quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XIII)







Cenas da Revolução de 17



cena VIII



Kornilov



"The reminscences of my childhood 
in Simbirsk connect me 
with the Lenin (Ulianov) family. 
In my youth fate brought me 
together with Korniloff."

Kerensky, The Catastrophe






[O  militar golpista de direita retratado por Kerenski]




A capital do Turquestão Russo era, acima de tudo, um centro militar. Muitas das figuras principais da Grande Guerra, particularmente os oficiais do Estado-Maior, serviram em algum momento de suas carreiras em Tashkent. Entre elas estava o jovem capitão Kornilov, que chegou a Tashkent imediatamente após sua graduação na Academia Militar. De compleição magra, esbelto e rijo, com olhos amendoados à maneira dos calmucos, Kornilov era de origem simples. (“Eu sou o general Kornilov, camponês, filho de um cossaco” escreveu o futuro general rebelado em uma das suas proclamações ao povo). O general Kornilov passava pouco tempo  nos salões da moda, embora suas portas estivessem sempre abertas para qualquer oficial do Estado-Maior, e não tinha gosto pelas damas nem pelas rodas sociais.  Era considerado um bocado tímido e até um tanto “bárbaro”.

Logo o capitão Kornilov se tornou o assunto da capital. Tendo dominado um dos dialetos locais, o capitão se lançou a um empreendimento corajoso. Sozinho, disfarçado de mercador nativo, ele entrou no estado-tampão entre o Turkestão e a Índia Britânica, nessa época o coração do Afeganistão, território proibido para todos os estrangeiros, em especial os militares. No seu retorno a Tashkent, o jovem capitão se tornou o herói do momento. Contudo, ele não se deixou levar pelas perspectivas de sucesso social. Logo ele surpreendeu novamente a “alta sociedade” da capital provincial ao casar-se com a filha de um oficial de baixa patente. Isso já era demais: as portas da sociedade se fecharam para ele!

Muitos anos depois, quase na véspera de sua revolta contra o Governo Provisório, o General Kornilov, Comandante-em-chefe, tomou café da manhã comigo no Palácio de Inverno. Depois de uma conversa bastante tensa em meu escritório, tivemos um bate-papo leve no momento do café.

“Você provavelmente não se lembra de mim”, disse o general Kornilov em tom jocoso. “Eu costumava visitar a sua família e até dançar em sua casa em Tashkent”.

“É claro que ninguém se esqueceria disso”, respondi, relembrando a impressão produzida pela sua ousada expedição ao Afeganistão.

Kornilov permaneceu toda a sua vida um homem de gostos simples, um homem do povo. Não havia nele nada de um burocrata hereditário ou de um aristocrata latifundiário. Aliás as três figuras do movimento “branco” – Kornilov, Alexeiev e Denikin – eram todas de origem humilde e abriram seu caminho até o topo da hierarquia militar pelos seus próprios esforços. Por serem pobres, eles experimentaram todos os fardos de uma carreira de oficial no antigo regime. Todos os três eram decididamente hostis aos elementos privilegiados no exército, representado pelos Guardas. Todos os três tiveram um brilhante registro na Academia Militar. Todos os três fizeram avanços rápidos durante a Guerra, que arruinou tantas carreiras brilhantes, aquele tipo de avanço promovido nos círculos da corte e nas antessalas ministeriais.

Já em 1915, Alexeiev chegou ao Quartel-General como chefe do Estado-Maior do Comandante-em-chefe, o czar Nicolau II. A eclosão da Revolução encontrou Denikin e Kornilov no front. Ambos fizeram um trabalho notável em todas as operações no front da Galícia. Em uma operação desafortunada, no qual mostrou toda a sua ousadia e bravura, Kornilov foi feito prisioneiro pelos austríacos. Sua fuga audaciosa e seu retorno espetacular às linhas russas se tornaram uma das fontes de uma espécie de lenda korniloviana, que não chegou a alcançar, porém, as grandes massas populares e a base do exército.

De todos os três futuros líderes do Exército Branco, Kornilov era o menos talhado para o trabalho político. Do outro lado, o general Alexeiev tinha considerável perspicácia política, mas era demais para um político. Em ciência militar, Kornilov não era um estrategista, mas somente um tático, o que correspondia inteiramente à sua natureza impulsiva e irrefletida, dada a não perder tempo em considerações nos momentos de perigo e agindo com ousadia, rápido como um relâmpago e esquecido das possíveis consequências.

