quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Lúgubre isla me alumbrará continental #1








A R E Q U I P A





Por que eu viajo? Porque os mapas, com seus nomes esplêndidos, são artefatos maravilhosos que, como os mitos, me encantam sem que eu possa acreditar neles. Então, firmemente presos ao mastro, vamos longe experimentar o canto das sereias.

 * * *

Essa viagem ao Peru foi uma viagem à Irlanda que fracassou. Três dias antes de partir eu terminava de ler o romance de Vargas Llosa sobre Roger Casement. Iríamos a Dublin para o centenário da revolta da Páscoa de 1916, mas chegamos subitamente a Arequipa, terra de Vargas Llosa. Com a mesma inconstância e incerteza, os ventos poderiam nos ter conduzido ao coração das trevas do Congo ou ao impaludismo das selvas do Putumayo.

* * *

Em Arequipa, dois vulcões dominam a linha do horizonte: o Chachani e o Misti. É história corrente que, mais de cinquenta anos antes da chegada de Pizarro, o inca Yupanqui tentou aplacar a erupção do Misti oferecendo ao deus furibundo inúteis pelotas de barro embebidas no sangue de lhamas. Desde então aperfeiçoamos muito as técnicas de arremesso das pelotas, mas elas ainda se dissolvem contra a onda de lava e lodo que avança.

* * *

No saguão do hotel, ficamos sabendo que David Bowie morreu, certamente por causa da erupção de um vulcão invisível.

* * *

Comprei um chapéu branco que, no esplendor do meio-dia arequipeño, passou a ser um sombrero luminoso.  

* * *

A gente daqui é quieta e solícita. Ninguém gosta de parecer impositivo ou assertivo, por isso, falam todos no modo condicional. Mas é modéstia de gente orgulhosa. Na imensa Plaza de Armas e na enorme catedral, o que se vê é a vontade de grandeza.

* * * 

Por toda a parte, os casais jovens dividem os bancos de praça, aos abraços, beijos e confidências junto ao ouvido. Ainda há namoro em Arequipa e lambe-lambes nas praças onde o povo se aglomera nas horas frescas.

* * *

Arequipa foi derrubada por muitos terremotos e reergueu-se todas as vezes, ganhando formas novas. A Arequipa de outrora se queria neoclássica. O sillar, pedra vulcânica que serve de material básico de construção na região, era talhado em frisos com folhas de acanto e pilastras coríntias cobertas de fino gesso. Mais tarde, decidiu-se que Arequipa seria neocolonial: em verdade, a mais espanhola das cidades peruanas. Então o gesso foi retirado e a porosidade do sillar deixada à mostra como índice da rudeza dos tempos do vice-reinado, naquelas casas refeitas a partir da década de 1950. No entanto, neoclássica ou neocolonial, Arequipa é a cidade branca, à beira do deserto, sob o sol que faísca.

* * *

Dia de turismo. Experimentamos um comedouro popular e barato do mercado central de San Camilo. Do mirante de Yanahuara, assistimos ao pôr-do-sol. Na Ponte Grau, acompanhamos as luzes da cidade ao anoitecer. No bar do hotel, tomamos dois chilcanos e um pisco sour. No quarto, adormecemos ouvindo o noticiário da Deutsche Welle na televisão.

* * *

Arma virumque cano.  O coronel Francisco Bolognesi Cervantes tombou em 1880 ao defender Arica, então porto peruano, contra as tropas chilenas. Foi declarado patrono do exército e, por todo o país, seu nome ilustra muitos logradouros públicos. Em Arequipa, uma vistosa estátua do coronel prestes a disparar seu revólver materializa no bronze  as  palavras finais do herói: Hasta quemar el último cartucho.

* * *

Brasa dormida. A recente invasão das empresas chilenas sobre o Peru ressuscitou, na direita populista, o velho ressentimento pela derrota do país na guerra do Pacífico.

* * *

Fogo morto. Passamos muitas horas no convento de Santa Catalina, entre as finadas monjas que, no oco da ausência, deambulavam lívidas pelos pátios de gerânios, enquanto suas vigorosas criadas cholas cardavam a alpaca imaterial e assavam o pão nos fornos extintos.




