quarta-feira, 29 de junho de 2016

Burgueses e filisteus: middlebrow








A Guerra dos Brows


"J'entends des familles comme la mienne, 
qui tiennent tout de la déclaration des Droits de l'Homme".

Rimbaud, Une saison en Enfer





I


Meus avós eram gente analfabeta do campo; meus pais tiveram uma escolarização elementar que lhes permitiu trabalhar como operários na indústria metalúrgica e têxtil. Como os mais afortunados da minha estirpe e linhagem, fui miraculado pela universidade e passei a integrar a fração superior da pequena-burguesia. Todavia, se o capital cultural acumulado pôde ser convertido em certa posição social, também me levou a uma atitude irônica, e muitas vezes hostil, face aos padrões culturais da classe a que pertenço. De várias maneiras sou um trânsfuga e um híbrido: sou o produto da herança rural ítalo-caipira-afro-baiana; da cultura de massas; da solidariedade do chão de fábrica, que era reproduzida pelos meninos e meninas no pátio da escola; do treino intelectual na graduação e na pós-graduação; do convívio e comunhão com a pequena-burguesia que trabalha no setor de serviços educacionais; do exercício crítico de scholar na esfera privada. Assim era inevitável que, ao longo de toda a minha vida, estivesse metido nalguma trincheira durante a Guerra dos Brows.

Da cultura lowbrow a que fui exposto quando criança e em parte da adolescência, restou muito pouco. Os infantes marxistas da turma de 82 rapidamente aprendiam a reconhecer nela os produtos espúrios da indústria cultural, mas o fato é que nosso próprio marxismo estudantil também era nutrido por essa indústria: pelos volumes da coleção “Os Pensadores”; pelos livrinhos da série “Primeiros Passos”; pelos episódios de “A Era da Incerteza” de John Kenneth Galbraith. Enfim, por toda uma gama de produtos de divulgação (ou “propaganda” como dirão os oponentes à direita) que compunha a paisagem da esquerda middlebrow naquela época hoje remota.

Pelas razões que acabo de expor, confesso que pertenço àquela grande família de beneficiários dos fascículos da editora Abril, da enciclopédia Barsa e da Delta-Larousse, dos programas educativos da TV Cultura de São Paulo, da série “Cosmos” de Carl Sagan, da revista "Planeta", dos programas musicais transmitidos a partir do SESC Pompeia, das coleções de bolso da editora Brasiliense, do catálogo do Círculo do Livro, das obras paradidáticas da editora Ática, dos "Concertos para a Juventude",  das minisséries “Raízes” e “Holocausto” transmitidas pela Rede Globo,  das palestras na biblioteca Mário de Andrade, dos clássicos nas edições baratas da Ediouro, da História da Filosofia Ocidental de Bertrand Russell, do catolicismo de esquerda divulgado pela Editora Vozes. Eu poderia passar muito tempo relembrando tudo o que aprendi imerso nesse caldo middlebrow ao qual eu devo meu ingresso no ensino superior, mas hoje não estou para reverências. Minha intenção é mostrar quão limitante pode ser a cultura middlebrow e como ela constitui um dos fatores do filistinismo.




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Paulo Eduardo Arantes, Uma irresistível vocação para cultivar a própria personalidade, Trans/form/Ação, vol. 26 nº2, Marília, 2003 | Mathew Arnold, Heinrich Heine, Philadelphia, Frederick Leypoldt; New York, F.W. Christern, 1863; Culture and Anarchy, Smith, Elder and Co. London, 1869 | David Beech, John Roberts (editors), The Philistine Controversy, Verso, London, New York, 2002 | Gérard Bensussan, Georges Labica, Dictionnaire Critique du Marxisme, Quadrige/PUF, Paris, 1982 | Norberto Bobbio, Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política, Editora Unesp, São Paulo, 1995 | Pierre Bourdieu, A distinção. Crítica social do julgamento, Zouk, Porto Alegre, 2015 | Lucio Colletti, Marx, Dialética, Capital: Entrevista de Lucio Colletti com Perry Anderson, publicada originalmente em New Left Review I/86, Julho-Agosto 1974 in revista Sinal de Menos, nº 10, vol. 11, 2014 | Adeline Daumard, Hierarquia e Riqueza na Sociedade Burguesa, Perspectiva, São Paulo, 1985 | Umberto Eco, Apocalípticos e Integrados, Perspectiva, 1979 | Klaus Eder, "Culture and Crisis: making sense of the crisis of the work society" in Theory of CultureRichard Münch, Neil J. Smelser (editores), University of California Press, Berkeley, Los Angeles, Oxford, 1992 | James Gilbert, "Midcult, Middlebrow, Middle Class" in Reviews in American History, vol. 20, nº 4 (Dec. 1992) | Heinrich Heine, Italie, Première Partie, Voyage de Munich à Gènes in Oeuvres de Henri Heine,  Eugène Renduel, Paris, 1834 | Albert Hirschman, As Paixões e os Interesses. Argumentos políticos a favor do capitalismo antes do seu triunfo, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1979 | Nicola Humble, "Sitting forward and sitting back: highbrow v. middlebrow reading" in Modernist Cultures 6. 1, Edinburgh University Press, 2011 |  Russell Lynes, "Highbrow, Lowbrow, Middlebrow" (1949) in The Wilson Quarterly, vol. 1, nº 1 (Autumn, 1976) | Dwight Macdonald, "Masscult & Midcult" in Against the American Grain, Da Capo Press, New York, 1983 | James Martin (editor), The Poulantzas Reader, Verso, London, New York, 2008 | Abraham Moles, O Kitsch, Perspectiva, São Paulo, 1982 | Franco Moretti, O burguês: entre a literatura e a história, Três Estrelas, São Paulo, 2014 | Estelle Morgan, "Bourgeois and Philistine" in The Modern Language Review, vol. 57, nº 1 (Jan. 1962) | Vladimir Nabokov, Lectures on Russian Literature, Harvest Book, San Diego, New York, London, 2012  | Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998; Obras Incompletas, coleção Os Pensadores, Abril Cultura, São Paulo, 1978; Assim falou Zaratustra, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1987 | Dolf Oehler, Quadros Parisienses. Estética Antiburguesa 1838-1848, Companhia das Letras, São Paulo, 1997 | Nicos Poulantzas, Les classes sociales dans le capitalisme aujourd'hui, Éditions du Seuil, Paris, 1974 | Joan Shelley Rubin, The making of the middlebrow culture, University of North Caroline Press, Chapel Hill & London, 1992 | George Santayana, What is a Philistine?, The Harvard Monthly, May, 1892 | John Scott (org), A Dictionary of Sociology, Oxford University Press, Oxford, 2014 | Werner Sombart, Le bourgeois. Contribution à l’histoire morale et intellectuele de l’homme économique moderne, Petite bibliothèque Payot, Paris, 1966 | Tornstein Veblen, A Teoria da Classe Ociosa, coleção Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1980 | Max Weber, A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo, Companhia das Letras, São Paulo, 2004 | Raymond Williams, Culture and Society, 1780-1950, Anchor Books, New York, 1958; Cultura e Materialismo, Editora Unesp, São Paulo, 2011; Keywords. A vocabulary of culture and society revised edition, Oxford University Press, New York, 2015 | Eric Olin Wright, "Social Class" in G. Ritzer (editor), Encyclopedia of social theory, Sage, Thousand Oaks, 2004






