terça-feira, 26 de novembro de 2013

A claraboia e o holofote #16





Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista



As lições de 48 (Parte I)


1. Dias de 1848 na França

Luís Felipe, que chegara ao trono alçado pelas esperanças revolucionárias de 1830; Luís Felipe, o homem da conciliação; Luís Felipe, o rei burguês, tinha seus dias contados no começo de 1848. A difícil situação econômica que se arrastava desde 1845, a sucessão de escândalos políticos e financeiros, a intransigência arrogante do ministro Guizot e uma política externa submissa aos interesses britânicos solaparam o apoio ao rei, mesmo nos meios burgueses.

A oposição política se organizara em torno da coalizão formada pelos monarquistas reformistas – a “oposição dinástica”, de Odilon Barrot -, e pelos republicanos do Partido Radical, de Ledru-Rollin. Desde o final de 1847, a coalizão convocava banquetes públicos nas províncias: um expediente para burlar a proibição de manifestações contra o governo. O banquete culminante se realizaria em Paris, no dia 22 de fevereiro de 1848, e deveria reunir uma multidão imensa.

Quando, na última hora, veio a proibição, os líderes republicanos conclamaram o povo a sair às ruas. A própria Guarda Nacional aderiu aos manifestantes. Rapidamente, o rei exonerou o impopularíssimo ministro Guizot, mas de nada adiantou. A agitação se agravou depois que soldados nervosos da Guarda Nacional dispararam contra manifestantes no bulevar dos Capuchinhos, matando dezenas de pessoas.

Incapaz de fazer face à pressão popular, no dia 24, o rei abdicou e fugiu para a Inglaterra. Um governo provisório foi formado pelos homens do jornal republicano Le National, como Lamartine e Ledru-Rollin, e do jornal socialista La Réforme, como Louis Blanc, Albert, Flocon e Marrast.

Tendo como figura pública mais proeminente o poeta romântico Lamartine, o governo provisório suprimiu a pena de morte e a escravidão, assim como reconheceu a liberdade de reunião e de imprensa. Também convocou eleições – por sufrágio universal masculino - para uma assembleia constituinte. Mas o novo governo não se pretendia apenas republicano: ele também se queria democrático e social. Era preciso satisfazer as demandas da classe trabalhadora através de uma organização estatal do trabalho, como defendia o socialista Louis Blanc, que passou a presidir a recém-criada Comissão do Trabalho, sediada no Palácio Luxemburgo.  O direito ao trabalho foi reconhecido, porém era premente oferecer emprego à multidão de desempregados que a crise econômica havia gerado. Marie, ministro das Obras Públicas, instituiu as oficinas nacionais, que eram frentes de trabalho para manutenção das vias públicas, muito diferentes das unidades de produção sob a tutela do Estado preconizadas por Louis Blanc.

Extremamente mal concebidas, as oficinas nacionais não resolviam o problema do desemprego. As vagas eram insuficientes para a massa que afluía das províncias e até de países vizinhos, os salários eram extremamente baixos e as vagas disponíveis eram todas para tarefas braçais. A população pobre estava inquieta. Formavam-se clubes de oposição. Circulavam panfletos e proclamações iradas. A popularidade do governo provisório se esvaiu rapidamente.

Em meados de março, irromperam distúrbios e protestos populares. Os líderes da extrema-esquerda temiam que a eleição da assembleia constituinte fortalecesse os conservadores das províncias e anulasse a democracia social instaurada em fevereiro. Para ganhar tempo e organizar melhor a esquerda, os manifestantes pediram que as eleições fossem adiadas para 23 de abril. O governo cedeu. No entanto, novas manifestações em abril pedindo mais um adiamento das eleições encontraram o governo inflexível.

Os temores da extrema-esquerda se tornaram realidade: uma maioria de conservadores foi eleita nas províncias. O refluxo da revolução ficou evidente também na composição do poder executivo. No dia 10 de maio, o governo provisório transmitiu sua autoridade a uma Comissão Executiva de cinco membros, dos quais o único de esquerda era Ledru-Rollin, que só foi aceito por insistência de Lamartine.

A extrema-esquerda estava cindida e desorganizada. No 15 de maio, uma manifestação popular em apoio à independência da Polônia, resultou – talvez por instigação de provocadores a serviço da polícia - na invasão do Palácio Bourbon, onde se reunia a assembleia constituinte. Os líderes esquerdistas subiram à tribuna para discursar. Muitos deputados entraram em pânico. Lamartine desapareceu. Enunciaram-se demandas populares, mas os líderes não tinham propostas claras. Proclamou-se um novo governo provisório, a ser instalado no Hôtel de Ville pelos representantes dos trabalhadores. A Guarda Nacional interveio. Os principais líderes da extrema-esquerda - Albert, Raspail, Blanqui e Barbès - foram presos. Os conservadores assumiram as rédeas e, no dia seguinte, dissolveram a comissão de Luxemburgo. Os clubes de extrema esquerda foram fechados.

O clima em Paris era tenso.  Havia boatos de que os trabalhadores fariam uma demonstração de massa. A resposta dos conservadores foi discutir, no 21 de junho, o fechamento das oficinas nacionais, tidas como sementeiras de agitação, dispendiosas e contrárias ao liberalismo econômico.  A comissão do conde de Falloux decretou que os jovens trabalhadores entre 17 e 25 anos deveriam entrar no exército; quanto aos demais, aqueles que fossem migrantes das províncias deveriam sair de Paris e se reunir em Sologne, supostamente para drenar pântanos insalubres. Os trabalhadores estavam convencidos de que a intenção do governo era mandá-los para a morte.

Quando o decreto oficial apareceu em Le Moniteur no dia 22 de junho, uma delegação de trabalhadores foi protestar junto à Comissão Executiva. O ministro Marie respondeu com ameaças. No dia seguinte, a agitação dos trabalhadores culminou numa grande reunião na praça da Bastilha. Um militante socialista chamado Pujol, aos gritos de “liberdade ou morte”, conclamou a multidão a erguer barricadas. Temerosa, a assembleia chamou o general Cavaignac para organizar a defesa da cidade.

As barricadas impediam a circulação nas regiões populares da cidade – especialmente na área leste, para além da Bastilha, na rua do Faubourg Saint-Antoine, e na margem esquerda, ao longo da rua Saint-Jacques e em torno do Panteão. Havia apenas pequenas passagens para os moradores e para o insurgentes, que eram trabalhadores braçais, artesãos, pequenos lojistas, funcionários das ferrovias e operários das fábricas, que enfrentavam a ameaça da miséria.

No dia 23 de junho, a assembleia constituinte decretou estado de sítio e fez do general Cavaignac chefe do governo com poderes ditatoriais.  A Comissão Executiva, último remanescente legal da revolução de fevereiro, foi desfeita.

Cavaignac mantinha suas tropas no centro de Paris, dispersando-as em grupos para as várias áreas em que fossem necessárias. As tropas atiravam nas barricadas, mas os insurgentes se defendiam com valentia. Muitos soldados morreram. O próprio arcebispo de Paris, Monsenhor Affre, foi atingido por um tiro fatal quando tentava negociar o cessar-fogo. Para os conservadores, ele se tornou mártir da ordem e do espírito cristão diante da barbárie sanguinária dos pobres.