Aparentemente foi exatamente essa características de grande determinação e zelo, nem sempre desejáveis em líderes militares responsáveis, o que impediu a ascensão de Kornilov. Até a Revolução, ele permaneceu na sombra. Depois da Revolução, sua carreira se desenvolveu contrariamente à vontade de seus superiores militares imediatos. Sua própria indicação nos primeiros dias da Revolução como comandante do distrito militar de Petrogrado não conseguiu obter o apoio do general Alexeiev. Contudo, no seu posto o general Kornilov se mostrou inteiramente fraco, e não conseguindo lidar  com a guarnição de Petrogrado, ele retornou para o front em maio.

Imediatamente antes da sua renúncia como ministro da guerra, Gutchkov queria indicar Kornilov comandante do front noroeste, mas encontrou uma forte desaprovação do general Alexeiev, que, com a ameaça de sua renúncia, obrigou Gutchkov a abandonar essa intenção. Kornilov se tornou então comandante do 13º exército na Galícia, onde Zavoiko o encontrou.

Quando, na época do começo da contra-ofensiva alemã na Galícia, eu sugeri ao general Brusilov, comandante-em-chefe, a remoção do obviamente incompetente general Koutor e a sua substituição como comandante do front da Galícia pelo general Kornilov, eu encontrei em Brusilov a mesma oposição que Gutchov tinha encontrado em Alexeiev.  Mesmo assim, Kornilov foi indicado para o posto. Contrariando essa oposição das autoridades militares, o general Kornilov foi nomeado por minha sugestão, em primeiro de agosto, comandante-em-chefe do exército russo no lugar de Brusilov, que perdeu sua vontade de comandar.

Eu apresentei esse relato da carreira do general Kornilov para que o leitor possa entender os eventos que se seguiram e possa imaginar porque eu, até o último momento, não podia nem poderia ver no general Kornilov um dos conspiradores, a despeito de todas as indicações de uma conspiração militar em preparação contra o Governo Provisório e da grande quantidade de evidências que eu reuni a respeito disso. Ao içá-lo ao posto mais alto do exército, face à oposição de seus superiores e da sua impopularidade entre a esquerda política, ao ignorar suas declarações extremamente indisciplinadas a respeito do Governo Provisório e, ao demonstrar em todas essas ocasiões muita paciência, acreditei firmemente que o soldado incomparavelmente corajoso não se envolveria num esconde-e-esconde político e não atiraria de emboscada.

Para grande infortúnio da Rússia foi o que aconteceu.

(Alexander F. Kerensky, The Catastrophe: Kerenky's own story of the Russian Revolution, D. Appleton and Company, New York, 1927)











sexta-feira, 28 de julho de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XII)






Cenas da Revolução de 17



cena VII



Kerenski à frente da nova coalizão



"Com a renúncia dos ministros kadets  e do Príncipe Lvov, Kerensky se tornou, no dia 7 de julho, Primeiro-Ministro do governo socialista remanescente, que prosseguiu cambaleante até o dia 21 de julho. Aqueles que apoiavam Kerenski entre os SR [partido socialista revolucionário], tentaram deter a maré montante de pacifismo e de radicalização agrária entre os SRs criando uma facção coesa em torno do jornal Volya Naroda (Vontade do Povo). Os esforços de Kerensky para resolve a “Crise de Julho” no governo eram contrariados pelos ultimatos feitos pelos Kadets, pelo novo Comitê-Central dos Sovietes de toda a Rússia e pelos SRs. A crise foi causada pelas exigências do General Kornilov ao ser promovido ao Comando Supremo do Exército no dia 18 de julho. No dia 21, Kerensky renunciou e se retirou por vários dias. Na sua ausência, uma conferência dos líderes burgueses e dos Sovietes aconteceu no Palácio de Inverno. O resultado foi a Segunda Coalizão, cujos membros deveriam prestar contas apenas ao gabinete [e não mais aos Sovietes]. O novo governo, liderado por Kerenski, esperava angaria ganhar apoio público na Conferência de Estado que deveria se reunir em Moscou em Agosto.  

A segunda coalizão durou de 25 de julho até 27 de agosto. Suas realizações positivas foram obscurecidas pela disputa quase pública entre o Primeiro Ministro e o Comandante Supremo, que passou para a história como o “Caso Kornilov”. As exigências de Kornilov de agir sem interferência do governo, de restaurar a pena de morte no exército, de militarizar as fábricas e estradas de ferro e de criar um governo ditatorial circulavam, a princípio, apenas em pequenos círculos, mas os rumores de tensão persistiam. A Conferência de Estado em Moscou (12 a 15 de agosto) reuniu burgueses e socialistas, mas não conseguiu superar a dissensão entre eles. O próprio Kerenski encerrou a segunda coalizão em 27 de agosto ao exigir a renúncia de todos os ministros para assim poder afastar Kornilov, a quem ele acusava de motim. Kerensky era agora legalmente ditador".  