quarta-feira, 22 de junho de 2016

Burgueses e filisteus: o pequeno-burguês







Esse pombo triste: 

o pequeno-burguês



"Será preciso retumbar como tambores e pregadores de sermões quaresmais? 
Ou acreditarão somente nos que gaguejam?
Possuem alguma coisa da qual se orgulham. 
Como chamam, mesmo, àquilo que os torna orgulhosos? 
Chamam-lhe instrução e é o que os distingue dos pastores de cabras".


Nietzsche, Assim Falou Zaratustra,  Prólogo, 5






O filisteu é conservador e cauteloso; abomina a extravagância tanto quanto a vulgaridade; imagina soluções fáceis e rápidas para todos os problemas do mundo e lamenta sinceramente que uma conspiração de hipócritas, corruptos ou incompetentes esteja a impedir a aplicação da sua panaceia; tem opiniões pessoais a propósito de tudo e faz questão de expressá-las; reverencia os valores universais e também o torrão natal; acompanha com paixão as notícias (inclusive o fait divers), mas tem saudade dos “bons e velhos tempos”; experimenta volúpias de grandeza moral quando, diante de uma plateia, mostra-se indignado face ao “descalabro” da "situação atual”, ou enlevado com a beleza - sempre "comovente" - de uma autêntica obra de arte. Na sua profunda incapacidade de calar-se e refletir, o filisteu demonstra que, não menos que a natureza, tem horror ao vazio, razão pela qual o niilismo e o ceticismo lhe são absolutamente estranhos.

Para o bem da espécie humana e salvaguarda geral das nações, o filisteu-tipo que acabamos de desenhar não pode ser encontrado em estado puro nas condições ambientais normais, mas os traços de filistinismo, embora disseminados por todos os segmentos da sociedade, concentram-se nas frações inferiores da burguesia: os pequenos e médios empreendedores, os proprietários de imóveis de aluguel, os quadros subalternos que servem de capatazes aos gerentes do capital, os médicos, advogados e engenheiros que não conseguiram alcançar um status à altura de seus diplomas universitários, os profissionais da educação, os técnicos de maneira geral, os empregados melhor remunerados do setor de serviços.

Espremido entre a grande burguesia reluzente e a massa desbotada dos desclassificados, o pequeno-burguês pensa que sua posição, a cavaleiro da luta de classes, permitir-lhe-ia resolver o impasse e decidir o bem-comum.  E o que poderia ser melhor para todos senão o que é bom para a pequena-burguesia? Paz, prosperidade, harmonia familiar, amor, trabalho, oportunidades, esforço individual, empreendedorismo, recompensa financeira, gratificação emocional, segurança, tranquilidade e, se Deus quiser, um pouco de arte e diversão. Nessa tópica de horóscopo matinal, a summa summarum dos ideais de uma classe.

Por estar tão próxima da massa dos trabalhadores de baixa qualificação, que lhe presta serviços variados sob a rubrica de “moças da limpeza” ou “rapazes do conserto”, a pequena-burguesia anseia por distinção: a instrução diplomada exibida na pronúncia escandida exageradamente didática; a boa educação nos ademanes fora de hora; o requinte da xícara acompanhada do pires; a diversão das séries do Netflix; o cobiçado estágio “no exterior”; o conforto do sofá novo, do carro do ano e da conta conjunta superprime; as duas horas de fila para ver os impressionistas, tão impressionantes; os nenúfares de Monet na capa da agenda ou nos marca-páginas do livro mais vendido de não-ficção da revista Veja.  Esse esforço de distinguir-se da massa pobre de serventes e auxiliares com ensino fundamental incompleto consome os recursos e as energias da pequena-burguesia, sempre tão assombrada por pesadelos de declínio, crise e altos impostos. O pequeno-burguês padece no seu lar. O mundo, que lhe sorri e acena com promessas de oportunidades, é terrivelmente opaco e incompreensível.

