discussão sobre a hipótese do suicídio se encontra no famoso artigo de Gambetta, “Primo Levi's Last Moments" e foi retomada num artigo interessante e informativo do psiquiatra Adrian Gramary, "Primo Levi: a queda do sobrevivente".]

Não sei se Primo Levi caiu por acidente ou atirou-se do alto da escada, mas sei que ele nunca demonstrou disposição em acreditar que há um tecido inconsútil que dá sentido último aos acontecimentos . A contingência estava na origem de sua carreira de escritor e constituía o horizonte de sua vida, como ele mesmo disse em 1976:

Una certa affermazione posso però formularla, ed è questa: se non avessi vissuto la stagione di Auschwitz, probabilmente non avrei mai scritto nulla. Non avei avuto motivo, incentivo, per scrivere: ero stato uno studente mediocre in italiano e scadente in storia, mi interessavano di più la física e la chimica, ed avevo poi scelto un mestiere, quello del chimico, che non aveva niente in comune col mondo della parola scritta. È stata l’esperienza del Lager a costringermi a scrivere: non ho avuto da combattere con la pigrizia, i problemi di stile mi sembravano ridicoli; ho trovato miracolosamente il tempo di scrivere pur senza mai sottrare neppure un’ora al mio mestiere quotidiano; mi pareva, questo libro, di averlo già in testa tutto pronto, di doverlo solo lasciare uscire e scendere sulla carta.

Escritor por acaso, mas principalmente sobrevivente por acaso:

Il fato che io sia sopravvissuto, e sia ritornato indenne, secondo me è dovuto principalmente ala fortuna. Solo in piccola misura hanno giocato fattori preesistenti, quali il mio allenamento ala vita di montagna, ed il mio mestiere di chimico, che mi ha concesso qualche privilegio negli ultimi mesi de prigionia. Forse mi ha aiutato anche il mio interesse, mai venuto meno, per l’animo umano, e la volontà non soltanto di sopravvivere (che era comune a molti), ma di sopravvivere allo scopo preciso di raccontare le cose a cui avevamo assistito e che avevamo sopportato. E forse ha giocato infine anche la volontà, che ho tenacemente conservata, di riconoscere sempre, anchei nei giorni più scuri, nei miei compagni e in me stesso, degli uomini e non delle cose, e di sottrarmi così a quella totale umilazione e demoralizzazione che conduceva molti al naufragio spirituale.
(Primo Levi, Se questo è uomo, Apêndice)

A contigência é radical, mas não conduz ao absurdo. Palavras como “provavelmente”, “em pequena medida”, “talvez” servem para dar a dimensão da nossa ignorância, elas não constituem uma denúncia de alguma opacidade insuperável do mundo, à qual recorrem com demasiada facilidade os que sentem o chão ceder quando se dão conta da ausência de Deus. A respeito dessa ausência, Levi fez uma declaração hoje famosa, que nos atira diretamente no plano da história: C’è Auschwitz, quindi non può esserci Dio.



III


Gianni Vattimo e tantos outros


O inverno não estava demasiado frio, mas o chuvisco intermitente e a vontade de descansar o corpo por uns instantes nos fizeram parar no café Al Bicerin.  O lugar é pequeno e mal tínhamos espaço para espalhar nossos agasalhos pesados. Ludmila tinha também que procurar onde deixar a sacola com lãs e o bastidor de bordar que tínhamos comprado num armarinho bem fornido e simpático numa travessa da Corso Re Umberto, quando voltávamos da visita ao prédio de Primo Levi.

Galeria do Teatro Cinema Roma, ao lado do Palazzo Carignano

Acostumados ao ritmo paulistano de Milão, íamos a passo largo e rápido, mas Turim é mais lenta no andar e no falar. Da Corso Re Umberto, pegamos a Via Antonio Gramsci e seguimos pelas arcadas da Via Roma até a Piazza San Carlo, depois até a Piazza Reale. Parávamos o tempo justo para as fotos e filmagens. Eu queria seguir logo à capela onde o Santo Sudário é guardado.

A igreja do Sudário é a mais decepcionante da Itália. Os fiéis se juntam, no fundo, à esquerda de quem entra, para contemplarem o nicho vazio onde se esconde a suposta relíquia do Homem-Deus morto. Se me fosse dado escolher, gostaria que o Sudário fosse autêntico e não uma brincadeira de mau-gosto de Leonardo da Vinci, como nos romances de Dan Brown.

O vazio de uma relíquia contestada me esvaziou também. Precisávamos de um café e o Al Bicerin não fica longe. Trouxeram-nos as taças com as colheres de cabo longo, que não são para mexer o café, mas para alcançar o chocolate no fundo. O café funciona desde o século XVIII na pequena Piazza della Consolata, voltado para uma torre românica.  Dizem que o conde Cavour o frequentava. Nietzsche deve ter estado aqui também na sua segunda temporada em Turim, quando costumava aparecer em lugares mais frequentados. Mas é possível que ele, que gostava tanto de andar à beira do rio, fosse para algum café da Via Po, bem mais perto da sua casa, depois de entrar na biblioteca da universidade ou visitar a Mole Antonelliana em construção.