(The Blackwell Encyclopedia the Russia Revolution, “1917 and after Political Developments, Provisional Government”, Blackwell, Oxford, 1988,  pp. 126-127)












sexta-feira, 14 de julho de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XI)


 




Cenas da Revolução de 17



cena VI



As Jornadas de Julho






"No decorrer do debate, Martov relembrou a observação de Cavour 
de que qualquer asno poderia governar por meio de estado de sítio. 
É como os bolcheviques governaram depois. 
Infelizmente estaria além da capacidade de Tseretli 
mesmo com a ajuda do estado de sítio."

Sukhanov, The Russian Revolution 1917



“A 2 de julho, à notícia da contra-ofensiva alemã, os soldados e os operários dos subúrbios de Petrogrado começaram a agitar-se como em fevereiro. Depois, quando souberam que os ministros kadets tinham-se demitido sob o pretexto de que membros do governo haviam concluído um acordo com a Rada da Ucrânia, foram levados ao auge da indignação.

No Soviet, Zinoviev e Trotski censuraram os responsáveis, esses ministros kadets, agentes da contra-revolução no próprio seio do governo. Condenaram igualmente os membros do Comitê Executivo do Congresso dos Sovietes e exigiram sua detenção por não terem assumido o poder total, apesar de convidados a fazê-lo há várias semanas pelas fábricas e pelos regimentos da capital.

Estes apelos a uma manifestação repercutiam num ambiente já carregado: as ameaças dos cossacos, as advertências da Igreja e dos antigos líderes da Duma, a campanha da extrema-direita tinham sensibilizados os soldados para os perigos de uma reação. Os da retaguarda estavam furiosos por ver a disciplina retomar seus direitos, a guerra continuar, a Revolução terminar. Estavam prontos para responder à força com violência e os próprios bolcheviques ficaram surpreendidos e também preocupados com as reações que suas palavras de ordem tinham provocado.

Demonstrando sua cólera ao apelo do Pravda, os manifestantes se dirigiram para a sede dos Sovietes. Reprovaram violentamente seus líderes por não se apoderarem do poder, proferiram insultos e ameaças. Tchernov quis responde e quase foi linchado; escapou por um triz, graças a uma intervenção de Trotsky. Logo se produziram tumultos, chocando-se de um lado os marinheiros de Kronstadt, os soldados amotinados, uma parte dos manifestantes, e de outro tropas fiéis ao Soviet e ao governo. Houve cerca de 40 mortos e mais de 80 feridos. A volta à ordem deu lugar a cenas penosas, principalmente quando, na madrugada do dia 4 de julho, o exército dispersou  os operários de Putilov, suas mulheres e seus filhos, que tinham passado a noite em volta da sala do Congresso. Esses infelizes se haviam juntado à manifestação porque não tinham mais o que comer há vários dias.

Sabendo que contava com a direção dos Sovietes, o governo procedeu da maneira mais fácil: ignorou as causas profundas do descontentamento popular e acusou os bolcheviques que, por fim, se tinham unido ao movimento e haviam organizado manifestações em toda a Rússia. (...) Para produzir um efeito decisivo e dar um caráter espetacular às acusações, Perevertchev, Ministro da Justiça, tornou públicos documentos que mostram ser Lenin um agente do Kaiser. (...) O caso teve uma repercussão considerável. Lenin fugiu par a Finlândia, onde permaneceu oculto sob um disfarce, e essa fuga conferiu crédito às acusações formuladas contra ele. Trostky, Zinoviev e alguns bolcheviques foram presos”.
(Marc Ferro, A Revolução Russa de 1917, Perspectiva, São Paulo, 2007, pp. 69-70)

* * *

“Assim, ao aproximar-se o fim do quarto mês, a Revolução de Fevereiro, politicamente falando, já se tinha esgotado. Os conciliadores tinham perdido a confiança dos operários e dos soldados. O conflito entre os partidos dirigentes dos sovietes e as massas soviéticas tornara-se desde então inevitável. Após o desfile de 18 de junho, o antagonismo entre os dirigentes e as massas devia, inelutavelmente, assumir caráter de violência declarada.