As altas esferas do capital, porém, o fascinam. Não o capital impessoal, não o capital-processo, não o Sujeito Automático de Marx, já que no seu fetichismo às avessas o pequeno-burguês enxerga as relações abstratas e reificadas apenas na forma de "histórias humanas" em que o capital se faz carne. Daí o interesse pelos perfis dos megainvestidores elencados periodicamente pela Forbes, os emblemáticos “homens mais ricos do mundo”, que os pequenos-burgueses perplexos ora admiram como heróis de sucesso, ora infamam como bandidos ("a propriedade é um roubo” dizia o pequeno-burguês Proudhon).  Dilacerada por essa ambivalência face ao grande capital, a pequena burguesia não alcança a coerência política: ela pode aderir irrefletidamente a programas neoliberais que, cumpridos à risca, destruiriam o pequeno patrimônio de que dispõe; ou pode aceitar, com a mesma falta de reflexão, um radicalismo de esquerda que pende para o irracionalismo e descamba numa revolta que dificilmente vai além do impropério ou do "desabafo" irritado de alguma bela alma infeliz.

Incerta em suas prerrogativas de classe, dividida entre o ressentimento e a autocomplacência, a pequena-burguesia é um repositório de paixões tristes. Sem recursos para realizar suas fantasias de reforma universal, resta-lhe encenar de maneira cabotina um engajamento ansioso por soluções finais e explosivas, como já havia mostrado Drummond de Andrade num poema célebre, verdadeiro mea culpa do pequeno-burguês impotente que se revolta contra o mundo no recôndito do apartamento recém-adquirido:

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

(“Elegia 1938” in Sentimento do Mundo)

Não se poderia dizer mais nem melhor. Drummond conhecia todos os fios retorcidos que compunham o eu de uma certa burguesia brasílica. Todavia, o apequenamento da burguesia, embora justifique o feitio delicado do monstro filistino, não explica suas pretensões de sapiência nem suas audácias judicativas, demonstração que deixo para o próximo momento.


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Paulo Eduardo Arantes, Uma irresistível vocação para cultivar a própria personalidade, Trans/form/Ação, vol. 26 nº2, Marília, 2003 | Mathew Arnold, Heinrich Heine, Philadelphia, Frederick Leypoldt; New York, F.W. Christern, 1863; Culture and Anarchy, Smith, Elder and Co. London, 1869 | David Beech, John Roberts (editors), The Philistine Controversy, Verso, London, New York, 2002 | Gérard Bensussan, Georges Labica, Dictionnaire Critique du Marxisme, Quadrige/PUF, Paris, 1982 | Norberto Bobbio, Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política, Editora Unesp, São Paulo, 1995 | Pierre Bourdieu, A distinção. Crítica social do julgamento, Zouk, Porto Alegre, 2015 | Lucio Colletti, Marx, Dialética, Capital: Entrevista de Lucio Colletti com Perry Anderson, publicada originalmente em New Left Review I/86, Julho-Agosto 1974 in revista Sinal de Menos, nº 10, vol. 11, 2014 | Adeline Daumard, Hierarquia e Riqueza na Sociedade Burguesa, Perspectiva, São Paulo, 1985 | Umberto Eco, Apocalípticos e Integrados, Perspectiva, 1979 | São Paulo, Klaus Eder, "Culture and Crisis: making sense of the crisis of the work society" in Theory of CultureRichard Münch, Neil J. Smelser (editores), University of California Press, Berkeley, Los Angeles, Oxford, 1992 | James Gilbert, "Midcult, Middlebrow, Middle Class" in Reviews in American History, vol. 20, nº 4 (Dec. 1992) | Heinrich Heine, Italie, Première Partie, Voyage de Munich à Gènes in Oeuvres de Henri Heine,  Eugène Renduel, Paris, 1834 | Albert Hirschman, As Paixões e os Interesses. Argumentos políticos a favor do capitalismo antes do seu triunfo, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1979 | Nicola Humble, "Sitting forward and sitting back: highbrow v. middlebrow reading" in Modernist Cultures 6. 1, Edinburgh University Press, 2011 | Russell Lynes, "Highbrow, Lowbrow, Middlebrow" (1949) in The Wilson Quarterly, vol. 1, nº 1 (Autumn, 1976) | Dwight Macdonald, "Masscult & Midcult" in Against the American Grain, Da Capo Press, New York, 1983 | James Martin (editor), The Poulantzas Reader, Verso, London, New York, 2008 | Abraham Moles, O Kitsch, Perspectiva, São Paulo, 1982 | Franco Moretti, O burguês: entre a literatura e a história, Três Estrelas, São Paulo, 2014 | Estelle Morgan, "Bourgeois and Philistine" in The Modern Language Review, vol. 57, nº 1 (Jan. 1962) | Vladimir Nabokov, Lectures on Russian Literature, Harvest Book, San Diego, New York, London, 2012  | Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, Relógio D’Água Editores, Lisboa, 1998; Obras Incompletas, coleção Os Pensadores, Abril Cultura, São Paulo, 1978; Assim falou Zaratustra, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1987 | Dolf Oehler, Quadros Parisienses. Estética Antiburguesa 1838-1848, Companhia das Letras, São Paulo, 1997 | Nicos Poulantzas, Les classes sociales dans le capitalisme aujourd'hui, Éditions du Seuil, Paris, 1974 | Joan Shelley Rubin, The making of the middlebrow culture, University of North Caroline Press, Chapel Hill & London, 1992 | George Santayana, What is a Philistine?, The Harvard Monthly, May, 1892 | John Scott (org), A Dictionary of Sociology, Oxford University Press, Oxford, 2014 | Werner Sombart, Le bourgeois. Contribution à l’histoire morale et intellectuele de l’homme économique moderne, Petite bibliothèque Payot, Paris, 1966 | Tornstein Veblen, A Teoria da Classe Ociosa, coleção Os Pensadores, Abril Cultural, São Paulo, 1980 | Max Weber, A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo, Companhia das Letras, São Paulo, 2004 | Raymond Williams, Culture and Society, 1780-1950, Anchor Books, New York, 1958; Cultura e Materialismo, Editora Unesp, São Paulo, 2011; Keywords. A vocabulary of culture and society revised edition, Oxford University Press, New York, 2015 | Eric Olin Wright, "Social Class" in G. Ritzer (editor), Encyclopedia of social theory, Sage, Thousand Oaks, 2004







