domingo, 20 de maio de 2018

Dicionário aleatório #12








Karma


Nasci numa família de gente simples, com pouca ou nenhuma formação escolar. Meu avô só aprendeu a ler aos cinquenta anos de idade. Minha avó morreu analfabeta com quase cem anos. Eles tinham um repertório imenso de histórias exemplares para todas as situações da vida cotidiana, acompanhadas de provérbios, que eram a chancela da sabedoria popular construída no eterno embate com os percalços da realidade. Eles ensinavam a resignação: “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”, a prudência: “O que não serve mais se guarda por cem anos”,  um certo ceticismo diante de tudo o que é ruidoso e vistoso demais: “Cão que ladra não morde”, “Nem tudo o que reluz é ouro”. Os provérbios alertavam, sobretudo, para as consequências de nossas as ações: “O que aqui se faz, aqui se paga”, “Tudo o que sobe, tem que descer”, “Quem semeia vento, colhe tempestade”, “Quem tudo quer, tudo perde”, “Deus ajuda quem madruga”, “Quem espera, sempre alcança”.

Como acontece nos contos de fadas, uma regra de equilíbrio, natural ou sobrenatural, distribuiria os prêmios e os castigos conforme os méritos ou culpas de cada um. Embora essa distribuição pudesse levar muito tempo - às vezes uma vida toda -, ela seria certa e infalível. É assim que a gente humilde ensinava o valor de ser honesto, diligente, paciente, parcimonioso e esforçado e reforçava, junto com os liames sociais fundamentais, o seu próprio papel de gente humilde, disposta a trabalhar duro.  No entanto, não acredito que essa crença num sistema de compensações seja apenas um engodo ideológico destinado a manter os pobres na sua posição subalterna. O espiritismo kardecista e o otimismo de auto-ajuda são duas versões da mesma teoria do equilíbrio amplamente disseminadas pela pequena-burguesia middlebrow, assim como os estratos superiores e instruídos acreditam na autorregulação do mercado e os intelectuais de esquerda alimentam expectativas sobre os pontos de ruptura no processo histórico, social e político: “A burguesia produz, sobretudo, seus próprios coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis” (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, fim da seção I).  

A crença num sistema de equilíbrio compensatório que governaria a vida humana, a história e a natureza está demasiado entranhada em cada um de nós e sustenta a nossa vida prática, afetiva e nossas interações sociais. Precisamos da ideia de que nossas ações e decisões são capazes de garantir a continuidade da ordem das coisas ou a sua mudança. É como se, pela crença num mundo que é justo de maneira profunda, pudéssemos superar a opacidade insondável do futuro, garantindo que as recompensas e as punições virão, mais cedo ou mais tarde, em proporção ao que é feito no presente. Junto à porta da cafeteria em que tomo um cappuccino com a Ludmila, uma placa diz “Gentileza gera gentileza”. É reconfortante pensar assim e não é de todo falso. Ações violentas podem, de fato, levar a reações violentas, assim como a polidez, ao invés da rudeza, parece ter mais chance de suscitar reações polidas. Mas isso não é certo nem inevitável. Às vezes a ação violenta é necessária para uma paz duradoura. O trabalho duro e diligente frequentemente não é remunerado, ao passo que a desonestidade foi o caminho para a riqueza de muitas famílias que hoje se dizem horrorizadas com a corrupção moral dos que estão tentando subir pela mesma escada. A autorregulação do mercado com base na ação de agentes responsáveis e racionais parece tão utópica quanto uma sociedade comunista em que cada um contribui responsavelmente de acordo com suas capacidades e recebe de acordo com suas necessidades.  Não há razão para pensar que feridas do espírito se curarão a si mesmas, nem que aquele que salva aparecerá justamente onde cresce o perigo, como Hegel e Hölderlin pensaram. Os crimes nem sempre são acompanhados de castigo, tampouco é certo que as culpas sejam seguidas de remorso; às vezes os filhos não expiam os pecados dos pais. Ao contrário do que creem os economistas, existem, sim, almoço gratuitos (e não estou me referindo ao assistencialismo dirigido aos pobres, mas ao “boca livre” generosamente fornecido aos estratos mais elevados do mundo financeiro e empresarial).