Foi assim que sobrevieram as Jornadas de Julho. Quinze dias após a manifestação organizada de cima para baixo, os mesmos operários e soldados saíram para a rua, dessa vez porém graças à própria iniciativa, e exigiram do Comitê-Executivo Central que assumisse o poder. Os conciliadores recusaram-se categoricamente. As Jornadas de Julho provocaram conflitos de rua, causaram vítimas e terminaram pelo esmagamento dos bolcheviques, declarados também responsáveis pela incapacidade do regime de fevereiro. A proposta que Tseretelli fizera, a 17 de junho, para que se declarasse os bolcheviques fora da lei e para que fossem desarmados – proposta repelida naquela época – foi posta integralmente em execução no começo de julho. Os jornais bolcheviques foram interditados. Os contingentes militares dos bolcheviques foram dispersos. Foram tomadas todas as armas aos operários. Os líderes do Partido foram declarados mercenários do estado-maior alemão. Uns viram-se forçados a esconder-se, enquanto que outros foram presos.

Foi, porém, precisamente em virtude da “vitória” alcançada em julho pelos conciliadores contra os bolcheviques, que a impotência da democracia se manifestou plenamente. Contra os operários e soldados, os democratas foram obrigados a lançar tropas notoriamente contra-revolucionárias, hostis não somente aos bolcheviques, como também aos sovietes. O Comitê-Executivo não possuía mais tropas fiéis”.
(Trotsky, História da Revolução Russa, vol. 1, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977, p. 383)





O SOBRINHO DE ENESIDEMO

2012-2017

5 ANOS


O adiamento

"Quando da célebre erupção do Helgafell, um vulcão
da ilha de Heimaey, transmitida ao vivo por uma dúzia
de equipes de TV a tossir sem parar, eu vi, sob a chuva sulfúrea
um homem de meia-idade, de suspensórios, que dava de ombros,
sem importar-se muito com a ventania, o calor,
as câmeras, as cinzas, os espectadores (inclusive eu,
acocorado em meu tapete, diante da tela azulada),
e investia com sua mangueira de jardim, delgada mas nítida,
contra a lava, até que finalmente vizinhos, soldados,
colegiais e mesmo bombeiros juntaram-se a ele, todos
apontando mais e mais mangueira para a lava incandescente
que avançava, erguendo um muro cada vez mais alto
de lava fria, endurecida pela água, cinzenta, e com isso
adiaram, não digo para sempre, não, mas ao menos
por enquanto, o naufrágio da civilização ocidental, de sorte que
as pessoas de Heimaey, uma ilha tão distante da Islândia,
a menos que tenham falecido de lá para cá, continuam
até hoje a acordar de manhã em suas casinhas de madeira
colorida e à tarde, longe do olhar das câmeras, regam a alface
adubada pela lava, que dá pés enormes em seus jardins,
só temporariamente, é claro, porém sem pânico".

Hans Magnus Enzensberger, O Naufrágio do Titanic, Canto X, 
Companhia das Letras, São Paulo, 2000









sexta-feira, 30 de junho de 2017

A claraboia e o holofote #31 (X)








Cenas da Revolução de 17



Cena V



fim de junho de 1917


“A capital estava fervilhando. O ânimo das massas e o desejo de uma ação decisiva cresciam a cada dia. Na capital não havia mais nenhuma necessidade de agitação contra a Coligação.

Por toda parte, em cada esquina, no Soviete, no Palácio Marinski, nas casas das pessoas, nas praças e nos bulevares, nos quartéis e nas fábricas, todos falavam sobre algum tipo de “manifestação” que se esperava a qualquer momento; ninguém sabia exatamente quem iria se “manifestar” ou como ou quando, mas a cidade sentia estar às vésperas de algum tipo de explosão. (...)

A primeira Coligação contra a revolução, sem esperar ser varrida por uma explosão de ira popular, rompeu como resultado de uma crise interna. Ela sobreviveu tanto quanto o gabinete Miliukov-Guchkov. (...)

E o que veio disso tudo? Um ‘episódio' grávido de consequências, que entraria para a história com as ‘Jornadas de Julho’.”


(N.N. Sukhanov, The Russian Revolution 1917: a personal record, edited, abridged and translated by Joel Carmichael, Princeton University Press, New Jersey, 1984, pp 419; 421; 423)













sexta-feira, 23 de junho de 2017

A claraboia e o holofote #31 (IX)







Cenas da Revolução de 17


Cena IV


A primeira coligação




"A Revolução, apesar da resistência da pretensa democracia, levantava novas armas, consolidava os sovietes e armava os operários, se bem que ainda de maneira limitada. Os Sovietes, a princípio órgãos de controle, transformavam-se em órgãos administrativos. Não se resignavam a qualquer teoria de divisão dos poderes e intervinham na direção do exército, nos conflitos econômicos, nas questões de abastecimento e de transporte, e mesmo nos negócios judiciários. Sob a pressão dos operários, os sovietes decretavam a jornada de oito horas, eliminavam os administradores por demais reacionários, destituíam os mais insuportáveis dentre os comissários do Governo Provisório, procediam a detenções e inquéritos, interditavam jornais hostis. À frente dos sovietes, entretanto, e por toda a parte, achavam-se socialistas revolucionários e mencheviques que repeliam, com indignação, a palavra de ordem bolchevique: ‘Todo o poder aos Sovietes’.