quarta-feira, 15 de junho de 2016

Burgueses e filisteus: uma introdução








De volta ao velho camaleão: 

o burguês




Éramos jovenzinhos, quase todos mais ou menos punks, a maioria filhos de metalúrgicos. O ano era 1979. Nos bate-bocas no pátio da escola, a pecha de “burguês” constituía a pedra fácil que sempre saltava à mão. Era o insulto rotineiro e previsível que cuspíamos com desdém na face de qualquer guri de cabelo um pouco mais amanhado, que exibisse um par de tênis novo e caro. Ser um “burguês” não indicava pertencimento a uma classe social – a qual, de resto, só conhecíamos na figura dos “ricos” das telenovelas -; ser “burguês” denotava um comportamento que combinava afetação e um certo querer ser mais do que os outros, em desafio à nossa solidariedade compacta de gente trabalhadora de origem migrante ou imigrante. O “burguês” era o traidor, aquele que não queria ser um de nós porque desprezava nossa rudeza.

No momento tenso de degelo da ditadura militar (o atentado fracassado no Pavilhão Riocentro ocorreu em 1981), os jovens que tinham contato com o marxismo – inclusive este Sobrinho de Enesidemo que ora escreve - tachavam de “burguês” quem podia adquirir as novidades "bacanas" que "pintavam" nas lojas sem se importar com o que estava acontecendo no país. Mais uma vez, a palavra “burguês” não indicava o membro de uma classe social, mas o entusiasta de uma certa prática: o hedonista alheio à vida política mas com dinheiro suficiente para gastar em consumo, a despeito da inflação "galopante" que assolava o país, e – escândalo dos escândalos! - na condição de lucrar com aplicações overnight. Para nós, soixante-huitards retardatários, “burguesa” era sobretudo a ideologia dominante que o “sistema” secretava como dos pântanos de outrora emanavam miasmas fatais. Para nos livrarmos do contágio da coisa abominável, para não incidirmos no pecado capital da “alienação”, repetíamos uns aos outros as jaculatórias anticapitalistas, antiburguesas e antiimperialistas, o tesouro comum paulatinamente acumulado desde a temporada de caça de 1793-1794, passando pelas jornadas insurrecionais de 1848 e 1871, pelas gloriosas revoluções comunistas e pela Grande Recusa na década de 1960.

Para 0s infantes marxistas da turma de 82 que abandonavam o catolicismo em favor da religião de Bach e Schoenberg, Duccio e Klee, Dante e Rimbaud, havia mais uma fonte de hostilidade à burguesia: o desprezo pelo burguês como inimigo das Letras e das Artes, o adversário de todas as vanguardas, o tipo tacanho, conservador e preconceituoso, sempre convencido da verdade universal de suas opiniões a respeito de estética, política ou moral. Enfim, o filisteu, antigo insulto germânico que aprendíamos com Heine, Nietzsche e Karl Kraus.

É a respeito desse tipo que eu quero falar nas próximas semanas, agora que a coisa antiga e aparentemente extemporânea retorna ao proscênio, sem rebuços, nas mesóclises do presidente interino, no desenxabido da corte (ou coorte) brasiliense, na fatiota dos causídicos e eminentes juristas, na allure dos misangélicos in nomini domini. Um desfile da tropa do trapo digno de um óleo de Ensor ou de Grosz.

Marchemos, então, companheiros de Davi, contra os quarteis de Golias. E que o leitor nos perdoe por não nos distanciarmos devidamente do fartum que emana do ajuntamento de bestas.

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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Aviso aos navegantes








Aviso aos navegantes




No último capítulo da nosso folhetim, depois da tensa entrevista em que Lenin se esquivou dialeticamente a qualquer compromisso definitivo com a democracia, o Sobrinho de Enesidemo leu o comunicado célebre que anunciava a queda de Kerenski:


Aos cidadãos da Rússia!

O Governo Provisório foi deposto. O poder de Estado passou para as mãos dos órgãos do Soviete de deputados operários e soldados de Petrogrado – o Comitê Militar Revolucionário -, que se encontra à frente do proletariado e da guarnição de Petrogrado.
A causa pela qual o povo lutou – a procura imediata de uma paz democrática, a supressão da propriedade privada latifundiária da terra, o controle operário sobre a produção, a criação de um Governo Soviético – esta causa está assegurada.
Viva a revolução dos operários, soldados e camponeses!
25 de outubro de 1917, 10 da manhã

Com o privilégio garantido aos pósteros de saltar à vontade pelo tempo pretérito, pretendo retornar mais adiante ao curso da revolução. Por ora, suspendo meu folhetim marxista para juntar forçar pois o centenário se aproxima.