A periferia de Arequipa na borda do deserto






O vulcão Misti




Os táxis numerosos e minúsculos



As construções de sillar numa esquina da calle de Santa Catalina





Ao fundo, o vulcão Chachani



Calle Zela: ao fundo os muros do convento de Santa Catalina





Calle de Santa Catalina, em direção a Plaza de Armas, perto ao portal de San Agustin





Plaza de Armas e Catedral 




Plaza de Armas e Catedral



A Catedral com o Misti ao fundo




Fachada da igreja de San Agustin
Convento de Santa Catalina





Convento de Santa Catalina 




Convento de Santa Catalina




Convento de Santa Catalina





Convento de Santa Catalina



Convento de Santa Catalina



Convento de Santa Catalina




Convento de Santa Catalina



Convento de Santa Catalina




Convento de Santa Catalina




Convento de Santa Catalina



Convento de Santa Catalina



Convento de Santa Catalina



Detalhe da fachada da igreja e convento de São Francisco



Convento de São Francisco




Altar lateral e púlpito da Igreja da Companhia de Jesus



Pátio do colégio da Companhia de Jesus




Casa del Moral: pátio interno



Casa del Moral: pátio posterior







Casa natal de Mário Vargas Llosa



Mirante de Yanahuara



Estátua do Coronel Bolognesi Cervantes



Ludmila conversa com Antonia tejedora.



Antonia






abertura: lateral da catedral vista do portal de San Agustin








sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Aviso a los navegantes









Hubo un día tan rico el año passado...!
que ya ni sé qué hacer con él.
César Vallejo, Trilce, LXXIV


21 de janeiro de 2017

Depois de Ludmila comprar papéis e tintas na Géant des Beaux-Arts da rua Vergniaud, iríamos visitar o poeta Cesar Vallejo.

Me moriré em París con aguacero,
un día del cual tengo ya recuerdo.
Me moriré em París – y no me corro –
talvez un jueves, como es hoy, de otoño. (1)

Eis o que tínhamos combinado e nem os quatro graus abaixo de zero, nem a caminhada aborrecida pelo boulevard Auguste Blanqui, nem a lembrança daquela manhã gelada em que, muitos anos antes, com os lábios azuis de frio, havíamos tiritado junto à tumba de Baudelaire, nada disso nos impediria de regressar ao campo santo do 14e. 

Todavia, fosse pelo feitio gauche e arredio do poeta ou, mais simplesmente, pela minha inépcia em lidar com o mapa, não topamos com a sepultura que esperávamos coberta de bandeiras alvirrubras do Peru. Aborrecido comigo mesmo e cheio do spleen de Paris, passamos indiferentes e neutros ao lado do túmulo de Samuel Beckett, saímos do cemitério e fomos almoçar numa brasserie da Edgar Quinet.

Yo no sufro este dolor como César Vallejo. Yo no me duelo ahora como artista, como hombre ni como simple ser vivo siquiera. Yo no sufro este dolor como católico, como mahometano ni como ateo. Hoy sufro solamente. Si no me llamase César Vallejo, también sufriría este mismo dolor. (2)

Foi preciso voltar ao hotel à noite e verificar as datas para confirmar que, num outro 21 de janeiro, exatamente um ano antes, chegávamos a Trujillo depois de uma longa viagem noturna pela Panamericana Norte. Mas não era ainda Vallejo que buscávamos e sim as ruínas de Chan Chan e da Huaca de la Luna. Contudo, ao passarmos diante da universidade, o guia local nos disse, cheio do ufanismo que só se perdoa na província, que aquela era a alma mater do mais célebre poeta peruano, César Vallejo. Ao que eu respondi: Seguramente, el más grande poeta de Latinoamérica. Não era mentira nem exagero.

Mas sólo tú demuestras, descendiendo
o subiendo del pecho, bolchevique,
tus trazos inconfundibles. (3)

É essa viagem pelo vasto continente tecido de fibras, pedras e palavras, de Vargas Llosa, Argüedas, Mariátegui e Vallejo, de incas, moches e paracas, que o Sobrinho de Enesidemo vai agora começar.

Lúgubre isla me alumbrará continental
mientras el capitolio se apoye en mi íntimo derrumbre
y la assemblea en lanzas clausure mi desfile. (4)


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(1) Piedra Negra sobre una Piedra Blanca, Poemas Póstumos
(2) Voy a hablar de la esperanza, Poemas Póstumos
(3) Salutación Angélica, Poemas Póstumos
(4) Epístola a los transeúntes, Poemas Póstumos






terça-feira, 28 de novembro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XVII)








Cenas da Revolução de 17



O índice de sinistralidade

- O comunismo já pode ser visto no horizonte -, declara Kruthchev em um discurso.
Aparte de um ouvinte:
- Camarada Khrutchev, o que é horizonte?
- Procure no dicionário -, responde Nikita Sergeievitch.
Desejoso de esclarecimento, o ouvinte, ao chegar em casa, encontra em uma enciclopédia a seguinte explicação: "Horizonte, linha imaginária que separa o céu e a terra, e que se torna mais distante quando dela nos aproximamos".