Enfim, o mundo não é justo. Estamos sós e sem Deus. Mas isso nada indica que, num mundo sem Deus, tudo é possível. Na natureza, há uma margem de previsibilidade de acordo com os modelos laboriosamente construídos pela investigação científica. Nas relações humanas, há certos padrões de ação e de resposta que se manifestam no plano psicológico, sociológico, econômico e político. Todavia, esses fragmentos de ordem e de equilíbrio somente puderam ser alcançados por uma profilaxia intelectual, que não nos garante o prêmio da verdade.

A douta ignorância, na qual tanto insisto, está em abandonar o conforto dos contos de fadas, da sabedoria popular, do otimismo de auto-ajuda, da certeza do karma e da mão invisível deste ou daquele deus, quer se chame Providência, a Ordem, o Progresso, o Mercado, a História ou o Horóscopo. Temos que caminhar sobre finas cordas de conjeturas entre imensas áreas de obscuridade, identificando penosamente algumas estruturas de equilíbrio ou alguns eventos randômicos.  

Aqueles que acreditam que o mundo seja fundamentalmente justo, isto é, dotado de algum equilíbrio profundo e intrínseco, não entendem que os processos podem ser e frequentemente são cegos e que as atribuições de responsabilidade ou de causalidade são complexas e difíceis.  Essas pessoas procuram méritos e culpas por toda parte: é preciso que os acontecimentos sejam efeitos de recompensa ou de punição. Para elas, a prosperidade ou a pobreza é resultado de mérito ou de culpa, as crises econômicas ou os problemas são consequências das ações culpadas de alguém, que inevitavelmente terá de pagar pelo que fez. Essa crença no equilíbrio fundamental do mundo é profundamente arraigada nos seres humanos, mas pode assumir formas estúpidas e virulentas em situações de frustração e ressentimento. Muitos passam a acreditar em salvadores que pregam soluções simples, muitos começam a acusar e a perseguir bodes expiatórios. Este é o cenário do Brasil nesses meses que antecedem as eleições presidenciais de 2018. Um cenário em que alguns cães que ladram podem morder ou não.













domingo, 13 de maio de 2018

Dicionário aleatório #11








Ressentimento lowbrow

considerações sobre a ignorância militante e sua versão estúpida


Em junho de 2013, uma romagem dos agravados saiu às ruas e muitos, como eu, deram seu apoio. Durante alguns dias houve manifestações de indignados de toda sorte. O governo federal, tendo à frente Dilma Rousseff, prometeu levar adiante reformas institucionais mal definidas. As passeatas acabaram como começaram. Alguns intelectuais de esquerda tentaram encontrar naqueles protestos os sinais de uma “primavera” brasileira à maneira das ainda tão admiradas e surpreendentes “primaveras árabes” de 2011. Parecia que as maiorias silenciosas tinham decidido sair do seu mutismo e que os piores prognósticos sobre a morte da política na pós-modernidade tinham sido desmentidos escandalosamente pela espontaneidade dos novos agentes: os movimentos urbanos formados pelas redes sociais. Finalmente, do asfalto cinzento, brotaria a flor tão esperada. 

No entanto, o que se viu nos dois anos seguintes foi a irrupção de uma agressiva campanha contra o Partido dos Trabalhadores e contra a presumida difusão das ideias de esquerda por instituições de ensino e entidades ligadas à cultura. Constituiu-se uma frente ampla de pastores evangélicos, economistas neoliberais, entidades ruralistas, comitês empresariais, pensadores conservadores e jornalistas que eram porta-vozes das maiores empresas de comunicação de massa no país. A classe média tradicional deu adesão de primeira hora. Além de ter sido sempre hostil ou desconfiadas dos programas de assistência dirigidos aos grupos mais pobres, ela estava persuadida de que a crise econômica, tida como a pior de toda a história republicana, era o legado maldito da corrupção e do assistencialismo populista que teriam marcado os doze anos do Partido dos Trabalhadores à frente do governo federal. A crise também tornou difícil a vida daqueles que tinham conseguido melhorar de vida durante os governos de Lula e Dilma devido à fácil concessão de crédito. Muitas dessas pessoas, então endividadas e frustradas, logo engrossariam as manifestações ruidosas contra Dilma Rousseff, reeleita no final de 2014.  A vitória de Dilma sobre Aécio Neves parecia apenas mais um lance na tradicional disputa entre o PT e o PSDB, dentro do jogo político que se firmara desde meados da década de 1990. No entanto, assim como as manifestações de 2013, a polarização da campanha de 2014 foi mais um passo na desestruturação da vida política nacional.