Um grupo de russos acabou de lotar o café. Falavam alto. Os russos sempre falam alto. Ludmila e eu topamos com eles por toda a Itália, mas era singularmente apropriado encontrá-los na célebre cidade sabauda, cujo projeto urbanístico setecentesco se aproxima tanto do de São Petersburgo, com  seus palácios hieráticos, seus cavaleiros de bronze e suas perspectivas infinitas.



Via Roma vista da Piazza Castello


Houve muitas pontes entre Turim e a Rússia no passado. Antes que a família Agnelli aceitasse construir uma fábrica da FIAT na Rússia (onde se produzia o indestrutível Lada), Gramsci tinha saudado a revolução bolchevique e chegou a representar os marxistas italianos na Rússia, onde conheceu a militante que se tornaria sua esposa. Bem antes, no começo do século XIX, os irmãos de Maistre, Joseph e Xavier, foram os mais famosos dos russo-turineses. Xavier, autor de Viagem à volta do meu quarto, que inspirou Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett,  foi viver em São Petersburgo como pintor. Joseph, o mais brilhante do ideólogos da Reação, encerrou seus dias em Turim, depois da temporada como embaixador da casa de Savóia junto ao czar Alexandre I.


Piazza Castello

Como devia doer ao velho e ultra-católico Joseph de Maistre passar diante da Igreja do Espírito Santo e recordar-se que, ali, o seu muito odiado e desprezado Jean-Jacques Rousseau tinha se convertido ao catolicismo em 1728 só para agradar Madame de Warens, a belíssima carola de quem Jean-Jacques se tornou amante logo que abjurou os erros da sua formação huguenote e genebrina.

É fato, porém, que estávamos mais ocupados em raspar o chocolate do fundo da taça do que com considerações históricas. Mesmo assim,  o vazio do nicho do Sudário e o ar gélido do Santuário me acompanharam como lembrança incômoda, que se tornou ainda mais forte quando, em Roma, visitamos a réplica do Sudário, que é guardada na Igreja de Santa Croce in Gerusalemme junto com as relíquias do Santo Lenho e do Santo Espinho numa sala igualmente gélida, onde um grupo de escolares bocejava.

De maneira apressada, atribuí esse incômodo aos vestígios da minha formação católica, que ainda espera alcançar alguma transcendência pelos olhos da carne. Porém, recentemente, ocorreu-me algo melhor.

Palazzo Reale: ao fundo à esquerda, a torre do Santuário do Sudário

Um dos conceitos centrais do Cristianismo é o de kenósis, isto é, despojamento, esvaziamento. Segundo São Paulo, a redenção foi eficaz porque Jesus se despojou da sua condição divina para tomar o cálice do sofrimento. Ao fazer-se reconhecer como carne sofredora, Jesus acedeu ao ponto mais alto do poder divino.

Tende entre vós os mesmos sentimentos que Jesus, o qual, sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas despojou-se de si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes. (Epístola aos Filipenses, 2, 6-9)

Essa dialética da redenção pelo sofrimento, mediada pela kenósis, foi revalorizada e reinterpretada por vários filósofos recentes de formação hermenêutica.  Gianni Vattimo, discípulo de Gadamer e estudioso de Heidegger e Nietzsche, vem propondo há algum tempo uma versão secularizada da kenósis como a experiência religiosa possível num horizonte histórico que reconhece que Deus está morto. O sagrado somente pode se dar como problema, pela abdicação das certezas e dos dogmas religiosos. Nenhuma sarça ardente vai nos trazer a luz, mas a ausência e a precariedade devem se tornar aberturas para o diálogo e a tolerância. 


Pátio da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Turim


Os filósofos são filhos de seu tempo, mas também são filhos de suas cidades. Como turinês, Gianni Vattimo é mais um elo da cadeia histórica e filosófica daquela que é a mais especulativa das cidades italianas.

Turim é a sede do Sudário: a imagem mesma da kenósis, isto é, do corpo de Jesus despojado de sua divindade. Na universidade de Turim, o grande humanista e reformador Erasmo de Rotterdam obteve seu doutoramento em Teologia em 1506. Em Turim, Joseph de Maistre fez suas reflexões finais sobre o papel da religião católica como defesa contra a maré de descrença revolucionária daqueles que promoviam a razão humana à condição divina. Em Turim, Nietzsche, proclamador da morte de Deus, identificou-se com o Crucificado. Em Turim, Antonio Gramsci abandonou o idealismo e tornou-se adepto do materialismo histórico marxista. Em Turim, Primo Levi declarou que a existência de Auschwitz excluía a existência de Deus. Em Turim, Gianni Vattimo defende que a religião moderna não tem mais o direito de apresentar-se como dogma revelado, mas apenas como abertura e hiância.

O inverno na alma que sentíamos diante do nicho vazio do Sudário era, portanto, a religião possível, sem impostura. Desolada como o transeunte que atravessava a Piazza San Carlo sob o chuvisco de janeiro.

Piazza San Carlo no inverno


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Era hora de pegarmos o trem para Milão. Na Piazza Carlo Alberto, nenhum cavalo. Junto ao Pó, apenas as margens geladas e escorregadias.


Rio Pó: Igreja da Mãe de Deus e Igreja de Santa Maria do Monte