* * * * *

"Os prognósticos também são determinados pela necessidade de se esperar alguma coisa. Voltada para um campo mais amplo ou mais estreito, a previsão libera expectativas, a que se misturam também temor e esperança. (...) Assim, um prognóstico abre expectativas que não decorrem apenas da experiência. Noutras palavras: o espaço da experiência anterior nunca chega a determinar o horizonte de expectativa".  

* * * * *

"Quanto menor o conteúdo da experiência, maior a expectativa que se extrai dele. Quanto menor a experiência, maior a expectativa – eis a fórmula para a estrutura temporal da modernidade, conceptualizada como “progresso”. Isso foi plausível enquanto as experiências anteriores não eram suficientes para fundamentar as expectativas geradas por um mundo que se transformava tecnicamente. Mas, depois de haverem nascido de uma revolução, quando os projetos políticos correspondentes se transformam em realidades, as antigas expectativas se desgastam tornando-se experiências recentes. Isso vale para o republicanismo, o democratismo e o liberalismo, na medida em que a história permite atualmente emitir um juízo. Pode-se presumir que continuará válido para o socialismo e também para o comunismo, se este chegar a ser declarado introduzido na história.

Pode assim acontecer que uma antiga determinação relacional venha a readquirir seus direitos: quanto maior a experiência, tanto mais cautelosa, mas também tanto mais aberta a expectativa. Para além de qualquer ênfase, ter-se-á alcançado o final da ‘modernidade’, no sentido de [expectativa de] progresso otimizante".

(Reinhart Koselleck, “Espaço de experiência e horizonte de expectativa: duas categorias históricas” in Futuro Passado: Contribuição à semântica dos tempos históricos, Contraponto/ Editora PUC Rio, Rio de Janeiro, 2006 pp. 311, 313, 326-7)










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abertura: Sol Lewitt, Red Square, White Letters, 1962, Museu Ludwig, Colônia

fechamento: Martin Kippenberger, Sympathische Kommunistin, 1983, Museu Ludwig, Colônia






terça-feira, 7 de novembro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XVI)







Cenas da Revolução de 17



cena XI



A tomada do poder





[O que John Reed perdeu enquanto dormia]


Na quarta-feira, dia 7 de novembro, levantei-me muito tarde. A Fortaleza de Pedro e Paulo dava o tiro do meio-dia quando eu descia pela Avenida Niévski. Fazia um frio úmido e irritante. As portas do Banco do Estado estavam fechadas e guardadas por soldados com baionetas caladas.
- De que lado estão vocês? – perguntei. – Do governo?
- Já não mais mais governo, Slava Bogu! (graças a Deus) – respondeu um deles, com uma risada.
Foi tudo o que consegui saber. Os bondes passavam correndo pela Avenida Niévski, com homens, mulheres e crianças pendurados nos balaústres. As lojas estavam abertas e a multidão na rua parecia menos alarmada do que no dia anterior.



[Uma página perdida de Kafka]

Dirigi-me, então, para o Palácio de Inverno, seguindo a avenida Admiralteiski. Todas as entradas do Praça do Palácio estavam guardadas por sentinelas. A oeste, a não ser alguns soldados transportando pedaços de madeira, do pátio para a porta principal, tudo o mais permanecia tranquilo. Impossível saber se as sentinelas eram a favor do governo ou dos sovietes. Os papéis que obtivera no Smólni não serviam para nada. Resolvi, então, dar um golpe de audácia. Avancei com ar importante até a fileira de guardas e, exibindo meu passaporte norte-americano, disse em tom enérgico: "Serviço Oficial", e consegui passar. No saguão do palácio, estavam os mesmos porteiros de sempre, que gentilmente me desembaraçaram do chapéu e do capote. Subi. No corredor, sombrio e lúgubre, despojado de seus tapetes, passavam criados sem saber o que fazer. Diante da porta de Kerenski, estava um oficial ainda jovem, mordendo o bigode nervosamente. Indaguei se era possível entrevistar o presidente do conselho. Juntou os calcanhares, inclinou-se e respondeu-me em francês:
- Sinto muito, mas não é possível. Aleksandr Fiódorovitch está muito ocupado neste momento...
Depois, examinando-me, acrescentou:
- Na verdade, agora não está aqui.
- Onde poderei encontrá-lo?
- Partiu para a frente de combate... E, como seu automóvel estava sem gasolina, fomos obrigados a pedi-la emprestada no Hospital Inglês...
- E os ministros?
- Estão reunidos em sessão, mas não sei exatamente em que sala.
- Saberá dizer-me se é verdade que os bolcheviques vêm para cá?
- Sem dúvida. Não devem tardar. Espero, de um momento para outro, um telefonema anunciando sua chegada. Mas estamos preparados. Os junkers estão no palácio. Ali atrás daquela porta.
- Pode-se entrar?
- Não, impossível. É proibido.