As jornadas de abril, porém, evidenciaram, a impotência do Governo Provisório, que não encontrou nem sequer na capital um lugar seguro. Da crise provocada em abril, podiam-se conceber teoricamente três saídas:  - a volta integral do poder à burguesia. Isto não era realizável senão pelo caminho da guerra civil. Miliukov tentou mas fracassou; - a entrega de todo o poder aos Sovietes: era possível chegar lá sem recurso à guerra civil, bastando para isto levantar apenas o braço, bastava querer. Os conciliadores, porém, não queriam querer e as massas ainda confiavam nos conciliadores, se bem que com alguma reserva. As duas saídas principais – tanto na linha burguesa como na linha proletária – estavam fechadas. Restava a terceira possibilidade: a semi-saída confusa, híbrida, covarde, das acomodações. Aquilo que se chama coligação.

Em 26 de abril, quando o terreno já se achava suficientemente preparado, o Governo Provisório, através de manifesto especial, proclamou a necessidade de associar aos trabalhos do Estado “as forças criadoras ativas do país, que ainda não haviam participado deles”.

Ao aceitar a coligação, os conciliadores supunham poder abolir pacífica e gradualmente o sistema soviético. Parecia-lhes que a força dos Sovietes, concentrada em suas próprias pessoas, poderia ser transmitida imediatamente ao governo oficial. Na mente dos chefes conciliadores, o centro de gravidade deveria passar dos sovietes para os novos órgãos democráticos de administração autônoma.

As massas, que ainda não acompanhavam os bolcheviques, insistiam todas a favor da participação dos socialistas no governo. Se é bom que um Kerensky seja um ministro, seis Kerenskys valerão mais. As massas não sabiam que aquilo se chamava coligação com a burguesia e que esta última desejava dissimular-se por detrás dos socialistas para agir mais livremente contra o povo. Nas casernas a coligação era interpretada de maneira diferente do que era no Palácio Marinsky. As massas pretendiam, graças aos socialistas, expulsar a burguesia do governo. Foi assim que as duas pressões, que caminhavam em sentido contrário, chegaram, a um dado momento, a juntar-se em um só.

Tanto nesta questão quanto nas demais a guerra tinha uma influência decisiva. Os socialistas estavam dispostos a adotar, em relação à guerra, uma atitude de expectativa, bem como relativamente ao poder, isto é, ganhar tempo. A guerra, porém, não esperava. Os Aliados muito menos. O front não queria mais esperar. Justo no momento da crise governamental, apresentavam-se ao Comitê-Executivo do Soviete delegados vindos do front e formularam aos líderes à seguinte pergunta: Estamos em guerra ou não estamos? O que significa: assumir a responsabilidade da guerra ou não? Era impossível escapar pelo silêncio. A mesma pergunta era apresentada pela Entente e numa linguagem meio ameaçadora.

A 1º de maio, o Comitê-Executivo, após haver passado por todas as fases de hesitação imagináveis, decidiu, por maioria de 41 votos contra 18, participar do governo de coligação. Votaram contra apenas os bolcheviques e um pequeno grupo de mencheviques internacionalistas.

Os socialistas conseguiram 6 pastas dentre 15. Eles desejavam permanecer em minoria. Mesmo depois de se haverem decidido a participar abertamente do Governo, continuavam a brincar de perde-ganha. O Príncipe Lvov permanecia como primeiro-ministro. Kerensky passou a ser ministro da Guerra e da Marinha.

“Um governo de coligação”, escrevia o embaixador britânico George Buchanan, “representa para nós a última e talvez única esperança de salvação da situação militar desse front”. Era assim que, por detrás das plataformas, dos discursos, das conciliações e dos votos dos líderes liberais e democratas da Revolução de Fevereiro, se mantinha o maestro imperialista, personificado pela Entente.