Bater panelas em protesto contra as aparições de Dilma na televisão, usar a camisa amarela da seleção brasileira, tirar fotografias junto a policiais, marchar atrás do Pato Amarelo da Federação das Indústrias de São Paulo, malhar o boneco Pixuleco, que representava o Presidente Lula em roupas de presidiário, chamar os petistas de “petralhas” e de “mortadelas”, tudo isso foi marca do ano de 2015 e do começo de 2016. 

O afastamento de Dilma Rousseff e o avanço da Operação Lava Jato, iniciada em 2014, permitiu que muitos acreditassem que o Brasil tomaria afinal o "rumo certo" para o crescimento econômico e a prosperidade: adoção de políticas econômicas de austeridade fiscal, corte dos programas assistencialistas, redução do aparelho do Estado, a punição garantida à corrupção política em todas as esferas. 

À medida que muitas desses anseios foram espezinhados pelo governo de Michel Temer, a tônica da insatisfação se deslocou. Os pitorescos “coxinhas”, antes tão desinibidos, ficaram acabrunhados diante das evidentes e ostensivas provas de corrupção de seu candidato, assim como dos compromissos pessoais e políticos do presidente Michel Temer com as piores práticas de fisiologismo político.  Chegara ao fim as esperanças suscitadas pela Fronda do Coxinhas com o seu cortejo de apoiadores e comentaristas middlebrow. O que se viu a seguir foi a maré montante dos que têm saudades do Antigo Testamento, dos que querem a paz das senzalas, dos que têm fé no poder persuasivo do alicate, dos que amam o cheiro de coturno. Aqueles que se dizem fartos das "vítimas" disso ou daquilo. Aqueles que têm aversão aos “esquerdopatas” e aos "comunas": termos genéricos que se aplicam não apenas aos marxistas, mas também aos social-democratas, aos liberais moderados, aos que discutem questões de “gênero”, aos que conhecem a história do Brasil, aos ateus e agnósticos, aos herdeiros da Aufklärung, aos que conseguem usar corretamente as conjunções e sabem o que significa a palavra “mýthos”. 

Diante do avanço do ressentimento lowbrow entre as massas é forte a tentação da demofobia. Será possível manter a confiança na democracia sem abandonar o realismo político?







sábado, 5 de maio de 2018

Marx: 200 anos







M A R X 

200 anos


Quando tiver sido eliminada a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, a oposição entre trabalho intelectual e manual; quando o trabalho tiver deixado de ser mero meio de vida e tiver se tornado a primeira necessidade vital; quando, justamente com o desenvolvimento multifacetado dos indivíduos, suas forças produtivas também tiverem crescido e todas as fontes da riqueza coletiva jorrarem em abundância, apenas então o estreito horizonte jurídico burguês poderá ser plenamente superado e a sociedade poderá escrever em sua bandeira: 
“De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”.


[Crítica do Programa de Gotha]







Ein Marxist hat nicht das Recht, Pessimist zu sein






Из искры возгорится пламя








quarta-feira, 2 de maio de 2018

Dicionário aleatório #10









Estupidez


Um ladrão norte-americano, ao saber que suco de limão é usado como tinta invisível, passou limonada no rosto para não ser visto pelas câmeras de segurança do banco que ele foi assaltar. Um jovem perguntou ao seu professor de História se Getúlio Vargas tinha cometido suicídio no seu primeiro ou no seu segundo governo. Um grupo de pessoas investiu o dinheiro ganho com muito esforço numa pirâmide financeira que, para surpresa e prejuízo dos participantes, acabou desabando. Outro grupo ainda maior apoia entusiasticamente um candidato que chamam de "mito" justamente por acreditarem na sua verdade e autenticidade, ignorando o  que significa o epíteto que consideram tão elogioso. Uma multidão anuncia que dará seu voto a vários candidatos acusados de corrupção, alegando que "eles roubam, mas fazem".

A estupidez não é apanágio dos ignorantes nem dos que têm Q.I. abaixo da média. Ela se manifesta em todos os escalões da sociedade, em todas as profissões, não importa o sexo, a religião, a etnia, a faixa etária, a classe social ou o nível educacional. 