[É uma loucura, uma loucura!]

Chegamos ao Smólni, cuja fachada maciça estava toda iluminada. Das ruas mergulhadas na escuridão chegavam sombras de forma imprecisa, movendo-se com precipitação. Passavam automóveis e motocicletas. Um enorme carro blindado, cor de elefante, avançava, buzinando, com duas bandeiras vermelhas nas portinholas. Fazia frio. Os soldados vermelhos tinham acendido uma fogueira ao lado da grade. Na parte de dentro, à luz do fogo, as sentinelas decifraram com dificuldade nossos passaportes e nos examinaram. (...)
Fiz Kamenev parar. Pequeno, movimentos vivos, rosto largo e expressivo, quase sem pescoço, Kamenev traduziu-me rapidamente para o francês a resolução que acabava de ser aprovada:
“O Soviete dos Deputados Operários e Soldados de Petrogrado apela a todos os operários de todos as partes da Rússia para que se coloquem com toda energia e com a maior abnegação a serviço da revolução operária e camponesa. O soviete declara ter certeza de que os operários das cidades, aliados aos camponeses pobres, saberão forjar uma disciplina inflexível e assegurar a ordem revolucionária mais perfeita, sem a qual será impossível fazer triunfar o socialismo. O soviete igualmente está seguro de que o proletariado dos países da Europa Ocidental auxiliará o proletariado russo na transformação socialista da Rússia, até a vitória completa e definitiva do socialismo em todo o mundo”.
- Então vocês acham que a partida está ganha? perguntei. Kamenev encolheu os ombros.
- Ainda há muita coisa por fazer, muita coisa mesmo. Estamos apenas começando.
Encontrei Riazanov no vestíbulo. Era vice-presidente do Conselho dos Sindicatos. Estava taciturno e mordia a todo instante o bigode grisalho:
- É uma loucura, uma loucura! – gritava. – Os trabalhadores da Europa não vão se mover. Toda a Rússia...
Levantou desesperadamente os braços para o céu e afastou-se rapidamente. Riazanov e Kamenev opunham-se à insurreição e tinham sido, por isso, severamente criticados por Lenin.
A sessão foi decisiva. Em nome do Comitê Militar Revolucionário, Trotsky declarou que o Governo Provisório não existia mais.
- Todos os governos burgueses – dizia ele – têm a característica de sempre enganar o povo. Nós, o Soviete dos Deputados Operários, Soldados e Camponeses, vamos fazer uma experiência sem precedentes na história. Vamos criar um governo cuja finalidade única será satisfazer as necessidades dos operários, dos soldados e dos camponeses.
Lenin foi recebido com imensa ovação. Profetizou a revolução social no mundo inteiro. E Zinoviev gritou:
- Hoje pagamos uma dívida ao proletariado internacional. Assestamos terrível golpe na guerra. Desferimos terrível golpe em todos os imperialismos, particularmente no imperialismo alemão, em Guilherme II, o Carrasco...
Logo depois, Trotsky anunciou que haviam sido enviados telegramas comunicando a vitória a todas as frentes do Exército. Mas até aquele momento nenhuma resposta chegara. Falava-se que tropas marchavam sobre Petrogrado. Era preciso enviar uma delegação ao seu encontro para fazê-las conhecer a verdade.
Alguém gritou:
-Vocês não esperaram que o Congresso Pan-Russo dos Sovietes manifestasse sua vontade!
Trotski respondeu friamente:
- A vontade do Congresso Pan-Russo dos Sovietes foi precedida pela sublevação dos operários e soldados de Petrogrado.