Infortunadamente, o Sobrinho de Enesidemo vive num mundo em que o populacho inquieto e ruidoso acalenta a ilusão de que a tolice crassa, a instrução lacunar e a hidrofobia pertinaz se tornem virtudes quando batizadas de "anticomunismo", o penúltimo refúgio dos patriotas de Samuel Johnson. E pensar que é essa cainçalha que escancara as fauces para defender o valor da pessoa, da justiça e da ordem moral! O sábio Burke e o discreto Voegelin, cujos nomes foram tantas vezes invocados em vão, de certo envergonhar-se-iam da estridência dos Reinaldos e Olavos, tão dados à filáucia quão vezeiros na chulice. 

Não obstante o uivo da matilha, A claraboia e o holofote voltará em 2017 para acompanhar os lances dramáticos da revolução sob o governo bolchevique. Até lá, O Sobrinho de Enesidemo tratará de outros assuntos, todos eles extemporâneos, todos eles bem afastados do fartum que emana do ajuntamento de bestas.







quinta-feira, 26 de maio de 2016

A claraboia e o holofote #30 (IV)





Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista





 Lenin




 Uma entrevista com Lenin:
o argumento de ponta a ponta


As regras eram as mesmas que adotamos na entrevista com Rosa Luxemburg (A claraboia e o holofote #29 XIV) Conforme a Primeira Diretriz Temporal, deveríamos evitar qualquer referência aos fatos posteriores àquela noite do começo de outubro (calendário juliano) de 1917. A agitação tomava as ruas de Petrogrado, fazia frio e o tempo era escasso, mas Vladimir Ilitch não se furtou a enunciar alguns de seus pontos de vista e elucidar algumas de suas teses.


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O sobrinho de Enesidemo: Como o sr. vê a situação atual na Rússia?

Lenin: Na Rússia, é indubitável o momento da viragem da revolução. Graças ao engano dos socialistas-revolucionários e mencheviques, permaneceu e permanece sob a república, durante a revolução, ao lado dos Sovietes, o governo dos capitalistas e latifundiários. Tal é a amarga e terrível realidade. Que tem pois de surpreendente que na Rússia, com as inauditas calamidades causadas ao povo pelo prolongamento da guerra imperialista e pelas suas consequências, tenha começado e cresça a revolução camponesa? O editorial do Delo Narodna, órgão oficial do partido socialista-revolucionário oficial, o mesmo que constantemente apoiou a coligação governante, dizia no último 29 de setembro:  “Até este momento quase nada se fez para suprimir as relações de servidão que ainda dominam no campo precisamente na Rússia central.” Será possível encontrar testemunho mais eloquente vindo do campo dos nossos adversários que confirme não só que a coligação faliu, não só que os socialista-revolucionários oficiais, que toleram Kerenski, se tornaram um partido antipopular, anticamponês, contra-revolucionário, mas também que toda a revolução russa chegou a uma viragem? A vitória da revolução está agora assegurada aos bolcheviques. Estou profundamente convencido de que se esperarmos pelo congresso dos Sovietes e deixarmos passar agora o momento, deitaremos a perder a revolução.

O sobrinho de Enesidemo: Gostaria que o sr. esclarecesse dois pontos a respeito dessa sua última frase. Primeiro, a ala reformista da social-democracia alemã qualifica de “blanquismo” o ímpeto insurrecional dos socialistas mais radicais ou mais afoitos, entre os quais eles incluem o seu nome. Segundo, atualmente os partidos da Rússia duvidam que os bolcheviques possam tomar do poder. 

Lenin: A respeito do primeiro ponto, só tenho a responder que esses oportunistas, à frente dos quais está o tristemente famoso Bernstein, esquecem-se de que o próprio Marx disse que a insurreição é uma arte. Para ter êxito, a insurreição deve apoiar-se não numa conjuração, não num partido, mas na classe avançada. A insurreição deve apoiar-se no ascenso revolucionário do povo, num momento de viragem, em que a atividade das fileiras avançadas do povo seja forte e os inimigos vacilem. Quem se nega a tratar a insurreição como arte trai o marxismo e trai a revolução.
Quanto ao segundo ponto, todas as correntes partidárias, desde os democratas-constitucionalista-kornilovistas até os semi-bolcheviques, todos, com exceção dos bolcheviques, concordam que os bolcheviques sozinhos ou nunca se decidirão a tomar todo o poder de Estado nas suas mãos, ou se se decidirem e o tomarem, não poderão conservá-lo mesmo pelo mais curto período de tempo. Os democratas-constitucionalistas e os burgueses se esforçam por nos intimidar com as tarefas pretensamente insolúveis do poder, mas não devemos nos intimidar pelos gritos dos burgueses intimidados. Devemos nos lembrar firmemente de que nunca nos colocamos tarefas sociais “insolúveis”, todavia as tarefas perfeitamente solúveis dos passos imediatos para o socialismo só serão resolvidas pela ditadura do proletariado e do campesinato pobre. Mais do que nunca, mais do que em qualquer outro lugar, a vitória, e uma vitória duradoura, está assegurada ao proletariado na Rússia se tomar o poder.