A 11 de maio, Kerensky partia para o front, iniciando uma campanha de agitação em favor da ofensiva. A 14 de maio, Kerensky lança uma ordem aos exércitos: “Ireis onde vossos chefes vos conduzirem’ e, para embelezar esta perspectiva bastante conhecida e pouco sedutora para os soldados, ele acrescentou: “Levareis a paz na ponta de vossas baionetas”.
(Trotsky, História da Revolução Russa, vol. 1, capítulo XVIII A Primeira Coligação)






quarta-feira, 31 de maio de 2017

A claraboia e o holofote #31 (VIII)








Cenas da Revolução de 17


Cena III


A crise de abril



"Pois este é o grande significado de todas as crises: 
elas tornam manifesto o que estava escondido; 
elas afastam tudo o que era relativo, superficial e trivial; 
elas varrem o entulho político 
e revelam as molas mestras reais da luta de classes".

Lenin, Lições da Crise, 1917



“ No começo de abril, a guerra era o problema principal da revolução. Tudo se passava como se o Soviet confiasse a defesa do país ao governo, sob a condição de o Soviet tudo  fazer para constrangê-lo a assinar a paz. A seu ver, era necessário ao mesmo tempo fazer a guerra, lutar pela paz, proclamar as duas faces dessa política e torná-la obrigatória”.
(Marc Ferro, A Revolução Russa de 1917, Perspectiva, São Paulo, 2007, p. 50, 54)


Tseretelli

“Aos dois problemas essenciais – o do poder e o da revolução – a direita e a esquerda já haviam dado uma resposta: a burguesia dizia: o reconhecimento de nossa hegemonia e de nossos slogans de guerra, problema número 1 da Revolução. A esquerda dizia: a ditadura do proletariado e a cessação da guerra para a adoção de medidas revolucionárias no país. A primeira ignorava os problemas da revolução; a segunda, suas possibilidades. Ambas levavam à guerra civil”
(apud Marc Ferro, A Revolução Russa de 1917, p. 50)



Sukhanov

“O Governo Provisório estava completamente impotente. Ele reinava, mas não governava. Nas palavras de Guchkov, ele não tinha ‘nenhum dos atributos que são características gerais de um Estado’. Para dar conta do curso objetivo dos eventos, a maquinaria de uma administração civil era lenta, inútil e desnecessária.

Mas este era apenas um dos aspectos da questão. O Governo Provisório não governava, mas reinava. Seu papel não se limitava a servir como centro organizador e intelectual para a campanha burguesa contra a revolução. O papel deste Governo desamparado e disfuncional também se expressava em algo mais. Ele era o anúncio oficial, uma organização destinada prioritariamente a convencer a Europa e, em segundo lugar, a declarar sua política contra-revolucionária.

Todo o poder real e autoridade estava nas mãos do Soviete. Os muitos milhões de homens do exército estava submetidos a ele; centenas e milhares de organizações democráticas lhe prestavam reconhecimento; as massas o obedeciam.

Mas o Soviet estava identificado agora com sua maioria pequeno-burguesa e oportunista. Esta maioria não queria o poder e tinha medo dele, mas o detinha a despeito de si mesma. Por isso, era obrigada a dedicar todas as suas energias para conceder ao Governo a totalidade de seu poder e estendê-lo a seus pés. Esta era a linha do Soviet.

As massas do povo obedeciam ao Soviet sem questionar, mas isso não queria dizer que elas obedeciam de boa vontade, completamente convencidas de que era o certo. Nos vimos o humor das massas nas jornadas de abril e com ele diferia da linha do Soviet. Não havia dúvida de que nesse momento as massas estavam sobrepujando a maioria do Soviet. Não apenas o rumo espontâneo dos acontecimentos demandava a realização do programa mínimo da revolução, mas as próprias massas tinham assimilado e formulado esse programa, que o Governo burguês não podia nem queria realizar.

Havia uma exigência geral das massas por paz, por terra e por pão. O Governo não podia nem queria garanti-la e nesta luta de classes, o Soviet ficou do lado do Governo. O Soviet oferecia a sabotagem feita pelo Governo como se fosse a realização do programa. Quer dizer, o Soviet estava lutando contra o povo e a revolução em favor da política do Governo burguês.

As massas obedeciam o Soviet por razões históricas, por causa do papel monopolístico que o Soviet teve na revolução e por causa da ausência de algum outro núcleo democrático que pudesse substituí-lo. As massas ainda o obedeciam por simples inércia. Além disso, elas eram pouco esclarecidas, inconscientes e parcialmente pequeno-burguesas. Com tudo isso, entretanto, elas já estavam divergindo do Soviet e já o obedeciam com relutância.
(N. N. Sukhanov, The Russian Revolution  1917 A personal record, edited, abridged, and translated by Joel Carmichael, Princeton University Press, New Jersey, 1983, pp 326-7)