[Não fumem, camaradas!]

Era sufocante a temperatura da sala, apenas aquecida pelo calor de centenas de corpos suados. Espessa nuvem azulada elevava-se dessa multidão, tornando o ar irrespirável. De vez em quando, um dos presentes subia à tribuna e pedia aos camaradas que não fumassem. Então toda a sala, inclusive os fumantes, começava a gritar: - Não fumem, camaradas! – E todos continuavam fumando.


 [O nascimento de uma nação]

Mas, de repente, ouviu-se uma nova voz, mais profunda, dominando o tumulto da assembleia. Era a voz surda do canhão! Todos os olhares voltaram-se ansiosamente para as janelas. Uma espécie de febre ardente dominou a assembleia.
Martov pediu a palavra. E, com voz rouca, disse:
- Camaradas! A guerra civil já começou. É necessário discutir em primeiro lugar a solução pacífica da crise. Tanto por questões de princípios, como por motivos políticos, devemos começar a sessão de hoje discutindo com a maior urgência os meios de fazer cessar a guerra civil. Nossos irmãos estão morrendo nas ruas... neste momento em que se procura resolver a questão do poder, antes da abertura do Congresso dos Sovietes, por meio de uma conspiração militar organizada por um único dos partidos revolucionários – (Durante alguns instantes o trovejar da artilharia abafou-lhe as palavras) - ... Todos os partidos devem encarar este problema de frente. A primeira questão que o Congresso vai discutir é a do poder. Mas ela já está sendo resolvida nas ruas, pela força das armas... Temos a missão de criar um poder que toda democracia possa reconhecer. Se este congresso quer ser o porta-voz da democracia revolucionária, não deve ficar de braços cruzados ante a guerra civil que ameaça fazer explodir uma perigosa contra-revolução. Só há uma solução pacífica para a crise atual: a formação de um poder com a participação de todas as organizações democráticas num bloco unido... Proponho que se eleja uma delegação para negociar com todos os partidos e organizações socialistas.
O surdo rimbombar do canhão continuava a fazer estremecer os vidros das janelas, com intermitências regulares, enquanto os deputados discutiam e se insultavam.
Foi assim, sob o troar da artilharia, na obscuridade, no meio de ódios, de medo e da mais temerária das audácias, que nasceu a nova Rússia.

(John Reed, Os dez dias que abalaram o mundo, capítulo IV, Círculo do Livro, s/d pp. 98, 101-102, 107-110)








25 октября

Na terça-feira, dia 7 de novembro de 2017, levantei-me cedo. A estação Vila Madalena havia aberto há pouco quando eu desci a avenida Heitor Penteado. Fazia um frio úmido e irritante. As portas do Banco do Brasil estavam fechadas. 
Na esquina havia alguns policiais.
- De que lado estão vocês - perguntei - Do governo?
- Já não mais governo, graças a Deus - respondeu um deles, com uma risada.
Foi tudo o que eu consegui saber. Entrei no metrô e me dirigi ao local onde diariamente dispenso um pouco do meu sangue, do meu tempo e da minha vida para pagar minhas contas. Coloquei os auriculares e ouvi a Internacional cantada pelo coro do Exército Vermelho. Os meus camaradas de transporte público estavam taciturnos. 
Em frente ao SESC Pompeia, manifestantes do Movimento Brasil Livre iriam se reunir à tarde para apontar crucifixos e rosários contra a efígie da filósofa Judith Butler. No Palácio do Planalto, o Governo Provisório continuaria a sua luta desesperada para se manter no poder.

A Revolução Russa completa cem anos hoje.

Cem anos.





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abertura: Eugêne Laermans, A bandeira Vermelha, 1893 
Musée Fin-de-Siecle, Bruxelas







domingo, 29 de outubro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XV)





Cenas da Revolução de 17



cena X



Lenin




Durante todo esse período momentoso, Lenin se mostrou maior como estrategista do que como tático. Vivendo escondido primeiro em Helsingfors, depois em Viborg, perto de Petrogrado, chegando na capital apenas em 20 de outubro, dependente da informação dos jornais que lhe chegavam às mãos com algum atraso e dos encontros clandestinos com os membros confiáveis do partido, era natural que seu julgamento fosse falho em relação a alguns detalhes do levante planejado. Ele estava convencido, por exemplo, de que o sucesso seria mais certo em Moscou do que em Petrogrado e recomendava que o levante começasse em Moscou. Na verdade, Petrogrado caiu nas mãos dos bolcheviques quase sem luta, ao passo que vários dias de combate sanguinário foram necessários para conquistar Moscou. (...)