O sobrinho de Enesidemo: O proletariado tem condições de atualmente conquistar o poder de Estado?

Lenin: Essa questão aponta para uma das tarefas mais sérias, mais difíceis, que se colocarão ao proletariado vitorioso. Não há dúvida que estas tarefas são muito difíceis, mas se nos esquivarmos ao cumprimento de tais tarefas, na prática será nula diferença entre nós e os servidores da burguesia. A dificuldade das tarefas da revolução proletária deve estimular os partidários do proletariado a um estudo mais atento e concreto dos meios para realizar essas tarefas.

O sobrinho de Enesidemo: O proletariado estaria qualificado para administrar o Estado?

Lenin: Não somos utopistas. Sabemos que um operário ou uma cozinheira não são capazes neste momento de começar a dirigir o Estado, mas rompemos com o preconceito de que administrar o Estado é coisa para os ricos ou funcionários provenientes de famílias ricas. Nós exigimos que a aprendizagem dos assuntos da administração do Estado seja realizado pelos operários e soldados conscientes.

O sobrinho de Enesidemo:  O que o sr. pensa a respeito dessa passagem do Manifesto Comunista, que se encontra no final da seção II:

“Vimos que a primeira fase da revolução proletária é a elevação do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia.
O proletariado usará sua supremacia política para arrancar pouco a pouco todo o capital da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, o proletariado organizado como classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível o total das forças produtivas.
Isso naturalmente só poderá ser realizado, a princípio, por intervenções despóticas no direito de propriedade e nas relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção. (...)
Quando, no curso do desenvolvimento, desapareceram os antagonismos de classe e toda a produção for concentrada nas mãos dos indivíduos associados, o poder público perderá seu caráter político. O poder político é o poder organizado de uma classe para a opressão de outra. Se o proletariado, em sua luta contra a burguesia, se organiza forçosamente como classe, se por meio de uma revolução se converte em classe dominante e como classe dominante destrói violentamente as antigas relações de produção, destrói, juntamente com essas relações de produção, as condições de existência dos antagonismos entre as classes, destrói as classes em geral e, com isso, sua própria dominação como classe.
Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e seus antagonismos de classes, surge uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos.”

O sr. acredita que a revolução em curso neste mês de outubro é a autêntica realização dessas palavras de Marx e Engels?

Lenin: Nessa passagem se encontram algumas das ideias mais notáveis do marxismo a respeito da questão do Estado. O Estado, como Engels disse em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, é um produto e a manifestação do caráter inconciliável da luta de classes. O Estado surge precisamente quando as contradições de classe não podem ser conciliadas. A existência do Estado não pode ser dissociada da luta de classes e da opressão de uma classe por outra. Portanto, a classe operária revolucionária vitoriosa exercerá sua dominação sobre a burguesia. A partir da Comuna de Paris, Marx e Engels passaram a chamar de “ditadura do proletariado” aquilo que no Manifesto aparece como “o Estado, isto é, o proletariado organizado como classe dominante”. Essa definição do Estado, absolutamente inconciliável com o reformismo, é uma verdadeira bofetada na cara dos preconceitos oportunistas habituais e das ilusões filistinas quanto ao desenvolvimento pacífico da democracia.
Note que a única correção que Marx julgou necessário fazer nessas palavras do Manifesto Comunista foi feita por ele na base da experiência revolucionária dos communards parisienses.

O sobrinho de Enesidemo: No entanto, é bastante conhecido que antes da Comuna, em outubro de 1870, num dos manifestos da Associação Internacional do Trabalho, Marx advertiu os operários parisienses que a tentativa de derrubar o governo seria uma besteira desesperada.

Lenin: Sim, mas é também verdade que, em março de 1871, quando a batalha decisiva se impôs aos operários, Marx a saudou com o maior entusiasmo e não só pelo heroísmo dos communards! No movimento revolucionário das massas, se bem que não tivessem atingido o seu fim, Marx via uma experiência histórica com uma importância imensa, um passo em frente da revolução proletária mundial. Analisar esta experiência, tirar dela lições de tática, rever na base dela a sua teoria, eis como Marx colocou a sua tarefa.

O sobrinho de Enesidemo: Uma análise concreta da situação concreta, como o sr. costuma dizer.

Lenin: No último prefácio que Marx e Engels assinaram juntos da edição alemã do Manifesto Comunista, datado de 1872, lê-se que “a Comuna forneceu a prova de que a classe operária não pode limitar-se a tomar conta da máquina de Estado que encontra montada e pô-la em funcionamento para atingir seus próprios objetivos”. Noventa e nove por cento dos leitores do Manifesto Comunista ignoram o sentido dessa correção. Marx ensinou, com base na experiência da Comuna de Paris, que o proletariado não pode simplesmente apossar-se da máquina do Estado, que o proletariado tem de destruir essa máquina e substitui-la por uma nova. Falo disso mais pormenorizadamente numa brochura de que a primeira parte já está terminada e que em breve se publicará com o título O Estado e a Revolução. A doutrina do marxismo sobre o Estado e as tarefas do proletariado na revolução. Essa nova máquina do Estado foi criada pela Comuna de Paris, e os Sovietes de deputados operários, soldados e camponeses russos são um “aparelho de Estado” do mesmo tipo. Eu apontei muitas vezes esta circunstância desde 4 de abril.

O sobrinho de Enesidemo: Mesmo assim, desde fevereiro, os sovietes não tiveram resultados satisfatórios diante dos problemas vividos pelas massas...