Trotsky
Enquanto os conciliadores persuadiam e procuravam apagar a fogueira, os cadetes provocavam e sopravam o fogo. Apesar de não ter Kornilov, na véspera, autorização para empregar armas, não abandonava seu plano e, precisamente naquela manhã, tomava todas as medidas para opor a cavalaria e a artilharia aos manifestantes. Contando firmemente com a intrepidez do general, os cadetes, através de manifesto especial, incitaram seus partidários a saírem à rua, esforçando-se claramente para levar o caso até um conflito decisivo. Não tendo conseguido seu desembarque nas margens dos Dardanelos, Miliukov continuava a desenvolver sua ofensiva tendo Kornilov como vanguarda e a Entente como reserva pesada. A nota de Miliukov, enviada à revelia do Soviete, e o editorial da Rech desempenhariam o papel do telegrama de Ems, enviado pelo chanceler liberal da Revolução de Fevereiro. “Todos os que estão ao lado da Rússia e da sua liberdade devem cerrar fileiras em torno do Governo Provisório e sustentá-lo” – assim falava o apelo do comitê-central dos cadetes, convidando todos os bravos cidadãos a saírem à rua, a fim de lutar contra os partidários de uma paz imediata.

A Nevsky, principal artéria da burguesia, transformou-se em imenso meeting dos cadetes. Considerável manifestação, à frente da qual se encontravam os membros do comitê-central dos cadestes, dirigiu-se para o Palácio Marinsky. Por toda parte viam-se cartazes recentemente saídos dos ateliers: “Absoluta confiança no Governo Provisório!”  “Viva Miliukov”. Os ministros estavam no sétimo céu: tinham reencontrado o seu “povo”, tanto mais visivelmente quanto os emissários do Soviete tentavam, sem resultado, dispersar os meetings revolucionários, empurrando as manifestações dos operários e dos soldados do centro para o subúrbio e procurando dissuadir as casernas e as usinas. Sob a bandeira da defesa do Governo, realizava-se a primeira mobilização, franca e amplamente declarada, das forças contra-revolucionárias. No centro da cidade surgiram caminhões repletos de oficiais, de junkers, de estudantes armados. Saíram também os cavaleiros de São Jorge. A juventude dourada organizou na Perspectiva Nevsky, um tribunal público para incriminar, ali mesmo na rua, os leninistas e os ‘espiões alemães’. Houve rixas e vítimas. A primeira colisão sangrenta, segundo contam, começou com a tentativa de alguns oficiais arrancarem das mãos de um operário uma bandeira que trazia inscrição contra o Governo Provisório. Agrediam-se com um furor sempre crescente. Começou um tiroteio que, depois do meio-dia, tornou-se contínuo.  Ninguém sabia exatamente quem atirava e com que fim o faziam. Caíam já, no entanto, algumas vítimas da fuzilaria desordenada em parte ocasionada pela perfídia e em parte pelo pânico. A temperatura tornava-se incandescente.
Não, este dia não se assemelhava em cousa alguma à manifestação pela união nacional. Dois mundos erguiam-se, um em face do outro. As colunas de patriotas, atraídas à rua pelo Partido Cadete para agirem contra os operários e soldados, compunham-se exclusivamente de elementos burgueses da população, oficiais, funcionários, intelectuais. Duas caudais humanas, uma a favor de Constantinopla, outra a favor da paz, desembocavam no centro provenientes de diferentes pontos da cidade; diferentes pela composição social, totalmente dessemelhantes pelo aspecto exterior, afirmando as próprias hostilidades seus cartazes, e que, ao se chocarem, recorriam aos murros, aos cacetes e até mesmo às armas de fogo.
(Trotsky, História da Revolução Russa, volume 1,  294-5)

“O corpo de oficiais, em sua maioria, estava com Kornilov, isto é, estava pronto, a pretexto de defender o Governo Provisório, a quebrar a espinha dorsal do Soviet. Os soldados eram partidários do Soviet, apesar de sustentarem um ponto de vista bem mais à esquerda do que o dele, Soviet. Como, porém, o Soviet era partidário do Governo Provisório, acontecia que Kornilov podia, para defender esse governo, mobilizar soldados pró-Soviet, sob o comando de oficiais reacionários. Graças ao regime de duplo poder, todos brincavam de esconde-esconde. Entretanto, assim que os líderes do Soviet determinaram que as tropas não saíssem dos quartéis, Kornilov ficou pulando num pé só e, com ele, todo o Governo Provisório.

E o Governo, todavia, não caiu. As massas que iniciaram o ataque não estavam em condições de levá-lo até o fim, Os líderes conciliadores podiam, em consequência, fazer voltar o regime de Fevereiro até seu ponto de partida. (...)