Não se sabe quantos eram os insurgentes, mas acredita-se que eles superavam o número de 40 mil soldados que o general Cavaignac tinha à disposição. Isso explica em parte a violência dos meios usados pelo exército, que disparou bombas incendiárias. Os bairros populares foram queimados. No dia 26 estava tudo acabado. Apesar dos preparativos feitos às vésperas do confronto e apesar dos arsenais saqueados das casernas, logo os insurgentes ficaram sem munição. Milhares de trabalhadores foram fuzilados pelas ruas depois que a revolta tinha acabado. Outros milhares foram presos e deportados. Os números serão sempre incertos.

O General Cavaignac depôs seus poderes ditatoriais no dia 28 de junho, mas a popularidade decorrente de seu êxito levou a assembleia a nomeá-lo primeiro-ministro. O estado de sítio durou até outubro.  O partido da Ordem se fortaleceu, mas não em benefício das duas casas dinásticas que disputavam o poder. Não houve uma restauração dos Bourbon, como queriam os legitimistas, nem a volta dos Orleans. O sobrinho de Bonaparte, o príncipe Luís Napoleão, que fora eleito deputado constituinte, conquistou um séquito de monarquistas, líderes católicos e camponeses, todos saudosos da estabilidade política e econômica do Império, assim como o apoio de muitos trabalhadores ressentidos com a traição da burguesia republicana moderada. Ele foi o vitorioso nas eleições de dezembro de 1848 e tornou-se o presidente Luís Napoleão.

Em 13 de junho do ano seguinte, a esquerda republicana na assembleia constituinte – também conhecida como a Montanha – decidiu organizar uma marcha de protesto contra a decisão do presidente Luís Napoleão de enviar tropas francesas para derrubar o governo republicano de Mazzini em Roma. Tratava-se de uma ação que violava o artigo da Constituição que proibia a República Francesa de atentar contra a liberdade de outras nações. A passeata republicana, com pouca adesão popular, se transformou numa tentativa de revolução, que foi logo contida e resultou na fuga dos líderes republicanos de esquerda (uma esquerda moderada, já que a extrema-esquerda tinha sido presa em maio do ano anterior). Os que não fugiram, foram presos.  Agora estava aberto o caminho para a reação que definiria o cenário político da década de 1850. O próximo passo seria o 18 Brumário de Luís Bonaparte.


2. Quatro visões sobre as jornadas de junho


a. Um quadro sinótico didático e politicamente cauteloso

Roger Price, A concise history of France, Cambridge University Press, 2005

The Parisian left was to be decapitated for a generation. Whatever the precise sociological character of the conflict, and despite the fact that workers fought on both sides, contemporaries saw it as one between bourgeoisie and people, as a form of class struggle. According to de Tocqueville the insurrection was a ‘brutal, blind but powerful attempt by the workers to escape from the necessities of their condition, which had been described to them as an illegitimate oppression… It was this mixture of cupidity and false theory which rendered the insurrection so formidable… These poor people had been assured that the well-being of the rich was in some way based upon theft from themselves.’ The conservative press depicted the events as an outbreak of mindless savagery, as a rising fought for “pillage and rape”. Their initial cry of triumph at the ‘victory gained by the cause of order’, of the family, of humanity, of civilization’ was mixed with fear, however, and was soon followed by demands for more thorough repression. Political activity was severely restricted.  (p. 204)



b. O relato clássico da historiografia marxista: a insurreição de junho foi um momento agudo da luta de classes; a derrota foi resultado das condições imaturas do proletariado.

E.J. Hobsbawn, The Age of Capital 1848-1875, Abacus, London, 1977

From the moment the barricades went up in Paris, all moderate liberals (and, as Cavour observed, a fair proportion of radicals) were potential conservatives. As moderate opinion more or less rapidly changed sides or dropped out, the workers, the intransigents among the democratic radicals, were left isolated or, what was even more fatal, to face a union of conservatives and formerly moderate forces with the old regimes: a ‘party of order’, as the French called it. Eighteen forty-eight failed because it turned out that the decisive confrontation was not between the old regimes and the united ‘forces of progress’, but between ‘order’ and ‘social revolution’. Its crucial confrontation was not that of Paris in February but that of Paris of June, when the workers, manoeuvred into isolated insurrection, were defeated and massacred. They fought and died hard. About 1500 fell in the street-fighting – some two-thirds of them on the government side. It is characteristic of the ferocity of the hatred of the rich for the poor that some thousand were slaughtered after defeat, while another twelve thousand were arrested, mostly to be deported to Algerian labour camps. (p. 30)
As for the laboring poor, they lacked the organization, the maturity, the leadership, perhaps most of all the historical conjuncture, to provide a political alternative. Strong enough to make the prospect of social revolution look real and menacing, they were too weak to do more than frighten their enemies. Their forces were disproportionately effective, in so far as they were concentrated in hungry masses in the politically most sensitive spots, the large and especially the capital cities. This concealed some substantial weakness: in the first place, their numerical deficiency – they were not always even a majority in the cities, which themselves generally included only a modest minority of the population – and in the second place, their political and ideological maturity. The most politically conscious and activist stratum among them consisted of the pre-industrial artisans. (…) The poor and unskilled in the cities and, outside Britain, the industrial and mining proletariat as a whole, had hardly any developed political ideology as yet. (p. 35)
There was to be no second edition of 1848 in western and central Europe. The working class, as he soon recognized, would have to follow a different road. (p. 37)



c. Uma defesa do ponto de vista republicano: Junho foi, de fato, uma batalha de classes sociais, mas a burguesia defendia as instituições da República e não a opressão do proletariado.

Maurice Agulhon, The Republican Experiment 1848-1852, Cambridge University Press, 1993  
(tradução de 1848 ou l’apprentissage de la République 1848-1852, Seuil, 1972)

The spontaneity of the worker’s revolt, now known as the ‘June days’, was in fact its most striking characteristic. Despite Pujol’s abstract and romantic cry, the motivation behind it was starkly social: workers reduced to unemployment by the crisis, and thereafter dependent for their livehood upon public funds, found themselves literally driven to despair when those funds were abolished. It is with good reason that history retains the cry uttered by an anonymous worker in the place du Panthéon (addressed to Arago while he was attempting to reason with a crowd on 22 June): ‘Ah! Monsier Arago, you have never been hungry!’ Although a few militants of minor reputation, such as Pujol, emerged, there was virtually no political leadership. The organizational efforts made during the weeks immediately preceding by no means offset the effects of the imprisonment, on 15 May, of the better-known leaders of the old secret societies and of the clubs. The June days, more than any other period before or since in French history, remain a class battle pure and simple. It was certainly no mere chance that Marx and Engels, following the developments of the revolution in France with the most rapt attention, now roughed out the basis of their theory that the class struggle was the most profound historical reality of all.
But before the June days unconsciously became the source of that grandiose extrapolation, much blood was to flow.
(…)
Another reason for the bloodshed was the equally impressive determination evinced in the ‘bourgeois” camp. In those days the ideals of order, property and liberty still retained a freshness and brilliance that they were later to lose. They were credited with a value that was absolute; it was only much later that this was gradually perceived to be no more than relative. (…) Furthermore, even in the camp of the worker’s enemies there were plenty of men who believed passionately in the Republic. Now, for the ordinary republican citizen, unaware of the manoeuvers and provocations of men like Marrast and Falloux, only one thing was abundantly clear: a decision about which there was nothing irregular, emanating from powers freely elected by universal suffrage, was being contested by rebels. They were just as shocked by this disobedience as they would have been (and were to be) by a military coup d´État. The final phrase in the official communiqué which was soon to announce victory to the departments (‘Order has triumphed over Anarchy, Long live the Republic’) was not nearly as hypocritical or cynical as were similar phrases used in 1871 or at later dates.
This makes it easy to understand the unanimous resolution of the Assembly and the fact that were many loyal democrats who agreed to resist the workers. (pp. 56-57)



d. Um esforço marxista-benjaminiano de recuperar o caráter único dos massacres de Junho, como evento traumático recalcado da modernidade.