Lenin: Os sovietes nunca tiveram a plenitude do poder, e suas medidas nunca puderam ser mais que paliativos que aumentaram a confusão. O método da burguesia consiste em, não dando o poder aos Sovietes, sabotando todos os seus passos sérios, conservando o governo e o poder, atirar para cima dos sovietes toda a culpa pela ruína!

O sobrinho de Enesidemo: E quais seriam os méritos dos sovietes?

Lenin: Os sovietes são um novo aparelho de Estado que, em primeiro lugar, proporciona a força armada dos operários e dos camponeses, e esta força não está, como a força do velho exército permanente, separada do povo, mas ligada a ele do modo mais estreito. Em segundo lugar, este aparelho proporciona uma ligação estreita e indissolúvel com as massas. Em terceiro lugar, em virtude da elegibilidade e da amovibilidade de sua composição, sem formalidades burocráticas, é muito mais democrático que os anteriores. Em quarto lugar, proporciona uma forma de organização de vanguarda, isto é, da parte mais consciente, mais enérgica e mais avançada das classes oprimida, sendo desta maneira um aparelho mediante o qual a vanguarda da classe oprimida pode elevar, educar, instruir e guiar toda a gigantesca massa dessa classe, que estava fora da vida política, fora da história. Em quinto lugar, proporciona a possibilidade de reunir as vantagens do parlamentarismo com as vantagens da democracia imediata e direta, isto é, de unir na pessoa dos representantes do povo tanto a função legislativa como a execução das leis. Em comparação com o parlamentarismo burguês, isto é um passo em frente no desenvolvimento da democracia que tem importância histórica mundial.

O sobrinho de Enesidemo: Como o sr. vê a exigência de democracia, tão importante para marxistas revolucionários como Rosa Luxemburg ou Anton Pannekoek?

Lenin: A democracia tem uma importância enorme na luta da classe operária contra os capitalistas pela sua libertação. Mas a democracia não é de nenhum modo um limite intransponível, mas apenas uma das etapas no caminho do feudalismo para o capitalismo e do capitalismo para o comunismo.

O sobrinho de Enesidemo: O sr. quer dizer que a democracia não seria um estado final ou uma meta, mas um momento transitório e contraditório do processo?

Lenin: É exatamente isso. A república democrática é o melhor invólucro político possível para o capitalismo. O capital, depois de se ter apoderado deste invólucro, alicerça o seu poder tão solidamente, tão seguramente, que nenhuma substituição de pessoas, de instituições ou de partidos na república democrática burguesa abate esse poder. O resultado é uma democracia numa insignificante minoria, democracia para os ricos, tal é o democratismo das sociedades capitalistas. Se se observa de perto o mecanismo da democracia capitalista, veremos por todo lado restrições, exceções, exclusões e obstáculos para os pobres. No conjunto, essas restrições eliminam os pobres da participação ativa na democracia.  Mesmo assim, a república democrática é a melhor forma de Estado para o proletariado sob o capitalismo, mas não se pode esquecer que a escravatura assalariada é o destino do povo mesmo na república burguesa mais democrática.

O sobrinho de Enesidemo: Diferentemente do sr., Rosa Luxemburg vê a democracia não apenas como uma forma de Estado, mas também como uma meta e uma característica das lutas emancipatórias do proletariado.

Lenin: A democracia é uma forma de Estado, uma das suas variedades. E, consequentemente, ela representa, como qualquer Estado, a aplicação organizada e sistemática da violência sobre as pessoas. Isto por um lado. Mas, por outro lado, significa o reconhecimento formal da igualdade entre os cidadãos, do direito igual para todos de determinar a organização do Estado e de o dirigir. E isto, por sua vez, liga-se ao fato de que num certo grau de desenvolvimento da democracia, ela, em primeiro lugar, une a classe revolucionária que está contra o capitalismo e permite ao proletariado demolir a máquina do Estado, o exército, a polícia, o funcionalismo, e substituí-los por uma máquina de Estado mais democrática, mas ainda uma máquina de Estado, sob a forma das massas operárias armadas.

O sobrinho de Enesidemo: Não haveria maneira de dissociar a democracia do exercício da violência por parte de um Estado?

Lenin: Não se quisermos continuar marxistas revolucionários. A ideia de que a república democrática é a via de acesso mais próxima para a ditadura do proletariado perpassa como um fio vermelho toda a obra de Marx. A doutrina da luta de classes, aplicada à questão do Estado e da revolução socialista, conduz necessariamente ao reconhecimento do domínio político do proletariado, da sua ditadura, isto é, de um poder não-partilhado com ninguém e que se apoia diretamente na força armada das massas. O derrubamento da burguesia só pode ser realizado pela transformação do proletariado em classe capaz de reprimir a resistência inevitável e desesperada da burguesia e de organizar para um novo regime de economia todas as massas trabalhadoras e exploradas. Lembre-se que a passagem do Manifesto Comunista que discutimos identifica a conquista da democracia com a elevação do proletariado à classe dominante, que fará intervenções despóticas para destituir a burguesia de todo o seu capital.

O sobrinho de Enesidemo: A revolução operária e a consequente ditadura do proletariado não trazem em si o germe de um governo autoritário?