Mas esses eram apenas erros de pouca monta na avaliação dos detalhes, que poderiam ser corrigidos no desenvolvimento da ação. A grandeza indisputável de Lenin como líder revolucionário estava no fato de que ele percebeu imediatamente, após o colapso de Kornilov, que o tempo para a ação tinha chegado, de que ele sustentou sua visão com argumentos políticos de lógica implacável, disparados com paixão revolucionária, e de que ele nunca relaxou sua pressão sobre o Comitê Central do partido (em que alguns membros demonstravam hostilidade ou pouco entusiasmo com a insistência num levante) até que a oposição fosse esmagada e a organização do partido tivesse se alinhado com suas propostas. Aliás todo o conjunto do pensamento político de Lenin e dos traços mais salientes da sua personalidade estão refletidos com espantosa vivacidade nas cartas e panfletos que ele publicou em rápida sucessão naquele momento: “Os bolcheviques devem tomar o poder”, “Marxismo e Insurreição”, “Podem os bolcheviques manter o poder de Estado?”, “A crise está madura” etc.

De maneira geral, o estilo de Lenin não tinha nada de especial nem pretendia ter. Havia, porém, uma eloquência genuína na aspereza, dureza e timbre metálico de muitas frases nesses apelos ao levante. O que poderia ser mais forte, simples e decisivo do que a abertura de sua carta endereçada ao Comitê Central e aos comitês do partido em Moscou e Petrogrado: “Tendo obtido a maioria no Soviete dos Trabalhadores e Soldados em ambas as capitais, os bolcheviques podem e devem tomar o poder do Estado em suas mãos”. Ou o que poderia ser uma avaliação psicológica mais aguda das condições de uma revolução bem-sucedida do que o excerto seguinte de “Marxismo e Insurreição”:  “Uma insurreição deve apoiar-se num momento de virada na história de uma grande revolução, quando é maior a atividade nas fileiras mais avançadas do povo e quando são maiores as hesitações nas fileiras dos inimigos e dos amigos da revolução que se mostram fracos, frouxos e indecisos”.

Estas duas cartas foram lidas e discutidas na sessão do Comitê Central do partido em 28 de setembro. Lenin não apenas esboçava argumentos teóricos para uma tomada armada do poder, mas também um plano de ação bem definido. No entanto, essas cartas tiveram uma recepção fria. (...)

Todavia o momento e a crescente atmosfera revolucionária estavam do lado de Lenin. Em 12 de outubro, ele reforçou seu ponto de vista com outro artigo, “A crise está madura”, que começa com o grosseiro equívoco de que “estamos no limiar de uma revolução proletária mundial” mas faz uma análise correta das condições internas da Rússia, sublinhando pontos como os levantes camponeses que incendiavam o campo, a despeito de Kerensky, um socialista revolucionário, ser o chefe de governo; as tropas finlandesas e a frota do Báltico terem deixado o governo; o testemunho geral de que os soldados não iriam mais lutar; o movimento em direção ao bolchevismo refletido nas eleições municipais de Moscou.

Chama a atenção que durante todo o período crítico de preparo para o risco supremo do levante, Lenin mostrou pouco caso quanto às exigências estritas de disciplina no partido. Ele passou por cima do Comitê Central em mais de uma ocasião, enviando cópias de suas mensagens às organizações partidárias locais, entrando em contato direto com aqueles que ele via como os partidários mais confiáveis da insurreição, certificando-se de que cópias extras de seus apelos chegassem às mãos dos trabalhadores mais ativos ligados ao partido. Trotsky declara que no meio de outubro, Lenin anunciou sua renúncia como membro do Comitê Central “para ter liberdade de promover agitação nas fileiras inferiores do partido e no congresso do partido”. A renúncia não foi aceita e o incidente foi rapidamente encerrado, mas é sintomático do impulso infatigável de Lenin o medo de perder a oportunidade de um levante bem-sucedido. Entre 16 e 20 de outubro, ele mandou uma carta diretamente aos membros dos comitês de Petrogrado e Moscou, cujo conteúdo geral se resume às seguintes frases: “Esperar é um crime. Os bolcheviques não têm o direito de esperar até o Congresso dos Sovietes, eles devem agir imediatamente... Adiar é um crime. Esperar o Congresso dos Sovietes é um apego infantil à formalidade, é um vergonhoso apego à formalidade, uma traição da Revolução”.