Dolf Oehler, O Velho mundo desce aos infernos, Cia das Letras, 1999

A respeito das jornadas de junho, “alguns poderiam supor que se trata de impressões momentâneas dos contemporâneos e que, de uma distância maior, o acontecimento teria sido medido com outros critérios. Esse não é ocaso, porém, a menos que se perca totalmente a memória das jornadas de junho de 1848: essa data-chave da modernidade só perde em relevância quando recalcada. Donoso Cortés, o conservador espanhol que Carl Schmitt quis reabilitar como um dos mais lúcidos pensadores da história, um dos grandes homens “mantidos em silêncio no século XIX”, qualificou a batalha de Junho, num discurso que se tornou célebre diante do Parlamento de Madrid, em janeiro de 1849, como a mais sangrenta de que os séculos já tiveram notícia no interior dos muros de uma cidade. No mesmo ano, Alfred Meissner, jovem alemão de Praga, define ‘aquela monstruosoa batalha do proletariado’ como o ‘maior e mais imponente acontecimento da nova era’.  O liberal Alexis de Tocqueville, em seus Souvenirs, qualifica a insurreição de junho como “a maior e mais singular que ocorreu em nossa história, e talvez em qualquer outra’. Dez anos mais tarde, em Les Misérables, Victor Hugo sentencia que junho foi “a maior guerra de rua vista pela história’, ‘um fato à parte, e quase impossível de classificar na filosofia da história’. Os romancistas republicanos Erckmann-Chatrian julgam a batalha de junho ‘mil vezes mais terrível do que a de Waterloo’, e ‘Tomaso di Lampedusa apazigua o herói de seu Gattopardo, pouco antes de estourar a revolução siciliana, com a ideia de que todas as revoluções logo se transformam em comédia e que, mesmo na França, ‘com ressalva de junho de 1848’, no fundo nunca se deu nada de sério. Herzen, Baudelaire e Flaubert – e também Heine – não economizam superlativos (...)
Não é exagero algum afirmar que a repressão sangrenta do verão de 1848 influenciou a evolução da sociedade francesa até a Quinta República, e isso não a despeito, mas justamente porque foi recalcada e nunca trabalhada teoricamente. Além disso, essa repressão influiu – para muito além das fronteiras da França – na formação da teoria e da ideologia tanto burguesa quanto socialistas, e marca, finalmente um ponto de inflexão decisivo da literatura moderna. (p. 29-31)


3.  Marx e a revolução de junho

Em Colônia, onde chegara em março, Marx recebia avidamente as notícias de Paris e comentava-as nos artigos da Nova Gazeta Renana. A edição de 29 de junho de 1848 contém um artigo dedicado à “revolução de junho”.

Para Marx, junho não foi um acidente conjuntural, mas a revelação de uma cisão que permanecia oculta sob as esperanças despertadas em fevereiro:

"O triunfo momentâneo da força brutal foi pago pela aniquilação de todas as ilusões e quimeras da revolução de fevereiro, pela desagregação completa do partido dos velhos republicanos, pela cisão da nação francesa em duas nações, a nação dos possuidores e a nação dos trabalhadores." (“A revolução de junho”, 29 de junho 1848 Neue Rheinische Zeitung)

No artigo de Marx, tudo o que havia de positivo em fevereiro revelou seu aspecto negativo em junho. O poético se tornou prosaico, as declarações plenas de sentimentalismo deram lugar às ações mais brutais; a retórica cedeu à realidade; as máscaras caíram:

“Os fogos de artifício de Lamartine se transformaram nas bombas incendiárias de Cavaignac.

A fraternidade, essa fraternidade das classes opostos das quais uma explora a outra, essa fraternidade proclamada em fevereiro, escrita com maiúsculas sobre a fronte de Paris, sobre cada prisão, sobre cada caserna – sua expressão verdadeira, autêntica e prosaica é a guerra civil, a guerra civil na sua forma mais apavorante, a guerra do trabalho e do capital. Essa fraternidade ardeu diante de todas as janelas de Paris na noite de 25 de junho, quando a Paris da burguesia se iluminava ao passo que a Paris do proletariado queimava, sangrava e gemia até o esgotamento.

A revolução de fevereiro foi a bela revolução, a revolução da simpatia geral, uma vez que todas as contradições (entre a burguesia e o povo) que eclodiram contra a realeza não tinham ainda se desenvolvido e continuavam adormecidas, unidas, lado a lado, já que a luta social que formava o pano de fundo dessa revolução tinha atingido apenas uma existência inconsistente, uma existência puramente verbal. A revolução de junho é feia; é a revolução repulsiva, porque a realidade tomou o lugar das palavras, porque a República desmascarou a cabeça do monstro arrancando-lhe a coroa que a protegia e a escondia.” (op. cit.)

Junho foi, portanto, o momento em que a luta de classes se tornou explícita, em que as contradições ganharam gume. O momento em que ficou evidente que a luta social dos trabalhadores ameaçava a ordem burguesa, que se mantinha a despeito de todas a variedade de formas políticas que se alternaram na França desde 1789:

“Nenhuma das numerosas revoluções da burguesia francesa desde 1789 tinha sido jamais um atentado contra a Ordem, porque todas deixavam subsistir a dominação de classe, a escravidão dos trabalhadores, a ordem burguesa, a despeito da mudança frequente da forma política desse dominação e dessa escravidão. Junho tocou nessa ordem. Desgraçado seja junho!” (op. cit.)

Os massacres de junho mostraram que a questão política da forma de Estado não pode ser separada da questão social da luta de classes. A luta de classes não pode ser eliminada por declarações retóricas de unidade e fraternidade, isto é, ele não pode ser resolvida no plano simbólico ou imaginário.

"Os conflitos que nascem das condições da própria sociedade burguesa, é preciso conduzi-los até o fim; não se pode eliminá-los por meio da imaginação. A melhor forma de Estado é aquela em que as contradições sociais não são esfumadas, não são estranguladas pela força, isto e, artificialmente e, assim, apenas em aparência. A melhor forma de governo é aquele em que as contradições entram em luta aberta e encontram deste modo sua solução." (op. cit.)

Não há proclamações de ordem ou de fraternidade que não sejam expressões disfarçadas de posições no interior da própria luta de classes. Não há reivindicações políticas que não sejam reivindicações de classe ou de fração de classe, que não sejam meios de obter vantagens no jogo de forças conflitantes. A questão da forma política somente ganha sua devida relevância quando é remetida à conjuntura das forças na luta de classes. 