Não, os socialistas-revolucionários e os mencheviques não queriam o poder. (...)
(Trotsky, p. 298)


“Que existe na base dos acontecimentos dramáticos da Revolução? Deslocamentos de forças. Por quem foram provocados? Principalmente pelas oscilações das classes intermediárias, do campesinato, da pequena burguesia, do exército. A amplitude entre o imperialismo dos cadetes e o bolchevismo é formidável. Aquelas oscilações produziram-se simultaneamente em dois sentidos contrários. A representação política da pequena burguesia, seus expoentes, os líderes conciliadores, todos tendem de preferência para a direita, para o lado da burguesia. As massas oprimidas, ao contrário, terão um impulso cada vez mais acentuado e resoluto para a esquerda. Ao se pronunciar contra a mentalidade aventurosa manifestada pelos dirigentes da organização de Petrogrado, Lenin guarda uma reserva: se as classes intermediárias tendessem para o nosso lado, seriamente, profundamente, inflexivelmente – nós não hesitaríamos, nem um minuto, em intimidar o Governo a desocupar o Palácio Marinsky.

“A contradição flagrante entre a audácia da ofensiva das massas e as tergiversações da representação política das mesmas não é absolutamente acidental. Em épocas revolucionárias, as massas oprimidas são arrastadas à ação direta mais fácil e rapidamente do que aprendem a dar aos seus desejos e às suas reivindicações uma expressão adequada por meio de uma representação genuína. Quanto mais abstrato é o sistema representativo, tanto mais ele se atrasa em relação ao ritmo dos acontecimentos determinados pela ação das massas. A representação soviética, a menos abstrata de todas, tem, em situações revolucionárias, vantagens incalculáveis: basta recordar que as dumas democráticas, eleitas à base do regulamento interno de 17 de abril e que não eram molestadas por quem quer que fosse, mostraram-se absolutamente impotentes para fazer concorrência aos sovietes. Mas, apesar de todas as vantagens oriundas de sua ligação orgânica com as usinas e os regimentos, isto é, com as massas ativas, os sovietes não deixam de ser uma representação e, por conseguinte, não estão isentos das convenções e das deformações do parlamentarismo. A contradição inerente a toda representação, mesmo à soviética, consiste em que por um lado, ela é necessária à ação das massas e, pelo outro, se transforma facilmente, para esta mesma ação, em obstáculo conservador. A saída prática para tal contradição é, sempre que se apresentar a sua necessidade, renovar a representação. Mas essa manobra, que não é assim tão simples, resulta sobretudo em tempo de revolução, de uma dedução da ação direta e, por conseguinte, não a pode nunca preceder, mas, pelo contrário, vem sempre retardada. O certo é que, ao dia seguinte da semi-insurreição de abril – ou mais exatamente de um quarto de insurreição de abril, porquanto a semi-insurreição só se dará em julho – via-se na sessão do soviete os mesmos deputados de sempre, os quais, encontrando-se em ambiente habitual, votavam a favor das propostas dos dirigentes habituais”.
(Trotsky, p. 299)

“Depois que os conciliadores liquidaram a explosão da guerra civil imaginando que tudo volveria às antigas posições, a crise governamental apenas iniciou-se. Os liberais não queriam continuar governando sem que os socialistas participassem diretamente do poder. Os socialistas, forçados pela lógica do duplo poder a aceitar tal condição, exigiram uma liquidação demonstrativa do programa de Dardanelos, o que acarretou a inexorável liquidação de Miliukov. A 2 de maio, Miliukov viu-se na obrigação de abandonar seu lugar no governo.
(Trotsky, p. 300)



Lenin


"Pois este é o grande significado de todas as crises: elas tornam manifesto o que estava escondido; elas afastam tudo o que era relativo, superficial e trivial; elas varrem o entulho político e revelam as molas mestras reais da luta de classes.

As demonstrações começaram com os soldados sob o slogan contraditório, equivocado e inefetivo “Fora Miliukov” (como se uma troca de pessoas ou grupos pudesse mudar a substância da política!)

Isto significa que a massa ampla, instável e vacilante, que estava próxima do campesinato e que pela sua definição científica de classe é pequeno-burguesa, oscilava dos capitalistas em direção aos trabalhadores revolucionários. Foi este movimento oscilante das massas, forte o suficiente para ser um fator decisivo, que causou a crise.

É neste ponto que as outras seções começaram a agitar-se: não o centro, mas os elementos dos extremos, não a pequena burguesia intermediária, mas a burguesia e o proletariado começaram a sair às ruas e organizar-se. (...)

Esta não é a primeira vez que a pequena burguesia e os semiproletários oscilaram e não será a última!”

(Lenin, Lições da Crise)







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festina lente