Quando falamos de estupidez pensamos em situações em que alguém faz declarações dogmáticas que violam a lógica elementar e o conhecimento básico do mundo.  Também nos referimos como estúpidas àquelas pessoas que tentam fazer algo que está obviamente além das suas capacidades físicas ou intelectuais (tentar derrubar um muro com uma cabeçada; fazer investimento contando que flutuações do mercado possam ser previstas)  Ou àquelas  distraídas para além do razoável (sair para viajar deixando o peru para assar no forno). E ainda às que não conseguem controlar seus impulsos (achar engraçado fazer piadas sexistas ou racistas num ambiente diversificado do ponto de vista sexual e racial).

Por que existe estupidez e por que ela é tão generalizada?

A razão disso está nas limitações intrínsecas de nosso conhecimento e da nossa racionalidade. O mundo à nossa volta é extremamente complexo e diversificado. Por um lado, jamais temos todas as informações de que precisamos entendê-lo e tomar assim as decisões corretas. Por outro lado, as informações a que temos acesso são tão numerosas que excedem a nossa capacidade de processamento e análise. Daí a necessidade de atalhos e esquemas simplificados que nos permitam selecionar rapidamente as informações mais relevantes e organizá-las de maneira que façam sentido e sirvam de base para conclusões e decisões. Ocorre que esses atalhos e esquemas, embora sejam úteis em muitas circunstâncias práticas, não podem ser universalizados nem aplicados para decisões de grande alcance porque estão eivados de falácias e de interpretações viciadas. Há muitas formas de cognição enviesada, como achar que se uma ação foi bem sucedida no passado, ela será necessariamente bem sucedida no futuro; julgar que todas as pessoas de um certo grupo étnico sempre agem de certa maneira; acreditar que meu ponto de vista é privilegiado e que, portanto, não estou sujeito aos mesmos erros que os outros, etc. (a Wikipédia faz uma lista de vieses cognitivos bastante longa).

Assim como não podemos nos livrar de certas ilusões perceptivas (os objetos que estão distantes sempre vão parecer pequenos, um lápis imerso na água sempre vai parecer quebrado), não é possível nos livrarmos dos vieses cognitivos, mas podemos acrescentar um sistema de contrapesos, de maneira a mantê-los sob controle a cada momento. Na vida cotidiana, isso é feito pela profilaxia cética. Na pesquisa de alto nível, isso é feito pelo método científico, que nada mais é do que a profilaxia cética elevada ao seu mais alto grau.

O problema da estupidez consiste em ignorar as profilaxias ou considerá-las desnecessárias. O estúpido confia muito em si mesmo. As pessoas estúpidas acham fácil fazer previsões porque acreditam numa espécie de eterno presente em que tudo se mantém mais ou menos dentro das expectativas usuais (o mundo dos estúpidos é a-histórico: no romance 1984, tudo o que os mais velhos se lembram é de que no passado as pessoas usavam chapéus). Mas, de uma maneira tipicamente estúpida, as pessoas estúpidas também contam com a sorte ou o favorecimento divino. Elas esperam que eventos futuros venham a favorecê-las, mesmo que esses eventos sejam altamente improváveis ou até impossíveis. Assim é que uma pessoa estúpida investe dinheiro num esquema escuso com a esperança de ficar rica e, contando com o dinheiro que acreditar que vai ganhar, faz muitas dívidas e depois começa a rezar para que apareça uma solução milagrosa que o salve da insolvência. “Contar com o ovo na barriga da galinha” e acreditar que “para Deus tudo é possível” estão entre os vários vieses cognitivos comuns nas declarações e comportamentos estúpidos, que supõem um mundo mais ordenado e regulado e, ao mesmo tempo, mais arbitrário e aberto do que aquele que as pessoas inteligentes veem, quando avaliam racionalmente as situações segundo a profilaxia cética ou o método científico.

As pessoas inteligentes tendem a olhar a estupidez primeiro com espanto. Diferentemente da racionalidade, que segue uma trilha bastante rígida do ponto de vista lógico e epistemológico, a estupidez é sempre surpreendente. Sem nenhuma rédea lógica e sem nenhum compromisso com a verdade, a estupidez pode seguir qualquer caminho e aparecer nos lugares mais inesperados. Todavia, passada a surpresa, as pessoas inteligentes se limitam a desdenhar e fazer piada a respeito das declarações e incidentes estúpidos, sem reconhecer que devido à sua própria arbitrariedade, a estupidez pode ser muito perigosa. Um estúpido é capaz de causar mal para si mesmo e para as pessoas à sua volta (é claramente o caso das famílias das pessoas que investem dinheiro em pirâmides financeiras). Pior do que isso, num país em crise, muitos estúpidos juntos podem eleger alguns estúpidos aos cargos mais elevados. 