Essa é a razão pela qual mesmo as práticas políticas mais progressistas podem ser distorcidas. Em 1848, a instituição do sufrágio universal - componente fundamental da prática republicana e democrática - serviu de instrumento para os conservadores conquistarem o poder, tanto na eleição da assembleia constituinte quanto na eleição presidencial. Os democratas que defendiam a ampliação do direito ao voto levavam água para os moinhos da reação.


Portanto, uma das lições de junho é que as formas políticas não podem ser dissociadas de seu sentido social, definido pela conjuntura da  luta de classes:


"O abismo profundo que se abriu a nossos pés pode desorientar os democratas? Pode nos fazer crer que as lutas pela forma do Estado são vazias, ilusórias e nulas?

Somente os espíritos fracos e frouxos poderiam levantar semelhante questão." (op. cit.)

Ou, como Marx definirá um pouco mais tarde:

"Depois de junho, revolução quer dizer: derrubada da sociedade burguesa, ao passo que antes de fevereiro significava: derrubada da forma do Estado." ( As lutas de classes na França, De junho de 1848 a 13 de junho de 1849,  início).

No plano profundo da luta de classes, todas concessões sociais obtidas da boa-vontade dos setores progressistas da burguesia dirigente são efêmeras e estão sujeitas ao desmentido dos fatos. Elas são apenas o que são: concessões e não conquistas. Eis por que Marx nunca teve pelo socialista Louis Blanc o respeito que tinha pelo revolucionário Auguste Blanqui. 


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O historiador Maurice Agulhon afirmou que “It was certainly no mere chance that Marx and Engels, following the developments of the revolution in France with the most rapt attention, now roughed out the bases of their theory that the class struggle was the most profound historical reality of all.” (The Republican Experiment 1848-1852, p. 56). Do ponto de vista cronológico, Agulhon está errado. O caráter fundamental da luta de classes já aparecia como premissa da primeira seção do Manifesto do Partido Comunista, antes da revolução de fevereiro. Contudo, do ponto de vista teórico, tudo indica que, antes das jornadas revolucionárias de 48, Marx tinha apenas uma compreensão livresca da luta de classes, aprendida de historiadores burgueses conservadores, como Guizot e Thierry (cf. Carta a Weydemeyer, 5 de março de 1852; Carta a Engels, 27 de julho de 1854).

Quando Marx realmente compreendeu a forma violenta que a luta de classes podia assumir, ele deixou de acreditar em belas revoluções e passou a desconfiar da força dos levantes espontâneos da classe operária. Essas não foram as únicas lições de 1848. O processo revolucionário na Alemanha, do qual Marx participou de maneira intensa e direta, também lhe reservou muitos ensinamentos que ele teria tempo para assimilar no exílio em Londres, como veremos no próximo capítulo de nosso folhetim.


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Maurice Agulhon, The Republican Experiment 1848-1852, Cambridge University Press, 1993  |  E.J. Hobsbawn, The Age of Capital 1848-1875, Abacus, London, 1977  |  Karl Marx, La révolution de juin n° 29, 29 juin 1848 La Nouvelle Gazette Rhénane  |  Karl Marx, Les luttes de classes en France  |  Oehler, Dolf, O Velho Mundo desce aos Infernos, Cia das Letras, 1999  |  Roger Price, A concise history of France, Cambridge University Press, 2005  |  Michel Winock, Vozes da Liberdade, Bertrand Brasil, 2006 | Vários, Encyclopedia of Revolutions of 1848


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Nas fotos de 2010, a rua do faubourg Saint-Antoine, que começa na Bastilha. Centro de agitação revolucionária em 1789, 1793, 1830, 1848, 1871; palco de barricadas e assassinatos em massa em junho de 48; cenário de inumeráveis manifestações e greves; um dos focos de resistência à ocupação alemã.






quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A claraboia e o holofote #15





Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista


Seção II - Proletários e Comunistas



O Manifesto do Partido Comunista sofre de legibilidade ilusória. Do mesmo modo que algumas obras curtas e demasiado conhecidas – O Príncipe é outro exemplo -, ele foi resumido a umas poucas passagens antológicas, cuja interpretação se cristalizou em chavões dignos de serem recolhidos no dicionário de idées recues.  O maior sintoma da legibilidade ilusória é a forte impressão de atualidade que o Manifesto nos transmite. Tal impressão não é efeito de uma suposta verdade imediata do texto, mas do caráter formulaico que lhe foi associado, o qual dificulta e repele o distanciamento próprio da leitura. O que é atual não é o texto, inevitavelmente marcado pelo lugar e tempo da enunciação; atual é o efeito das forças econômicas, sociais e políticas que se apoderaram dos significantes e remanejaram os significados, num processo semelhante ao das conquistas territoriais. Um movimento deste tipo é o que vemos acontecer num artigo como Marx's intellectual legacy da revista The Economist (2002) em relação à alegada obscuridade de O Capital. Trata-se de uma estratégia que procura minar, de antemão, qualquer esforço de leitura.

O que me interessa na seção II não é a verdade do Manifesto nem a sua atualidade, mas as condições de sua legibilidade. O caráter instrumental, polêmico e imediato do Manifesto do Partido Comunista cobra um preço muito alto de seus leitores, mesmo que eles não se deem conta disso. O texto da seção II foi definitivamente rasurado pelos acontecimentos históricos subsequentes, desde a revolução de fevereiro de 1848 aos processos de Moscou – época em que se constituíram as peças da acusação movidas contra o comunismo, não só pelos liberais quanto por muitos marxistas.

Na impossibilidade de recuperar as condições da recepção original do Manifesto, acredito que a leitura da seção II, ou seja, o entendimento do “partido comunista” de 1848, será menos ingênua se acompanharmos a sombra que o texto projetou, razão pela qual quero revisar a história do marxismo nos noventa anos que se seguiram ao Manifesto. 

Trata-se do roteiro das vicissitudes do "partido comunista" de 1848, que seguirei neste meu folhetim filosófico:

(A) O abandono do “partido comunista de 1848”

a. O massacre de junho de 1848 e a repressão na década seguinte: o refluxo do movimento revolucionário.

b. As lições da Comuna de Paris: o proletariado não pode  tomar o poder pela conquista do Estado burguês existente. 

c. A fundação dos partidos social-democratas e a abertura da via legal e parlamentar. O programa gradualista de conquistas mínimas e sua teoria revisionista.

d. A partido social-democrata alemão adere ao Reich: o nascimento do "social-nacionalismo" prepara a traição de 4 de agosto de 1914.


(B) A refundação do “partido comunista" de 1848

a. A crítica da via parlamentar e a recuperação do “partido de 1848” pelos bolcheviques e pelos espartaquistas.

b. As polêmicas no âmbito da esquerda comunista e socialista a respeito da organização interna do partido; da sua relação com a classe operária e da supressão da propriedade privada.