Nenhuma imagem do pensamento de Lenin nessa época seria completa sem uma menção ao seu notável panfleto “Podem os bolcheviques manter o poder do Estado?”, amplamente dedicado a refutar os argumentos apresentados por Maxim Gorky no seu jornal Novaya Zhizn (Vida Nova): “Depois da revolução de 1905, 130.000 senhores de terra governaram a Rússia. E 240.000 membros do partido bolchevique não poderiam governar a Rússia em nome dos interesses dos pobres e contra os ricos? ... O Estado é uma concepção de classe. O Estado é um órgão ou máquina de violência de uma classe contra outras. Na medida em que ele é uma máquina de tirania da burguesia sobre o proletariado, só pode haver um único slogan proletário: a destruição do Estado. E quando o Estado for proletário, quando ele for uma máquina de tirania do proletariado sobre a burguesia, então seremos a favor da autoridade firme e do centralismo, de maneira completa e sem reservas... Uma revolução popular, real e profunda é um processo incrivelmente tormentoso de morte da velha ordem social e nascimento da nova, de uma nova maneira de viver para dezenas de milhões de pessoas. A revolução é a mais feroz, aguda e desesperada luta de classes e guerra civil. Nenhuma grande revolução na história se realizou sem guerra civil... E quando o último dos trabalhadores não-qualificados, cada cozinheira, cada lavrador empobrecido ver, não apenas pelos jornais, mas com os próprios olhos, que o poder proletário não rasteja diante dos ricos, mas ajuda os pobres, que não foge das medidas revolucionárias, que toma o excedente dos ociosos para dá-los aos famintos, que assenta os sem-teto nos apartamentos dos ricos, que obriga os ricos a pagar pelo leite, mas não lhes dá nenhuma gota de leite até que as crianças das famílias mais pobres sejam alimentadas, que transfere a terra para quem labuta, que põe as fábricas e os bancos sob o controle dos trabalhadores, que pune séria e imediatamente os milionários que escondem suas riquezas,  quando os pobres virem e sentirem isso, então nenhum poder dos capitalistas e dos kulaks, nenhum poder capital financeiro internacional, que roubou milhões, poderá vencer a revolução do povo. Pelo contrário, é a revolução que conquistará todo o mundo, por causa dos levantes socialistas que amadurecem em todos os países”.

Se a esse feroz evangelho da luta de classes adicionarmos o toque de acre desprezo com que Lenin se refere, neste panfleto, a um engenheiro ex-bolchevique que levantou a objeção de que os trabalhadores da Rússia eram muito ignorantes e atrasados para fazer uma revolução exitosa (“Ele estaria pronto a reconhecer a revolução social se a história conduzisse a isso de maneira tão pacifica, tranquila, suave e exata quanto um trem expresso alemão que se aproxima da estação e o condutor abre as portas anunciando: Estação Revolução Social. Desçam todos”), nós teremos uma boa visão psicológica da condição interior do homem que logo iria derrubar o instável poder de Kerensky.

(William Henry Chamberlain, The Russian Revolution, Volume One, The Universal Library, New York, 1977, pp. 287-290)


















sábado, 30 de setembro de 2017

A claraboia e o holofote #31 (XIV)








Cenas da Revolução de 17



cena IX



Rumo ao Outubro Vermelho




Embora o golpe de Kornilov tenha fracassado sem nenhum tiro, suas consequências políticas foram graves. Seus resultados foram precisamente o oposto do que o general e seus conselheiros haviam esperado. O golpe deu às massas turbulentas e insatisfeitas o impulso necessário para levá-las à ação revolucionária violenta. Ele solapou completamente a frágil base de confiança em que se apoiava o Governo Provisório.