Balazs Aczel, Bence Palfi, Zoltan Kekecs. "What is stupid?: People's conception of unintelligent behavior." Intelligence, Volume 53, November–December 2015 | Heather A. Butler, “Why Do Smart People Do Foolish Things?”, Scientific American, October 2017 | Carlo M. Cipolla, Las leyes fundamentales de la estupidez humana, Crítica, Barcelona, 2013 | Justin Kruger and David Dunning, “Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One's Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments”, Journal of Personality and Social Psychology, 1999, Vol. 77, No. 6. | Amos Tversky and Daniel Kahneman, “Judgment under Uncertainty: Heuristics and Biases”, Science, New Series, Vol. 185, No. 4157. (Sep. 27, 1974) | Daniel Kahneman, Rápido e Devagar: duas formas de pensar, Editora Objetiva, São Paulo, 2012 | David McRaney, Você não é tão esperto quanto pensa, LeYa, São Paulo, 2013 | Robert Musil, O Homem sem Qualidades, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1989 | Herbert A. Simon, Models of Man: Social and Rational, John Wiley and Sons, Inc., New York, 1957









quarta-feira, 25 de abril de 2018

Dicionário aleatório #9







Verdade e Sentido


Até aqui tenho escrito sobre as pretensões de conhecimento e a profilaxia necessária para evitar a bobagem desbragada. Indiquei que a preguiça (associada à pressa e à economia de esforço) e o orgulho (associado à autossuficiência e à certeza dogmática) levam à diversas formas de ignorância, que consistem grosso modo em tomar como verdadeiro o que é falso, em julgar indubitáveis as declarações mais duvidosas e incertas.

Há, porém, um campo de atividade e pensamento em que a questão da verdade e da certeza não se coloca. Diferentemente das teorias científicas ou das opiniões, as obras de arte não são verdadeiras ou falsas. Um poema, uma sinfonia ou uma pintura não podem ser refutadas por argumentos céticos. As alegações de verdade e de fidelidade à realidade feitas pelos artistas não podem ser tomadas pelo seu valor de face; elas devem antes ser subsumidas às estruturas de produção de sentido inerentes à atividade artística, como os procedimentos estilísticos. A mímese artística do real é  diferente da objetividade da teoria, pois não diz respeito à verdade, mas ao sentido.

O sentido, isto é, o feixe de significações, não é algo preexistente que se descobre por investigação. É algo que se constrói segundo regras de convenção ou definidas pelo arbítrio do artista. Descobrir a verdade é o objetivo do conhecimento. Elucidar o sentido é o objetivo da interpretação. O campo do sentido e da interpretação é imenso. Vai além das artes, abrange toda a esfera ritual e religiosa, o âmbito antropológico da cultura e, a meu ver, alcança toda a atividade especulativa dos filósofos. 

O que proponho é que o campo da produção de sentido produz as suas próprias formas de bobagem e de ignorância. Parece-me que isso pode acontecer de duas maneiras. A primeira consiste em confundir sentido e verdade, atribuindo valor de verdade ao que é simplesmente uma interpretação interessante, sutil ou sedutora. A segunda consiste na interpretação que falha por carência de entendimento ou por falta de respeito aos limites da boa interpretação.














quarta-feira, 18 de abril de 2018

Dicionário aleatório #8









Máquina do mundo

Se os deuses me oferecessem contemplar a máquina do mundo, eu daria uma gargalhada homérica. Desconfio dos deuses, tanto quanto dos gregos, quando aparecem com presentes e sempre me pareceu que os avistamentos da máquina do mundo não diferem muito das alucinações do presidente Schreber. Ao invés de uma realidade toda movida a partir do seu cerne, ao invés de um motor primeiro universal, ao invés de uma totalidade que emerge pronta a partir do Absoluto, eu me contento com o conhecimento possível, parco e precário como uma trilha de migalhas na mata.