(C) Nova crise do “partido comunista” de 1848

a. Na cadeia, Gramsci começa a reexaminar o partido de 1848 e sua refundação. 

b. No Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, os herdeiros de Lukács, à sombra do mal-estar da civilização, aderem à Kulturkritik. Renúncia definitiva ao “partido comunista” de 1848. 

c. No exílio, Trostski, profeta desarmado, examina a “atualidade” do Manifesto






terça-feira, 22 de outubro de 2013

A claraboia e o holofote #14





Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista


Seção II - Proletários e Comunistas



“Qual a relação dos comunistas com os proletários em geral?
Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários.
Não tem interesses diferentes dos interesses do proletariado em geral.
Não proclamam princípios particulares, segundo os quais pretendem moldar o movimento operário.
Os comunistas se distinguem dos outros partidos somente em dois pontos: 1) Nas diversas lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns dos proletários, independentemente da nacionalidade; 2) Nas diferentes fases de desenvolvimento por que passa a luta entre proletários e burgueses, representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em seu conjunto.
Na prática, os comunistas constituem a fração mais resoluta dos partidos operários de cada país, a fração que impulsiona as demais; teoricamente tem sobre o resto do proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições, do curso e dos fins gerais do movimento proletário.
O objetivo imediato dos comunistas é o mesmo que o de todos os demais partidos proletários: constituição do proletariado como classe, derrubada da supremacia burguesa, conquista do poder político pelo proletariado.
As proposições teóricas dos comunistas não se baseiam, de modo algum, em ideias ou princípios inventados ou descobertos por este ou aquele reformador do mundo.
São apenas a expressão geral das condições efetivas de uma luta de classes que existe, de um movimento histórico que se desenvolve diante dos olhos.”


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O problema

Durante a vida de Marx e Engels, os comunistas conheceram várias formas de associação. Antes de 1848, reuniam-se em pequenos grupos como a Liga dos Comunistas, para a qual foi escrito o Manifesto; nos anos de 1860, fundou-se a Associação Internacional dos Trabalhadores (a 1ª Internacional); na década seguinte, pouco depois da breve experiência revolucionária da Comuna de Paris, surgiram os partidos social-democratas da Áustria e da Alemanha; na velhice de Engels, organizou-se a Internacional dos partidos de esquerda, tendo à frente a poderosa social-democracia alemã (a 2ª Internacional).  

No entanto, embora o preâmbulo do Manifesto declare a necessidade de tornar públicos os objetivos dos comunistas como partido (“É tempo de os comunistas exporem, abertamente, ao mundo inteiro, seu modo de ver, seus objetivos e suas tendências, opondo um manifesto do próprio partido ao conto do espectro do comunismo”), Marx e Engels jamais fundaram um partido comunista. Na verdade, não houve nenhuma associação que tivesse oficialmente esse nome até 1918, quando o Partido Operário Social-Democrata da Rússia (bolchevique) se tornou o Partido Comunista da Rússia. 

Por que Marx e Engels não fundaram um partido comunista? 

Descontadas as condições repressivas nos anos de 1850, que levaram ao refluxo da agitação revolucionária anterior, há várias razões pelas quais não houve um partido comunista no século XIX.

A primeira é que Marx e de Engels se inseriam nas associações existentes – fundadas por artesãos ou por trabalhadores -, procurando assumir posições de influência para dirigir e canalizar as forças de um movimento em curso. De acordo com a parte final da seção I, Marx e Engels se viam como ideólogos dissidentes da burguesia, que aportavam esclarecimento político à classe trabalhadora. Não poderiam se sobrepor ao movimento em andamento: como elementos provindos da burguesia, eles não deveriam usurpar as tarefas organizadoras do próprio proletariado. Ora, a fundação de um partido comunista seria justamente uma usurpação desse tipo.

A segunda razão é Marx e Engels não queriam ser confundidos com os inventores de doutrinas comunistas e de sistemas salvadores. É muito bem conhecido o fato de que Marx jamais quis ser marxista, isto é, um partidário de uma doutrina. Seu objetivo era ser um homem de ciência que desvenda a história. Um partido comunista fundado por Marx e Engels seria inevitavelmente visto como expressão voluntarista e subjetiva do ponto de vista particular de seus fundadores. E, como Marx viu muito bem na época da 1ª Internacional, o programa de uma associação ampla dos trabalhadores não poderia ser unicamente comunista: era preciso satisfazer as alas moderadas e, ao mesmo tempo, não exasperar os radicais blanquistas, proudhonianos e bakuninianos. Os comunistas eram apenas um grupo entre outros, sem massa suficiente para formar um partido à parte.

A terceira razão é que era indiferente que o proletariado se constituísse em partido ou em outras formas de associação, desde que se organizasse de forma revolucionária: essa era a preocupação prioritária de Marx e Engels. 

Todavia, às vésperas da agitação de 1848, havia ainda uma razão decisiva para que Marx e Engels não fundassem um partido comunista: esse partido já existia, ao menos do ponto de vista dos autores do Manifesto. O Manifesto do Partido Comunista seria a primeira exposição pública desse partido.

É claro que não se tratava de um partido de aparelho, capaz de mobilização de massa, como os partidos social-democratas no final do século, muito menos um partido de vanguarda revolucionária como o partido bolchevique. Tampouco Marx e Engels pensavam nos pequenos grupos conspiratórios carbonários, dos quais participavam Mazzini ou Auguste Blanqui, herdeiros do jacobinismo radical de Babeuf.

O que Marx e Engels chamavam de “partido comunista” era, na verdade, o movimento político que se desenvolvia como resultado do movimento proletário. O “partido comunista” de 1848 era simplesmente a fração mais consciente e revolucionária do proletariado internacional. As propostas do "partido comunista" expressavam o movimento histórico - espontâneo e necessário - do proletariado (tal como era elucidado pelos ideólogos dissidentes da burguesia). Mas, ao mesmo tempo que era produto do processo histórico, o "partido comunista" pretendia dirigir o proletariado para a realização desse processo histórico: a supressão da burguesia. Esse caráter revolucionário era essencial, pois definia o “partido comunista” de 1848 de três maneiras: 

- seus princípios eram os mesmo da única classe revolucionária: o proletariado internacional, tal como compreendidos pela sua fração mais consciente. Esses princípios eram expressão do processo histórico e não produto de deliberação ou invenção. 

- seu objetivo era a abolição da propriedade privada burguesa, isto é, do fundamento jurídico e econômico do modo de produção capitalista.

- seu método de ação era a promoção da luta de classes de maneira declarada: por isso rejeitava a política institucional burguesa de negociação parlamentar, assim como rejeitava as associações conspiratórias e insurrecionais, sem apoio das massas proletárias, uma vez que o partido consistiria justamente na organização dos trabalhadores como classe consciente da sua posição na luta de classes.