Lenin: Como poderia ser de outro modo! Engels escreveu que “uma revolução é certamente a coisa mais autoritária que existe, um ato pelo qual uma parte da população impõe sua vontade à outra parte por meio de espingardas, baionetas e canhões – meios todos eles muito autoritários; e o partido que triunfou tem de afirmar o seu domínio por meio do medo que suas armas inspiram aos reacionários.
Só quando a resistência dos capitalistas estiver definitivamente quebrada, quando não houver mais classes, só então o Estado desaparecerá e se poderá falar em liberdade. Só então se tornará possível e será realizada uma democracia verdadeiramente plena. E só então a democracia começará a extinguir-se devido à simples circunstância de que, libertos da escravatura capitalista, os homens habituar-se-ão a observar as regras elementares de convivência sem o aparelho especial de coação chamado Estado.
De qualquer modo, o desenvolvimento da democracia até o fim, a procura de formas desse desenvolvimento, a sua comprovação na prática, etc., tudo isso é uma das tarefas integrantes da luta pela revolução social.

O sobrinho de Enesidemo: O que deve acontecer com o Estado logo após a vitória do proletariado?

Lenin: Além do aparelho predominantemente de opressão do exército permanente, da polícia e do funcionalismo, existe no Estado atual um aparelho ligado de modo particularmente estreito aos bancos e às associações de empresas. Trata-se de um aparelho que efetua grande quantidade de trabalho de cálculo e registro. Este aparelho não pode nem deve ser destruído. Sem os grandes bancos, o socialismo é irrealizável.  Registro e controle – eis o principal que é necessário para a organização e para o funcionamento regular da primeira fase da sociedade comunista. Toda sociedade será um único escritório e uma imensa fábrica, com igualdade de trabalho e igualdade de salário.
Um social-democrata alemão muito espirituoso disse que os correios eram um modelo de empresa socialista. Isso é justo. Os correios são agora uma empresa organizada segundo o tipo de monopólio capitalista de Estado. O imperialismo está transformando progressivamente todos os trusts em organizações de tipo semelhante. Quando derrubados os capitalistas, quebrada a resistência dos exploradores, demolida a máquina burocrática do Estado, então teremos diante de nós um mecanismo de elevado equipamento técnico. Toda a economia nacional será organizada como os correios, de forma que todos os funcionários recebam um vencimento que não exceda um salário de operário, sob o controle e a direção do proletariado armado: eis o nosso fim imediato.

O sobrinho de Enesidemo: Essa disciplina férrea não se tornará uma nova forma de opressão?

Lenin: A disciplina fabril que o proletariado, depois de ter vencido os capitalistas e derrubado os exploradores, tornará extensiva a toda sociedade, não é de forma alguma nem o nosso ideal nem o nosso objetivo final, mas apenas um degrau necessário para limpar radicalmente a sociedade da baixeza e das ignomínias da exploração capitalista e para continuar o movimento para frente.

O sobrinho de Enesidemo:  Para encerrar, o sr. diria que a revolução socialista deve destruir a máquina do Estado e, ao mesmo tempo, manter a máquina do Capital?

Lenin: É mais exato dizer que o socialismo não pode ser imaginado sem a técnica do grande capital. 



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Poucos dias depois da entrevista, a população de Petrogrado recebeu este comunicado escrito por Lenin:



Aos cidadãos da Rússia!

O Governo Provisório foi deposto. O poder de Estado passou para as mãos dos órgãos do Soviete de deputados operários e soldados de Petrogrado – o Comitê Militar Revolucionário -, que se encontra à frente do proletariado e da guarnição de Petrogrado.
A causa pela qual o povo lutou – a procura imediata de uma paz democrática, a supressão da propriedade privada latifundiária da terra, o controle operário sobre a produção, a criação de um Governo Soviético – esta causa está assegurada.
Viva  a revolução dos operários, soldados e camponeses!
25 de outubro de 1917, 10 da manhã
(7 de novembro, no calendário gregoriano)

Caminhei devagar junto ao Nieva, pensando no Cavaleiro de Bronze e em Crime e Castigo. Três jovens bolcheviques que passavam me olharam com desconfiada curiosidade. É bem possível que jamais tivessem visto antes o rosto de um cético. 


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As respostas de Lenin foram tomadas das seguintes obras: O Estado e a Revolução | A crise amadureceu | Marxismo e insurreição | Os bolcheviques conservarão o poder? Sobre o infantilismo esquerdista e o espírito pequeno-burguês in V.I. Lenin, Obras Escolhidas, tomo 2, Edições Avante e Edições Progresso, Moscou, 1978


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Thaís Florencio Aguiar, Demofilia e demofobia: dilemas da democratização, Azougue Editorial, Rio de Janeiro, 2015 | Tom Bottomore (editor), Dicionário do Pensamento Marxista, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997 | François Chatelet  (editor), Dicionário de Obras Políticas, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1993 | Monty Johnstone, “Lenin e a Revolução” in História do Marxismo volume 5, Eric Hobsbawn (org.), Paz e Terra, 1985 | Tamás Krausz, Reconstructing Lenin: an intelectual biography, Monthly Review Press, New York, 2015 | Robert Kurz, O Colapso da Modernização, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1976 | George Labica (editor), Dictionnaire Critique du Marxisme, Presses Universitaires de France, Paris, 1982 | George Lichtheim, El Marxismo: un estudio histórico y crítico, Editorial Anagrama, Barcelona s/d | Domenico Losurdo, A luta de classes: uma história política e filosófica, Boitempo, São Paulo, 2016 | Michal Reiman, “Os bolcheviques desde a guerra mundial a outubro” in História do Marxismo volume 5, Eric Hobsbawn (org.), Paz e Terra, 1985 | Robert Service, Lenin: a biography, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 2000





Ein Marxist hat nicht das Recht, Pessimist zu sein. 


вся власть Советам!