Embora pareça que tenha subestimado a força dos bolcheviques até o fim, Kerensky não era cego ao fato de que, uma vez que a ameaça da direita tivesse desaparecido, haveria uma ameaça mais séria da esquerda. Ele tentou levar adiante a velha política de oscilar entre as forças conservadoras e radicais do país. (...) Mas as possibilidades de manobras efetivas desse tipo eram pequenas. Até aqui o Governo Provisório devia a sua relativa estabilidade ao fato de que a grande maioria dos sovietes lhe concedia apoio formal, mas imediatamente após o caso Kornilov os sovietes começaram a deslizar das mãos dos mencheviques e dos socialistas revolucionários. Em 13 de setembro, o Soviete de Petrogrado, por 279 votos contra 115, com 51 abstenções, adotou uma resolução bolchevique, com as conhecidas exigências de imediatas negociações de paz, confisco de latifúndios e introdução do controle dos trabalhadores nas fábricas. O comparecimento a essa seção tinha sido pequeno e um teste de força mais decisivo teve lugar no dia 22, quando os mencheviques e os socialistas revolucionários na presidência do soviete renunciaram. Uma truque político esperto de Trotsky, que tinha sido libertado da prisão no dia 17, ajudou a mudar a maré a favor dos bolcheviques: ele apontou que Kerensky ainda era formalmente um membro da presidência e introduziu na votação o item da confiança ou ausência de confiança em Kerensky, que não era popular entre os baixos escalões militares, cujos votos decidiram o assunto. Os bolcheviques obtiveram uma segunda e decisiva vitória, com 519 votos contra 414, e 67 abstenções.

A partir desse momento o Soviete de Petrogrado, que gozava de mais autoridade na capital do que o Governo Provisório, caiu nas mãos dos bolcheviques. No dia 8 de outubro, Trotsky foi eleito presidente do soviete. Com seu costumeiro senso dramático, ele lembrou que tinha sido eleito para o mesmo posto em 1905, às vésperas da supressão do soviete e da prisão de seus líderes pelo regimento Ismailov. “Mas agora”, declarou triunfante, “o regimento Ismailov está inteiramente diferente. Nós nos sentimos muito mais firmes agora do que então”.

Lenin ainda estava escondido, com o risco de ser preso, mas os dois mais fortes sovietes do país (Moscou seguiu o exemplo de Petrogrado e se tornou bolchevique em 18 de setembro) estavam nas mãos do partido de Lenin.  Petrogrado e Moscou não estavam sozinhos. Já em 14 de setembro, o jornal bolchevique “Trabalhadores” anunciou que 126 sovietes tinham requerido que o Comitê Executivo Central do Soviete (Vtsik) tomasse o poder. O Vitsik, eleito pelo primeiro Congresso  dos Sovietes e dominado pelos mencheviques, não tinha nenhuma intenção de realizar esse pedido, mas o clima dos sovietes locais era bastante indicativo. No dia 18 de setembro, um congresso de sovietes no centro radical da Sibéria, Krasnoyarsk, mostrou uma maioria bolchevique. No dia seguinte, uma mensagem de Ekaterinburg, a principal cidade dos Urais, anunciou que  o poder passou para as mãos do soviete nessa importante região mineira e industrial. Na grande fábrica Briansk, em Ekatarinoslav, na Ucrânia, os trabalhadores aprovaram uma resolução de que “não reconhecemos o Governo Provisório”. A mesma oscilação de pêndulo para a esquerda era visível nas cidades do Volga, na bacia de Donetz. Já não era mais possível acreditar, como tinha ocorrido no verão, que as províncias mais conservadoras se oporiam a um avanço revolucionário em Petrogrado.

Ainda mais significativo, porque mais próximo do centro nervoso do regime de Kerensky, era a tendência na frota do Báltico e na Finlândia. No dia 23 de setembro, um congresso regional dos sovietes na Finlândia adotou as resoluções bolcheviques por grandes maiorias. Os socialistas revolucionários que tinham sido eleitos no congresso eram quase todos membros da ala esquerda do partido, que crescia agora firmemente e amiúde votava e agia com os bolcheviques.

A frota do Báltico, que sempre havia sido uma pacificadora nas agitações contra o Governo Provisório, tomou uma posição de clara oposição depois do caso Kornilov. Essa atitude em relação ao comandante-em-chefe, Kerensky, foi asperamente expressa em uma resolução publicada no congresso da frota do Báltico, que continha os seguintes dizeres: “Nós exigimos a remoção das fileiras do Governo Provisório do aventureiro político, Kerensky, como pessoa que, por suas trapaças políticas a favor da burguesia, desgraçou a grande revolução e, com ela, todo o povo revolucionário. Para você, traidor da revolução, Bonaparte Kerensky, aí vão nossas maldições”.



(William Henry Chamberlain, The Russian Revolution, Volume One, capítulo XIII)