Esse “partido comunista” não era somente um reflexo do entusiasmo revolucionário de 1848, ele era a práxis que correspondia clara e diretamente à teoria da história como luta de classes (que é a premissa mesma do Manifesto). Acontece que os desenvolvimentos posteriores da teoria de Marx o levaram a relegar a luta de classe às obras conjunturais (como o 18 Brumário), enquanto as suas investigações teóricas se concentravam nas estruturas complexas e contraditórias do capital como Sujeito Automático. O resultado é que o nexo entre a teoria e a práxis, entre lógica e política (para usar a expressão de Ruy Fausto) ficou obscurecido pela hipertrofia teórica, que requer exegeses intermináveis e irreconciliáveis por parte dos especialistas em reconstruções de Marx. Como resultado, a discussão política nas obras conjunturais, nos artigos jornalísticos, nas cartas a Kugelmann e nas comunicações às associações de trabalhadores fazem o papel de pobres barracos provisórios ao lado da catedral gótica, que é Das Kapital, e do labirinto de Creta, que são os Grundrisse

Assim, apesar da sofisticação teórica posterior, a maior parte do debate político dentro do movimento comunista ficou preso às condições ainda rudimentares expostas no Manifesto do Partido Comunista. O que pretendo mostrar nos próximos capítulos deste folhetim filosófico é que as vicissitudes do comunismo tem suas raízes nas condições imaturas do “partido comunista” de 1848, cujos princípios, objetivos e métodos de ação foram abandonados pela esquerda, sem ter sido realmente superados por uma análise política à altura das conquistas teóricas de Marx. 







terça-feira, 15 de outubro de 2013

A claraboia e o holofote #13





Uma leitura do Manifesto do Partido Comunista




Carta a Neylor dos Santos Ferreira


Neylor,

Da última vez, eu lhe disse (A claraboia e o holofote #9) que o que mais me interessa em Marx é a tenacidade de seu alpinismo teórico. Na minha carta ao Murilo sobre a finalidade da filosofia (Para que serve a filosofia), eu defendi que a tarefa do filósofo consiste em subir a montanha para conseguir uma perspectiva mais ampla e uma compreensão maior do território. Às vezes eu uso a palavra “totalidade”, mas na boca de alguém como eu, cético por formação e por inclinação, trata-se apenas de um ideal regulador: o não se contentar com o fragmento, sem ter feito o esforço de alcançar a completude. Mas, voltando ao alpinismo, ocorre que qualquer tentativa de conquista do topo depende do reconhecimento atento das asperezas do terreno. Em vista disso é que escolhemos o percurso possível - adequadamente conhecido pela palavra grega “método” - que nunca é garantia de êxito nem tampouco atalho que nos permita falar das coisas sem a labuta de pensar nelas. 

Com Marx, todavia, a situação sempre foi mais complicada porque sua ambição era enorme: a conquista teórica da montanha do capital deveria ser, em si mesma, a ferramenta prática de transformação social. Seria como se Darwin, ao escrever The Ascent of Man, pretendesse modificar a própria espécie humana. 

A unidade entre teoria e prática é uma ambição que foi submetida a toda sorte de vexames desde 1848. Os êxitos políticos ou trabalhistas da Internacional social-democrata e da Internacional bolchevique foram obtidos por um empobrecimento teórico que é mais do que uma traição, ao passo que os esforços do marxismo crítico foram desbaratados pela repressão (Rosa Luxemburgo boiando no canal Landwehr; Antonio Gramsci fenecendo no cárcere de Turi) ou caíram na irrelevância do marxismo acadêmico, tão arguto na exegese dos textos quanto nulo no seu alcance político e social. 

É claro que isso não é exatamente culpa dos marxistas acadêmicos. Assim como o liberalismo britânico garante o direito de qualquer um discursar à vontade no speaker’s corner do Hyde Park ao preço de ser ouvido apenas por alguns excêntricos e transeuntes desocupados, as democracias liberais permitem que as universidades tenham liberdade de ensino e de pesquisa, ao custo de neutralizar os vínculos sociais de qualquer teoria crítica (é o conhecido regime de dedicação integral... trabalho social não conta no currículo Lattes).

Todavia, cada vez mais acredito que o problema já estava inscrito na obra teórica de Marx. Para começar, devemos admitir que a complexidade d’O Capital não é garantia de verdade no plano teórico, caso contrário a Suma Teológica seria, por igual motivo, prova da existência de Deus e da verdade da Igreja Católica. E mesmo supondo que a exposição de Marx seja uma descrição adequada do processo, eu me pergunto qual práxis poderia corresponder aos esquemas de reprodução ampliada? 

Só para ficar com a prata da casa uspiana, Ruy Fausto que, durante vinte anos, destrinchou os nexos entre a lógica dialética e a política em Marx, deixou de ser marxista no meio do caminho. José Arthur Giannotti, que andava por um caminho parecido (ou, na versão do Ruy, pelo mesmo caminho) passou a ser reserva intelectual do tucanato paulista. Paulo Arantes e Chico de Oliveira, que tiveram a teimosia de não recuar - admirável e espantosa nos atuais tempos líquidos -, estão mais ou menos marginalizados. Já de algum tempo, o Paulo é um marxista de pizzaria – o que não é nenhum demérito se a pizza for boa. 

Por que ainda vale a pena ler Marx?  Só posso falar por mim. Minha resposta é que eu sei bem que a montanha que ele tentou escalar não é imaginária: as ruínas geradas pela contradição em processo do capital estão bem diante de nossos olhos, ganhando volume e crescendo até ocultar o horizonte. Chegamos ao ponto de não vermos quase nada depois delas.

Então, para os covardes e fracos como eu, que nunca se arriscarão a subir a montanha, o negócio é estudar o percurso de quem teve coragem e tentar aprender alguma coisa do relato do alpinista maior, examinando os seus tropeços e passos em falso. Reafirmo o que já lhe disse: para os meus modestos propósitos, os erros de Marx são tão instrutivos quanto os seus acertos. 

É por isso, que eu exponho aqui minha leitura da seção propriamente política do Manifesto do Partido Comunista.  Depois dos lances audaciosos da primeira seção, com seus flashbacks vertiginosos, seus fantasmas e feiticeiros, agora vem a hora de trocar o panorama teórico pela moeda miúda e corrente da prática política imediata na agitada temporada de 1848. 

É importante ressaltar que esta minha leitura não está pronta. Não é a exposição de um percurso feito, como os capítulos fechados de uma tese universitária. A coisa está em movimento e eu mesmo estou aprendendo a ler o texto de Marx, depois de tê-lo relido tantas vezes. As intervenções e críticas serão bem vindas. Não sou marxista e estou longe da academia desde o século passado. Sou apenas um professor de cursinho que, nas horas vagas, lê e escreve para tentar entender de onde vem o nada que corrói tudo o que existe. 



Um grande abraço!







terça-feira, 8 de outubro de 2013

Aviso aos navegantes






O intermezzo italiano está encerrado 

O autor, devidamente refeito, retornará,  conforme o prometido , à leitura da seção II do Manifesto do Partido Comunista

Aqueles que acompanham minhas páginas vadias já perceberam que seu único motor é, digamos, a urgência do que já se foi. Longe de mim, no entanto, pretender redimir o passado. Os mortos tem o direito de permanecerem mortos. O que me apraz é compreender a gênese da ruína. 


Eis porque me interessa tanto fazer algumas considerações inatuais sobre essa coisa arruinada: o partido comunista do proletariado internacional.


Espero que os visitantes do antigo bloco comunista - russos, poloneses, ucranianos, tchecos, cazaques e sérvios - que semanalmente prestigiam este blog, e honram este autor com sua atenção, encontrem nas próximas semanas algumas ocasiões de riso e de lamento.