Somente os metafísicos mais ousados arriscam que o mundo seja uma máquina bem azeitada e a realidade, a solução última do puzzle. Admiro muito a ousadia dos metafísicos, mas tenho para mim que o mundo e o real são a confusão, o misto, o tudo ao mesmo tempo, sem diagrama nem centro reconhecível, bruto e vário, emaranhado e cheio de pontas. O que resiste ao nosso esforço de investigação. O que nos pega de surpresa, refuta nossas hipóteses e desengana nossas ilusões. A falha que ultrapassa a margem de erro prevista. 

Incertos quanto à essência, à origem e ao destino dos seres, podemos apenas circum-navegar as coisas, alterando os pontos de vista, fazendo medições por paralaxe, corrigindo as estimativas prévias. O método de conhecimento consiste na multiplicação de perspectivas, com alguma esperança de que a rotação em torno do objeto venha a ser aproximação assintótica. 

As tarefas do pensamento são bem modestas: traçar mapas, estabelecer relações, enumerar impasses, medir graus de relevância, classificar os objetos em famílias, formular tábuas de categorias. No entanto, esse percurso é guiado por uma imensa ambição de totalização que deve permanecer como ponto de fuga no horizonte. 

Dado que não podemos desvendar a mola íntima da máquina do mundo, tampouco mostrá-la em sua inteireza de coisa-em-si, temos que humildemente reconhecer que o pensamento não se apoia somente na potência da dedução rigorosa. É que, destituídos de certezas, os objetos nos aparecem inseparáveis da força do verbo que os decifraDevido à condição frágil e humana do nosso conhecimento, a investigação rigorosa não pode prescindir da exposição persuasiva.  A lógica não nos basta e carecemos de poesia e retórica. Como sabem os apaixonados, o amor ganha a forma das palavras que tentam defini-lo, enquanto a coisa-em-si se agita, inominável e imprevisível. Com as palavras dos filósofos não é diferente.
















quarta-feira, 11 de abril de 2018

Dicionário aleatório #7








Futuro

Lidamos bem com o que desconhecemos de nosso passado. Quase preferimos esquecer o que sabemos dele. Cheios de alegria negligente e alívio, deixamos que partes cada vez maiores do que foi tombem no olvido. A memória é cansativa. Exige determinação férrea, documentos, arquivos e frequentação do passado. Tal teimosia só se mantém pelo mais profundo ressentimento e melancolia. Menos custoso é apegar-se à leve espuma que ficou dos dias pretéritos: uma tarde bonita, um passeio, um brinquedo, um dar-se as mãos. Uma ignorância suave e benévola. O opiáceo da alma.

Lidamos bem com o nosso desconhecimento de tudo o que nos cerca no presente. Quem poderia, afinal, dar conta do mundo? Por que deveríamos ser oniscientes? O presente não exige mais do que estarmos aqui e acolá, lançados ao mundo.  No presente, basta que cuidemos de nosso jardim e que nos seja permitido dar uma espiadela ocasional no jardim alheio. Inveja e desprezo são pecadilhos perdoáveis e querer um pouco de conforto e diversão não é pedir demais. 

O futuro, porém, é a nossa ignorância mais dolorosa. Estamos condenados ao desconhecimento das condições do amanhã e das consequências vindouras de nossas ações. O futuro é um caos de possibilidades, ao qual procuramos dar forma pelo esforço presente de transformar o mundo numa certa direção. Todavia, o engajamento – por mais que se queira iluminado pelo conhecimento das condições presentes ou pela memória rigorosa das condições passadas - nunca é independente das nossas expectativas, nutridas pelo medo ou pela esperança. Para esconjurar a obscuridade do futuro, carregada do fardo de nossos temores e aspirações, a imaginação invoca as rezas, os palpites, as conjeturas, as hipóteses, as profecias, as previsões do tempo, os pareceres dos experts, os modelos matemáticos, as teorias sobre o sentido da História: toda a gama de racionalizações do que não poder ser legitimamente conhecido. 

Todas essas ciências ignorantes são mais atraentes do que a ignorância douta. É que a ignorância com foro de saber é altiva, loquaz e se presta ao comércio de opiniões, que é uma das delícias da vida social, ao passo que a douta ignorância padece de laconismo e de incerteza. Para escapar à tolice e à impostura congeniais às ciências ignorantes, seria preciso aderir a uma profilaxia muito mais profunda e muito mais enérgica do que as providências simples para não dizer bobagem. Seria preciso ir mais longe e extirpar o medo e a esperança. Seria preciso levar a sério Sêneca e Spinoza. Mas quem quer levantar a cabeça do travesseiro?