A todos, uma boa semana!




terça-feira, 1 de outubro de 2013

Il moto non è diverso dalla stasi: finale






O díptico de R O M A


Borromini


I

Em O Mal-estar da Civilização, Freud sustentou que a pulsão de agressividade era mantida sob controle ao ser dirigida para o domínio técnico sobre a natureza e ao ser introjetada - contra o próprio eu - na forma de sentimento de culpa. Essa seria a fonte principal do descontentamento com a civilização e, ao mesmo tempo, a maior ameaça contra ela, uma vez que a pulsão agressiva na forma de domínio técnico havia criado as condições para a aniquilação total da espécie humana e somente poderia ser contida por um acréscimo de repressão e, portanto, de insatisfação.

Na esteira de Nietzsche, Freud sugeriu que a hostilidade contra a civilização teria sua história marcada por dois grandes momentos: o surgimento do Cristianismo e a difusão do mito do bom selvagem na era moderna (que culmina em Rousseau).  A decepção generalizada com as promessas da religião e da tecnologia na passagem do século XIX para o século XX forneceu a configuração do mal-estar da civilização, com seu cortejo de ameaças reais e fantasmáticas, que nos é bem familiar.

A crise da civilização já teve, porém, outras configurações em que as contradições apareciam de maneira igualmente explícita e aguda. Foi o que ocorreu no século XVII, quando a ciência de Galileu se confrontou com o poder da igreja romana. É tentador ver aí o conflito exemplar entre a luz da ciência e as trevas da religião, mas isso seria escamotear o momento da contradição, reduzindo-a a um mero confronto em que um dos polos (o da ciência) estaria destinado, por alguma lei inexorável, a superar o outro (o da religião) num esquema positivista fácil. A verdade do conflito está no fato de que nem o papa Urbano VIII Barberini nem o Cardeal Bellarmino eram obscurantistas nem a ciência de Galileu era uma aventura desinteressada pelos domínios da natureza. Para sustentar essa ilusão seria preciso deixar de lado todos os lances de oportunismo exigidos de Galileu para sobreviver num ambiente em que tanto se competia por protetores ricos e poderosos, como o duque da Toscana ou algum cardeal papabile. 

O confronto de Galileu com a igreja romana não era uma luta do Bem contra o Mal, mas um momento tenso em que as forças contraditórias de uma civilização ficaram expostas. A pesquisa de Galileu e a estrutura da igreja de Roma eram aspectos contraditórios de uma realidade que não poderia ser cindida sem ser destruída. A ciência moderna era a irmã siamesa do Cristianismo. Mas o século XVII forneceu outros exemplos dessa tensão insolúvel: 

A pergunta sobre a eticidade da técnica, sobre o seu direito de colocar-se como modelo de comportamento humano, sobre sua capacidade de realizar o fim último da aventura humana, a salvação, apresenta-se no início do século XVII com o dualismo Caravaggio-Annibale Caracci e, pouco depois, com maior aspereza, com o dissídio entre Bernini e Borromini. Como o problema continua aberto e constitui, hoje, a espinha dorsal da angústia da “civilização tecnológica”, pode-se ver em que medida o século XVII, com suas contradições, foi o prólogo do drama histórico do mundo moderno.” (Giulio Carlo Argan, Imagem e Persuasão, p. 420).

Êxtase de Santa Teresa, de Bernini    foto:Ludmila Ciuffi
                      
                                                                               

Roma: Êxtase de Santa Teresa, de Bernini, Igreja de Santa Maria da Vitória


Roma: Igreja de Sant'Agnese in Agone, de Borromini

Roma: Basílica de San Giovanni in Laterano, reformada por Borromini


II


Do ponto de vista histórico e sociológico, José Antonio Maravall forneceu uma visão abrangente das tensões do século XVII em A Cultura do Barroco: análise de uma estrutura histórica, publicado em 1975.

O Barroco, do ponto de vista de Maravall, não é um estilo artístico, mas a estrutura social e histórica de uma época em que a burguesia se retrai diante de uma nobreza que reivindica um poder que não se limita ao exercício das armas, levando à concentração fundiária e à pauperização das massas rurais. A própria Igreja assimila “esses modos de comportamento, decantados dos interesses aristocráticos, modos que, provavelmente, formaram o quadro menos cristão da Igreja de Roma ao longo de toda a sua história.” (A Cultura do Barroco, p. 88). 

Desenvolveu-se então uma cultura conservadora e repressiva, que buscava a acomodação dos conflitos através da persuasão – por meio da retórica e das artes - dirigida  às classes sociais subalternas, especialmente as massas que se aglomeravam nas grandes cidades que se tornaram capitais (Roma, Paris, Madrid, entre outras), centros administrativos de onde emanavam o poder e a autoridade, mas cujas populações sofriam as consequências da urbanização: criminalidade, solidão, agitação em função do anonimato que a cidade oferece, relaxamento dos costumes. Sem meios de canalizar o descontentamento e o conflito por meio da crítica e da livre expressão, ganham corpo as tendências místicas e as crendices fantásticas, os processos de bruxaria se multiplicam por toda a Europa: “A paixão pela extravagância desenvolve-se monstruosamente em povos que não tem acesso a uma crítica razoável da vida social” (idem, p. 357), confirmando a oitava tese de Marx contra Feuerbach: “Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios, que induzem às doutrinas do misticismo, encontram sua solução racional na práxis humana e na compreensão dessa práxis.” 

A conclusão de Maravall é que a crise do século XVII, que delineou a estrutura social e histórica que denominamos Barroco, é o produto de uma modernização conservadora: “Eis aí como a sociedade do século XVII, mordendo o próprio rabo, revela-nos a razão de sua própria crise: um processo de modernização, contraditoriamente montado para preservar as estruturas herdadas.” (idem, p. 405).


Roma: cúpula da basílica de Santo Ambrósio e São Carlos, de Pietro da Cortona (1596-1669), ao fundo a cúpula da basílica de São Pedro, de Michelangelo e Giacomo della Porta (1532-1602)

Roma: interior da Cúpula da Igreja de Gesù, de Giacomo Vignola (1507-1573)  foto: Ludmila Ciuffi



III


Maravall observa que “são homens tristes (...) esses que começam a ser vistos sobre o solo da Europa nos últimos lustros do século XVI, e que continuarão a ser encontrados até bem avançada a segunda metade do século seguinte.” (idem, p. 247). Um desses homens tristes foi o grande arquiteto Francesco Castello, dito Borromini, sobre o qual seu contemporâneo Filippo Baldinucci escreveu:

"Egli era stato solito di patir molto di umore malinconico, o, come dicevano alcuni dei suoi medesimi d'ipocondria, a cagione della quale infermità, congiunta alla continua speculazione nelle cose dell'arte sua, in processo di tempo egli si trovò sì profondato e fisso in un continuo pensare, che fuggiva al possibile la conversazione degli uomini standosene solo in casa, in nulla d'altro occupato, che nel continuo giro dei torbidi pensieri". (“Francesco Borromini” in Enciclopedia Italiana Treccani).

Nenhum artista da época sofreu tanto com os percalços dos juízos históricos como Borromini: há o homem amargurado que se ressentia com o sucesso do rival Bernini; há o alucinado que se comprazia em extravagâncias que repugnavam os árbitros do gosto neoclássico; há o gênio saturnino que queimou seus desenhos antes de suicidar-se; há o brilhante retórico que, segundo Paolo Borghesi "considera sua profissão um formidável instrumento de captação. Ele usa todos os meios para falar com seu interlocutor." (The Rome of Borromini, George Braziller, New York, 1968 p. VIII) e que quer libertar-se de "uma pureza autônoma que reduz as possibilidades comunicativas da arquitetura" (idem, p. 391); há o austero pesquisador das linhas curvas, das ilusões de perspectivas, da modelação dos espaços pela inflexão das superfícies, pelo uso dos elementos usualmente decorativos com finalidades narrativas e estruturais, que tanto impressiona arquitetos pós-modernos como Frank Gehry; enfim, o artista que teria definido a estética espacial do Barroco: “O espaço de Borromini é feito ‘artificialmente’ (...) Trata-se de um espaço contraído e adstringente, cheio de pontas, de arestas cortadas a faca, de estruturas dentadas, de forças contrapostas, de pressões externas: premente como o de Michelangelo, deformante como o de El Greco, mas ao mesmo tempo lúcido e desiludido como uma demonstração por absurdo.” (Giulio Carlo Argan, Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco, Companhia das Letras, 2004 p. 423)

Se na cultura do Barroco, segundo a lição de Maravall, o apelo à harmonia dos contrários é a máscara que procura ocultar as ameaças à ordem estabelecida, talvez seja o caso de ver na arquitetura de Borromini, com seu gosto pelas arestas e pelo espaço que se contrai, a própria exposição das tensões do mal-estar da civilização barroca.

Roma: torres e cúpula da Igreja de Sant'Agnese in Agone, de Borromini


IV


O mal-estar começa pela própria desconfiança de Borromini em relação a Roma, cuja mundanidade choca o ascetismo do arquiteto lombardo. Além disso, em Roma, era demasiado tentador para um artista “invocar o álibi da história antiga e da natureza universal” (Giulio Carlo Argan, op. cit., p. 422). A austeridade de Borromini é indissociável da sua pesquisa formal adversa aos cânones historicistas e naturalistas, que a tradição clássica e seus continuadores (como Bernini) endossavam. Como mostrou Argan, as soluções clássicas estavam vedadas a Borromini pelo seu próprio rigor: “... a lúcida e amarga constatação do fim do classicismo, a liberdade precária e ilusória que nasce da morte de uma cultura, da ruptura de uma tradição, esse sentimento de vazio, enfim, que é ao mesmo tempo tripúdio e angústia, ímpeto para o alto e vertigem de altura.” ( op. cit., p. 353)

Por essa consciência da crise da linguagem clássica, e evidentemente da promessa de conciliação dos conflitos que lhe era inerente, por meio do ideal da bela proporção natural, Borromini sempre foi fiel à sua admiração por Michelangelo, o grande artífice das forças em tensão explícita e da superação do passado, razão pela qual Borromini registrou, por intermédio de seu amigo e protetor Virgilio Spada:

Peço a meus leitores (...), se lhes acontecer de achar que me afasto dos desenhos tais como são feitos comumente, de lembrarem-se desta frase de Michelangelo, príncipe dos arquitetos: quem segue os outros não os ultrapassa jamais, e estou certo de que nunca teria me devotado a esta profissão se fosse para ser um simples copista, mesmo que eu saiba bem que quando se inventam coisas novas, não se pode colher os frutos destes trabalhos senão tarde, como aconteceu com Michelangelo. Quando ele renovou a arquitetura da grande basílica de São Pedro, ele foi vilipendiado por suas novas formas e novos ornamentos, que seus inimigos reprovavam. A tal ponto que mais de uma vez tentaram privá-lo do cargo de arquiteto de São Pedro, mas em vão. E o tempo mostrou claramente que tudo que ele fez é digno de ser imitado e admirado. Que Deus esteja convosco.” (citado por Étienne Barlier, Francesco Borromini: le mystère et l’éclat, Presses Polytechniques et Universitaires Romandes, Lausanne, 2009 p.15).


Em Borromini, a busca do novo não pode ser identificada como gosto de novidades numa sociedade repressiva como aquela que Maravall descreveu. No arquiteto italiano, trata-se da consciência de que as formas do passado perderam sua exemplaridade diante da caducidade permanente de todas as coisas. Elas são apenas recordações de um tempo que se desfez. O novo é o testemunho de que o que se foi está morto: “O caráter fúnebre que essa arquitetura conserva, mesmo quando é mais equilibrada e luminosa, tem um sentido quase moral de dança macabra.” (Giulio Carlo Argan, op. cit., p. 353)

Roma: Interior da Igreja de São Carlos das Quatro Fontes, de Borromini 

Preso ainda às formas morais e ascéticas assumidas por uma existência comprometida com o rigor estético de Michelangelo e com o rigor religioso do Concílio de Trento, movia-se uma inquietude e uma insatisfação permanentes, que se tornarão a marca da condição fáustica, familiar a todo mundo burguês desde o século XIX: a “modernidade” cuja tragédia e cuja comédia foram descritas por Freud, por Nietzsche e por Marx.


V


Jovem noviço em Roma, Guarino Guarini conheceu Borromini, cujas lições formais ele retomou na sua carreira de sacerdote, arquiteto, matemático e físico (a ciência e o Cristianismo eram irmãos siameses). Em Turim, ele foi encarregado da construção da Capela do Santo Sudário e do Palácio Carignano, perto do qual Nietzsche abraçou um cavalo aos prantos em janeiro de 1889. 

Turim: Palácio Carignano, de Guarino Guarini (1624-1683)

Eis-me de volta ao ponto de partida desta viagem. É justo. Foi aqui em Turim que Xavier de Maistre escreveu a sua Viagem ao redor de meu quarto, em 1794.  É o que eu pensava colhendo o chocolate no fundo da minha taça no Café Al Bicerin, depois de ter sentido o gelo na alma na Capela do Sudário e de ter visitado a casa de Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz. 

O percurso de nossa viagem nunca é maior do que o perímetro das nossas obsessões. Há muita coisa que não vi em Roma porque não podia enxergá-las. Talvez seja preciso multiplicar minhas obsessões para que os olhos possam ver o que não viram. Cada Borromini que eu deixei para a próxima visita, porque estava ocupado demais admirando Bernini, me pesa como uma culpa, mas sempre desejarei voltar para a ponte do Castelo de Sant’Angelo.

Então, a questão não é quão longe eu fui, mas sim se eu fui fiel à minha imobilidade, pois desejo muito que as palavras que Eugenio Montale dedicou à sua falecida esposa também possam valer para minha experiência:

Tu sola sapevi che il motto/ non è diverso dalla stasi./ che il vuoto è il pieno e il sereno/ è la più diffusa delle nubi./ Cosi meglio intendo il tuo lungo viaggio

Tu, apenas tu, sabias que o movimento/ Não difere da estase,/ Que o vazio é o pleno e o céu limpo/ A mais difusa das nuvens./ Dessa forma compreendo melhor tua longa viagem 
(Satura, Xenia I, 14 - tradução Geraldo Holanda Cavalcanti)

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Roma: Fonte da Basilica de Santa Sabina 


Giulio Carlo Argan, Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco, Companhia das Letras | Étienne Barlier, Francesco Borromini: le mystère et l’éclat, Presses Polytechniques et Universitaires Romandes | José Antonio Maravall, A Cultura do Barroco: análise de uma estrutura histórica, Edusp | Paolo Portoghesi, The Rome of Borromini, George Braziller | Enciclopedia Italiana Treccani